Boletim 519 – 10 de dezembro de 2010

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,

LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS

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Número 519 – 10 de dezembro de 2010

 

Car@s Amig@s,

 

O 5º Encontro Norte Mineiro de Agrobiodiversidade reuniu no município de Rio Pardo de Minas, entre os dias 02 e 04 de dezembro de 2010, cerca de 300 participantes, incluindo representantes indígenas Xakriabá, quilombolas, geraizeiros, caatingueiros, vazanteiros, agroextrativistas, acampados, assentados, pesquisadores, professores universitários, militantes dos movimentos sociais e eclesiais, procedentes de 27 municípios do Norte de Minas. A programação incluiu debates e oficinas acerca da relação da Agrobiodiversidade com os territórios das comunidades tradicionais, com as políticas públicas para a Soberania e Segurança Alimentar, e o Tratado Internacional sobre os Recursos Fitogenéticos para Alimentação e Agricultura.

 

O primeiro dia foi dedicado à reflexão e debate do temário central, intitulado “Agrobiodiversidade: abordagens para a retomada dos territórios tradicionais”, com a participação de agricultores familiares, representantes do Ministério do Meio Ambiente, da Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, pesquisadores da Embrapa e professores universitários. No segundo, foram realizadas visitas de intercâmbio, em que os participantes conheceram três experiências: uma de luta pela reapropriação de territórios, reconversão agroecológica e sistemas agroflorestais, pesquisas e desenvolvimento da agricultura familiar, políticas públicas de abastecimento e organização da produção; uma reserva extrativista; e outra sobre o uso indiscriminado dos agrotóxico e transgênicos, mulheres e agrobiodiversidade.

 

Durante a noite de 03/12, os povos e comunidades tradicionais apresentaram suas manifestações culturais e o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA/NM, por ocasião dos seus 25 anos de história, homenageou os guardiões da agrobiodiversidade e parceiros, entregando uma placa comemorativa.

 

O evento foi finalizado no dia 04 com a realização da 5ª Feira da Agrobiodiversidade, onde os agricultores e agricultoras trocaram sementes e produtos. No encerramento, foi lida a Carta de Rio Pardo de Minas, que aborda as preocupações, denúncias e propostas dos participantes, dentre elas, as novas tecnologias do agronegócio. Segundo a Carta, essas tecnologias associadas ao uso desenfreado de monoculturas, agroquímicos (venenos), maquinaria pesada, e agora, com o ufanismo pela chegada de empresas mineradoras, compromete irremediavelmente os ecossistemas regionais e os recursos hídricos.

 

Os participantes também denunciaram a irresponsabilidade dos governantes: atendendo a interesses de empresas e grandes conglomerados econômicos, o uso de sementes transgênicas avança no Norte de Minas — hoje já é fácil encontrar sementes de milho e algodão transgênicos em diversas lojas e mercados de Montes Claros, Porteirinha, Jaíba e Janaúba. Muitas famílias de agricultores estão sendo seduzidas e incentivadas a utilizar essas sementes com promessas de alta produtividade e resistência ao ataque de pragas. Mas o uso dessas sementes pode comprometer a qualidade de variedades tradicionais de sementes de milho e algodão, muitas delas com uma longa história de adaptação ao clima, solos e diversas formas de estresse ambiental.

 

Os agricultores também apresentaram propostas e reivindicações, que seguem abaixo:

 

- Que seja aprovada legislação que resguarde as comunidades tradicionais da contaminação de transgênicos;

- Que se crie uma legislação que limite o plantio de monoculturas, especialmente o eucalipto, e que as cabeceiras das nascentes sejam preservadas garantindo o uso sustentável dos recursos extrativistas;

- Que haja disponibilidade de recursos dos governos federal e estadual para viabilizar intercâmbios de experiências entre os agricultores e comunidades tradicionais tendo os agricultores como agentes multiplicadores;

- Que sejam criadas oportunidades que estimulem a inserção dos jovens nas atividades produtivas das comunidades para que tenham orgulho de ser agricultores;

- Regularização das terras das comunidades tradicionais garantindo a participação dos agricultores no processo de demarcação;

- Que o Governo Federal finalize os processos de criação de RESEX no Norte de Minas, particularmente a RESEX Areião / Vale do Guará e a RESEX Tamanduá;

- Que o governo do Estado de Minas Gerais priorize a criação de unidades de conservação de uso sustentável em lugar dos parques estaduais;

- Que os governos apoiem a constituição de redes de comercialização entre associações e cooperativas da agricultura familiar e extrativistas para ocupar espaços no mercado institucional e outras modalidades de comercialização;

- Que seja implementado o Tratado Internacional sobre os Recursos Fitogenéticos para Alimentação e Agricultura com a participação direta e igualitária dos agricultores familiares e suas organizações.

