Mulheres do Polo da Borborema realizam lançamento regional da 10ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia

Na manhã da última sexta-feira, 23 de novembro, uma programação festiva durante a Feira Agroecológica de Remígio-PB, lançou oficialmente a 10ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia. O lançamento regional contou com a participação de mulheres representantes do município e dos outras 12 cidades onde o Polo da Borborema atua. O Polo é uma articulação de 13 sindicatos de trabalhadores rurais da região da Borborema e há 10 anos promove no dia 08 de março a Marcha.

A atividade, que marca o dia internacional da mulher na região, tem o duplo objetivo de dar visibilidade ao papel das mulheres camponesas na construção da agricultura familiar agroecológica e de denunciar todas as formas de violência contra a mulher. Em sua última edição o evento levou um público de mais de cinco mil agricultoras às ruas de São Sebastião de Lagoa de Roça-PB.

A cada ano a Marcha acontece em um dos municípios do Polo e, ao completar sua primeira década de atuação, a Marcha retorna à cidade onde surgiu, Remígio-PB: “Há 10 anos nós decidimos que queríamos ir para a rua dizer que as mulheres camponesas existem, pois o nosso trabalho não era reconhecido. Dizer também que o trabalho doméstico e de cuidados não é só das mulheres, ele precisa ser dividido. Há 10 anos a gente vem fazendo essas lutas. Há 10 anos elas vem encontrando o seu caminho, de entender que a mulher não é uma propriedade. Ela é dona dela mesma e lugar de mulher é onde ela quiser”, disse Roselita Vitor, liderança do Polo da Borborema e do municípios de Remígio.

Todos os anos, em suas dezenas de reuniões preparatórias nas comunidades, a marcha trabalha um tema específico. Em 2019, trará a reflexão sobre o tema do racismo e sobre como ele recai de forma particular sobre a vida das mulheres. O assunto será tema de reflexão nos encontros, sempre buscando partir das histórias de vida das mulheres, suas trajetórias e seus caminhos de superação. O evento de lançamento foi iniciado com uma mística, onde esteve presente o tema da autoafirmação das mulheres negras, através de cânticos, literatura de cordel, música e danças que lembram as tradições africanas, a exemplo da ciranda.

Durante o lançamento, foram homenageadas ainda três agricultoras-experimentadoras, mulheres negras, sendo uma do município de São Sebastião de Lagoa de Roça, dona Miralva Fernandes da Silva, de 45 anos, do Sítio Camucá. E outras duas agricultoras de Remígio, dona Antônia Ferreira da Silva, de 65 anos, do Assentamento Irmã Dorothy e Maria do Socorro dos Santos Belarmino, de 59 anos, do Sítio Macaquinhos. Durante a homenagem, suas histórias de luta e de superação foram lembradas como exemplos que inspiram e ajudam outras mulheres a seguir pelo enfrentamento das desigualdades.

Na ocasião foi feita a apresentação da nova logomarca da Marcha, com seu selo comemorativo dos 10 anos. Mulheres agricultoras de diversos municípios usaram o microfone para falar sobre como o trabalho de organização junto a outras agricultoras as fortaleceu. A assentada e coordenadora da Feira Agroecológica de Remígio, Anilda Batista foi uma das que se colocou: “sou agricultora, se for contar a jornada da minha vida, sou de Esperança e há 18 anos vim para Remígio, cheguei junto com o Assentamento Oziel Pereira, sou viúva, tenho 5 filhos e 6 netos e posso dizer que me sinto uma mulher rica, tenho a terra, uma boa casa, tenho liberdade para ir para onde eu quiser. Ano que vem estaremos aqui nas ruas de Remígio com mais uma bonita marcha”.

Para Roselita Vitor, a Marcha tem uma tarefa ainda maior em 2019, diante do avanço do conservadorismo que ameaça de muitas formas a vida das mulheres e com a eleição de um presidente da extrema direita no país: “Vamos às ruas dizer que nenhum fascista vai nos fazer retroceder. Eles que encontrem o seu lugar, porque mais que nunca vamos estar nas ruas, organizadas e enquanto existir uma mulher sofrendo, uma mulher oprimida, nós vamos estar juntas”, disse.

Roselita finalizou afirmando o valor e o papel das feiras agroecológicas como espaço onde as mulheres tem participação ativa e lugar onde constroem sua autonomia: “Aqui temos várias mulheres feirantes, onde o dinheiro é delas, e elas podem fazer com ele o que quiserem, comprar o seu batom, comprar o seu sofá. Nós estamos aqui comemorando 10 anos de verdadeiras conquistas”.

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