dezembro 2015 – AS-PTA http://aspta.org.br Fri, 05 Feb 2021 13:07:05 +0000 pt-BR hourly 1 Juventude Camponesa do Polo da Borborema realiza oficina de sistematização http://aspta.org.br/2015/12/16/juventude-camponesa-do-polo-da-borborema-realiza-oficina-de-sistematizacao/ http://aspta.org.br/2015/12/16/juventude-camponesa-do-polo-da-borborema-realiza-oficina-de-sistematizacao/#respond Wed, 16 Dec 2015 14:33:23 +0000 http://aspta.org.br/?p=13115 Leia mais]]> DSC07170Entre os dias 10 e 12 de dezembro, mais de 20 pessoas entre jovens lideranças, coordenação do Polo da Borborema e assessores técnicos da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia estiveram reunidos no Centro Marista de Eventos, em Lagoa Seca-PB, na construção de mais um passo do Diagnóstico da Juventude Rural.

Nesse encontro, os jovens puderam revisitar as principais hipóteses do estudo construídas coletivamente no encontro anterior para a realização de entrevistas e sistematizações nas comunidades. As hipóteses sobre a razão pela qual os jovens fazem a opção por ficar ou sair da agricultura foram reorganizadas em 6 dimensões: Terra; Participação; Educação; Cultura; Políticas Públicas e Violência no Campo. Em cada dimensão, pode-se debater e aprofundar como cada um dos aspectos interferia na vida particular de cada jovem, quais eram as diferenças para a vida de meninos e meninas, como se manifestavam na família, na comunidade e no território onde estão inseridos.

DSC07132Após atualização da problemática da juventude do campo, o grupo construiu um roteiro de observação para realização de 6 entrevistas, em 6 municípios da região: Queimadas, Massaranduba, Areial, Esperança, Remígio e Lagoa Seca

No sábado, dia 12, pela manhã, os grupos socializaram as histórias visitadas e refletiram sobre os ensinamentos e desafios para o fortalecimento do trabalho com a juventude na Borborema. Ficou demonstrado que a questão da água e, sobretudo, da terra é estruturante para a região. Não há como tratar de continuidade dos jovens na agricultura, sem repensar a estrutura agrária da Borborema. Outro fator limitante eu apareceu foi a educação formal, em vários aspectos: professores no campo que não compreendem o modo de vida no meio rural; o material didático que desqualifica esse espaço e modo de vida; o fechamento das escolas do campo e as inúmeras violências que esses jovens passam ao chegarem na cidade, ainda muito jovens: preconceito de origem, linguístico, racial, étnico, gênero, etc. A forma como são tratados nesse momento da vida interfere na formação pessoal, na continuidade dos estudos e/ou na permanência na agricultura. Nesse processo, a família joga papel central na afirmação ou não da agricultura como um modo de vida digno para seus filhos.

DSC07174De outra forma, o movimento que está sendo construído na região vem ajudando muitos jovens a superarem seus preconceitos e reconstruírem seus projetos de vida: as oportunidades de participação e de adquirirem novos conhecimentos; os espaços abertos nos sindicatos rurais; as campanhas de fortalecimento da vida na agricultura familiar, vêm revelando as múltiplas aptidões dos jovens, promovendo geração de renda e autonomia, e com certeza, vem construindo um caminho positivo de afirmação da identidade dessa juventude camponesa, que agora passa a levar, com mais consciência o sítio para cidade.

Há muitos desafios ainda, ora no campo pessoal, ora na educação formal, ora na cultura que ainda prende esses jovens e, sobretudo, as jovens em seus papéis socialmente construídos. Mas saber ler essas dificuldades para superá-las é o grande desafio desse projeto. Já está marcada para março, nova rodada de estudos. Serão realizadas novas entrevistas, novas reflexões. O diagnóstico sobre a Juventude Rural da Borborema conta com o apoio da entidade de cooperação internacional suíça Terra dos Homens.

Conheça a jovem Cilene:

Em poesia, a jovem Sabrina, de Massaranduba pode sintetizar os casos estudados. Confira:

DSC07198“JOVENS NA CONSTRUÇÃO DO FUTURO”

E hoje é mais um dia de sistematização,
dia de alegria e de animação,
tudo começou animado
levando o senhor então…

Cada um ontem foi um jovem visitar,
voltou trazendo consigo a vontade de plantar
se emocionaram com jovens que
uma história linda tem a compartilhar.

Marcela me emocionou
vem lá do sitio covão,
trazendo consigo uma história linda de amor e dedicação.
Me identifiquei muito com ela
na história, no jeito de ser,
no seu orgulho de ser
que é no seu jeito de viver.

E muito difícil eu sei,
tem que ter muita determinação
lutar contra o preconceito
ter fé na religião
andar com a cabeça erguida
pedir ao santo proteção.

A gente às vezes não entende a discriminação
quando vai para cidade
acha tudo tão grandão
um mundo novo, mas o preconceito desmotiva então .

Delfino lá de Esperança
outro jovem dedicado
cria abelha, cria ovelha,
muito bem apresentado.
Sua vida na agricultura, muito bem organizou
tem a DAP, vai pra feira, tem o biodigestor.