- Que a isenção do ICMS aplicada para os produtos do Programa Fome Zero seja estendida para todos os produtos processados por associações e cooperativas da agricultura familiar;

- Que sejam incrementados recursos para o PAA e que no PAA Doação de Sementes se inclua também a doação de mudas e ramas;

- Que os governos criem programas de apoio especialmente para melhor estruturar as unidades de processamento de alimentos de associações e cooperativas visando melhorar e qualificar os produtos do mercado institucional;

- Finalmente, que o Norte de Minas seja declarado Região Livre de Transgênicos, garantindo a preservação da imensa diversidade de sementes e variedades tradicionais ainda presentes em nossas comunidades.

 

O V Encontro Norte Mineiro da Agrobiodiversidade foi coordenado pelo Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA/NM e pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Pardo de Minas e realizado com o apoio da Rede Norte-Mineira de Sementes Crioulas.

 

Fonte: Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), Articulação no Semiárido Mineiro (CAA-MG) e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porteirinha – MG (STR-Porteirinha) – reportagem de Helen Borborema (Comunicadora Popular da ASA/MG e STR de Porteirinha) e Helen Santa Rosa (Comunicadora Popular do CAA/NM).

 

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Neste número:

 

1. Vaticano desmente apoio aos transgênicos

2. MDA entra no conselho da Embrapa

3. Contaminação do ambiente por Endosulfan ameaça agricultura orgânica no Paraná

4. Exposição intrauterina ao bisfenol A é associada a problemas de fertilidade

5. Bayer vai às compras

 

A alternativa agroecológica

 

Experiências em agroecologia na Serra Catarinense

 

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1. Vaticano desmente apoio aos transgênicos

 

Vários veículos da grande imprensa divulgaram na última semana a notícia de que “a Academia de Ciências do Vaticano reafirmou a segurança dos transgênicos”.

 

Poucos dias depois, o Vaticano publicou um desmentido:

 

VATICANO, 02 Dez. 10 / 01:06 pm (ACI).- O Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, assinalou que a Declaração Final da Semana de Estudo sobre "Planta transgênicas para a Segurança Alimentar no Contexto do Desenvolvimento", patrocinado pela Pontifícia Academia das Ciências, não pode ser considerada como uma posição oficial do Vaticano sobre este tema.

 

O sacerdote deu estas declarações ante as informações dos meios de imprensa, que afirmaram que com dito documento a Santa Sé dava seu apoio aos mantimentos transgênicos.

 

"A Semana de estudo em questão teve lugar na Sede da Pontifícia Academia das Ciências entre os dias 15 e 19 de maio de 2009 e contou com a participação de 40 peritos, 7 dos quais eram acadêmicos pontifícios (de um total de 80), entre os quais estava o então presidente Nicola Cabibbo. Os outros participantes eram peritos externos", explicou.

 

Logo, indicou, "a declaração final, agora publicada no volume das atas da semana de estudo pela casa editora Elsevier, foi assinada pelos participantes, e portanto tem o valor de sua autoridade científica".

 

"Entretanto, a declaração não deve ser considerada como declaração oficial da Academia Pontifícia das Ciências, que tem 80 membros, já que a Academia, como tal, não foi consultada a respeito, nem está em projeto tal consulta", expressou.

 

"Por isso — afirmou o Pe. Lombardi –, essa declaração não pode ser considerada como uma posição oficial da Santa Sé ou do magistério da Igreja sobre o tema".

 

Fonte: ACI Digital (Agência Católica de Informações), 02/12/2010.

 

2. MDA entra no conselho da Embrapa

 

O Ministério do Desenvolvimento Agrário passará a compor, pela primeira vez, o Conselho de Administração da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Dedicado a defender interesses da agricultura familiar e dos assentados da reforma agrária, o MDA terá assento junto com representantes dos ministérios da Agricultura, da Fazenda e do Planejamento.

 

"Está na mesa da Casa Civil. A Embrapa é plural também nas nossas atitudes. Fazemos questão que haja isso na Embrapa", disse o presidente da Embrapa, o geneticista Pedro Arraes Pereira, em audiência na Câmara.

