Boletim 541 – 10 de junho de 2011

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,

LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS

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Número 541 – 10 de junho de 2011

Pesquisa confirma presença de toxina transgênica no sangue de mulheres, gestantes e fetos

Car@s Amig@s,

No Canadá, 69 mulheres, entre elas 30 grávidas no final de gestação, tiveram seu sangue testado para a presença de pesticidas associados aos produtos transgênicos. A toxina transgênica produzida pelas plantas Bt foi encontrada em 93% das gestantes, 69% das não-gestantes e em 80% dos cordões umbilicais. O metabólito do herbicida glufosinato de amônio foi encontrado no sangue de 100% das parturientes, 100% dos fetos e 67% das não-gestantes. O glifosato foi encontrado em 5% das não-gestantes e o glufosinato em 18%.

No Brasil, entre soja e milho, há 17 tipos de transgênicos liberados para plantio e consumo que produzem ou estão associados aos venenos avaliados no estudo. Entre as variedades de milho liberadas estão 5 que contém exatamente a mesma toxina identificada pelo estudo (Cry1Ab) e outras 5 que produzem proteínas da mesma família (Cry).

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, conforme manda a lei, é composta por doutores de notório saber, que ao liberarem esses transgênicos afirmaram que “A proteína Cry1Ab (…) [é] degradada no aparelho gastrointestinal de mamíferos” e que “ (…) após aquecimento, a degradação é mais rápida, o que sugere uma menor concentração da proteína em alimentos à base de milho que sejam aquecidos durante o processamento”.

E tem mais: “Quanto aos níveis de resíduos do glufosinato de amônio deixados na planta, tendo em vista seu uso durante o cultivo da variedade transgênica, estudos realizados no Brasil demonstraram não haver diferenças entre aqueles níveis encontrados na variedade parental quando comparados com a variedade transgênica”. Isso é tudo que se disse a respeito do uso associado da semente transgênica e do agrotóxico.

Participaram do estudo mulheres urbanas que vivem em Sherbrooke, distrito de Quebec, e que nunca trabalharam com os agrotóxicos em questão. Suas dietas, como apontam os autores da pesquisa, são aquelas típicas das populações de classe média de países ocidentais industrializados. Dado o amplo uso de milho e soja transgênicos em produtos alimentares, é de se esperar que a maioria da população esteja exposta diariamente a esses produtos por meio de sua alimentação, concluem os pesquisadores.

Há 6 meses no cargo de ministro responsável pela CTNBio, Aloizio Mercadante ainda não se pronunciou a respeito da Comissão, deixando rolar o voo cego.

O estudo foi publicado na última edição da Reprodutictive Toxicology. Os autores Aziz Aris e Samuel Leblanc, da Universidade de Quebec, concluem que esse foi o primeiro estudo do gênero e que mais avaliações como essa são necessárias em função da fragilidade dos fetos, sobretudo quando se considera a potencial toxicidade desses poluentes ambientais associados às plantas transgênicas.

A coleta das amostras de sangue foi realizada antes do parto, todos normais e com bebês sadios, e antes dos procedimentos de ligadura de trompas. Os cordões umbilicais foram testados após o nascimento dos bebês. A pesquisa teve consentimento das participantes e aprovação do Comitê de Ética para pesquisas com humanos e testes clínicos (CHUS).

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Com informações de:

Aris A.;Leblanc S. Maternal and fetal exposure to pesticides associated to genetically modified foods in Eastern Townships of Quebec, Canada. Reprod Toxicol (2011)

Discovery of Bt insecticide in human blood proves GMO toxin a threat to human health, study finds, por Jonathan Benson

Genetically Modified Organisms are unfit for comsumption, por Ethan Huff

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Neste número:

1. Prefeitura de Venâncio Aires – RS disponibiliza milho transgênico a agricultores

2. Congresso Peruano aprova moratória de dez anos aos transgênicos

3. Bolivia: transgênicos não, transgênicos talvez

4. Oligopolizado, mercado de agrotóxicos cresce no Brasil quatro vezes acima da média mundial

5. Agrotóxicos em plantações de fumo prejudicam produtores e seus vizinhos

6. Médicos da Unicamp defendem agrotóxicos

7. Bayer compra Soytech

A alternativa agroecológica

Vereda Funda: geraizeiros lutam pela reconquista de suas terras e modos tradicionais de vida

