Mulheres da Borborema debatem boas práticas do beneficiamento de derivados de leite durante Seminário

Um grupo de cerca de 60 mulheres da Comissão de Saúde e Alimentação do Polo da Borborema e da EcoBorborema, associação que reúne feirantes agroecológicos do Polo da Borborema, estiveram reunidas nos dias 26 e 27 de agosto, em Arara-PB, durante o 5º Seminário Regional de Beneficiamento de Produtos da Agricultura Familiar. O evento foi promovido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia que há mais de 20 anos assessora do trabalho da rede de 13 sindicatos de trabalhadores rurais que formam o Polo da Borborema, na região da Borborema, no Agreste da Paraíba.

No primeiro dia de programação, a agricultora Verônica de Macena Santos, do Sítio Palmas, município de Solânea, preparou duas de suas tradicionais receitas com derivados do leite: o queijo de coalho e o doce de leite, os quais costuma vender na feira agroecológica do seu município e na vizinhança. As agricultoras puderam acompanhar todo o processo de coalho, pré-cozimento e enformamento do queijo, assim como o preparo do doce, dialogando sobre como fazem em suas casas e tirando dúvidas.

Em seguida, a professora Márcia Targino de Oliveira, do Laboratório de alimentos do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, Campus Areia-PB, falou sobre boas práticas no beneficiamento dos derivados do leite. A especialista tratou sobre os cuidados necessários desde a ordenha do leite e seus tipos (manual e mecânica), a vestimenta do ordenhador, a higiene correta das mãos, do local e dos utensílios passando pela coagem do leite até o seu preparo final. “Elaborar alimentos é um tipo de negócio muito rentável, o queijo, o doce, a manteiga, nada mais são do que formas de se armazenar e consumir o leite por mais tempo. E se temos um leite de qualidade, com certeza teremos um produto bom. É preciso assegurar as boas práticas para garantir qualidade, confiança, evitar desperdícios e reduzir custos”.

“Acredito que momentos como este são importantes para a gente ver o que daquele conhecimento que aprendemos com os nossos avós, permanece vivo e o que precisa ser aprimorado nas nossas receitas. Sabemos que naquela época, não havia facilidades como a geladeira, o freezer, então hoje precisamos ver como sempre melhorar a nossa produção para continuar oferecendo um produto de qualidade, saudável e que protege a nossa saúde, tanto da nossa família como das pessoas que estão comprando esses alimentos nas feiras”, afirmou Gizelda Beserra, liderança do município de Remígio e da Coordenação do Polo da Borborema.

No segundo dia de evento, Adriana Galvão Freire, assessora técnica do Núcleo de Saúde e Alimentação da AS-PTA, provocou as mulheres com a seguinte questão: “de tudo que vimos no dia de ontem, a respeito dos cuidados com os derivados do leite, o que é comum a todos os tipos de beneficiamento?” A pergunta suscitou um debate sobre as normas e padrões sanitários e a importância do compromisso com a qualidade da produção enquanto rede de agricultoras que comercializam nas 12 feiras agroecológicas do território. “Nos momentos de formação nós vamos sempre relembrar esses cuidados, para garantir que não deixem de ser hábitos na nossa produção”, completou Adriana.

Maria Elizabeth Ananias, do Sítio Xique-xique, em Remígio-PB, lembrou da importância de não misturar os utensílios do preparo dos alimentos com os dos outros usos da casa: “Não podemos usar as bacias da lavagem e do corte da mandioca para preparar frango ou lavar roupa, por exemplo, cada coisa deve ser separada”.

Ligória Felipe dos Santos, do Sítio Lagoa do Sapo, em Esperança-PB, falou sobre como o beneficiamento a ajudou a evitar o desperdício: “Não se perde mais nada. O tomate cereja que produzo, eu vendo os mais bonitos e os que sobram, que antes iam para o lixo, hoje eu transformo no molho ao sugo, que eu já não preciso mais comprar”. Dona Maria de Fátima Alves Clementino, do Sítio Timbaúba, também em Esperança, vende coco ralado nas feiras livres do município e diz que do coco nada se perde: “Vendo o coco ralado, a água, as quengas e o bagaço como adubo”. Ela comenta ainda que o cuidado com a higiene é um diferencial da sua produção: “Tenho muito cuidado com a higienização do coco, para que os pelinhos não caiam na polpa, é preciso também estar sempre limpando o moedor, para não juntar sujeira e contaminar o produto que pode azedar”, explica.

Em seus relatos, as mulheres afirmam que o beneficiamento tem sido um fator importante na geração de renda e no desenvolvimento de talentos. “Eu amo fazer meus bolos e doces, na minha cidade tem quatro fábricas de bolos, mas o meu diferencial é a calda fresquinha que acompanha cada bolo. Coloco no centro do bolo, de acordo com os sabores e o gosto do cliente. A que sai mais é o bolo de cenoura com calda de chocolate. No momento ainda uso o leite condensado, mas estou me preparando para usar só o mel de abelhas que é mais saudável”, conta a agricultora Maria Glória Alves de Sousa, do Sítio Campos, em Montadas-PB, que faz bolos por encomendas.

Já Zélia Quaresma dos Santos conta que nunca deu fim à pequena plantação de cana-de-açúcar que seus pais tinham. Antigamente vendia apena a cana, mas desde que entrou para a feira agroecológica de Esperança há sete anos, passou a vender o caldo de cana e foi agregando outros produtos: “Fiz um empréstimo e comprei a moenda, no começo levava só o caldo de cana e os bolos, depois juntou o café e os chás, para o período que é mais frio. Com essa renda da feira, já estou construindo uma casa para mim no Sítio da minha família”.

“Esse trabalho tem ajudado também aos nossos companheiros a reconhecerem o trabalho que a gente faz, porque antigamente se dizia que a gente só ‘ajudava’, o que se vendia ia só para o bolso do marido. Hoje essa venda dos produtos é uma renda nossa, isso traz a nossa autoestima, por estarmos tendo o nosso próprio dinheiro”, avalia Marlene Pereira, agricultora feirante e liderança do município de Lagoa Seca e da coordenação da EcoBorborema.

Finalizando o Seminário, as mulheres falaram sobre a marca do Roçado, que identifica os produtos da agricultura familiar da Borborema e da importância da padronização e a boa apresentação dos produtos. Em grupos de cochicho debateram sobre as questões: “Como poderíamos aumentar a venda dos produtos beneficiados?”, “O que precisamos fazer para vender em pontos fixos?” e “Como juntas podemos garantir a qualidade dos nossos produtos?”. Divulgação dos produtos, união e organização do trabalho, as boas práticas e um sistema de garantia da boa produção foram aspectos relevantes no debate. Uma mística final selou o compromisso das mulheres na construção de uma rede de unidades caseiras de beneficiamento de alimentos e o grupo saiu entusiasmado para o próximo encontro que, muito provavelmente, já será na Cozinha Escola, no Centro de Formação em Lagoa Seca.

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