julho 2020 – AS-PTA http://aspta.org.br Fri, 05 Feb 2021 13:07:05 +0000 pt-BR hourly 1 Agricultura familiar orgânica e agroecológica é qualidade de vida no campo e saúde da mesa da população http://aspta.org.br/2020/07/31/agricultura-familiar-organica-e-agroecologica-e-qualidade-de-vida-no-campo-e-saude-da-mesa-da-populacao/ http://aspta.org.br/2020/07/31/agricultura-familiar-organica-e-agroecologica-e-qualidade-de-vida-no-campo-e-saude-da-mesa-da-populacao/#respond Fri, 31 Jul 2020 12:36:02 +0000 http://aspta.org.br/?p=18154 Leia mais]]> Com a chegada da pandemia, tanto a comercialização da agricultura familiar quanto o abastecimento alimentar foram afetados. Para mitigar essa situação, redes de solidariedade têm se formado em diversas regiões do Brasil, levando comida de verdade e livre de veneno do campo para a cidade. Essas ações têm amenizado os impactos da Insegurança Alimentar para muitas famílias. Mas o fortalecimento da agricultura familiar e a democratização do acesso aos alimentos saudáveis deve ser permanente. Esse é um papel principalmente do Estado, mas também pode ser incentivado através das nossas escolhas de consumo.

O vídeo trata sobre como a população pode contribuir com as famílias agricultoras e o fortalecimento da agroecologia e agricultura orgânica.

Sua realização é uma parceria entre Cepagro, Centro Vianei (SC), AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia (PR) e CETAP (RS) por meio do projeto Misereor em Rede. Um dos objetivos do projeto é fomentar as redes territoriais e organizações da agricultura familiar orgânica e agroecológica.

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Comida de Verdade: seminário lança Ação Coletiva para mapeamento de experiências de abastecimento alimentar pelo Brasil http://aspta.org.br/2020/07/29/comida-de-verdade-seminario-lanca-acao-coletiva-para-mapeamento-de-experiencias-de-abastecimento-alimentar-pelo-brasil/ http://aspta.org.br/2020/07/29/comida-de-verdade-seminario-lanca-acao-coletiva-para-mapeamento-de-experiencias-de-abastecimento-alimentar-pelo-brasil/#respond Wed, 29 Jul 2020 19:45:54 +0000 http://aspta.org.br/?p=18151 Leia mais]]> Iniciativa é composta por organizações nacionais e internacionais, academia e sociedade civil 

O abastecimento alimentar enquanto expressão dos caminhos que levam a semente ao prato de todos nós. “Covid-19 e sistemas agroalimentares no Brasil: quais as saídas para um futuro melhor?”. Este é o tema-horizonte do seminário que será realizado nesta sexta-feira, 31 de julho, das 17h às 19h, para marcar o lançamento da “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia”. Trata-se de uma iniciativa de abrangência nacional conduzida por uma articulação de treze organizações comprometidas com a promoção da soberania e segurança alimentar e nutricional, bem como a realização do direito humano à alimentação adequada e suas dimensões indissociáveis: estar livre da fome com acesso a uma alimentação saudável.

Tendo a ecologia de saberes como princípio e a centralidade das experiências em agroecologia como um campo político e científico, ancorado em práticas sociais, a Ação Coletiva terá seu lançamento a partir de diálogo realizado entre o coordenador executivo da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, Paulo Petersen; a docente da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional, Elisabetta Recine; a dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores do Piauí, Maria Kazé; e o jornalista e fundador do “O Joio e O Trigo”, João Peres.

O diálogo será mediado pela pesquisadora Pós-Doc no Programa de Pós-Graduação e Desenvolvimento Regional da Universidade de Santa Cruz do Sul, Potira Preiss e pelo consultor da Aliança Global para o Futuro da Alimentação, Matheus Zanella. Será inspirado pelas palavras da professora ativista indígena do povo Xakriabá, Célia Xakriabá e terá ambientação cultural do músico percussionista, cantor e compositor afro-recifense, Negro Grilo.