Dica de fonte de informação:

Agrotóxicos impactam saúde do homem e ambiente

Educação e fiscalização. Esses, de acordo com o pesquisador da ENSP Josino Costa Moreira, são os dois principais aspectos para conter os danos provocados pela utilização dos agrotóxicos na agricultura brasileira. O pesquisador, que coordenou estudos sobre o Impacto dos Agrotóxicos na Saúde e Ambiente na Região Centro-Oeste e Nordeste do país, revelou que as consequências são diversas. ‘Os agrotóxicos contaminam os alimentos, o ambiente e selecionam as espécies mais resistentes em determinado local. Esse impacto chega ao homem tanto pela exposição direta nas lavouras como pelas alterações que ele provoca no ambiente’, alertou.”

Leia a íntegra da reportagem, publicada no Informe ENSP/Fiocruz em 17/05/2011.

Eventos:

X Jornada Paranaense de Agroecologia - Londrina, 22 a 25 de junho de 2011.

O evento acontecerá no Campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL), com o objetivo principal de traçar formas de se chegar à construção de um projeto popular soberano para a agricultura.

Durante todo o encontro acontecerá a Feira dos Produtos Agroecológicos da Reforma Agrária e da Agricultura Familiar Camponesa, a Feira das Sementes Crioulas e o Túnel do Tempo: Experiência de Educação Popular em Agroecologia.

Veja a programação completa.

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1. Prefeitura de Venâncio Aires – RS disponibiliza milho transgênico a agricultores

A Secretaria Municipal da Agricultura de Venâncio Aires, a partir desse ano, passa a disponibilizar sementes de milho transgênico aos produtores interessados. Com maior rendimento e menor uso de agrotóxicos, a Administração Municipal tem à disposição nove híbridos do produto.

Segundo o secretário da Agricultura, Fernando Heissler, o saco da semente de milho transgênico custa R$ 178. Os agricultores pagam 50% do valor na retirada do produto e outros 50% só em 2012.

Fonte: Prefeitura Municipal de Venâncio Aires – RS, 24/05/2011.

p.s. Além de transferir renda diretamente para empresas multinacionais, a prefeitura está ajudando a difundir sementes que contaminam as lavouras vizinhas e aumentam a dependência dos agricultores em relação à indústria de sementes e agrotóxicos.

2. Congresso Peruano aprova moratória de dez anos aos transgênicos

O Congresso do Peru aprovou o projeto de lei que declara uma moratória de dez anos à entrada no país de Organismos Vivos Modificados (OVMs) para fins de cultivo ou criação, ou qualquer tipo de produto transgênico.

A proposta foi aprovada por 56 votos a favor, zero contra e duas abstenções, e dispensada de segunda votação por 50 votos a favor, quatro contra e três abstenções.

Além de estabelecer a moratória, a norma aprovada fixa o Ministério do Meio Ambiente como autoridade competente sobre o tema e cria uma Comissão Técnica de Avaliação e Prevenção de Riscos de uso de OVMs, que em dois anos deverá emitir um informe sobre o tema.

Extraído de: Pleno del Congreso aprobó moratoria de diez años para el ingreso de transgénicos – Andina – Agencia Peruana de Noticias, 07/06/2011.

3. Bolívia: transgênicos não, transgênicos talvez

O governo de Evo Morales continua, publicamente, sendo um dos mais combativos contra os transgênicos, mas uma lei de autoria do poder executivo poderá abrir a porta à produção de alimentos geneticamente modificados.

No início deste mês o governo enviou ao Congresso o projeto de “Lei da Revolução Produtiva, Comunitária e Agropecuária”. Embora a proposta determine, por exemplo, a recuperação e multiplicação de sementes nativas e a produção de sementes melhoradas, além de outras ações que protejam a biodiversidade da biopirataria e da monopolização das sementes por parte das transnacionais, o mesmo texto, contraditoriamente, diz que “se estabelecerão disposições para o controle da produção, importação e comercialização de produtos geneticamente modificados”.

Marco Octavio Rivera, biólogo e ecologista da Liga de Defesa do Meio Ambiente, declarou à BBC que, com esta medida, “está se abrindo a porta tacitamente aos transgênicos. É uma estratégia do agrocapitalismo. A Bolívia está pouco a pouco se abrindo às grandes transnacionais. Não é um segredo para ninguém”.

