Boletim 504 – 27 de agosto de 2010

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,

LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS

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Número 504 – 27 de agosto de 2010

 

Car@s Amig@s,

 

Ao longo dos últimos meses temos divulgado a saga do pesquisador argentino Andrés Carrasco, chefe do Laboratório de Embriologia Molecular da Universidade de Buenos Aires (UBA), que em abril de 2009 divulgou dados de suas pesquisas indicando sérios efeitos do herbicida glifosato em embriões de anfíbios (modelo tradicional de estudo para avaliação de efeitos fisiológicos em vertebrados, cujos resultados podem ser comparáveis ao que aconteceria com embriões humanos).

 

A perseguição que o pesquisador vem enfrentando desde então atingiu o extremo no início deste mês, quando sua comitiva foi espancada durante uma palestra em La Leonesa, na província do Chaco – Argentina.

 

A principal crítica alegada pelos defensores do glifosato era a de que o estudo ainda não havia sido publicado em um periódico científico e, portanto, não teria valor científico.

 

Finalmente, em 09 de agosto último, a revista Chemical Research in Toxicology, da Sociedade Americana de Química (ACS, na sigla em inglês) — que conta com mais de 160 mil membros e é referência mundial –, publicou a pesquisa, assinada por toda a equipe científica de Carrasco, legitimando-a definitivamente.

 

Durante 30 meses os pesquisadores estudaram o efeito do glifosato em embriões de anfíbios e frangos. O estudo intitulado “Herbicidas a base de glifosato produzem efeitos teratogênicos em vertebrados interferindo no metabolismo do ácido retinoico” confirma as deformações produzidas pelo veneno em concentrações até 5 mil vezes menores do que as do produto comercial (500 menores do que as utilizadas na agricultura).

 

As dez páginas da revista científica estão recheadas de termos técnicos que dão conta dos efeitos negativos do agrotóxico: microftalmia (olhos menores que o normal), microcefalia (cabeças pequenas e deformadas), ciclopia (um olho só, no meio do rosto, malformação conhecida pela clínica médica), malformações craniofaciais (deformação de cartilagens faciais e craniais) e encurtamento do tronco embrionário. E a pesquisa não descarta que, em etapas posteriores, se confirmem malformações cardíacas.

 

O agrotóxico tem a propriedade de permanecer por extensos períodos no ambiente e de viajar a longas distâncias carregado pelo vento e pela água. Outros estudos já comprovaram que a placenta humana é permeável ao glifosato.

 

“O efeito (do glifosato) sobre embriões abre a preocupação acerca dos casos de malformações em humanos observadas em populações expostas em zonas agrícolas”, observa a revista científica e explica: “Devido a defeitos craniofaciais observados em seres humanos de zonas agrícolas, decidimos explorar se os genes implicados no desenvolvimento da cabeça são alterados com os agrotóxicos. Confirmamos que tanto a marca comercial como o glifosato puro produzem defeitos cefálicos”.

 

A partir das provas científicas, a pesquisa adverte: “Os resultados comprovados em laboratório são compatíveis com malformações observadas em humanos expostos ao glifosato durante a gravidez”.

 

Em junho deste ano uma comissão oficial do governo do Chaco, província argentina, publicou um relatório informando que ao longo da última década — período em que o uso de venenos agrícolas se expandiu na região — quadruplicaram os nascimentos de bebês com malformações em todo o estado.

 

A revista científica assinala que se avançou em um feito inédito, de particular interesse para o meio científico, que é vincular as malformações com a influência do glifosato sobre o aumento do ácido retinoico (derivado da vitamina A, normal em todos os vertebrados e essencial para a regulação correta dos genes envolvidos na vida embrionária). “Pequenas variações de ácido retinoico produzem malformações. Nosso trabalho é a primeira evidência de que as malformações produzidas pelo glifosato estão associadas com o ácido retinoico”, explicou Carrasco ao jornal argentino Página/12.