Transmitido pelas redes sociais da Ação Coletiva Comida de Verdade, o seminário será o primeiro de uma série a ser realizada com o intuito de fomentar o debate público, político e acadêmico sobre os impactos do coronavírus nas condições de produção e acesso aos alimentos adequados e saudáveis no Brasil, bem como identificar e compreender as experiências de abastecimento alimentar protagonizadas por movimentos sociais do campo e da cidade, organizações populares e coletivos formais ou informais que têm garantido que a comida de verdade chegue à população.

Para Potira Preiss, coordenadora executiva da Ação Coletiva Comida de Verdade, os seminários representam uma oportunidade de compartilhamento de saberes. “Pretendemos aprofundar as reflexões e trocas entre atores diversos que protagonizam, articulam e estudam os sistemas agroalimentares, sejam aqueles que estão na frente da produção e comercialização enfrentando os desafios que a pandemia traz, as organizações que exercem papel fundamental em facilitar o fluxo dos alimentos entre o campo e a cidade, ou mesmo os estudiosos que se dedicam a compreender os impactos sociais e políticos do que está acontecendo. Dessa forma, pretendemos colher os diversos saberes e olhares, contribuindo assim para qualificar o  debate sobre o tema, mas também a busca de soluções conjuntas”, afirma Preiss.

Mapeamento e Sistematização

Comida de verdade é alimento com memória, cultura e afeto. Alimento que em sua trajetória produz vida, igualdade e justiça. Um poderoso prisma cultural que revela as identidades e os modos de vida de um povo. Não à toa, pesquisas e experiências que resguardam a alimentação como direito humano revelam a importância da agroecologia, do acesso à terra a povos indígenas e tradicionais e à territorialização das dinâmicas de abastecimento para a prevenção de todas as formas de má nutrição, da fome à obesidade, bem como para o fortalecimento das ações e políticas de soberania alimentar.

Por isso, de acordo com Elisabetta Recine, membro do Comitê Gestor da Ação Coletiva Comida de Verdade, os processos de mapeamento e sistematização contribuirão para compreender como as experiências podem apontar caminhos para a construção e o fortalecimento de sistemas agroalimentares equitativos e sustentáveis. “As urgências criadas pela pandemia também deram visibilidade e fortaleceram várias iniciativas locais de produção saudável e sustentável que responderam de maneira ágil às necessidades das comunidades e pessoas. Estas iniciativas, tanto de comercialização como de doações, também geraram a oportunidade de cada pessoa contribuir com algo bom e justo diante de tantas notícias trágicas. E, acima de tudo, evidenciam a capacidade que estas formas de produção e abastecimento têm de garantirem a segurança alimentar e nutricional da nossa população”, explica Recine.

Além de Potira Preiss e Elisabetta Recine, a Ação Coletiva Comida de Verdade reúne uma ampla e potente equipe de pesquisa, sistematização, articulação e comunicação, que atuará em todo o país no sentido de dar visibilidade às experiências em curso e fomentar reflexões sobre as transformações que impulsionam os sistemas agroalimentares. Cada região do Brasil contará com o apoio de um/a articulador/a para impulsionar os diálogos e a identificação das experiências de abastecimento alimentar.

As experiências mapeadas serão cadastradas na plataforma  Agroecologia em Rede (AeR), um sistema integrado de informações sobre iniciativas de agroecologia e que reúne mais de 1.600 experiências de base popular e agroecológica. Desde 2018 o AeR passa por um intenso processo de atualização e reestruturação, com apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e gestão da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia).

Organizações

A “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia” é composta pela ActionAid Brasil, Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Ceresan/UFRRJ), Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), Grupo de Estudos em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (Gepad), Instituto Ibirapitanga, Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional (Opsan/UnB), Observatório de Desenvolvimento Regional (Observa DR), Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial (Rete), Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PenSSAN).