Já Geane, de Remígio,
uma jovem dedicada
que trabalha, que estuda,
uma jovem assentada.
Muito guerreira, a sua própria timidez venceu
derrubou as barreiras que a vida lhe deu.
Os pais tem isso de não deixar seus filhos participarem
com medo deles voar e nunca mais voltar.

Outro jovem dedicado é Ademir
Garçom irmão de Erivan
que trabalha com amor,
jovem agricultor.

Ademir apaixonado por criação
cuida dos animais com todo coração.
Eles vivem em paz, na felicidade trabalhando
e trabalhando com responsabilidade
sabem a ligação do campo e da cidade.

Cilene de Massaranduba,
outro sonho agricultor de produzir,
cuidar da terra com amor,
trabalha pra viver por amar pra sobreviver.

Uma coisa forte na sua vida é a produção
de quando a seca apertar ainda ter milho e feijão.
Jovem dedicada gosta da sua criação
e ama a produção de jaca acerola e mamão.

Matheus de Queimadas gosta de criação
pois se identifica, ama também os animais de coração.
É um jovem que despertou na vida a paixão da agricultura
e de gostar e valorizar a sua cultura…

A parceria com o pai, essa linda união
o fundo rotativo, a vida em geração de amar
e cuidar do seu pedaço de chão.
Diversas raças, diversas cores, uma paixão um amor…

Preconceitos todos sofrem de ser quem é ou pela sua cor
matuto, sou e somos com orgulho e com amor.
Eu também sou jovem,
em cada história procuro um pouco de mim
os sonhos, a vida, o sorriso, o jasmim.

Por políticas públicas os jovens lutam
com determinação, com a camisa vermelha e a voz da união.
Todos jovens tem um sonho da igualdade
de viver em paz, campo jovem e cidade.

#SabrinaMaria

 

]]>
http://aspta.org.br/2015/12/16/juventude-camponesa-do-polo-da-borborema-realiza-oficina-de-sistematizacao/feed/ 0
Programa Cisternas pode sofrer mais cortes em 2016, nesta quarta-feira (16). http://aspta.org.br/2015/12/16/programa-cisternas-pode-sofrer-mais-cortes-em-2016-nesta-quarta-feira-16/ http://aspta.org.br/2015/12/16/programa-cisternas-pode-sofrer-mais-cortes-em-2016-nesta-quarta-feira-16/#respond Wed, 16 Dec 2015 13:40:31 +0000 http://aspta.org.br/?p=13109 Leia mais]]> Programa Cisternas está entre as Políticas Públicas que ajudaram a tirar o Brasil do Mapa da Fome | Foto: arquivo ASACom
Programa Cisternas está entre as Políticas Públicas que ajudaram a tirar o Brasil do Mapa da Fome | Foto: arquivo ASACom

Expectativa para 2016 é de continuidade da seca prolongada no Semiárido. Ações de convivência com a região – como a implementação de cisternas – têm sido fundamentais para enfrentar a estiagem.

Diversos programas sociais que ajudaram o País a superar a miséria e sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) e que transformaram a vida de milhares de famílias no Semiárido brasileiro podem sofrer cortes severos em 2016. Está em debate na Comissão Mista de Orçamento uma proposta de corte de R$ 10 bilhões no programa Bolsa Família, R$ 132 milhões no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e R$ 70 milhões no Programa Cisternas. A votação ocorrerá nesta quarta-feira (16).

Esses programas já sofreram cortes em 2015 em virtude do ajuste fiscal. No caso do programa Cisternas, em contratos com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) este ano pouco mais de 2.400 tecnologias de água para consumo humano e produção de alimentos foram construídas. Esse número é bem inferior aos mais de 80 mil em 2014 e 90 mil em 2013. Para 2016, se a proposta de corte for aprovada, o orçamento do Programa Cisternas cairá de R$ 210 milhões para R$ 140 milhões o que, na prática, significaria uma redução drástica nas atividades e processos de implementações de cisternas diante da necessidade.

O Semiárido atravessa uma das mais severas e duradouras secas dos últimos tempos. Mortes, êxodo, saques, filas intermináveis de pessoas para receber uma lata d’água, ficaram na história como uma marca desumana das políticas. A virada desta realidade se deu graças ao protagonismo do povo do Semiárido, aliado a essas políticas públicas adequadas. Portanto, reduzir esses programas sociais é cometer um dos maiores retrocessos na história do País e do Semiárido brasileiro.

Confira abaixo a nota que a ASA enviou aos parlamentares da Comissão Mista de Orçamento sobre o corte nos programas sociais:

O PROGRAMA CISTERNAS CORRE PERIGO

A Comissão Mista de Orçamento, através do seu relator, o deputado Ricardo Barros (PP/PR), está operando vários cortes orçamentários que vão inviabilizar programas sociais significativos.

Além de uma proposta de corte no Bolsa Família de 10 bilhões para 2016, há um corte de 132 milhões no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e de cerca de 70 milhões no Programa Cisternas.

O significado efetivo de todos esses cortes não é viabilizar o país e sim colocar os mais pobres para pagar a conta do ajuste fiscal e de outras questões. Isso é injusto.

Especialmente sobre o Programa cisternas, significa que num momento em que a seca se torna presente e com mais intensidade, cortam-se, a nível federal, os recursos que garantiriam à população mais pobre o acesso à agua potável de qualidade e acesso à agua para produzir alimentos. Em outras palavras: os pobres são mais uma vez condenados à fome e à sede porque o Congresso assim o decide.