 

A alteração no Estatuto da empresa, em tramitação no Congresso para autorizar a ampliação de sua ação fora do país, atende às reivindicações de parlamentares ligados a movimentos sociais e do Núcleo Agrário do PT. Parte desses congressistas reclamava mais participação em decisões da Embrapa, sobretudo no direcionamento das pesquisas para soluções à agricultura familiar. "Vejo preocupação muito grande da Embrapa para o agronegócio, para o grande. Estou preocupado com o rumo das coisas", disse o deputado Nazareno Fonteles (PT-PI). "Pedimos à presidente eleita Dilma que a Embrapa se oriente mais para a agricultura familiar".

 

Em defesa da estatal, Pedro Arraes afirmou que a Embrapa tem "grande programa de agricultura familiar". "Somos plurais e tentamos fazer da melhor forma com esses produtores. Mas a Embrapa não é extensão rural. O Congresso precisa fortalecer a extensão pública no país. Com isso, muito desse conflito vai acabar", afirmou, em referência à dicotomia agronegócio versus agricultura familiar.

 

A Embrapa tem outros dois de seus seis membros do conselho indicados pelo ministro da Agricultura a partir de listas apresentadas por entidades empresariais, de pesquisa, ensino ou de produtores e trabalhadores do setor rural. Os conselheiros decidem os destinos da estatal, fundada em 1972 pelos militares. Fixam as políticas de ação, aprovam planos e orçamentos, além de decidir sobre articulações com entidades públicas e privadas. O conselho, que se reúne a cada dois meses, indica os diretores da estatal, aprova chefes das unidades descentralizadas e pode modificar o modelo institucional e a estrutura de organização da empresa.

 

Na audiência, Pedro Arraes respondeu sobre as críticas à suposta opção da Embrapa pelos organismos geneticamente modificados. "Transgênico é uma metodologia como qualquer outra. Até para garantir a segurança nacional, fizemos um acordo em que fundações brasileiras vendem essas sementes. É o único lugar do mundo que isso ocorre", afirmou aos deputados.

 

Questionado sobre a segurança dos transgênicos, surpreendeu: "É óbvio, pode prejudicar a biodiversidade. Mas essas culturas não têm parentes silvestres aqui, como o milho no México, por exemplo. Aqui, praticamente não temos".

 

Fonte: Valor Econômico, 09/12/2010. Em Jornal da Ciência.

 

3. Contaminação do ambiente por Endosulfan ameaça agricultura orgânica no Paraná

 

Os agricultores orgânicos de Capanema, na região Sul do Brasil, estão indignados. Eles têm produzido soja orgânica durante os últimos vinte anos, mas agora tudo está ameaçado. Suas plantações foram contaminadas por Endosulfan, mesmo eles nunca tendo usado este pesticida.

Capanema está localizada no Sul do Brasil, próximo às mundialmente famosas Cataratas do Iguaçu. Estes agricultores aboliram o uso de pesticidas desde o início da década de 80, pois observavam que algumas pessoas ficavam doentes após a utilização destes em suas lavouras. Atualmente, mais de 300 famílias de agricultores cultivam suas terras de acordo com padrões de agricultura orgânica. Desta forma, eles ajudam a preservar o rio Iguaçu além da fauna e flora ao seu redor.

 

Porém, a plantação de soja está contaminada por Endosulfan, e sua classificação como orgânica está sendo questionada. O que aconteceu? A região do Sul do Brasil tem uso intensivo de pesticidas. O Endosulfan, evapora após a aplicação na plantação e se espalha pelo ambiente, contaminando desta forma as plantações orgânicas, rios e lagos da região.

 

Durante 2010, as vendas de Endosulfan na região de Capanema quase duplicaram em relação a 2009. A suspeita é que a indústria de pesticidas esteja tentando vender todo seu estoque antes do possível banimento mundial do Endosulfan [e antes do seu banimento no Brasil, já programado pela Anvisa para 2013]. Mesmo sabendo que o Endosulfan é um dos pesticidas mais perigosos disponíveis no mundo.

 

Centenas de agricultores querem ter o direito de cultivar suas plantações de forma orgânica, sem pesticidas como o Endosulfan, por isso pedem o banimento imediato do veneno.

 

Colabore com esta causa assinando sua petição às autoridades brasileiras.