 

Depois de detalhar ao extremo as formas como se realizaram as análises científicas, a pesquisa problematiza os aspectos macro da problemática argentina: “O modelo agrícola baseado no pacote tecnológico de transgênicos na atualidade se aplica sem avaliação crítica, sem normas rigorosas e sem informação adequada acerca do impacto das doses sub-letais sobre a saúde humana e o meio ambiente”.

 

Extraído e adaptado de: Página/12, 17/08/2010.

 

Em tempo: Edílson Paiva, o atual presidente da CTNBio, afirmou ao jornal Valor Econômico (23/04/2007) que “A vantagem na segurança alimentar [do herbicida glifosato] é que os humanos poderiam até beber e não morrer porque não temos a via metabólica das plantas”.

 

Membro da CTNBio defende espancamento de Andrés Carrasco

 

Em comentário postado no portal Ecoagência, Paulo Andrade, representante do Ministério das Relações Exteriores na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, defendeu o espancamento de Carrasco.

 

Após tentar desqualificar tecnicamente o trabalho do pesquisador, Paulo Andrade dispara:

 

Por fim, o Prof. Carrasco foi fazer sua palestra aos moradores de uma região onde se planta grãos extensivamente, com o emprego de herbicidas (não apenas o glifosato, mas muitos outros, muito mais perigosos), mas não foi sozinho ou na companhia de outros cientistas: foi acompanhado de políticos (deputados e vereadores) que se opõem à tecnologia por razões bem menos claras do que a sua. Erro gravíssimo. Foi espancado, e talvez tenha merecido, não pelas suas posições científicas, mas por ter juntado política partidária e ciência, dois líquidos imiscíveis.”

 

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Neste número:

 

1. DNA transgênico no leite e em órgãos de animais alimentados com transgênicos

2. Shell e Basf são condenadas a pagar tratamento de ex-trabalhadores

3. Justiça dos EUA suspende aprovação de beterraba açucareira transgênica

4. Produtor quer mais semente de soja convencional

5. E a redução de herbicidas?

6. Buva resiste ao glifosato

7. CTNBio aprova novas promessas da Monsanto

8. Supercana: só falta voar

 

A alternativa agroecológica

 

Qualidade de Sementes da Paixão é comprovada em pesquisas no Cariri Paraibano

 

Dica de fonte de informação:

 

O sal da terra, reportagem de Luiz Antonio Cintra publicada pela revista Carta Capital em 24/08/2010.

 

Dominada por grandes empresas produtoras de frutas, a Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte (CE), sofre com a contaminação das águas e a asfixia dos pequenos produtores.”

 

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1. DNA transgênico no leite e em órgãos de animais alimentados com transgênicos

 

Uma revisão da literatura científica conduzida recentemente pela ONG Testbiotech encontrou crescentes evidências de que fragmentos de DNA de plantas transgênicas podem ser encontrados em leite, órgãos internos e músculos de animais. Em abril de 2010, cientistas da Itália relataram a presença de sequências de DNA de soja transgênica em leite de cabras. Traços deste DNA foram também encontrados nos cabritos alimentados com o leite das cabras.

 

Em outra pesquisa recente, cientistas encontraram traços de plantas transgênicas em órgãos de peixes. As sequências genéticas foram encontradas em quase todos os órgãos dos peixes estudados.

 

“Publicações recentes apoiam a proposta da rotulagem de produtos derivados de animais alimentados com ração transgênica, como carne, leite e ovos. Se os métodos de detecção de DNA melhorarem, estes traços de DNA transgênico em animais serão encontrados com mais frequência no futuro”, diz Christoph Then, da Testbiotech.