Caro (a) Deputado (a) integrante da Comissão Mista de Orçamento

Sabemos da sua sensibilidade social e política. Sabemos que Vossa Excelência não quer difundir a sede e a fome.

O Programa Cisternas precisa de sua ajuda. Contamos com o seu compromisso para impedir que esse retrocesso aconteça.

Vote contra os cortes do Programa Cisternas, do PAA e do Bolsa Família.

ASA – Articulação Semiárido Brasileiro.

]]>
http://aspta.org.br/2015/12/16/programa-cisternas-pode-sofrer-mais-cortes-em-2016-nesta-quarta-feira-16/feed/ 0
Agroecologia: os desafios econômicos, sociais e ambientais da agricultura familiar http://aspta.org.br/2015/12/14/agroecologia-os-desafios-economicos-sociais-e-ambientais-da-agricultura-familiar/ http://aspta.org.br/2015/12/14/agroecologia-os-desafios-economicos-sociais-e-ambientais-da-agricultura-familiar/#respond Mon, 14 Dec 2015 17:54:13 +0000 http://aspta.org.br/?p=13096 caceresA agricultura familiar produz a maior parte da comida dos brasileiros e envolve mais de 12 milhões de pessoas, tudo isso preservando o meio ambiente.

Cáceres (MT) – A pesquisa Promovendo Agroecologia em Rede, que a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) está realizando no país, envolvendo sete regiões brasileiras, com o apoio da Fundação Banco do Brasil e do BNDES na realidade traça um retrato da agricultura familiar no momento histórico. Sem contar as diferenças de ambientes, no caso em questão, Cerrado, Pantanal e região pré-amazônica, o histórico pela conquista da terra e o nível de organização das populações tradicionais, assentados, indígenas e quilombolas, e outros grupos do campo. Cáceres sempre foi o caminho para Rondônia, onde levas de migrantes oriundos do sudeste e do nordeste brasileiro chegaram para trabalhar na derrubada da floresta e posterior plantio de pastos.

A pesquisa traça uma linha do tempo do território, hoje com quase 200 mil habitantes, 11 municípios, sendo que sete deles com menos de seis mil habitantes. A conquista do oeste, a partir daqui, foi elaborada antes mesmo da ditadura, pois já em 1953, uma área de 200 mil hectares foi dividida para colonização. Os militares incentivaram a derrubada da floresta e a implantação da pecuária extensiva, usando os migrantes como mão de obra barata. Como relata Augusto Santiago, Caju, consultor da ANA que coordenou a pesquisa em Cáceres, juntamente com os técnicos da FASE.

“- A história se passa numa zona de expansão da fronteira agrícola sob a Amazônia brasileira, durante o processo de mercantilização das terras, modernização da agricultura e estímulo às migrações dos anos 1950. Depois incrementado pelos incentivos fiscais oferecidos à ‘empresa agrícola’ para ocupação do Oeste durante os governos militares a partir dos anos 1960. Os trabalhadores imigrantes que ajudaram a derrubar as matas desde a região de Cáceres até o Estado de Rondônia, explorados por madeireiros e fazendeiros, formam uma massa de gente sem terra, que se organiza a partir dos anos 1990, para a conquista da terra”.

Pesquisa envolve realidades distintas

Essas informações são narrativas dos próprios agricultores e agricultoras, além dos ativistas dos movimentos sociais, que a partir de 1975 começam a se organizar por intermédio das Comunidades Eclesiais de Base, da Igreja Católica. No início da pesquisa é realizada uma Oficina Territorial para levantar o histórico da formação do território e da movimentação social dos seus atores. Uma narrativa de lutas, que define bem a distribuição de terra para os latifundiários que disseminaram a pecuária extensiva, que domina a região ainda hoje. Tiraram terra dos indígenas, nunca reconheceram um único quilombo, embora a Fundação Palmares tenha encaminhado 69 processos de comunidades locais.

Somente no final dos anos 1980, com a chegada da FASE, a criação do Centro de Tecnologias Alternativas em Pontes e Lacerda e, posteriormente, a chegada do MST que a luta pela terra ganhou relevância. Por isso mesmo, a pesquisa envolve realidades distintas nos agroecossistemas analisados – Sítio Mata Fria, no Assentamento São José Facão, o Sítio José Martí, no Assentamento Roseli Nunes e o Sítio São Benedito, na comunidade Nossa Senhora da Guia, região de morraria, uma denominação do ambiente cercado por morros.

Caminho difícil até chegar às políticas públicas

São famílias que estão em transição para a agroecologia. Produzem legumes e verduras, criam galinhas, porcos, produzem leite, ou seja, também exercem a atividade pecuária, beneficiam parte da produção, e em um dos casos exploram as frutas da região – pequi, cumbaru e babaçu. Durante a conquista da terra e da participação nos movimentos sociais surgiram três associações com objetivo de dar um destino aos produtos dos agricultores e agricultoras. ARPA, ARPEP e Associação Flor do Ipê, a primeira trabalha com hortaliças, a segunda com produtos do extrativismo e a terceira também. Até alcançar a etapa mais organizada com produtos beneficiados e acesso às políticas públicas do PAA e do PNAE o caminho foi longo durante os últimos 15 anos.