 

Fonte: Chega.org

 

4. Exposição intrauterina ao bisfenol A é associada a problemas de fertilidade

 

Estudo americano prova que a capacidade de engravidar pode diminuir em mais de 30% dos casos

 

De acordo com um estudo publicado hoje [02/12] na revista científica Environmental Health Perspectives, a exposição ao bisfenol A (BPA) durante a gravidez pode comprometer a capacidade reprodutiva da prole. O bisfenol A é um químico usado na fabricação do plástico e como revestimento interno de latas. Em contato com os alimentos pode contaminá-los e sua ingestão já foi associada a doenças como câncer, diabetes, infertilidade e obesidade. Segunda essa nova pesquisa a fertilidade diminuiu ao longo do tempo em ratas fêmeas que durante as fases fetal e neonatal (perinatal) de desenvolvimento tinham sido expostas ao químico em doses menores ou iguais à exposição de humanos.

 

“Ratas expostas ao BPA durante a fase embrionária e na e amamentação ficaram menos vezes grávidas e deram a luz a menos filhotes durante o período do estudo,” explicou uma das autoras da pesquisa, Ana M. Soto, MD, professora de anatomia e biologia celular da Escola de Medicina da Universidade Tufts (TUSM). Ana é uma das pioneiras na pesquisa sobre o bisfenol A.

 

Três doses foram testadas. Na mais alta, somente 60% das ratas expostas ficaram grávidas. No grupo de controle, que não esteve em contato com o bisfenol A, essa porcentagem subiu para 95%. O declínio da capacidade reprodutiva de fêmeas neste estudo não foi uma conclusão óbvia na primeira gravidez, quando animais eram jovens, mas se manifestou mais tarde, com um declínio do número de filhotes nascidos por parto. “Essa descoberta é importante pois testes toxicológicos de reprodução hoje em dia consistem em avaliar o sucesso da primeira gravidez em animais jovens. Se a reprodução subsequente não for avaliada, efeitos relevantes poderão ser perdidos,” explicou a co-autora da pesquisa, Beverly S. Rubin, PhD, professora de anatomia e biologia celular na TUSM.

 

“Além disso, o efeito da infertilidade do BPA em nosso estudo foi relacionado à dose. A menor dose e a maior dose impactaram a fertilidade, enquanto a intermediária não causou efeitos. Esse fenômeno, chamado de não monotonicidade, é uma característica comum aos hormônios. Em outras palavras, químicos precisam ser testados em uma variedade de doses a fim de evitar resultados falsos,” complementou Carlos Sonneschein, professor de anatomia e biologia celular na TUSM.

 

O BPA tem efeitos que imitam os do estrogênio, um hormônio natural. “O BPA está presente em mais de 92% da população americana testada, com altos níveis em crianças e adolescentes comparados a adultos. Também já foi detectado no plasma maternal e fetal,” disse uma das pesquisadoras, Perinaaz R. Wadia. “E é por isso que o estudo tem uma grande relevância para a saúde de humanos, já que o bisfenol A está presente em tantos produtos utilizados diariamente, provocando uma exposição constante”, explicou o pesquisador Nicolas J. Cabaton.

 

Europa – Uma reunião de onze entidades de defesa ao consumidor e do meio ambiente se manifestou sobre a proibição do bisfenol A na Comunidade Europeia. O grupo apoia a proibição do BPA em mamadeiras e alerta que essa iniciativa não é suficiente. Eles pedem que a Comissão Europeia proíba a utilização do químico em toda cadeia alimentar, como por exemplo no revestimento interno de latas e que por fim, proíba o uso do BPA em qualquer outro produto relevante para a exposição humana e ambiental, como no caso dos recibos eletrônicos.

 

Textos originalmente publicados no E Science News, Environmental Health Perspectives (2/12/2010) e WWF (26/11/2010).

 

Fonte: O Tao do Consumo, 02/12/2010.

 

5. Bayer vai às compras

 

De olho no potencial veterinário do Hemisfério Sul, a Bayer anunciou ontem [06/12] a compra da Bomac, empresa da Nova Zelândia. A companhia tem uma linha de 290 produtos e atua no segmento de animais de produção (aves, bovinos e suínos), equinos e também com animais de companhia. Além de abastecer o mercado doméstico da Nova Zelândia, a Bomac também está presente em mais de 60 países. Em nota, a Bayer não informou qual foi o valor da operação.

 

Fonte: Valor Econômico, 07/12/2010 – em Pratos Limpos.