 

Serviço

Lançamento da “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia”
Dia 31 de julho, sexta-feira, das 17h às 19h
Facebook: https://www.facebook.com/acaocoletiva.comidadeverdade
E-mail: contato@acaocoletivacomidadeverdade.org
Site: https://acaocoletivacomidadeverdade.org/

Texto: Priscila Viana
Arte: Patrícia Nardini
Assessoria de Comunicação | Ação Coletiva Comida de Verdade

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Projeto da ASA e Embrapa abre caminho para criação de sistema de monitoramento da contaminação do milho crioulo http://aspta.org.br/2020/07/27/projeto-da-asa-e-embrapa-abre-caminho-para-criacao-de-sistema-de-monitoramento-da-contaminacao-do-milho-crioulo/ http://aspta.org.br/2020/07/27/projeto-da-asa-e-embrapa-abre-caminho-para-criacao-de-sistema-de-monitoramento-da-contaminacao-do-milho-crioulo/#respond Mon, 27 Jul 2020 12:14:51 +0000 http://aspta.org.br/?p=18147 Leia mais]]> No país onde não há estratégia do Estado para evitar que milhos tradicionais virem transgênicos, atuação da sociedade civil é essencial na defesa da segurança alimentar de todos e da autonomia das famílias agricultoras.

Nas plantações de milho do Brasil, a contaminação das variedades crioulas pela transgenia – anunciada pela primeira vez em um veículo de comunicação em 2009, um ano após a liberação do cultivo comercial do milho transgênico no país – acontece em proporções cada vez maiores em todas as regiões. Inclusive, no Semiárido que concentra 4 em cada 10 estabelecimentos da agricultura familiar do Brasil e onde o avanço da agricultura convencional não foi observado de forma tão agressiva como em outras regiões devido o desafio da escassez de água.

Como no Brasil o plantio de transgênico foi liberado com fragilidades nos sistemas de biossegurança e sem  medidas eficazes para evitar o que está acontecendo, tanto quem planta, quanto quem consome o milho, base da alimentação nacional, é quem amarga prejuízos, inclusive para a saúde pública, uma vez que os cultivos transgênicos recebem uma carga acentuada de agrotóxicos, que promovem um rastro de contaminação do meio ambiente – solo, terra, ar, animais e seres humanos.

“Não existe política de biossegurança no país e, por isso, há uma inversão do ônus do custo. Nunca foram eles (as empresas transnacionais que desenvolvem as sementes geneticamente modificadas) que tiveram que provar a segurança no uso das sementes transgênicas. Somos nós que temos que provar que os 100 metros de distanciamento entre as lavouras transgênicas e as de milhos crioulos não funciona, nem tem base científica. Somos nós que temos que assumir o custo de implementação de um sistema de monitoramento da contaminação pelo descompromisso dos governos”, sentencia Gabriel Fernandes, do GT de Biodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), na quinta-feira passada (16), na oficina virtual “Contaminação do milho crioulo por transgênicos: desafios atuais e futuros para análise e monitoramento da contaminação”.

Com mais de 50 participantes de várias partes do país e ligados a diversas áreas – pesquisa, ensino, sociedade civil e governo – a oficina foi promovida pelo projeto Agrobiodiversidade do Semiárido, desenvolvido pela ASA e Embrapa em cinco estados (SE, BA, PE, PB e PI) e sete territórios do Semiárido. O projeto é um dos componentes do Programa Inova Social, realizado pela Embrapa, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e apoio da Fundação Eliseu Alves (FEA).

“O objetivo da oficina era discutir as falhas apresentadas nos testes de transgenia por fita, que geraram insegurança e dúvida quanto a sua eficácia”, contou Luciano Silveira, agrônomo da organização ASPTA que faz parte da Articulação Semiárido (ASA), e consultor desta rede para as ações relacionadas às sementes crioulas. Segundo Luciano, a conclusão da oficina reverteu este sentimento. “O seminário retoma a legitimidade e relevância com o caminho mais viável de fazer os testes [de fita]. A hipótese mais provável para as falhas são fragilidades no processo de coleta das amostras. Isso foi uma conclusão importante porque as fitas são mais acessíveis, em que pese serem caras, e também por permitirem um processo mais pedagógico porque os testes podem ser feitos com as famílias agricultoras junto, é um teste descentralizado”, acrescenta o agrônomo que também faz parte do Grupo de Trabalho de Agrobiodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia, um importante fórum de debate de estratégias para proteção das sementes crioulas no Brasil.