E o traço maior dessa trajetória é o trabalho e o protagonismo das mulheres – a ARPEP é administrada pelas agricultoras. Erica Sato, descendente de japoneses é a presidente e integrante do núcleo familiar do Sítio São Benedito. Augusto Santiago define assim o grupo dos agricultores e agricultoras familiares em transição para a agroecologia:

“-São agricultores associados a organizações locais e articulados nos movimentos sociais atuantes na região, que após a conquista da terra buscaram alternativas para o desenvolvimento em condições socioeconômicas bastante adversas. A gestão do agroecossistema é feita pelas famílias com forte protagonismo das mulheres. Em geral a produção é diversificada e produzem boa parte do que consomem, com importante participação da criação animal, especialmente o gado, na composição da renda. Valorizam a produção dos quintais e tem na horticultura uma fonte de renda e autoconsumo. A valorização do conhecimento e das experiências dos agricultores e de alguns produtos da sociobiodiversidade motiva a formação de redes locais e sua articulação nacional com demais atores do campo agroecológico”.

A contabilização de custos e ganhos não é comum

A agricultura familiar, que produz a maior parte da comida dos brasileiros e envolve mais de 12 milhões de pessoas, é uma atividade singular, muitas vezes invisível. A rede complexa que define os trabalhos dentro de um lote é muito complexa. Além da interconexão entre as várias atividades – horta, frutíferas, resíduos na compostagem, criação de pequenos animais, leite- e a possibilidade de beneficiamento coletivo, como ocorre na região, a participação social das famílias é um grande legado. A produção coletiva, a troca de experiências, de conhecimento, de sementes, de produtos são variáveis presentes na pesquisa. Assim como a dependência com o mercado externo, as compras de insumos e também de ingredientes usados na vida familiar. Tudo é contabilizado. E este é outro item que faz parte da rede de agroecologia.

Na agricultura familiar a contabilização de custos e ganhos não é uma prática comum. Ninguém anota quantos pés de alface, de couve, de almeirão, quantos ovos, quantas galinhas, quantos potes de geleia venderam em uma semana. Quanto comprou de açúcar, de óleo, de sal, ou mesmo quantos maços de cigarro, para quem é fumante.

Mapa econômico, social e ambiental

Este é o trabalho que a pesquisa faz com os agricultores e agricultoras. Depois do levantamento, juntamente com os técnicos locais, faz a discussão com outros atores das comunidades para dar valor aos itens levantados. Até chegar aos atributos sistêmicos como a autonomia dos agroecossistemas, o estoque de recursos produtivos, a diversidade, a diversidade de mercados acessados, a diversidade de rendas, a integração social, a equidade de gênero e o protagonismo da juventude. É o mapa econômico, social e ambiental dos agroecossistemas, mas também um retrato da região. Por exemplo, em Cáceres o ano de 2013 registrou a maior seca nos últimos 47 anos. A maioria das propriedades enquadradas na reforma agrária eram fazendas implantadas, já desmatadas e cercadas. Ou seja, há um déficit de reserva legal na região. As nascentes dos principais afluentes do rio Paraguai, maior bacia do Pantanal, nasce no Planalto Mato-Grossense onde o agronegócio mantém as plantações de soja, cana e algodão. Apenas 29% dos efluentes sólidos dessa região hidrográfica dispõem de rede de esgoto e apenas 19% são tratados.

Alcilene Borges de Freitas, o marido José Carlos e o filho Lucas tocam o Sítio Mata Fria – José ainda trabalha como pedreiro em atividades externas. Alcilene e o filho Lucas executam a maioria das atividades da produção do leite, das hortaliças, espécies nativas, de dois tanques de piscicultura. A família dela chegou à Jauru, município vizinho, em um pau de arara na década de 1980. Depois de passar por outros lotes conseguiu chegar ao assentamento Facão, mais perto de uma cidade grande, como diz ela. Levaram três anos após a compra do lote para viabilizar a residência no local. Durante cinco anos Alcilene vendeu verdura na cidade de bicicleta – em 2012 adquiriu uma moto. Antes disso, em 2008, foram beneficiários do Programa Luz para Todos.

Dois ativistas históricos

Miraci Pereira da Silva, 63 anos e Luis Antônio Marques da Silva, 65 anos tocam o Sítio José Martí. Os dois são ativistas históricos dos movimentos sociais. Ela tem descendência indígena e ele é pernambucano. Participaram dos cursos das comunidades eclesiais de base. Luiz foi motorista do bispo Dom Máximo Bienese, que atuou na região até 1993. A relação dos movimentos sociais com a igreja durou até 1998, quando assumiu o bispo conservador José de Lima e cortou o relacionamento. Os dois já estão aposentados, mas não deixam de continuar melhorando o sítio. Querem instalar um sistema agroflorestal em meio as pastagens. O quintal é ocupado por frutíferas e plantas medicinais, além de plantas da região, que Miraci mantém e distribuiu sementes aos vizinhos. Os dois participaram de várias experiências coletivas, inclusive no assentamento Roseli Nunes onde durante muito tempo mantiveram um grupo de trabalho.