 

A alternativa agroecológica

 

Experiências em agroecologia na Serra Catarinense

 

“Eu planto milho, feijão, hortaliças em geral, girassol. Numa época você planta beterraba, na outra você para de plantar beterraba e planta hortaliças. A gente troca por causa da terra, mas também porque é bom trocar, é outra cultura, é diferente. E como a gente trabalha em grupo, às vezes a outra companheira quer plantar aquele alimento. Eu só não abro mão nunca de plantar feijão, porque acho o feijão bonito. Dá lucro, eu gosto de comer e de vender”. O depoimento é da agricultora agroecológica Emília de Fátima, que mora e trabalha em uma propriedade rural de sete hectares na comunidade Fundo do Campo, no município de Otacílio Costa, em Santa Catarina. Ela faz parte da Associação das Famílias Agroecológicos de Otacílio Costa (Asfaoc), formada majoritariamente por mulheres. Fátima, como é mais conhecida, participou, nos dias 17 e 18 de novembro, da Oficina Territorial de Agroecologia do Planalto Serrano de Santa Catarina, onde agricultores familiares da região trocaram experiências e principais desafios da prática da agroecologia.

 

Para além da não utilização de venenos químicos e industrializados, geralmente ministrados na maior parte das práticas agrícolas, as palavras de Fátima revelam algumas outras características do modo de produzir agroecológico: a diversificação da produção, o trabalho em grupo e a discussão da soberania alimentar. O engenheiro agrônomo e pedagogo Natal Magnanti, do conselho de administração da cooperativa ecológica Ecosserra e do Centro Vianei de Educação Popular, explica que sem organização entre os trabalhadores rurais a agroecologia não sobrevive. “A organização é um pilar da agroecologia. Normalmente, se há agricultores desorganizados em alguma região, o processo não anda. É quase uma condição sine qua non para que o processo de transição para a agroecologia e consolidação seja efetivado”, diz.

 

Em Otacílio Costa, as agricultoras organizam coletivamente uma feira agroecológica. “Nós nos reunimos devido à necessidade de comercializar, porque eu sozinha na conseguiria fazer feira. Então eu planto algumas coisas e as vizinhas outras, porque na feira precisa ter de tudo”, relata Fátima. Ela conta que a feira é realizada quinzenalmente durante o inverno e semanalmente no verão, e a associação tem uma Kombi que leva os produtos e as trabalhadoras para o município. A cada dia de feira vão cerca de três trabalhadoras que vendem a produção de todas.

 

O agricultor Nilson Ribeiro, do município de Anita Garibaldi, também em Santa Catarina, concorda que sem organização os trabalhadores rurais não conseguem ir muito longe. “Individualmente você não consegue quase nada. Então, o trabalhador precisa se organizar em grupos e associações – o cooperativismo é a melhor saída. Eu não vejo outra forma de a agricultura familiar dar certo neste país se não for com organização”, opina.

 

Circuitos curtos

 

O engenheiro agrônomo Natal detalha que, no caso de Santa Catarina, a agroecologia privilegia os circuitos curtos e médios de comercialização dos produtos, justamente com a organização de feiras locais e regionais e outras formas de distribuição local. Segundo ele, é difícil para os trabalhadores agroecológicos distribuir os produtos para supermercados, por exemplo. “As redes de supermercado e os Ceasa não estão preparados para a agricultura familiar, estes espaços têm dificuldade de entender o fluxo e a descontinuidade de produção e isso prejudica ainda mais o pessoal da agroecologia, que tem como princípio entender a sazonalidade da produção. Esses atacados querem produtos o ano inteiro, e os mesmos produtos”, explica.

 

Com a distribuição em circuitos curtos e médios, a agroecologia tem também outros objetivos, como garantir a qualidade dos alimentos, já que viagens longas danificam os produtos. Além disso, a venda local proporciona uma renda mais rápida para o trabalhador. “A maioria dos nossos grupos já tem uma feira no município. Este mercado local dá um retorno imediato para o agricultor e isso faz com que circule dinheiro rapidamente dentro da propriedade familiar. Uma vez, por exemplo, quando privilegiamos um circuito muito longo, só recebemos após 120 dias, e isso significa que o agricultor tem que ir a um banco para ter fluxo financeiro girando na própria propriedade”, diz Natal.