Até então, os testes de fitas foram usados pelo Programa Sementes do Semiárido, executado pela ASA de 2015 a 2019, para acompanhar o índice de contaminação do milho crioulo das comunidades atendidas pela ação e também estão sendo usados pelo projeto Agrobiodiversidade para averiguar 2,1 mil amostras de milho crioulo que dariam origem aos campos de multiplicação, previstos nesta ação.

Para o professor Rubens Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina, um dos participantes da oficina, o teste de fita é preciso. “O problema é na amostragem. Um teste que avalia a presença de proteína é robusto. Há fitas que detectam se as amostras tem 1% de contaminação. Já detectamos com até 0,5%. Se é realizada um teste para um lote de sementes, essa quantidade vai ter que subir para 10 testes. Vai ter que aumentar o custo das análises de contaminação”, afirma ele.

Os encaminhamentos da oficina apontaram para a necessidade de aperfeiçoar os métodos de coleta e amostragem das sementes que que serão submetidas ao teste.

Outro objetivo da oficina foi estreitar o diálogo e fortalecer a contribuição dos laboratórios de sementes junto ao Projeto Agrobiodoversidade.  Para tanto a oficina contou com Regina Sartori técnica do Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA) do Ministério da Agricultura (MAPA).  A estratégia do Projeto Agrobiodiversidade é favorecer que os laboratórios da Embrapa possam prestar serviços de identificação da contaminação por transgenia dos milhos crioulos. “É preciso ampliar a rede laboratorial habilitada para que estes testes sejam oferecidos no serviço público, no futuro, de forma mais acessível e com maior precisão nos resultados. Exatamente, pela situação de vulnerabilidade que as sementes crioulas e famílias que conservam ficam expostas pela ausência de uma participação mais efetiva do estado brasileiro atuando para proteger e conservar este material genético limpo e saudável”, acrescenta Silveira.

Esta investida rumo à rede de laboratórios da Empresa Pública de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) responde a uma das intenções do projeto Agrobiodiversidade do Semiárido, que é aproximar a pesquisa das demandas dos agricultores familiares. “Podemos aliar a demanda dos agricultores às respostas possíveis por meio da pesquisa, ampliando escala e reduzindo custos para monitorar a contaminação das sementes crioulas e definir estratégias de proteção e conservação dessas sementes tão valiosas”, assegura Paola Cortez, pesquisadora da Embrapa e coordenadora do projeto Agrobiodiversidade do Semiárido.

É bom ressaltar que a contaminação das sementes de milho é um fenônemo sem volta. Irreversível. “Havendo contaminação, se perde a semente. A planta tem de 30 a 40 mil genes. Como separar o gene comprometido diante desta complexidade?”, acentuou o professor Nodari, explicando que a contaminação do milho se dá tanto pela polinização no ar quanto pela mistura de sementes. “Uma semente que esteja contaminada, sendo plantada, dá origem a um pé de milho que gera milhares de polens”, diz ele.

Luciano Silveira destaca que a contaminação das sementes crioulas não causa prejuízos só para as famílias que plantavam aquela variedade há gerações. Para elas, uma perda forte que, pelo significado que estas sementes têm para suas guardiãs e seus guardiões, tem o impacto da perda de uma pessoa da família. A contaminação das sementes tradicionais representa um prejuízo enorme, que alcança várias dimensões, uma delas junto às políticas de proteção e multiplicação das sementes crioulas, como a modalidade de compra de sementes pelo Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA Sementes, que só adquire variedades crioulas. Esta perda do material genético limpo põe em risco as próprias políticas, elaboradas e construídas a partir de muito esforço e luta da sociedade civil organizada.