O trabalho de Erica Sato é dirigido à ARPEP, associação que reúne seis grupos de extrativistas e que desde o ano passado mantém a marca “Do Cerrado”. Augusto Santiago acentua na pesquisa a relevância dos programas institucionais na organização e capacitação dos agricultores e agricultores familiares. Foi dessa forma que eles conseguiram se organizar, crescer e fortalecer as redes de agroecologia. Em janeiro de 2016, a ARPA iniciará a feira de produtos agroecológicos em Cáceres, um projeto antigo que agora sairá do papel. Caju anota em seu texto sobre o território:

“- Os desafios que esse estudo se propõe enfrentar são do tamanho daqueles enfrentados nos territórios, na disputa entre modelos diametralmente opostos. A linha do tempo mostra o amadurecimento de atores e organizações sociais dedicadas à construção de um território mais humano, colaborativo, justo e inclusivo e seu ponto mais forte é o empoderamento das pessoas no curso da caminhada”.

Por Najar Tubino para Carta Maior
Fonte:  www.cartamaior.com.br

 

]]>
http://aspta.org.br/2015/12/14/agroecologia-os-desafios-economicos-sociais-e-ambientais-da-agricultura-familiar/feed/ 0
Grupo Coletivo Triunfo realiza encontro de avaliação e planejamento http://aspta.org.br/2015/12/14/grupo-coletivo-triunfo-realiza-encontro-de-avaliacao-e-planejamento/ http://aspta.org.br/2015/12/14/grupo-coletivo-triunfo-realiza-encontro-de-avaliacao-e-planejamento/#respond Mon, 14 Dec 2015 13:16:04 +0000 http://aspta.org.br/?p=13063 Leia mais]]> Coletivo TriunfoNo último dia 11 de dezembro, foi realizado no município de Fernandes Pinheiro, o último encontro do Grupo Coletivo Triunfo do ano de 2015 para avaliação e planejamento das atividades. O encontro que contou com a presença de mais de 20 pessoas dos municípios de Palmeira, São João do Triunfo, São Mateus do Sul, Rio Azul, Ponta Grossa, Teixeira Soares e Fernandes Pinheiro, aconteceu na comunidade de Santa Luzia, na propriedade de Família de Terezinha e Silvestre de Oliveira Santos.

O dia de trabalho teve início com uma visita à propriedade da família, onde os membros do grupo puderam conhecer as inúmeras experiências desenvolvidas como o Sistema de Pastagem Voisin, o plantio do ensaio comparativo com 10 variedades crioulas de feijão, este retomado desde o ano passado para fortalecimento do resgate das variedades crioulas de feijão, os campos de multiplicação de milho e a própria diversidade de produção de alimentos para consumo próprio e para venda. Terezinha e Silvestre possuem uma propriedade 100% agroecológica.

coletivo TriunfoNum segundo momento, foi realizada a avaliação das atividades realizadas no ano de 2015, pelos membros do grupo. Sem dúvida, o maior foi a 13ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade que aconteceu no mês de agosto, município de Bela Vista do Toldo-SC. Durante a feira contou-se com a participação de mais de 2.500 participantes, representando 43 municípios do Paraná, 40 de Santa Catarina e 6 estados do Brasil. Foram mais de 100 expositores que puderam mostrar a riqueza da Biodiversidade existente no País. A Feira foi um grande momento de troca de sementes, de comercialização de produtos da agricultura familiar, e o principal, de troca de experiências e conhecimentos entre agricultores e agricultoras, mostrando e afirmando a riqueza de manter, multiplicar e partilhar as sementes crioulas. Essa edição da Feira está sendo considerara a maior já realizada na região, desde o início das feiras no ano de 2000. Avalia-se que o sucesso dessa feira se deve ao empenho e dedicação dos membros do Grupo Coletivo Triunfo, que iniciou os preparativos ainda em janeiro desse ano, com reuniões e mobilizações de participação das famílias agricultoras em seus municípios.

Coletivo TriunfoOutro ponto amplamente aprofundado pelo grupo foi o debate sobre as perspectivas de atividades e eventos para o ano de 2016. De forma similar, já está marcada para o final de janeiro a realização da primeira reunião do Grupo Coletivo na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de São João do Triunfo. Nesse momento, cada município levará propostas para visitas de intercâmbios, levantamento de eventos, organização de feiras municipais, entre assuntos locais colocados por membros do grupo como já é de costume. Já estão agendadas: a realização da 14ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade que ocorrerá no município de Palmeira, a comemoração de 30 anos do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São João do Triunfo junto com a realização da Feira de Sementes Crioulas e a 4ª Feira municipal de Sementes Crioulas em Mandirituba.

A manhã de trabalho foi encerrada com um almoço de confraternização, organizado pela Família Santos.

Coletivo TriunfoColetivo Triunfo – O Grupo Coletivo Triunfo foi formado em 2010 e conta com membros de Movimentos Sociais, Escolas Técnicas e Públicas, Universidades Estaduais, Cooperativas da Agricultura Familiar, Sindicatos de Trabalhadores Rurais, ONGs, Associações, Grupos Informais de Agricultores Familiares e Gestores Públicos Municipais. Este Grupo é aberto e sempre recebe novos participantes para fortalecer a luta contra o uso abusivo de agrotóxicos, transgênicos, fortalecimento da conservação de sementes crioulas, e o avanço e crescimento da agroecologia nas propriedades rurais da região do centro-sul do Paraná e norte Catarinense, aumentando a diversificação de alimentos saudáveis e fortalecimento na geração de renda para as famílias agricultoras.