 

Exemplos de evidências científicas da presença de fragmentos de DNA de plantas transgênicas no leite e outros órgãos de animais alimentados com ração a base de plantas transgênicas:

 

Cabras:

 

"Nossos resultados mostraram que pequenos fragmentos de DNA podem ser detectados no leite, mas também em órgãos das crias de cabras alimentadas com soja transgênica. A pesquisa revelou também níveis elevados de LDH (lactato desidrogenase) em tecidos, sugerindo um aumento no metabolismo celular. Embora nossos dados pareçam estar em conflito com a maioria dos estudos nesse campo, são coerentes com outros estudos e as consequências a longo prazo para a saúde da ingestão de OGMs necessitam ser consideradas."

Fonte: Tudisco R., Mastellone V., Cutrignelli M.I, Lombardi P, Bovera F., Mirabella N., Piccolo G., Calabro, S., Avallone L., Infascelli F. (2010) Fate of transgenic DNA and evaluation of metabolic effects in goats fed genetically modified soybean and in their offsprings. Animal (2010), 4:1662-1671 Cambridge University Press. Copyright © The Animal Consortium 2010.

 

Peixes:

 

"Nós usamos análises de PCR para detecção de soja Roundup Ready em ração aquática e tilápias que consumiram esta ração. Também foram comparadas dietas com soja geneticamente modificada com dietas não transgênicas na alimentação de tilápias (Oreochromis niloticus, linhagem GIFT), analisando fragmentos residuais (254 pb) de soja GM. Tilápias recebendo dietas de soja GM tinham fragmentos de DNA em diferentes tecidos e órgãos, indicando que os genes exógenos GM foram absorvidos sistemicamente e não totalmente degradadas por canal alimentar."

Fonte: Ran, T., Mei, L., Lei, W., Aihua, L., Ru, H. and Jie, S. (2009), Detection of transgenic DNA in tilapias (Oreochromis niloticus, GIFT strain) fed genetically modified soybeans (Roundup Ready). Aquaculture Research, 40: 1350–1357. doi: 10.1111/j.1365-2109.2009.02187.x

 

Extraído de: DNA from transgenic plants found in milk and animal tissue – Testbiotech, 19/08/2010.

 

Saiba mais sobre o assunto no relatório elaborado pelo professor Jack Heinemann, da Universidade de Canterburry, Nova Zelândia: Report on Animals Exposed to GM Ingredients in Animal Feed

 

Com a colaboração de Angela Cordeiro.

 

2. Shell e Basf são condenadas a pagar tratamento de ex-trabalhadores

 

A Shell do Brasil e a Basf foram condenadas pela Justiça do Trabalho a pagar tratamento médico e indenizações a ex-funcionários que trabalharam numa fábrica de agrotóxicos em Paulínia (SP). No total, os empregados devem receber cerca de R$ 1,1 bilhão, segundo estimativa da juíza Maria Inês Correa de Cerqueira César, da Vara do Trabalho de Paulínia.

 

A ação estava tramitando há três anos e foi alvo de várias liminares até a decisão em primeira instância ser concedida na última quinta-feira. Cada uma das empresas arcará com 50% dos custos da indenização porque a fábrica já pertenceu às duas: foi aberta na década de 70 pela Shell e vendida, 20 anos depois, à multinacional Cyanamid, adquirida pela Basf em 2000. A última proprietária manteve a fábrica em operação por dois anos, até ser interditada pelo Ministério do Trabalho. Análises na região constataram a presença de metais pesados no solo e em amostras de água subterrânea.

 

Dos mil empregados registrados que teriam direito a receber tratamento e indenização, 64 morreram enquanto a investigação do Ministério Público do Trabalho (MPT), autor da ação coletiva, estava em curso. Todos tinham menos de 60 anos. Para uma das pesquisas que serviu como prova do processo, 69 trabalhadores foram examinados — chegou-se a uma média de seis doenças por pessoa.

 

Depois de trabalhar por duas décadas na fábrica de agrotóxicos, Antônio de Marco Rasteiro, de 62 anos, consome cerca de 20 comprimidos por dia para tratar diabetes, hipertensão, artrose, refluxo "e uma série de outros probleminhas". Nos últimos cinco anos, já curou um câncer de próstata e outro de pulmão.