Por tudo isto, Luciano ressalta repetidas vezes a importância da implantação no Brasil de um sistema de monitoramento da contaminação por transgênicos que tenha escala e garanta, no mínimo, que as famílias agricultoras, as organizações de apoio à agricultura familiar e os programas públicos possam se servir de um conjunto maior de serviços que possibilitem condições mínimas para o monitoramento da contaminação O sistema de monitoramento é essencial, também, para a construção de uma estratégia mais precisa e eficiente de proteção das sementes de milho em todos os territórios do Brasil. Afinal, o direito à alimentação saudável e segura é um direito básico humano e está garantida no artigo 6 da Constituição Federal. Um direito que segue sendo violado por quem tem o dever constitucional de proporcioná-lo, o Estado brasileiro. Daí, a relevância da luta das organizações da sociedade civil e populares receber apoio de todos os brasileiros e brasileiras.

Por Verônica Pragana – Asacom
www.asabrasil.org.br

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“Estamos plantando as sementes das sementes crioulas”  http://aspta.org.br/2020/07/13/estamos-plantando-as-sementes-das-sementes-crioulas/ http://aspta.org.br/2020/07/13/estamos-plantando-as-sementes-das-sementes-crioulas/#respond Mon, 13 Jul 2020 18:02:32 +0000 http://aspta.org.br/?p=18137 Leia mais]]>
Foto: Leo Drumond/Arquivo ASA

Qual a escala dos danos causados pela liberação desenfreada dos transgênicos no país? As empresas alegam que as sementes transgênicas são tão seguras quanto as convencionais. Os órgãos reguladores limitam-se a confirmar esse ponto de vista, transmitindo para a sociedade uma suposta sensação de segurança. O fato é que a contaminação das variedades crioulas de milho cresce a cada dia, irradiando impactos negativos sobre a vida e a história dos guardiões que preservam essas sementes e de suas comunidades, afetando o princípio da partilha, que anima feiras e festas de sementes por todo o país. A contaminação das sementes crioulas ameaça também o ciclo da produção e do consumo de alimentos saudáveis, chegando mesmo a bloquear a execução de políticas públicas estaduais e federais voltadas para a agricultura e a alimentação. Segundo relatório da Embrapa, a área estimada para a próxima safra de milho no país é de 16 milhões de hectares, 93% dos quais deverão ser semeados com cultivares transgênicas. Essa nova safra pode representar um novo ciclo de ameaças ao patrimônio genético e alimentar, caso a omissão prevaleça nas instâncias governamentais, o Ministério Público não intervenha urgentemente e as empresas do agronegócio continuem ditando a regra.

Para entender como ocorreu a contaminação do milho crioulo no estado e também para debater as potencialidades dos programas públicos de compra de sementes crioulas para o fortalecimento da agricultura familiar e a promoção da segurança alimentar, conversamos com Ivi Dantas, agrônoma do Centro Feminista 8 de Março (CF8), e com Alexandre Lima, secretário de Agricultura Familiar do estado do Rio Grande do Norte (Sedraf). Confira como foi essa conversa realizada por telefone.

BoletimComo as sementes crioulas têm sido manejadas pela agricultura familiar no estado?

Ivi Dantas – O trabalho do CF8 está na região oeste do Rio Grande do Norte, principalmente com as mulheres e seus quintais. É uma região muito rica em termos de articulação social e política. A pauta das sementes tem permeado todo esse processo e está presente nos encontros regionais e estaduais para trocas e aprendizados sobre as sementes crioulas. Aqui temos uma grande diversidade de variedades crioulas de milho, feijão macassa, sorgo, arroz vermelho e cajueiro, adaptadas ao semiárido. Todas essas espécies fazem parte do programa do estado.

BoletimComo foi construída a experiência do PAA sementes no estado e quais as motivações para implementar essa política de compra de sementes da agricultura familiar?

