O Encontro Nacional pelo olhar de uma liderança sindical do Polo da Borborema

Leia Cinco dias após o fim do 3º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores, que entrou para a história da ASA pela qualidade da participação e envolvimento dos agricultores e agricultoras, a Asacom entrevistou uma das lideranças sindicais do território da Borborema, na Paraíba, onde vivem 19 mil famílias agricultoras.

Maria Leônia Soares da Silva, conhecida como Léia, entrou para o movimento sindical quando tinha 17 anos. Desde 2010, é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Massaranduba, do qual foi secretária durante dez anos. Massaranduba é um dos 14 municípios que fazem parte do território.

Agricultora desde que “nasceu os primeiros dentes”, como ela mesma afirma, e integrante da ASA Paraíba e da comissão de Saúde do Polo da Borborema, Léia fala sobre o Encontro Nacional, que aconteceu entre os dias 28 e 31 de outubro, em Campina Grande, e também sobre a organização e o trabalho realizado pelo Polo para a promoção da agricultura familiar agroecológica. Confira a entrevista.

Asacom – Qual a sua avaliação do encontro na perspectiva do fortalecimento das redes de agricultores/as experimentadores/as?

Léia – Foi um encontro bastante rico. Pensar num encontro como este é pensar numa diversidade de experiência e perceber a capacidade que os agricultores/as têm para conviver com o Semiárido, através da construção de várias estratégias e inovações nesta região semiárida.

A gente sabe que a percepção que as políticas públicas têm desta região é de uma região que não tem vida, de miséria, de fome e, aí, neste encontro, a gente percebeu que os agricultores e agricultoras experimentadores têm mostrado que o Semiárido é um lugar digno de se viver, tem alimentação, tem sua cultura. As próprias experiências visitadas mostram muito claro isso.

A gente percebe um elo muito forte entre os agricultores que vieram de todos os estados do Semiárido e acho que o encontro cumpre o papel de fortalecer as redes de agricultores/as.

Como essas redes se articulam na Paraíba e quais são os atores que as compõem?

Léia – Na Paraíba, há vários territórios rurais importantes, onde têm-se articulado várias organizações de agricultores com o papel de dar visibilidade às experiências dos agricultores e agricultoras para o desenvolvimento rural. Mas não é só isso.

As redes também têm construído políticas públicas para fortalecer a agricultura familiar, que sempre foi negada pelo próprio estado. Por um lado, a gente percebe um forte investimento por parte do governo para o agronegócio e, para a agricultura familiar, é investido o mínimo.

Nas próprias redes, as políticas públicas têm sido bastante refletidas no sentido de valorizar aquilo que as famílias têm feito há séculos.

Como você percebe o papel dos sindicatos na promoção de redes como estas?

Léia – Falando um pouco do meu território, que é o território da Borborema, acho que a expressão do movimento sindical tem sido bastante importante para articular essa grande rede de agricultores e agricultoras a partir dos vários temas mobilizadores. Os temas são articulados e mobilizados pelos agricultores/as, mas também pelas lideranças sindicais que tem esse papel de valorizar, de articular, de mobilizar estas experiências.

E quais são os temas?

Léia – Os temas são Recursos Hídricos que é um tema bastante forte e mobilizador na Paraíba, aqui no território; o tema de Saúde e Alimentação que tem mobilizado todas as experiências de mulheres agricultoras; o tema das próprias Sementes que é um tema bastante importante para o trabalho, para o resgate e para a conservação das sementes dos agricultores; o tema de Arborização que tem transformado completamente esse ambiente tanto do ponto de vista da preservação das matas nativas, mas também de inovações do plantio de árvores que se adaptaram muito bem aqui na região; aí vem o tema da Juventude que tem articulado os jovens agricultores; o tema da Criação Animal que tem articulado uma rede de agricultores e agricultoras que tem inúmeras experiências do ponto de vista da alimentação animal.

Para cada tema, existe uma comissão. E o que essas comissões fazem?

Léia – São comissões regionais que mobilizam os 14 municípios do Polo. Participam destas comissões agricultores e agricultoras, lideranças sindicais e assessoria [técnica]. E essa comissão tem tido um papel importante de articular as ações voltadas para aquele tema, mas também mobilizar, planejar, avaliar. É uma instância de reflexão das próprias ações e também das políticas públicas. Como é que as coisas, a partir dessas comissões, podem ser construídas dentro dos próprios municípios?

Como essa rede tem resistido às investidas do agronegócio e como ela pode ser ampliada cada vez mais?