 

"Quando saí da empresa, um exame comprovou que eu estava com sete tipos de contaminantes no organismo, quatro deles já banidos do mundo." Depois de perceber as semelhanças entre seus problemas de saúde e os dos antigos colegas, Rasteiro fundou em 2001 a Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas. Foi a entidade que fez a denúncia ao MPT.

 

Além de ter de custear, a partir de 30 de setembro, tratamento médico para essas pessoas e seus filhos, Shell e Basf terão de pagar R$ 768 milhões por danos morais. Além disso, cada ex-funcionário vai receber R$ 34,5 mil, que corresponde ao valor economizado pelas empresas nos últimos anos por não terem prestado assistência aos empregados.

 

Os benefícios se estendem a outras 2 mil pessoas que, segundo estimativa do MPT, trabalharam como autônomos ou terceirizados na fábrica. Mas elas só terão direito ao tratamento e à indenização se forem à Justiça nos próximos 90 dias. Em nota, a Basf disse que a decisão é "absurda", já que a contaminação foi "causada e assumida pela Shell". A Shell, por sua vez, definiu a decisão como "descabida", "pois entende inexistentes quaisquer evidências técnicas de que a situação ambiental de suas antigas instalações fabris tenha resultado em exposição ou agravamento da saúde de pessoas". As duas empresas vão recorrer ao Tribunal Regional do Trabalho da 15.ª Região.

 

Fonte: O Estado de São Paulo, 20/08/2010.

 

- Mais detalhes sobre o caso nas matérias publicadas pela Agência Brasil e pelo G1 em 19/08.

 

3. Justiça dos EUA suspende aprovação de beterraba açucareira transgênica

 

Uma corte federal de São Francisco, nos EUA, revogou em 13 de agosto a aprovação da beterraba açucareira transgênica Roundup Ready, tolerante à aplicação do herbicida glifosato, alegando que o Departamento de Agricultura do governo não avaliou adequadamente as consequências ambientais do cultivo antes de autorizar o plantio comercial.

 

A beterraba açucareira transgênica ocupa 95% da área plantada com a cultura e ficará proibida até que o Departamento de Agricultura elabore o relatório de impacto ambiental e autorize a variedade novamente — processo que pode levar dois anos. O juiz autorizou, entretanto, que a beterraba transgênica que já está plantada seja colhida e transformada em açúcar.

 

A beterraba açucareira fornece metade do açúcar consumido nos EUA, o resto vem da cana.

 

A decisão judicial se refere a ação impetrada pela ONG Center for Food Safety, a mesma que conseguiu, há alguns meses, a proibição judicial da alfafa transgênica em um caso similar.

 

É possível que o Departamento de Agricultura recorra da decisão sobre a beterraba.

 

Segundo o diretor executivo do Center for Food Safety, a decisão representa mais um sinal de que o Departamento de Agricultura não tem feito o seu trabalho. Isto é “regulamentação via litígio”, disse ele.

 

Extraído de: New York Times, 13/08/2010.

 

4. Produtor quer mais semente de soja convencional

 

O avanço rápido da soja transgênica em Mato Grosso fez os produtores buscarem novas alternativas para não perderem o fornecimento dessa variedade [leia-se ‘da variedade convencional’].

 

A soja transgênica, devido à atuação cada vez maior das multinacionais, já atinge 60% do total de sementes ofertadas no Estado. Há três anos era de apenas 20%.

 

Aprosoja (associação de produtores), Embrapa Soja, Abrange (que reúne produtores e processadores de grãos não transgênicos) e Aprosmat (que reúne produtores de sementes) se reúnem hoje em Cuiabá para acertar detalhes de um programa que dará força à semente convencional no Estado.

 

Serão escolhidas 20 áreas de Mato Grosso para o cultivo de 22 cultivares da Embrapa apropriadas à região. O objetivo é desenvolver um volume bom de semente para que o agricultor tenha produto à disposição na safra 2011/12.