 

Formação dos trabalhadores

 

Para o agrônomo, um grande desafio da agroecologia é a formação dos trabalhadores rurais. “A grande maioria dos agricultores, de uma forma geral, se especializou ao longo do tempo. Decidem, por exemplo: ‘vou produzir apenas leite’. Aí pensam que, só com a renda do leite, manterão uma propriedade em pé, e isso não existe. Para fazer uma transição para a agroecologia é preciso fazer a discussão de que não é possível produzir apenas leite: é preciso integrar a produção animal com a produção vegetal, além de ter alguma produção de horticultura na propriedade para dar suporte ao longo do ano”, comenta.

 

Natal diz que no caso de produtores que se especializam em apenas uma cultura, como milho ou feijão, por exemplo, é mais difícil fazer a transição para a agroecologia, mas, com a formação dos trabalhadores, isso é possível. “A maioria perdeu o contato com a produção de frutas, hortaliças e a própria produção animal ficou esquecida dentro da propriedade”, aponta.

 

Fátima relata como a transição para a agroecologia e a organização coletiva junto às outras mulheres mudou a rotina da propriedade rural onde mora: “Antes plantávamos uma vez ao ano, e ficávamos o resto do tempo ao deus dará, não tínhamos sequer uma salada para comer. O pessoal estava bem desmotivado. E moramos a 32 quilômetros do supermercado mais próximo”, diz. A agricultora conta que em muitas famílias os homens estão empregados em empresas da região, inclusive na monocultura de pinus (produção de madeira). Assim, foram as mulheres que protagonizaram a organização da produção agroecológica e hoje coordenam os trabalhos da associação. “Hoje eu faço aquilo que eu gosto, acordo cedo, tiro o leite. Se saio para uma reunião, quando volto tenho trabalho dobrado. A minha filha, que fica em casa, me ajuda também, porque quem tem uma propriedade tem trabalho todo dia. Tem que tirar o leite todo dia, alimentar as galinhas todo dia, colocar água. Quando uma sai, a outra segura as pontas”, detalha.

 

A agricultora conta, com orgulho, que com o dinheiro da feira agroecológica conseguiu pagar a faculdade de pedagogia de uma das filhas.  “Meu sonho é que ela volte a trabalhar na comunidade, que ensine para os alunos dela aquilo que ela aprendeu em casa e que continue aquela vida do sítio, de campo, que não é vida ruim, nem triste”. Ela aconselha todos os agricultores familiares do país: “Que todos façam a adesão à agroecologia, que diversifica a produção e é sustentável, que não seja mais aquela agricultura onde se produz muito, mas gasta-se muito mais ainda. Quando se trabalha na agroecologia é sempre na perspectiva da economia, de usar o que existe na propriedade, de manejar os sistemas agroflorestais, de cuidar das Áreas de Preservação Ambiental, de perceber que se pode ter a renda de várias coisas. Por exemplo, aqui fazemos dinheiro vendendo o pinhão que é o fruto da Araucária [árvore nativa], e muita gente acha que tem que cortar a Araucária. Com o pinhão fazemos farinha e paçoca para comer com carne de porco, e engordamos os porquinhos também”.

 

Oficina territorial

 

A oficina territorial de agroecologia do Planalto Serrano Catarinense, realizada em Lages (SC), durantes os dias 16 e 17 de novembro, fez parte de um conjunto de eventos regionais organizadas por redes de agroecologia locais em parceria com a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). No caso do Planalto Serrano Catarinense, a oficina foi organizada localmente pela Cooperativa Ecológica dos Agricultores Artesãos e Consumidores da Região Serrana (Ecoserra), pelo Centro Vianei de Educação Popular e por várias associações de agricultores familiares. Participaram cerca de 100 agricultores. No mês de outubro, outra oficina foi realizada na Serra da Borborema, no Agreste da Paraíba. Está previsto também outro evento no mesmo formato no norte de Minas Gerais.

 

As oficinas antecendem o Encontro Nacional de Diálogo e Convergência: Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental, Soberania Alimentar e Economia Solidária, que será realizado no primeiro semestre de 2011, em Salvador, na Bahia. O encontro está sendo organizado por diversas redes, movimentos sociais e entidades relacionadas à agricultura, saúde, meio ambiente, gênero e economia solidária. Entre os objetivos estão a ampliação da articulação entre os diversos atores da agroecologia e a elaboração de propostas a serem apresentadas ao governo federal de fortalecimento da agricultura camponesa e da prática agroecológica no país.

 

Fonte: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), 26/11/2010.

 

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Campanha Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos

 

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.

 

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