“Eu e minha escola construindo histórias”: Cirandas da Borborema abordam a importância das escolas do campo para a agricultura familiar

Com o tema “Eu e minha escola construindo histórias”, um novo ciclo de Cirandas da Borborema se iniciou neste primeiro semestre de 2018. As atividades estão sendo realizadas desde o mês de abril e acontecerão, ao todo, em 45 comunidades rurais de 13 municípios onde atua o Polo da Borborema, uma articulação de 14 sindicatos de trabalhadores rurais da região da Borborema, no Agreste da Paraíba. Essa ação é promovida pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, em parceria com o Polo e apoio das entidades de cooperação internacional Action Aid e KinderMissionsWerk.

As Cirandas da Borborema são a principal ação da “Campanha de Valorização da Vida na Agricultura Familiar”, iniciativa desenvolvida desde 2002 e dirigida aos filhos e filhas de agricultores familiares da Borborema, com a proposta de discutir, de maneira lúdica, temáticas que dizem respeito ao universo rural e a vida no campo. Anteriormente conhecidos como “mutirões” da Campanha, a atividade foi rebatizada em 2017, ganhando o novo nome de “Cirandas da Borborema”: “A gente viu que a ciranda era importante, que ela representa melhor o trabalho, como parte das brincadeiras das crianças nos arredores de casa e do ato de brincar em si”, explica Maria Denise Pereira, do Núcleo de Infância da AS-PTA.

As Cirandas são momentos que acontecem duas vezes por ano nas comunidades, em alguns casos, na escola local, ou equipamentos como capelas e associações comunitárias, sempre com o uso do teatro, envolvendo pintura, desenho, brincadeiras com bola, corda, competições e um lanche oferecido à comunidade escolar, providenciado em parceria com o sindicato rural de cada município. Antes desse momento, ocorrem reuniões de sensibilização, uma conversa com pais, mães, responsáveis, educadores/as e gestores/as escolares a respeito do sentido da realização das cirandas e sua proposta, o que, muitas vezes, motiva os educadores a trabalhar o assunto previamente em sala de aula com as crianças. Alguns temas já trabalhados foram: lixo na zona rural; alimentação saudável; os caminhos da água na minha comunidade e como conservá-la; a arborização e o papel das abelhas; direitos e deveres de homens e mulheres, entre outros.

Os 39 alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Manoel Pereira da Silva, no Sítio Lagoa de Gravatá, município de Lagoa Seca, tiveram uma manhã dedicada à reflexão sobre a sua escola e o contexto da comunidade onde está inserida. A personagem “Vovó Amorosa” dialogou com as crianças representando as gerações anteriores, que são as pessoas que na tradição oral levam adiante a memória da comunidade onde vivem por meio das suas histórias, repletas de afetos.

Ela monta, com a ajuda das crianças, uma maquete da comunidade com seus principais equipamentos sociais: casas, cisternas, casas de farinha, capela, posto de saúde, banco comunitário de sementes, associação comunitária e escola, além de plantas e animais. Surgem então duas outras personagens “Sol” e “Zangadinha”, prima e neta de Amorosa. Em um diálogo, a primeira sugere ‘retirar’ da comunidade alguns equipamentos para levar para a sua comunidade. “Ao que as crianças vão intervindo e impedindo que se retire o equipamento, justificando a sua importância.

Vovó Amorosa fala com as crianças e as questiona sobre a origem do nome da comunidade e do nome da escola. “Aqui se plantava muito gravatá!” respondem os mais agitados. “Era um senhor que morreu e que deu o terreno para construir a escola!”.

As respostas na ponta da língua vem de um trabalho que a escola Manoel Pereira da Silva já vem fazendo de resgate da memória da comunidade pelos mais jovens. Ivanete Maria Lustosa leciona na unidade há 23 anos. Ex-aluna da escola, ela conta que é comum reencontrar ex-alunos entre os pais que tem filhos estudando no local. Ela já participa há um bom tempo das cirandas e acha o trabalho e o tema escolhido para 2018 fundamentais: “É mais valorização para o campo, né? Antes a agricultura era vista como aquele pensamento ‘ah, não quero que meu filho seja agricultor’. Hoje eles tem uma outra consciência, de que podem viver bem com o que tiram da terra, sem precisar sair. E nem precisa ter muita terra, com pouco, se ganha muito”.

Fechamento das escolas do campo

A educadora fala que os fechamentos das escolas prejudicam muito as famílias agricultoras. “Ora, você vai ter muito mais dificuldade com seus filhos pequenos indo para longe, você vai ter que ir acompanhar, se uma criança adoece, como é que a gente da escola pode chamar o pai para que venha rápido?”, questiona.

Da mesma opinião compartilha a agricultora Ana Alice Albino da Silva, de 40 anos, ex-aluna. Ela é mãe de Raíssa Aparecida Albino da Silva, de 8 anos, aluna da escola Manoel Pereira. “É um absurdo fecharem escolas, temos que fazer de tudo para nunca fechar. Aqui eu não tenho do que reclamar, é uma escola onde tem de tudo e tratam o seu filho como se fossem os filhos delas”, avalia. “Eu gosto muito de participar das coisas que a escola convida, os pais daqui são muito participativos. Mas com a escola longe, como é que a gente vai poder deixar tudo aqui para lá para ir?”, pergunta.

Ewerton Kaio do Nascimento, 10 anos, estuda na escola há 3 e adora participar das Cirandas, ele era dos mais participativos nas respostas: “Eu gosto de estudar aqui porque é perto da minha casa”, diz o menino.

As Cirandas em Números

Em 2017 aconteceram 66 cirandas, destas, 19 foram em escolas, onde 85 professores e professoras se envolveram, com 1.344 crianças oriundas de 100 comunidades. 177 adolescentes participaram e, ao todo, houve a participação de 420 adultos, homens e mulheres. Em 2018, a perspectiva é a de que haja o envolvimento de 26 escolas e que o número de crianças chegue a duas mil.

Assista a matéria produzida pela TV Itararé sobre as Cirandas da Borborema:

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