Alexandre Lima – A construção de um programa de sementes crioulas era proposta que já fazia parte do programa de governo da Fátima Bezerra. Entendemos que o tema da agrobiodiversidade é parte central de uma estratégia para o desenvolvimento rural. No primeiro ano de governo, já criamos então o Programa Estadual de Sementes Crioulas. Nossa principal inspiração foram as ações com sementes já desenvolvidas pela Articulação do Semiárido (ASA). Hoje são 74 casas de sementes no estado, que foi por onde começamos. Em paralelo, a Sedraf enviou projeto para concorrer ao edital nacional do PAA Sementes em parceria com a cooperativa Coofarn e organizações ligadas à ASA. Aprovamos proposta no valor de 492 mil reais. A Funai também aprovou projeto neste edital, e os dois projetos juntos chegaram a 60 toneladas de sementes. O passo seguinte foi iniciar um amplo processo de discussão com a sociedade civil para definir as espécies que entrariam e mobilizar as comunidades para multiplicar as sementes, considerando que o inverno, período chuvoso, já havia passado. Metade das sementes demandadas já estava em estoque com as famílias agricultoras. A Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa) e a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uergn) entraram na parceria e apoiaram atividades de formação sobre qualidade de sementes. A Ufersa realizou os testes de pureza, germinação e vigor das sementes e a universidade estadual fez os testes de transgenia no milho. As organizações da sociedade civil montaram uma rede de 23 campos de multiplicação de sementes, distribuídos em 13 municípios dos cinco territórios do estado, garantindo, pelo menos, 30% de participação de mulheres.

Boletim – Quais foram os principais desafios para a execução da política?

Ivi Dantas – Fácil nunca é, mas as pessoas aceitaram bem a proposta, pois já havia um processo de resgate das sementes a partir dos trabalhos da ASA. Os preços pagos pelas sementes eram justos e isso animou os agricultores e também as pessoas que iriam receber as sementes. Junto com o GT Biodiversidade da ASA, as organizações da sociedade, o poder público e as comunidades começamos a identificar onde havia volume de sementes, porque sabíamos que havia sementes domésticas, mas não sabíamos os volumes. A universidade apoiou os processos de formação. Depois veio o desafio de montar os campos de multiplicação, pois precisávamos aumentar o volume de sementes e as áreas de plantio precisavam ser irrigadas porque o inverno já tinha passado.

Alexandre Lima – O principal desafio foi já começar com um volume grande de 60 toneladas de sementes. Dificilmente teríamos conseguido implementar a ação sem a parceria com as organizações da ASA. A Secretaria ofereceu equipe para o apoio técnico.

Boletim – Como se deu a descoberta de que o milho estava contaminado? O que isso representou para as comunidades, tanto possíveis prejuízos econômicos quanto para o engajamento social e político?

Foro: Helena Rodrigues

Alexandre Lima – Foram cadastradas no MAPA 05 variedades de feijão macassa, 03 de milho, 01 de sorgo, 01 de arroz vermelho e 01 de caju (castanha), sendo que o milho foi testado antes de ser plantado nos campos de multiplicação. Em algumas das oficinas territoriais realizadas na etapa de mobilização, já foi possível detectar sementes contaminadas. Só foram plantadas sementes que deram negativo para a presença de transgênicos. Então a gente tinha uma certa garantia de isolamento porque, além dos testes prévios, os plantios foram feitos na entressafra, ou seja, na ausência de lavouras vizinhas. Não era de se esperar que a contaminação aparecesse nas sementes colhidas. Mas os resultados das análises moleculares feitas pelo laboratório do Ministério da Agricultura, em Goiás, apontaram um número grande de amostras contaminadas por transgênicos. Não conseguimos chegar na meta prevista que era de 15 toneladas de sementes de milho. A grande maioria do milho não foi comprada, uma vez que a Conab não compra semente contaminada por transgênico. Foi uma grande surpresa, porque mesmo as sementes de guardiões históricos e reconhecidos por suas caminhadas como defensores das sementes apareceram contaminadas.