 

O objetivo desse programa é o de "fortalecer e manter o plantio da soja convencional", diz Luiz Nery Ribas, gerente técnico da Aprosoja, entidade que reúne produtores do Estado.

 

Ele deixa claro, no entanto, que a Aprosoja não é contra a soja transgênica, mas os produtores têm o direito de optar pela variedade que desejam plantar.

 

Alexandre Cattelan, chefe-geral da Embrapa Soja, diz que há uma boa demanda por soja convencional na região e que o objetivo é fortalecer parcerias para melhorar essa oferta.

 

A Embrapa, que terá uma unidade em Sinop (MT), voltará a ter forte atuação no Estado, inclusive nas áreas de algodão, arroz, milho e pecuária.

 

Cattelan deixa claro que, embora esse programa (por ora chamado de "Soja Livre") procure elevar a oferta de soja convencional, a Embrapa terá também cultivares transgênicas para os produtores interessados.

 

Fonte: Folha de São Paulo, 25/08/2010.

 

N.E.: Não cansamos de repetir: não só no Brasil, mas em todo o mundo, o grande avanço das sementes transgênicas tem se dado não pela preferência dos agricultores, mas sim pela imposição das grandes multinacionais sementeiras, que controlam a oferta e reduzem, por vezes ao extremo, a disponibilidade de sementes convencionais. As vantagens agronômicas proporcionadas pelas variedades transgênicas existentes não se sustentam após algumas poucas safras. Mas quando o agricultor se dá conta e decide voltar a usar as variedades convencionais não mais as encontra no mercado. Esse é o resultado óbvio e inevitável de permitirmos que o suprimento do insumo básico da agricultura fique concentrado nas mãos de um punhado de empresas: agricultores reféns.

 

5. E a redução de herbicidas?

 

Glifosato alavanca venda de defensivo genérico no Brasil

 

Nos últimos cinco anos, a participação dos defensivos genéricos no Brasil passou de praticamente zero para 48,5% da receita total do mercado brasileiro. No ano passado, esses produtos foram responsáveis por movimentar US$ 3,2 bilhões, ante os US$ 3,4 bilhões dos produtos “convencionais”, também conhecidos no mercado como “especialidades”.

 

Em volume, a fatia é ainda maior. O mercado de produtos genéricos representou em 2009 pouco mais de 80% das 725,5 mil toneladas de produto comercial negociada no Brasil. Além disso, das 335,8 mil toneladas de ingredientes ativos comercializadas, apenas 15% foram de produtos convencionais no ano passado.

 

Parte expressiva desse crescimento se deu pela evolução da soja transgênica no Brasil e o aumento da demanda por seu principal defensivo, o glifosato. [grifo nosso] “O crescimento dos genéricos foi rápido porque o glifosato é um produto conhecido e muito usado. Aproximadamente 90% dos herbicidas genéricos vendidos são à base de glifosato”, diz Cléber Vieira, gerente de projetos da Agroconsult. No ano passado, os herbicidas responderam sozinhos por 60% da demanda de defensivos em volume.

 

Dados do Ministério da Agricultura mostram que existem 22 empresas registradas para comercializar 45 produtos à base de glifosato. Segundo Valdemar Fischer, gerente geral da Nufarm para América Latina – segunda maior empresa de genéricos no Brasil – existem ainda 174 pedidos para registro de produtos à base do ingrediente ativo para um mercado 250 milhões de litros anuais. (…)

 

Fonte: Valor Econômico, 24/08/2010.

 

N.E.: Mas não dizia a Monsanto que suas novidades tecnológicas permitiriam reduzir o uso de venenos, beneficiando o meio ambiente? Esse item da propaganda não resistiu aos fatos e parece ter caído em desuso. O que vale agora é falar em novas gerações de transgênicos, genes combinados, resistência à seca e por aí vai…

 

6. Buva resiste ao glifosato

 

O tema da buva resistente ao glifosato prejudicando as lavouras de soja transgênica já está ficando recorrente. Como sempre se alertou, o resultado do alastramento do mato resistente é que cada vez mais quantidade de herbicida é despejada nas plantações.