Para Rivera a disposição contradiz o que até agora havia sido a posição do governo, que no ano passado anunciou que o país seria um “território livre de transgênicos” dentro de meia década.

O ministro de Autonomias, Carlos Romero, nega que a nova redação vá incentivar a produção de transgênicos. “O projeto de lei prioriza a produção de alimentos orgânicos e manda proteger o patrimônio genético do país, que ocupa o oitavo lugar em relação à biodiversidade em nível mundial”, disse à BBC Mundo. “O que desenvolveu a agricultura orgânica, especialmente em nossos povos indígenas de cultura andina, foram os recursos genéticos nativos, que nada têm a ver com os recursos geneticamente modificados”, completou.

Um dos temores dos ecologistas, entretanto, é que a importação de alimentos transgênicos acabe contaminando as plantas nativas bolivianas, as mesmas que o governo quer salvaguardar e proteger. “Há provas, por exemplo, da contaminação do milho nativo no México através do milho transgênico”, disse Rivera.

Mas, segundo Romero, só será permitida a importação e comercialização de pacotes tecnológicos agrícolas que envolvam transgênicos se estes não estiverem vinculados a espécies originárias da Bolívia ou com uma alta diversidade no país, entre eles a batata e o milho doce.

O ministro também informou que será regulamentada a produção de soja transgênica no país, que está permitida desde 2005.

De todo modo, o projeto de lei ainda se encontra na Assembleia Legislativa, onde está sujeito a debate e modificações.

Extraído de: Bolivia: transgénicos no, transgénicos tal vez – El Nacional (BBC Mundo), 08/06/2011.

Saiba maiores detalhes sobre o projeto de Lei da Revolução Produtiva Comunitária Agropecuária em Fobomade (Foro Boliviano sobre Medio Ambiente y Desarrollo).

4. Oligopolizado, mercado de agrotóxicos cresce no Brasil quatro vezes acima da média mundial

O mercado mundial de agrotóxicos é dominado por seis empresas transnacionais. Juntas, Syngenta, Bayer, Basf, Monsanto, Dow e Dupont detêm 68% de um mercado que movimenta cerca de US$ 48 bilhões por ano no mundo. O Brasil representa hoje aproximadamente 16% do consumo de agrotóxicos no planeta. O crescimento do mercado brasileiro foi de 176% entre os anos de 2000 e 2008 – 3,9 vezes acima da média mundial, que foi de 45,4% no mesmo período.

Os dados foram apresentados pelo professor Victor Pelaez, do Departamento de Economia da UFPR, durante o lançamento no Paraná da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, realizado na noite de terça-feira (31).

O evento foi organizado pela Via Campesina, Coordenação dos Movimentos Sociais, Terra de Direitos e Coletivo Maio. Centenas de trabalhadores rurais sem-terra lotaram o Teatro da Reitoria da UFPR. (…)

Fonte: Assessoria de Comunicação Social da UFPR, 02/06/2011 – via Boletim Informativo “Agrotóxicos: até quando vamos engolir isso?”, produzido pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

5. Agrotóxicos em plantações de fumo prejudicam produtores e seus vizinhos

Ministério Público do Trabalho considera que fumageiras, que receitam a dose recomendada pelas corporações, são as principais responsáveis por danos sofridos pelos proprietários

Rio Azul e Palmeira (PR) – (…) Lídia Maria Bandacheski do Prado, de 35 anos, tem a tristeza estampada no rosto. Nas mãos, a fraqueza provocada pelo uso de agrotóxicos. À frente das pernas, um andador mostra que os problemas notados há uma década e agravados há quatro anos estão longe de encontrar solução. “Teve época que não conseguia sair da cama. Tem dia que fica pior, que não consigo fazer nada, me paralisa as pernas, me paralisa os braços.”

Uma visita ao hospital em 2001 deu início ao calvário de Lídia, dona de uma pequena propriedade. Passaram-se muitos anos até que uma equipe da Universidade Federal do Paraná esclarecesse que ela sofre de intoxicação crônica por agrotóxicos. “Fique quase dois anos sem dormir direito. Com dor nos braços, nas pernas. Era um fantasma dentro de casa”, lamenta.

