Boletim 383 – 07 de março de 2008

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POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS

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Número 383 – 07 de março de 2008

Car@s Amig@s,

No Boletim 379  divulgamos que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) haviam reclassificado os herbicidas à base de glifosato para “altamente tóxico”. Ao que tudo indica não procede a informação, obtida em artigo de um professor da Universidade de Buenos Aires.

Contudo, deve-se ressaltar que o glifosato não é aplicado puro nas lavouras. O Roundup (nome comercial do herbicida da Monsanto) é uma combinação do glifosato com outros químicos, incluindo um surfactante (detergente), que aumenta a difusão das gotas do produto nas folhas das plantas.

No caso das plantas transgênicas tolerantes ao herbicida (Roundup Ready), as moléculas do produto devem entrar na planta para agir. Esse herbicida não é destruído na planta, mas na maioria dos casos é neutralizado pela ação de uma enzima. Assim, o herbicida entra na cadeia alimentar, coisa que não acontecia antes, uma vez que as plantas tratadas morriam.

Um estudo epidemiológico com agricultores de Ontário (Canadá) mostrou que a exposição ao glifosato quase dobrou o risco de abortos espontâneos precoces. O Prof. Eric-Giles Seralini (da Universidade de Caen, na França) e sua equipe deram seqüência a essas evidências e mostraram que o glifosato é tóxico para as células placentárias humanas, matando uma grande porção destas após 8h de exposição em concentrações inferiores às utilizadas na agricultura. Além disso, o Roundup é sempre mais tóxico do que seu ingrediente ativo, o glifosato — no mínimo duas vezes mais. O efeito aumentou com o tempo, e foi obtido com concentrações do Roundup 10 vezes menores do que as utilizadas na agricultura (Richard, 2005).

Novas pesquisas mostram que breves exposições ao glifosato comercial causaram danos no fígado de ratos. Nesse estudo, o glifosato e o surfactante agiam em sinergia para aumentar os danos ao fígado (Benedetti et al., 2004).

É nesse contexto que a reavaliação toxicológica que começa a ser promovida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária / Ministério da Saúde) ganha destacada relevância. Até novembro, 14 ingredientes ativos de agrotóxicos serão reavaliados. Entre eles aparecem produtos como o inseticida endosulfan, proibido na União Européia, o herbicida paraquat, que já foi associado ao aumento dos riscos de desenvolvimento de mal de Parkinson e o herbicida glifosato. No caso do veneno usado na soja transgênica, a Monsanto já solicitou a revisão da dose de ingestão diária aceitável, propondo que este seja ampliado.

Ou seja, a empresa que prometia um menor uso de herbicidas agora pede mudanças nas regras para que a população coma mais veneno. A Secretaria de Agricultura do Paraná divulgou dados informando que entre 2003 e 2006 aumentou em 97% o resíduo de glifosato na soja transgênica colhida no estado. Também o Ibama informa que “para cada quilo de princípio ativo [de herbicida] reduzido no RS, houve um aumento de 7,5 kg de glifosato no período de 2000 a 2004, época de expansão da área da soja RR”.

O uso de herbicida na soja RR é crescente. Já foram documentadas 13 espécies de plantas espontâneas resistentes ao glifosato (www.weedscience.org), sendo sua maior parte em áreas cultivadas com plantas transgênicas resistentes ao produto.

Se nem OMS nem EPA usaram esses dados para atualizar a classificação do glifosato, que o Brasil seja o primeiro a fazê-lo. Mas será fundamental que a sociedade esteja atenta para que o interesse público fale mais alto que a politicagem dos ruralistas.

A Agência Estado revelou que Dirceu Raposo de Melo foi reconduzido em tempo recorde à direção da Anvisa em triangulação que envolveu o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e a senadora Kátia Abreu (DEM-TO). A ruralista ameaçou pedir vista do processo de nomeação e, para não atrasá-lo, cobrou rapidez na liberação de agrotóxicos genéricos, como os produzidos na China. Chinaglia organizou então café-da-manhã em sua casa chamando Kátia Abreu e também o ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO). Após o encontro o nome de Raposo de Melo foi aprovado. Logo depois da sessão que confirmou seu nome, Melo ligou para Caiado combinando nova reuião.

Como se vê, corremos o risco de vermos as normas sobre agrotóxicos serem afrouxadas pela ação de ruralistas, ao invés de reavaliadas de maneira rigorosa e transparente de modo a proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente. A ação vigilante da sociedade civil é fundamental e urgente.

