Lideranças do Polo da Borborema se reúnem para avaliar as atividades de 2018

Somos filhos e filhas de quem lutou e deu a vida por justiça, igualdade, liberdade e direitos. Somos filhos e filhas de Dandara, Zumbi, Marielle e Margarida. Somos filhos e filhas de João Pedro Teixeira, de Chico Mendes e de Irmã Doroth”. Foram inspirados pela mística de abertura, que buscou rememorar o legado deixado por mártires de nossa história que entregaram suas vidas pela luta por direitos e justiça social, que cerca de 70 agricultores, agricultoras, jovens e lideranças sindicais se reuniram no dia 06 de dezembro, no Convento Ipuarana, em Lagoa Seca-PB, para refletir e avaliar as ações desenvolvidas pelo Polo da Borborema ao longo do ano de 2018.

Após a apresentação das principais atividades realizadas durante o ano, o grupo presente se dividiu para refletir sobre os avanços. Em que pese as dificuldades impostas pela conjuntura política e econômica, as ações do Polo da Borborema mantiveram-se vigorosas seja na promoção da agroecologia, assim como na sua renovação da capacidade de luta política. Experiências exitosas foram desenvolvidas como o aperfeiçoamento dos processos de beneficiamento de produtos da agricultura familiar, a exemplo do cuscuz da paixão e do exercício contínuo do aprimoramento e da construção de novos mercados; as feiras da juventude camponesa; o fortalecimento dos Bancos de Sementes; o armazenamento de forragem, ainda que se tenha vivido mais um ano de estiagem; a retomada dos fundos rotativos; a ampliação das Cirandas da Borborema e o do trabalho com a educação do campo; o reordenamento agrário; a conquista da batata semente para a safra de 2019, entre outros tantos. Destacou-se ainda, as frutíferas parcerias com as instituições de pesquisa, que permitiram aprimorar as práticas já desenvolvidas na região.

O ano de 2018 foi também marcado por grandes lutas. Desde o debate sobre o fechamento das escolas do campo e as graves consequências para as crianças, as mães e a própria sucessão rural; a chegada dos projetos de energia eólica na região e a aprendizagem coletiva dos muitos impactos na vida das famílias agricultoras; o enfrentamento aos transgênicos; a luta contra todas as formas de violência contra a mulher.

“Esse ano não ficamos parados. Desde o golpe e quando Michel Temer assume a presidência, tivemos um desafio maior como movimento sindical”, avalia Nelson Ferreira, do Sindicato dos trabalhadores Rurais de Lagoa Seca. Ele continua: “Nesse ano, fizemos muitas plenárias, assembleias, fomos conversar com a base. Fizemos debates com a categoria sobre a disputa política. As mobilizações que fizemos, nos deram muito mais forças para concretizarmos os resultados do ano. Mas somos ‘conhecedor’ de que ano que vem será mais difícil, sem as políticas públicas de fortalecimento da agricultura familiar”.

Também foram destacadas a capacidade de análise e inovação do movimento sindical, se reinventando seja nas lutas, seja na interlocução com os poderes locais e estadual, jogando como ator importante na construção de um projeto político de desenvolvimento, mas seja também na articulação com atores coletivos como na criação da Articulação Paraibana de Agroecologia (ARPA), ou na participação do IV Encontro Nacional de Agroecologia, realizado pela Articulação Nacional de Agroecologia, em Belo Horizonte-MG.

Após a densa rodada de avaliação das ações do Polo da Borborema, os presentes promoveram uma análise da conjuntura como ponto de partida para a construção de como o movimento dará continuidade de suas ações no ano de 2019. Após uma rodada de percepções, Nelson Anacleto, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa Seca e da Coordenação do Polo da Borborema, sintetizou: “O governo de Bolsonaro dará continuidade às políticas do governo de Michel Temer, agora com a legitimidade do voto. O governo Bolsonaro aprofundará a reforma trabalhista e fará a reforma da previdência. E com a criminalização dos movimentos sociais, irão inibir as reações, principalmente nas ruas”.

Luciano Silveira, da coordenação da AS-PTA, levou novos subsídios para análise: “O que estamos vivendo é o reposicionamento das elites. Uma nova composição de forças da elite financeira, da mídia e das igrejas conservadoras. Estamos vivendo um novo pacto político. A vitória de uma extrema direita não foi apenas eleitoral, foi também uma vitória ideológica e para manter isso, será necessário destruir o adversário. E nesse caso, o adversário também somos nós. Eles querem criminalizar nossas crenças, nossa luta por direitos. Agora não basta resistir, teremos que reagir. O que podemos fazer para enfrentar essa nova realidade?”, deixou a pergunta para a plenária.

A jovem agricultora, Sidinéia Camilo, do município de Remígio iniciou a reflexão: “Precisamos saber quem somos para organizar nossa luta. Eu mesma: sou jovem, mulher, agricultora e negra. Esse é meu ponto de partida e acho que tenho que entender para saber onde quero chegar”. “Temos que construir um movimento sindical assentado na transparência, na ética, e sobretudo, manter como um espaço democrático que permita a participação das mulheres, da juventude, dos experimentadores como sujeitos sociais”, acrescenta Roselita Vitor, do Sindicato de Remígio e da Coordenação do Polo da Borborema. “Os sindicatos nunca vão se acabar, mas precisamos nos renovar, precisamos cada vez mais fortalecer a ação sindical e fortalecer a luta de classe”, avalia Nelson Ferreira. “Não podemos deixar cair o patrimônio que construímos: os bancos de sementes, os fundos rotativos, a rede de feiras. São centenas, são milhares de agricultores que estão conosco”, acrescenta Luciano.

Lançamento X Marcha

Na sequência, aconteceu o lançamento da X Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia que em 2019, voltará as ruas de Remígio, cidade onde o movimento nasceu. Um grupo de mulheres fez coro à jovem Jeane Carla que recitou Me gritaram negra, poema de Victoria Santa Cruz. Após esse momento, mulheres de São Sebastião de Lagoa de Roça passaram para as mulheres de Remígio o estandarte da Marcha. Roselita fez referência ao novo selo, que comemora a décima edição: “Hoje não somos mais representadas por uma mulher, agora somos muitas que se organizam todos os anos na Marcha para enfrentarmos o machismo”. O encontro do Polo da Borborema se encerrou com o lançamento do calendário de 2019 que esse ano também traz estampada os 10 anos de Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia.

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