 

]]>
http://aspta.org.br/2015/12/14/grupo-coletivo-triunfo-realiza-encontro-de-avaliacao-e-planejamento/feed/ 0
Jovens do Polo da Borborema participam de segunda Oficina de Fotografia e preparam exposição de trabalho http://aspta.org.br/2015/12/07/jovens-do-polo-da-borborema-participam-de-segunda-oficina-de-fotografia-e-preparam-exposicao-de-trabalho/ http://aspta.org.br/2015/12/07/jovens-do-polo-da-borborema-participam-de-segunda-oficina-de-fotografia-e-preparam-exposicao-de-trabalho/#respond Mon, 07 Dec 2015 13:45:03 +0000 http://aspta.org.br/?p=13026 Leia mais]]> oficina fotografiaAs lideranças da Comissão de Juventude do Polo da Borborema participaram no último sábado, 05 de dezembro, da segunda oficina de fotografia, na sede da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, em Esperança-PB.

A oficina é uma continuidade da atividade realizada no dia 05 de setembro deste ano, ambas facilitadas pelo fotógrafo Flavio Costa, da Agência de Comunicação Zdizain, de Recife-PE. Como desdobramento da primeira atividade, os jovens apresentaram os seus trabalhos. Na oficina anterior, após aprenderem sobre os fundamentos, a história e algumas técnicas de fotografia, os jovens foram desafiados a produzir fotos do seu cotidiano, a exemplo dos irmãos Erivan Alves e Sandra Alice Alves, do Sítio Floriano, em Lagoa Seca, que fotografaram o seu quintal, suas plantas, seus animais, enfim, o seu dia-a-dia de suas atividades na agricultura.

Exposição – durante a última oficina, os jovens analisaram em detalhes todas as fotografias tiradas. Flávio Costa ainda deu dicas e explicou efeitos utilizados para produzir determinados resultados nas fotos. Ao final, os jovens selecionaram 30 imagens que vão compor uma exposição que será lançada no encontro de planejamento do Polo da Borborema, nos dias 26, 27 e 28 de janeiro de 2016.

oficina fotografiaA proposta das oficinas foi fazer a formação de jovens, para que eles contribuam com o registro das imagens acerca do trabalho que vem sendo feito com a juventude camponesa na região. Os dois eventos fazem parte das ações do Projeto “Sementes do Saber”, desenvolvido pela AS-PTA em parceria com a Comissão de Jovens do Polo da Borborema. O Projeto apoia iniciativas de inserção econômica e produtiva de jovens do meio rural no território de atuação do Polo da Borborema, uma rede de 14 sindicatos rurais da Região da Borborema. O projeto é cofinanciado pela União Europeia e tem a parceria da ActionAid e do Comitê Católico Contra a Fome e pelo Desenvolvimento – CCFD.

]]>
http://aspta.org.br/2015/12/07/jovens-do-polo-da-borborema-participam-de-segunda-oficina-de-fotografia-e-preparam-exposicao-de-trabalho/feed/ 0
ASA Paraíba realiza avaliação da VI Festa Estadual das Sementes da Paixão http://aspta.org.br/2015/12/07/asa-paraiba-realiza-avaliacao-da-vi-festa-estadual-das-sementes-da-paixao/ http://aspta.org.br/2015/12/07/asa-paraiba-realiza-avaliacao-da-vi-festa-estadual-das-sementes-da-paixao/#respond Mon, 07 Dec 2015 13:35:00 +0000 http://aspta.org.br/?p=13020 Leia mais]]> 12342611_917693374986122_2290541420369853016_nIntegrantes da Coordenação Executiva, da Rede de Sementes e do GT de Comunicação da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba) se reuniram, neste dia 01 de dezembro, para fazer uma avaliação do processo da VI Festa Estadual das Sementes da Paixão, realizada de 14 a 16 de outubro de 2015, nas cidades de Arara e Campina Grande.

Na rodada de avaliações, todos os participantes ressaltaram o sucesso da realização do evento, destacando pontos como a escolha acertada do local da festa, o Santuário Santa Fé de Padre Ibiapina, considerado um lugar místico e simbólico; o envolvimento de outros atores para além das organizações da ASA, a exemplo das equipes de Assistência Técnica e Extensão Rural nos territórios; a estratégia de comunicação; a escolha dos temas das oficinas e do tema da festa sobre o tema dos transgênicos e agrotóxicos que dialogou com as mesas temáticas, com as atividades de preparação e com os atos públicos de denúncia realizados no último dia de programação, além de do fortalecimento da rede de bancos de sementes comunitários da ASA Paraíba, objetivo maior da Festa.

O processo de construção da festa também foi apontado como impulsor do trabalho com a temática nas sete microrregiões onde a ASA Paraíba está presente: “A Festa em si foi muito bonita, deu pra dar uma sacudida na região do Curimataú, finalmente conseguimos mapear os guardiões das sementes”, disse Aparecida Firmino, do Centro Educação e Organização Popular (CEOP), que atua na região do Curimataú do estado.