 

Veja reportagem do Globo Rural veiculada em 18 de agosto, disponível no blog Em Pratos Limpos.

 

7. CTNBio aprova novas promessas da Monsanto

 

Como se lê em release oficial (em inglês), a CTNBio acaba de chancelar a biossegurança de uma planta transgênica da Monsanto, planta esta que nunca foi aprovada em qualquer outro país do mundo. Somente agora a dona da engenhoca vai procurar sua aprovação em outros mercados mundiais, com a autoridade máxima da biossegurança tuipiniquim debaixo do braço, até para o Brasil ter para onde exportar esta singularidade.

 

Mas de singular, nem tanto, na verdade. Por mais que essas empresas falem em inovação, características realmente novas como a tolerância à seca ficam como sempre ficaram: para o “longo prazo”. O que se vê agora e para os próximos anos — seja na soja, no milho, no algodão ou na cana — não passa do óbvio, ou seja (a) plantas inseticidas, (b) plantas coadjuvantes de herbicidas e plantas (a) + (b).

 

Podem até afirmar, como diz a Monsanto, que as “novas” transgênicas aumentam o rendimento (RR2 “provides the increased yield”), mas ainda é pura ilusão, sem base sequer nas intenções dos “engenheiros” genéticos dessas transnacionais do veneno.

 

por David Hathaway.

Mais informações sobre a soja RR2 em Pratos Limpos.

 

8. Supercana: só falta voar

 

Veja a “isenção” da nota ao batizar de “supercana” a variedade transgênica que está sendo desenvolvida em São Paulo. Propaganda é pouco. Note também que pelo tom da nota a decisão de colocar no mercado o produto parece depender só do cronograma da empresa:

 

“O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) de Piracicaba (SP), que vinha desenvolvendo variedades de cana-de-açúcar transgênicas, anunciou a primeira geração da planta resistente a pragas, herbicidas e à seca. Com maior teor de açúcar que as comuns, as supercanas são até 25% mais produtivas. O produto estará no mercado em 2015.” (Isto É Dinheiro, 23/08/2010).

 

Fonte: Em Pratos Limpos, 23/08/2010.

 

 

A alternativa agroecológica

 

Qualidade de Sementes da Paixão é comprovada em pesquisas no Cariri Paraibano

 

Na Paraíba, as sementes tradicionais, ou crioulas, receberam o nome de Sementes da Paixão por serem fruto de uma longa trajetória de experimentação. Há várias gerações, os agricultores familiares do semiárido têm selecionado e utilizado aquelas sementes que mais bem se adequaram ao clima, ao solo e ao seu modo de vida e produção. Para eles, a qualidade de uma variedade não pode ser medida somente em termos agronômicos. Cada variedade atende a uma demanda específica das famílias.

 

As mulheres agricultoras, por exemplo, muitas vezes preferem a variedade de milho de sabugo fino que é mais fácil de ralar para fazer alimentos à base de milho; outras optam pela variedade de sementes pequenas para alimentar pintos e galinhas. Há famílias que buscam aquela que produz mais palha, visando a alimentar os animais, enquanto outras querem um milho que cresça bastante para favorecer o consórcio com a fava, que precisa de um suporte de maior porte para se enroscar e crescer. Todos esses usos variam de acordo com a estratégia adotada por cada família agricultora, ora com vistas à comercialização, ora pensando no autoabastecimento da família, do sistema produtivo ou dos bancos de sementes comunitários.

 

Esse saber local, porém, nem sempre é reconhecido pelos programas governamentais de distribuição de sementes. Prova disso são as diretrizes que têm orientado o Programa de Sementes para a Agricultura Familiar, lançado em 2006 pelo Governo Federal. Conduzido pela Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SAF/MDA) em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o programa tem priorizado a distribuição em larga escala das variedades melhoradas de milho e feijão desenvolvidas pelo órgão oficial, sob o argumento de que seriam as ideais para o clima da região semiárida. Com isso, tem-se negligenciado a experiência, a preferência e, por que não, a paixão dos agricultores por suas sementes tradicionais.