Ivi Dantas – Esse foi de fato o momento mais dramático de todo o processo. As sementes que apareceram contaminadas nas atividades de formação já tinham sido descartadas. Fizemos os testes de fita. Foi uma situação muito delicada e difícil para nós que acompanhamos os grupos, e mais ainda para quem produz e acreditava que tinha uma semente crioula livre de transgênicos. Teve um campo de multiplicação das mulheres que também apareceu contaminado, quando a amostra foi enviada para o laboratório do MAPA. Foi bem difícil dar a notícia para elas, são muitas frustrações. Foram longos meses de dedicação. Era uma área coletiva, onde as mulheres iam de manhã e de tarde e se dedicavam ao manejo, irrigação, limpeza da área e a manutenção das cercas. Foram meses de trabalho dessas mulheres. E havia ainda a expectativa de geração de renda, pois era uma comercialização certa. No final de tudo, as sementes que você guardava há tantos anos acreditando que estava guardando e se alimentando de um alimento saudável vira um conjunto de incertezas. Pode ter acontecido algum problema com o teste da fita, mas nossa avaliação é que a maior probabilidade é que o teste da fita que a gente encontra no mercado não faz análise de todos os eventos transgênicos que estão presentes no estado.

Boletim – Depois dessa experiência mudou a avaliação em relação à importância de políticas de compras públicas de sementes crioulas?

Ivi Dantas – Consideramos que a política pública é necessária e eficiente, inclusive para superar as dificuldades identificadas. Estamos cultivando as sementes que não foram contaminadas e que puderam ser distribuídas. Estamos plantando as sementes das sementes crioulas. O sentido da política é alcançar mais pessoas e fazer multiplicações e distribuições ainda mais amplas no estado.

Alexandre Lima – Isso deixou muito claro que algo precisa ser feito. Não podemos simplesmente aceitar a situação, porque isso significa colocar em risco a diversidade genética da nossa alimentação, que foi historicamente produzida pelas famílias agricultoras do Rio Grande do Norte. Estamos buscando parcerias para entender melhor o problema e definir que tipo de solução o estado deve adotar. A determinação política está dada e é agir no sentido de proteger essas sementes. O problema já está diagnosticado, temos agora que traçar as alternativas para proteger essas variedades.

Foto: Edson Silva

Boletim – Que aprendizados ficam?

Alexandre Lima – A expectativa das famílias para vender sementes é grande. O potencial para ampliar a aquisição de sementes também. Além disso, as análises de pureza, germinação e vigor feitas pelos laboratórios credenciados pelo MAPA confirmaram a qualidade das sementes crioulas. São sementes que estão dentro dos mesmos parâmetros que as sementes que as empresas fornecem. Não deixam nada a desejar em relação àquilo que as empresas fazem. Isso está demonstrado. Vamos continuar com esse Programa. Novo edital para compra pública de sementes será lançado este ano. Também vamos continuar trabalhando com a ideia de que cada território produz a sua semente. É uma espécie de circuito curto, porque as variedades cultivadas em cada território são diferentes. As sementes são distribuídas nos próprios territórios onde foram produzidas. Não são levadas de um território para outro.

Ivi Dantas – O principal aprendizado foi a construção coletiva entre sociedade civil e poder público. Isso precisa ser reconhecido e valorizado, especialmente quando lutamos tanto para a construção conjunta das políticas públicas. Tivemos várias organizações envolvidas, a Coofarn, instituição compradora, é uma cooperativa central que comprava de outras cooperativas menores. Isso demonstra a fortaleza da política. É muito importante também que as políticas garantam participação mínima das mulheres, porque seu trabalho nos roçados ainda é muito invisibilizado. Há uma narrativa muito forte de que semente não é o que você tem, mas o que você compra. É a ideia da produtividade. Pra enfrentar isso, é fundamental o envolvimento das pessoas nas comunidades para entender os sentimentos de cada um e a importância da manutenção e do resgate das sementes.

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