Vanúbia Martins, da Comissão Pastoral da Terra e membro da Rede de Sementes, avaliou a importância de iniciativas como a da FESP num contexto de avanço do agronegócio: “A Festa é pra nós uma coisa consolidada, uma árvore frondosa, mas claro que até esse tipo árvore precisa de podas, a conjuntura atual é terrível e tem uma série de forças tentando derrubar essa árvore. A festa cumpre um papel do encantamento com as sementes. De juntar pessoas, de aprender, de trocar. Essa festa traz outra questão que é essencial pra nós, que é como vamos dar continuidade à comunicação e ao diálogo com a sociedade. Como vamos seguir expondo os conflitos, ir pra rua. Os projetos de mineração, de energia eólica vão vir cada vez mais fortes, e passando por cima das nossas comunidades, não para produzir energia limpa, como na Europa, vão vir para acúmulo de capitais. O tema das sementes dialoga com os outros temas, pois para ter sementes, é preciso ter água, ter terra”, afirmou.

12316607_917693608319432_7629463072124704460_nApós a rodada de avaliação, foram elencados cinco pontos como desdobramentos da festa para o levantamento de encaminhamentos e planejamento de ações conjuntas. Foram eles: 1- Conab – após a entrega de uma carta dirigida à Conab solicitando que o milho da venda de balcão venha triturado, no sentido de evitar o plantio e a contaminação de outras sementes, já que as sementes são comprovadamente transgênicas; 2 – Testes de transgenia realizados durante a Feira Estadual de Sementes que tiveram resultado positivo em três municípios do estado; 3 – Diálogo com o Governo do Estado, no sentido de cobrar o que foi prometido pelo secretário durante a Festa; 4 – Como trabalhar melhor as sínteses e os compromissos de cada oficina temática; 5 – Como dar continuidade ao processo de comunicação desencadeado durante a festa com a reativação do blog, como pensar na construção de um vídeo sobre festa, um documentário pequeno.

Roselita Vitor, da Coordenação do Polo da Borborema, região que recebeu a Festa, falou sobre o desafio de sediar um evento como este: “Nem sempre o nosso território vai estar 100% preparado para receber a festa. Foi uma lição pra gente, essa questão de reinventar, como a gente faz a luta acontecer. Mas a gente está em um tempo que, ou a gente vai pra rua, se coloca, ou as coisas não vão acontecer”, disse. Roselita falou ainda da tarefa que a rede tem de aproveitar os resultados da festa para se fortalecer enquanto rede e fazer a luta política: “A carta política da Festa e o relatório final são instrumentos para a gente fazer a luta e construir o debate nos conselhos, nos territórios, no diálogo com o poder público. Os compromissos que a gente trouxe nos debates, nas oficinas. A contribuição de cada região que contribuiu com a festa, já é um resultado, isso mostra um comprometimento com a ASA, foi um momento de resgatar esse compromisso”, afirmou.

Encaminhamentos – Ao final da reunião, foram tirados os seguintes encaminhamentos: dar continuidade ao processo de formação à partir das demandas das oficinas temáticas (exemplo: bancos de germoplasma, sementes de das hortaliças, etc.); Envio de ofício para Conab solicitando uma audiência; Continuidade da comunicação (alimentação do blog, replicar ações de ativismo nas regiões); Continuidade dos testes de transgenia – procurar as pessoas que estão com sementes contaminadas, além de fazer a denúncia coletiva das sementes de milho contaminados; Diálogo com o governo do estado, por meio de uma audiência ainda em dezembro de 2015; e pro fim, Promover formação para cirandeiros na ASA Paraíba para cirandes infantis em eventos. Foi agendado o balanço e planejamento da rede de sementes para os dias 16 e 17 de fevereiro.

 

]]>
http://aspta.org.br/2015/12/07/asa-paraiba-realiza-avaliacao-da-vi-festa-estadual-das-sementes-da-paixao/feed/ 0
O Semiárido grita, mas o silêncio da mídia ainda é maior que o barulho do povo http://aspta.org.br/2015/12/07/o-semiarido-grita-mas-o-silencio-da-midia-ainda-e-maior-que-o-barulho-do-povo/ http://aspta.org.br/2015/12/07/o-semiarido-grita-mas-o-silencio-da-midia-ainda-e-maior-que-o-barulho-do-povo/#respond Mon, 07 Dec 2015 13:04:17 +0000 http://aspta.org.br/?p=13013 Leia mais]]> “Viemos aqui para dizer que o Semiárido existe.
Que nós existimos, que conquistamos direitos e que não vamos admitir nenhum direito a menos”
Ato Semiárido Vivo: Nenhum direito a menos, 17/11/15

 

Semiárido Vivo
Ato Semiárido Vivo também reivindicou a democratização da comunicação | Foto Ivan Cruz Jacaré Arquivo Asacom

A Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), como um espaço de articulação política da sociedade civil organizada, nesses 16 anos de caminhada, vem contribuindo para modificar a imagem estereotipada do Semiárido – comumente associada ao gado morto e terra rachada – por uma imagem de uma região bela, forte, resiliente e cheia de potencialidades.

