Encontro Territorial faz Balanço do Projeto Sementes do Semiárido na Região da Borborema

13239259_454943784702934_5168013026165050726_nCom o objetivo de fazer um balanço da execução do Projeto Sementes do Semiárido no Território da Borborema, que se encerra neste mês de maio, e definir estratégias para a continuidade das atividades da Comissão de Sementes e da Rede Regional de Bancos de Sementes foi realizado na última terça-feira, 24 de maio, no Santuário Santa Fé de Padre Ibiapina, em Arara-PB, o Encontro Territorial de Sementes do Polo da Borborema. O Polo é uma articulação que reúne 14 sindicatos de trabalhadores rurais que atua na região da Borborema há 20 anos com a assessoria da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia.

Após uma abertura, Euzébio Cavalcanti, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Remígio-PB e membro da Comissão de Sementes, pediu aos presentes um minuto de silêncio em memória de dona Nova, liderança histórica do Polo da Borborema e ex-presidenta do Sindicato Rural de Matinhas-PB, falecida este mês por complicações de saúde.

Roselita Vitor, da coordenação do Polo da Borborema, falou sobre o sentido do encontro e sobre o trabalho de destaque que a Paraíba tem feito na preservação das Sementes da Paixão: “A nossa luta em defesa da semente da paixão é hoje uma referência para o Semiárido Brasileiro, então nós temos uma missão muito grande que é a de continuar fortalecendo esse trabalho. O Projeto Sementes do Semiárido veio fortalecer o que a gente já fazia. Muitas coisas aconteceram nas comunidades animadas por esse projeto, mas tem muitas outras que já vem sendo animadas pela nossa luta há muito tempo. O tema das sementes é especial, ele que faz mover a nossa agricultura, sem semente a gente não faz agricultura. Cada uma de nós tem essa missão de fazer que essa semente produza. Cada um de nós é especial nessa caminhada”, afirmou.

Após este momento, os participantes se dividiram em grupos por duplas de municípios para responder às questões: “O que deu certo neste trabalho?” e “O que precisa melhorar”? Na sequência, representantes de cada um dos grupos fizeram uma socialização em plenária que trouxe como pontos positivos do trabalho com sementes no último ano: as capacitações e intercâmbios que qualificaram a gestão dos bancos de sementes; o monitoramento dos bancos de sementes da região do Polo, que diagnosticou a situação atual da rede de bancos; A descoberta de novas variedades e resgate de outras que haviam se perdido; O debate sobre os transgênicos e os testes de transgenia, que ajudaram a alertar as famílias agricultoras; O envolvimento da juventude nos bancos de sementes e a compra de sementes dos próprios agricultores para o fortalecimento dos estoques dos bancos.

sementes do semiáridoJá como desafios foram os pontos mais lembrados: A falta do pleno envolvimento de alguns sindicatos; Dificuldades com a entrega dos materiais de construção em alguns municípios; e os governos que insistem em distribuir sementes vindas de fora e tratadas com veneno, ao invés de comprar das próprias famílias agricultoras, entre outros.

Sementes do Semiárido – No período da tarde, Emanoel Dias, assessor técnico do Núcleo de Sementes da AS-PTA, fez uma retrospectiva do Projeto Sementes do Semiárido e do conjunto das ações da Comissão de Sementes do Polo. Ele relembrou o seminário de lançamento do Projeto realizado há um ano no Banco Mãe de Sementes, em Lagoa Seca, as capacitações comunitárias, capacitação territorial com seleção massal do milho, visitas de intercâmbio dentro do território e no estado de Alagoas, além da “VI Festa Estadual das Sementes da Paixão”, realizada pela Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba) e sediada pelo Polo da Borborema, integrante da ASA. O Projeto Sementes do Semiárido foi desenvolvido em oito municípios, sete deles da região do Polo: Solânea, Casserengue, Areial, Remígio, Arara, Queimadas, Lagoa Seca e Damião, este único não faz parte, mas é um município parceiro.

De acordo com Emanoel, entre 2015 e 2016 foram feitos mais de 100 testes de transgenia que comprovaram a qualidade das Sementes da Paixão da região, livres de transgênicos e agrotóxicos. Ao todo, foram comprados 22 mil reais de sementes, dentro do território, para reforçar os estoques da rede de 62 bancos. Foram beneficiados diretamente 22 bancos que ganharam instrumentos como balanças, estantes, tonéis, peneiras, mesas e cadeiras. Dos 22 bancos, em 17 houve construções de uma estrutura mínima padrão em alvenaria e cinco, que funcionavam em espaços próprios, foram reformados.

13254311_454983344698978_654433980080446101_n Emanoel falou ainda sobre as perspectivas futuras de continuidade do trabalho, que com apoio de outro Projeto, o Ecoforte, construirá outros nove bancos até dezembro deste ano. Além de uma proposta nova de venda de sementes empacotadas, a continuidade das pesquisas que atestam a superioridade das Sementes da Paixão, com os ensaios comparativos em parceria com a Embrapa e em breve o lançamento da Campanha “Não Planto Transgênicos para Não Apagar a Minha história!”.

Envolvimento da juventude – Durante o debate, diversos agricultores e agricultoras destacaram a participação e o envolvimento da juventude no trabalho com as sementes. Cesário Lima Silva Franco, 21 anos, é um deles. Morador do Sítio Cabeçudo, em Casserengue-PB, “César”, como é conhecido, conta que participa da comissão de sementes desde o início de 2016 e que está muito animado com o trabalho: “É um prazer imenso para mim como jovem, estar aqui compartilhando com várias pessoas mais experientes. Eu venho de uma comunidade onde os jovens tem uma mentalidade diferente, voltada para a farra e a bebedeira, eles não pensam muito no futuro. Eu começando a vir para esses encontros, já sofri até um certo preconceito por parte deles. Mas eu quero é tentar levar um pouco do que aprendo aqui para esses ‘cabeças duras’ de lá”, brinca o jovem.

sementes do semiáridoManoel de Oliveira, conhecido como “Nequinho”, da coordenação do Polo da Borborema, fez uma fala sobre o momento político atual, que segundo ele, é de total ameaça aos direitos dos trabalhadores, duramente conquistados: “Estamos de parabéns com esse projeto, estamos aqui justamente comemorando os resultados, isso é um privilégio para nós. Mas e se, a partir de amanhã, a gente não tiver mais o Sementes do Semiárido, o Pronaf, as cisternas, o que é que nós vamos fazer? É uma tarefa nossa, a partir de hoje conversar sobre isso em cada lugar que a gente for. Se for preciso a gente vai de novo para a rua, para defender a democracia, tudo que a gente tem foi uma luta nossa, então precisamos estar preparados para defender os nossos direitos”, disse.

Após a listagem de uma série de compromissos para o restante do ano, foi feito o encerramento do encontro com uma confraternização entre os participantes, que contou com a animação do trio de forró “Ararense” e a degustação de comidas típicas de milho da região Nordeste.

 

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