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Neste número:

1. Via Campesina ocupa Monsanto e destrói experimentos transgênicos em SP e no Rio de Janeiro denuncia crime da Syngenta
2. Limagrain retira testes de campo com transgênicos da França
3. Agricultores pedem moratória européia aos transgênicos
4. Semana do Consumidor – participe!
5. Mulheres da Via Campesina ocupam área ilegal da Stora Enso no RS 

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Pecuária orgânica na Zona da Mata mineira

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1. Via Campesina ocupa Monsanto e destrói experimentos transgênicos em SP e no Rio de Janeiro denuncia crime da Syngenta

As mulheres da Via Campesina ocuparam uma unidade de pesquisa biotecnológica da empresa americana Monsanto e destruíram um viveiro e o campo experimental de milho transgênico, em Santa Cruz das Palmeiras (na altura do km 229 da Anhanguera), no interior de São Paulo, na manhã desta sexta-feira (07/03).

A Via Campesina protesta contra a liberação de duas variedades de milho transgênico pelo Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS). O governo Lula cedeu às pressões das empresas do agronegócio e liberou, em fevereiro, o plantio e comercialização das variedades Guardian (da linhagem MON810 da Monsanto) e a Libertlink (da alemã Bayer).

A manifestação faz parte da Jornada Nacional de Lutas da Via Campesina, que já mobilizou cinco estados contra o agronegócio. Em 2001, o Greenpeace já havia realizado um protesto nessa mesma área onde havia plantio ilegal de milho geneticamente modificado.

Nesta sexta-feira, cerca de 100 trabalhadoras rurais fizeram um ato em frente ao consulado da Suíça no Rio de Janeiro denunciando o assassinato de um agricultor do MST pela empresa de segurança contratada pela Syngenta. Uma delegação de agricultoras entregou uma carta ao cônsul pedindo que o governo suíço se empenhe para que a Syngenta seja responsabilizada e cumpra as leis brasileiras. O cônsul acionou a embaixada em Brasília e se comprometeu a encaminhar o documento ao governo suíço.

Ao sair do consulado a manifestação se dirigiu à Delegacia do Ministério da Agricultura, que foi ocupada pelas mulheres em denúncia à irresponsabilidade do governo de liberar o milho transgênico.

Fonte:
Assessoria de Imprensa do MST, 07/03/2008 e AS-PTA.

Saiba mais sobre as mobilizações em: http://www.mst.org.br/mst/especiais.php?ed=62

2. Limagrain retira testes de campo com transgênicos da França

A Limagrain, a maior cooperativa de sementes da Europa, declarou na última semana que transferiu seus testes de campo com transgênicos da França para os Estados Unidos devido à hostilidade aos transgênicos na França e à destruição de campos de teste por ativistas.

O presidente da empresa, Pierre Pagesse, disse que a Biogemma, a unidade de pesquisa da Limagrain sobre grãos e sementes oleaginosas, levaria cerca de mil testes com transgênicos este ano para Illinois, no cinturão de milho americano. A Limagrain detém 70% da Vilmorin, a quarta maior produtora de sementes do mundo.

Em dezembro último a França decidiu suspender o cultivo da única variedade transgênica autorizada na Europa, o milho da Monsanto MON 810, depois que um comitê de especialistas indicado pelo governo concluiu que ainda pairam sérias dúvidas sobre a sua segurança.

Fonte:
Reuters, 28/02/2008.

http://www.guardian.co.uk/feedarticle?id=7344682

N.E.: O milho MON 810 é uma das duas variedades transgênicas recentemente autorizadas no Brasil. Além da França, a Áustria, a Hungria, a Polônia e a Grécia proibiram o MON 810 recentemente. As evidências científicas indicadoras de risco que motivaram estas recentes proibições foram solenemente ignoradas pelos cientistas da CTNBio e pelo conselho de ministros, que chancelou a autorização.

3. Agricultores pedem moratória européia aos transgênicos

A Coordenadoria Camponesa Européia e a Coordenadoria de Organizações de Agricultores e Pecuaristas da Espanha estão pedindo uma moratória européia a todos os cultivos transgênicos a partir deste ano. Depois que o governo francês ativou a cláusula de salvaguarda contra o cultivo do milho transgênico MON 810 e considerando a oposição de muitos países membros do bloco aos transgênicos, as organizações consideram que uma moratória em 2008 é possível.

Fonte:

Nota à imprensa – Secretaria Internacional da Via Campesina, 04/03/2008.

4. Semana do Consumidor – participe!

O Greenpeace vai realizar uma série de atividades em 6 capitais e no ABC paulista entre os dias 08 e 15 de março, para marcar a Semana do Consumidor e alertar a população brasileira sobre os riscos dos transgênicos e a importância da rotulagem.

Veja a programação por cidade em:

http://www.greenpeace.org/brasil/transgenicos/consumidores/programa-o

A participação de todos é mais do que bem-vinda!