 

Diante dessa dissonância de opiniões sobre quais as variedades de sementes mais apropriadas ao semiárido, a Rede de Sementes da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA-Paraíba) se mobilizou e vem através de uma pesquisa apoiada pelo CNPq realizando ensaios de comparação de desempenho entre as variedades melhoradas e aquelas tradicionais. Para tanto, foi criado o Projeto Semente da Paixão, uma parceria entre a Rede de Sementes da ASA-Paraíba e a Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE), com o apoio da UFPB (Campus Bananeiras).

 

As comunidades de Mendonça e Sussuarana, no município de Juazeirinho, região do Cariri, receberam dois ensaio comparativos de variedades, onde foram plantadas 10 variedades de sementes crioulas de milho e duas desenvolvidas pela Embrapa (milho catingueiro e 1051). No dia 12 de agosto, foram obtidos os primeiros resultados. Entre os presentes na ocasião, estiveram representantes das Comissões de Sementes do Polo da Borborema e do Coletivo Regional do Cariri, Seridó e Curimataú, da AS-PTA, do PATAC, da Delegacia do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), da Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE) e da UFPB – Campus Bananeiras.

 

Todos puderam verificar que, mesmo com a pouca quantidade de chuva que caiu este ano na região (cerca de 250 mm), as sementes de paixão tiveram melhor desempenho que as variedades melhoradas. Para estabelecer os parâmetros de comparação, agricultores foram consultados e elencaram os critérios que, para eles, são os mais importantes, tais como: quantidade de palha (utilizada para alimentar animais), produção de grãos, qualidade das espigas, altura das plantas e diâmetro do caule (pensando no consórcio com outras culturas), peso da espiga, entre outros. Em todos os critérios elencados como mais relevantes pelas famílias agricultoras, os gráficos de comportamento das variedades crioulas superaram as sementes melhoradas.

 

Segundo Emanoel Dias, da AS-PTA, “Não se trata de dizer que as sementes melhoradas da Embrapa são ruins, uma vez que há agricultores que vão utilizar o milho catingueiro, por exemplo, para vender milho verde na feira. O que a Rede de Sementes da ASA-Paraíba quer mostrar é que a disseminação de uma única variedade distribuída pelo governo não é uma boa estratégia. O ideal é que as famílias os agricultoras tenham à disposição, inclusive pelas políticas de governo, uma diversidade de sementes que valorize o grande patrimônio genético e a ampla quantidade de variedades locais. Nós acreditamos que essa diversidade é fundamental para a manutenção da agrobiodiversidade, da segurança alimentar e, portanto, para o fortalecimento da agricultura familiar agroecológica camponesa.”

 

A partir desses resultados, a expectativa é desfazer a imagem de que as sementes crioulas não têm qualidade. Com esses ensaios, os parceiros envolvidos estão apresentando resultados científicos e comprovados em pesquisas. Ainda temos dois novos ensaios comparativos de variedades de milho para colher em 2010 na região da Borborema. Para 2011 serão implantados campos de multiplicação dessas variedades tradicionais. Dessa forma, o governo poderá adquirir essa vasta diversidade de sementes para distribuí-las para as famílias agricultoras do semiárido.

 

“O Programa de Sementes para a Agricultura Familiar do governo federal é muito importante, mas desde que se ajuste à experiência, preferências e realidade da agricultura familiar da região. Para isso, é fundamental a participação ativa das famílias”, conclui Dias.  

 

Fonte: AS-PTA, agosto de 2010.

 

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Campanha Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos

 

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.

 

Para os números anteriores do Boletim, clique em: http://www.aspta.org.br/por-um-brasil-livre-de-transgenicos/boletim/

 

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