No último dia 17 de novembro, cerca de 20 mil pessoas construíram a maior mobilização no Brasil após a Marcha das Margaridas, realizada no mês de agosto. Agricultores e agricultoras, pescadores e pescadoras, indígenas, quilombolas e militantes de movimentos e organizações sociais se reuniram nas cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), as margens do Rio São Francisco, no epicentro do Semiárido brasileiro, para defender uma pauta ampla e diversa em torno dos direitos dos povos do campo, no ato “Semiárido Vivo: Nenhum direito a menos”. Se reivindicava ali, centralmente, a continuidade dos programas de convivência com o Semiárido executados pela ASA, o acesso das populações a terra e territórios, a permanência dos programas sociais e a revitalização do Rio São Francisco.

Sendo esse um ato que mobilizou tantas pessoas em torno de políticas públicas importantes para a vida e o desenvolvimento da população da região, como os meios de comunicação discutiram e pautaram o assunto? E tendo a mídia um importante papel na informação da população, que contribui na formação de opinião da sociedade, e que acompanha as ações do poder público e atua no monitoramento de suas implementações, como abordou um ato público que pautou políticas que impactam, direta ou indiretamente, na vida de 22,5 milhões de brasileiros e brasileiras que vivem na região, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010). Constatamos que houve silêncio completo da mídia hegemônica. Vinte mil pessoas na rua, lutando por seus direitos e não houve sequer uma nota em veículos nacionais tradicionais e poucas menções também nos meios de comunicação alternativos nacionais.

Semiárido Vivo
Barca que acompanhou o Ato Semiárido Vivo | Foto: Agnaldo Rocha

O que esse silêncio nos diz? Será que o estigma da invisibilidade que marcou o Semiárido por tanto tempo ainda persiste como ranço dos coronéis da comunicação que não por coincidência são também os coronéis da política? Historicamente a região semiárida sempre foi vista – e retratada – pela grande mídia como um lugar pobre, inóspito, miserável. A mídia não reconhece quando 20 mil trabalhadores e trabalhadoras do campo vão às ruas em uma postura ativa cobrar seus direitos, lutar por mais políticas públicas, prefere sempre se deixar pautar pela estiagem procurando cenas de gado morto e chão rachado, essas figuras sempre encontram espaço privilegiado nos noticiários regionais e nacionais. Em algumas regiões do Semiárido brasileiro, 2015 já se encerra como o quinto ano consecutivo de seca, porém não foi registrada nenhuma morte em consequência da estiagem, nenhum saque e o êxodo rural não cresceu. A vida do povo do Semiárido melhorou. Mas isso não é pauta na mídia comercial.

A comunicação no Brasil e no Semiárido continua concentrada nas mãos de poucos grupos econômicos que ditam as pautas. Aqueles que não pertencem aos grupos hegemônicos não têm direito à voz, não expressam seus pensamentos, têm direito apenas de ouvir e ver.

Apesar desse silêncio da mídia nacional, houve algum barulho na cobertura do ato “Semiárido Vivo: Nenhum direito a menos”. Barulho, que consideramos aqui como as matérias publicadas pelos meios de comunicação locais, no Vale do São Francisco. Pouco mais de 50 matérias foram publicadas ou veiculadas, entre sites e portais de notícias, jornais impressos, rádios, TVs e blogs. Além dos conteúdos publicados e visibilizados pelas organizações e movimentos que organizaram e estiveram presentes na mobilização. Também chama atenção o grande fluxo de conteúdos que circularam nas redes sociais sobre o ato.

Como furar esse cerco?

Os grandes meios de comunicação, concentrados nas mãos de poucos, estão a serviço de um projeto político que oprime e invisibiliza os povos do Semiárido. Por isso, acreditamos ser importante a democratização da comunicação para que as pessoas reconheçam seu modo de falar, denunciem os conflitos e opressões e anunciem as belezas, culturas e histórias vivenciadas em cada canto do Semiárido brasileiro. Democratizar a comunicação é democratizar o sentido da vida, da luta e resistência das comunidades e dos povos.

No caminho da luta pela democratização é preciso que mudança na forma das concessões públicas de rádio e televisão, a melhor distribuição da verba publicitária governamental e a proibição da propriedade cruzada dos meios de comunicação estejam entre as notas pautas. São necessárias mudanças na legislação de comunicação para que consigamos avançar na conquista da comunicação como direito. Para além das batalhas no campo institucional, o incentivo a comunicação popular é essencial. Quanto mais gente produzindo comunicação popular e conseguindo dialogar com a sociedade sobre informações que não chegam até elas pelos meios convencionais, maior será nosso poder de enfrentamento ao discurso hegemônico. Incentivar a apropriação do direito à comunicação por grupos invisibilizados pelos grandes meios fazendo com que esses grupos possam produzir suas próprias narrativas é uma estratégia muito importante de enfrentamento ao monopólio.

A luta pela democratização da comunicação vem fortalecer a prática da comunicação popular e comunitária. A ASA constrói e fortalece em todos os estados do Semiárido a Rede de Comunicadores e Comunicadoras Populares, um espaço de produção de conteúdo, discussão política e experimentação de meios alternativos. É pelas mãos dessa rede que toma forma os Candeeiros, instrumento de sistematização de experiências que já contou a história de cerca de duas mil famílias da região, provando que sim temos muito a dizer ao Brasil e ao mundo.

Coordenação executiva da ASA Brasil
Fonte: www.asabrasil.org.br

]]>
http://aspta.org.br/2015/12/07/o-semiarido-grita-mas-o-silencio-da-midia-ainda-e-maior-que-o-barulho-do-povo/feed/ 0