5. Mulheres da Via Campesina ocupam área ilegal da Stora Enso no RS 

Cerca de 900 mulheres da Via Campesina ocuparam a fazenda Tarumã, de 2.100 hectares, no município de Rosário do Sul, a aproximadamente 400 km de Porto Alegre, na manhã de terça-feira (04/03), quando iniciaram o corte de eucaliptos e o plantio de árvores nativas em área que pertence à empresa sueco finlandesa Stora Enso.

Logo no início da tarde um efetivo de 50 homens da Brigada Militar agrediu fisicamente algumas das mulheres que se encontravam na entrada da área. Os jornalistas gaúchos também foram impedidos de exercer sua atividade. Todos os jornalistas que se encontravam na área foram revistados e retirados com violência. Um cinegrafista que registrou a agressão às camponesas teve a fita apreendida e foi mantido algemado em um veículo da Brigada Militar por mais de uma hora.

Pela legislação brasileira (lei nº 6.634  de 1979; e o artigo 20, parágrafo 2 da Constituição Federal), a transnacional estrangeira não pode adquirir terras em uma faixa de 150 km da fronteira do Brasil com outros países. No entanto, a transnacional está usando uma empresa laranja para comprar dezenas de áreas no Rio Grande do Sul, próximo da fronteira com Uruguai, onde a empresa também tem plantios. A meta é formar uma base florestal de mais de 100 mil hectares e implantar fábricas na região.

Em nota distribuída à imprensa as mulheres declaram: "Nossa ação é legítima. A Stora Enso é que é ilegal. Plantar esse deserto verde na faixa de fronteira é um crime contra a lei de nosso país, contra o bioma pampa e contra a soberania alimentar de nosso estado que está cada vez mais sem terra para produzir alimentos."

Leia a pauta de reivindicações das mulheres no manifesto das mulheres da Via Campesina, em:

Fontes:

- Assessoria de Comunicação da Via Campesina, 04/03/2008.

- Camponesa agredida pela polícia no RS mostra ferimentos ao Senado,

 06/03/2008:

- Brigada Militar agride mulheres e retira jornalistas da área, 05/03/2008

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Pecuária orgânica na Zona da Mata mineira

De acordo com a pecuária de leite convencional, as vacas são consideradas como máquinas processadoras de alimentos, que devem responder o que lhes é depositado em comida e remédios com produções sempre crescentes de leite até serem descartadas do sistema. Problemas na estrutura óssea ou no metabolismo do animal são vistos como desvios a serem eliminados a qualquer custo, mesmo que para isso se diminua sua vida útil. O sistema é voltado para cuidar apenas dos efeitos, ignorando-se as causas.

Contudo, essa perspectiva de tratar os animais como mecanismos ao invés de organismos, tem gerado conseqüências muito mais sérias do que distúrbios de saúde no rebanho, passando a atingir também o ser humano. A doença da “vaca louca”, que tanto apareceu na mídia, não é um fato isolado; é, sim, um sintoma dessa mentalidade.

Quando o produtor trata um rebanho pensando no bem-estar animal, além de prevenir uma série de distúrbios fisiológicos e de comportamento (os quais geram as doenças), ele permite que o animal demonstre todo seu potencial de produção sem desgaste para o seu organismo. Na agricultura orgânica não existem “máquinas”, mas seres vivos que merecem um tratamento digno pelos alimentos que ofertam às pessoas.

A produção orgânica de leite segue, basicamente, dois princípios: a alimentação das vacas deve ser produzida, majoritariamente, sem agrotóxicos (é permitido incluir apenas de 15% a 30% de produtos não orgânicos na composição de rações) e a medicação dos animais tem que ser natural. Quanto à alimentação, deve-se aproveitar tudo que é produzido na propriedade, de forma ecológica ou orgânica.

O manejo não difere em muitos pontos do convencional: com duas ordenhas diárias, manejo sanitário normal, de vacinações e controle de ecto, endoparasitas e mastites, porém com remédios homeopáticos e fitoterápicos.

A Fazenda Salvaterra é pioneira na produção de leite orgânico na Zona da Mata mineira. Seu projeto tem o objetivo de unificar o Vale Salvaterra em torno da Agricultura Orgânica como base para suas atividades. A Associação Orgânica do Vale Salvaterra pretende conscientizar os pequenos produtores da região da possibilidade de união em torno deste ideal, buscando parcerias com a Prefeitura da cidade e supermercados compradores da produção, além de promover a união de todos por um Vale melhor com moradores felizes com trabalho e dignidade.

Fontes:

- http://www.salvaterraorganica.com.br

- Pesquisa incentiva leite orgânico na Zona da Mata mineira

http://www.cnpgl.embrapa.br/jornaleite/jornaldoleite.php?id=129

- Sistema de produção orgânico será utilizado em pesquisas da Embrapa Gado de Leite

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Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.

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