Léia – Na verdade, são duas perguntas importantes, né? Essas comissões estão dentro de um território em disputa também. Por um lado, temos as experiências dos agricultores que estão na transição agroecológica, que tem um potencial importante para o desenvolvimento da agricultura familiar.

Mas, por outro lado, temos uma agricultura que investe no veneno, olhando para a região das frutas. Outra ameaça que a gente vem sentindo é o próprio desaparecimento das galinhas [de capoeira]. Há um tempo a gente sentiu muito mais forte a questão da fumicultura, a cultura do fumo, nos municípios que estão na articulação do Polo, no caso de Montadas, Solânea, Areial. Tem agricultores ainda que insistem em plantar o fumo. Em 2010, vivenciamos aqui na região do brejo um investimento por parte do Estado no uso do veneno da Bayer para a mosca negra no plantio da laranja.

A gente percebe que, aqui no território do Polo da Borborema, há uma expressão muito forte da agricultura familiar. Cerca de 19 mil famílias têm trabalhado a agricultura a partir dos vários ambientes deste território, regiões mais secas, regiões mais úmidas, regiões onde a questão do roçado do feijão e da fava é muito forte, mas temos aí uma luta de enfrentamento ao agronegócio também.

As próprias comissões, mas não só as comissões, a coordenação ampliada do Polo, que é articulada por representantes dos vários municípios, têm tido esse papel de enfrentar realmente essa luta contra o agronegócio. Fizemos um seminário para trazer um debate à questão do fumo, sobre o uso do veneno na mosca negra, tivemos vários momentos municipais e um seminário regional.

A gente precisa reafirmar o papel da agroecologia na promoção da vida, na preservação da semente e no fortalecimento da agricultura familiar aqui no território.

Como a rede de agricultores do Polo pode ser ampliada?

Léia – Nós temos aqui um movimento sindical bastante importante. E a gente sabe a história do movimento sindical, de concentração de poder, da própria inversão do papel do sindicato. A quem está a serviço o sindicato? É a serviço de uma diretoria ou a serviço da promoção da agricultura familiar no seu município?

Então, esses sindicatos daqui do território têm tido este papel de articular as experiências para que sejam ampliadas no município, na comunidade, a partir dos boletins, das mobilizações, das reuniões comunitárias.

E essas experiências têm sido multiplicadas através dos próprios intercâmbios. A troca de conhecimentos, os agricultores saem do seu isolamento, da sua propriedade, e vão conhecer outros agricultores que estão em transição agroecológica, tem sido um processo de formação muito importante.

Há 10 anos, em 2003, a Paraíba sediou o 4º Encontro Nacional da ASA que teve, pela primeira vez, a participação das famílias agricultoras. Essa abertura foi um grande marco para a intervenção da articulação. Após uma década, como você percebe o impacto da ação da ASA no território da Borborema?

Léia – Nós também temos um histórico de desvalorização do conhecimento dos agricultores e já vivenciamos isso de forma muito forte através de algumas assistências técnicas que vieram para o território, a própria assistência técnica da Emater, que durante muito tempo desvalorizou e não reconhecia o conhecimento dos agricultores/as. E aí quando uma grande articulação, como é a ASA, que tem construído políticas públicas para a região do Semiárido, coloca na sua pauta trazer esse conhecimento dos agricultores e agricultoras num espaço público, que é o EnconASA, isso é muito importante.

Nós tínhamos uma dificuldade muito grande, os agricultores e agricultoras não valorizavam os seus conhecimentos. Acho que foi muito um evento muito importante por trazer na sua pauta o papel dos agricultores e agricultoras no fortalecimento desta grande rede.

E o que você prevê para os próximos 10 anos no cenário da agricultura familiar?

Léia A gente tem muito o que avançar. A gente vive numa região bastante rica. Esse encontro [Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores] trouxe isso. Mas acho que é preciso continuar investindo no fortalecimento da rede de agricultores/as, e também potencializar a capacidade das próprias assessorias [técnicas]. A gente sabe que a universidade tem sido um instrumento muito fechado, que não valoriza este conhecimento. É preciso repensar o papel da educação para termos um processo de formação das próprias assessorias que reconheçam essa capacidade dos agricultores. Nós temos aí vários investimentos por parte do governo nas assistências técnicas. Mas qual tem sido os frutos destas assistências técnicas? Qual tem sido a capacidade desses técnicos de refletir junto aos agricultores e agricultoras no sentido de potencializar e construir o desenvolvimento rural numa região Semiárida? Na verdade, quem faz a agricultura são os agricultores e agricultoras, não são os técnicos. Há muito o que avançar neste sentido.

Fonte: www.asabrasil.org.br
Verônica Pragana – Asacom
06/11/2013

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