Nascida e criada na roça, Lídia viu a morte prematura do pai transformá-la em uma das chefes da família. Aos 9 anos, passou a ajudar a mãe diretamente no plantio de fumo, uma prática que até hoje não foi retirada do mapa da produção de tabaco no Brasil. Se hoje persistem problemas no manejo do agrotóxico, naquela época não se tinha a menor ideia dos efeitos dessa substância sobre a saúde humana.

Uma das práticas era cavar um buraco no chão e ali preparar, com as mãos desprotegidas, o “tempero”, a dissolução dos defensivos agrícolas em água. “Naquela época a gente vivia dentro do paiol. A mãe cozinhava dentro do barracão, a gente dormia em cima das pilhas de fumo”, conta a agricultora.

Pesquisas

O caso de Lídia chamou a atenção dos integrantes do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da UFPR, que em 2009 passou a analisar a intoxicação por agrotóxicos em Rio Azul, cidade em que 45% das riquezas passam pelo tabaco. É um dos muitos municípios paranaenses responsáveis pela produção de 150 mil toneladas de fumo ao ano, oscilando entre 15% e 20% do tabaco nacional, setor comandado pelo Rio Grande do Sul. São pequenas propriedades, na maioria entre zero e dez hectares, empregando em sua quase totalidade mão de obra familiar. (…)

O levantamento de dados por parte do Núcleo de Saúde Coletiva está na fase final. Ao levantar os casos registrados de intoxicação por agrotóxicos nos últimos dez anos em Rio Azul, os pesquisadores apenas ratificaram a impressão de que a cidade segue a média nacional de subnotificação deste tipo de ocorrência. “Os produtores ficam tontos, sentem ânsia de vômito, mas a relação entre agrotóxico e sintomas nem sempre é feita”, lembra Paulo de Oliveira Perna, coordenador do núcleo, que adverte que também entre os agentes de saúde a questão dos agrotóxicos é subestimada.

Um dos obstáculos para o convencimento é também cultural. A maioria dos agricultores, criado nesse ambiente, sempre resistiu a acreditar que aquilo que sempre foi feito possa estar errado — cada organismo reage de uma maneira à exposição ao agrotóxico e a intoxicação crônica pode levar anos para se consumar. (…)

Leia a íntegra da reportagem, publicada pela Rede Brasil Atual em 31/05/2011.

Confira também as outras reportagens da série:

Por trás de cada cigarro, fumicultura esconde violações ambientais e de direitos,

Relação de trabalho precária reforça ganhos bilionários de empresa de tabaco,

Empresa estabelece valor do fumo e restringe opções de produtor insatisfeito,

Obrigação assumida pelo Brasil, rota de saída do fumo é tortuosa

6. Médicos da Unicamp defendem agrotóxicos

O jornal Correio Braziliense publicou em 06/06/2011 uma reportagem intitulada “Agrotóxicos: Brasil quer deixar de ser o número 1”, da qual extraímos o seguinte trecho:

(…) No próximo mês, a Anvisa divulgará ainda os resultados anuais do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos, que em 2010 apontou irregularidades em 30% das amostras de produtos agrícolas. À época, pimentão, uva, pepino e morango apresentaram resultado insatisfatório em mais de 50% das análises. Apesar disso, para o coordenador da Área de Saúde Ambiental do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciência da Universidade de Campinas (Unicamp), o médico Ângelo Trapé, a quantidade de resíduos que chega à mesa do consumidor em vegetais, frutas e legumes é tão pequena que não há razão para se preocupar e deixar de comprar os produtos de cultivo tradicional.

É preciso desmistificar essa questão. Do ponto de vista de saúde pública, temos uma segurança alimentar muito boa, sem riscos de intoxicação para o consumidor. A situação dos agrotóxicos está restrita à exposição ocupacional do agricultor, que usa o produto de forma inadequada, sem proteção ou com tecnologia que demanda exposição maior. Há 30 anos, acompanho a população exposta a agrotóxicos, e há três anos não há nenhum registro de trabalhador que tenha tido problemas. Também nunca atendi ninguém intoxicado por produtos na alimentação normal, porque a dosagem é ínfima’, conta o médico.

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Não há dúvidas de que os trabalhadores rurais, bem como aqueles que manipulam os agrotóxicos na fabricação, transporte, armazenagem etc. são os que correm maior risco de intoxicação pela exposição aos venenos, mas dizer que não há riscos para o consumidor que se alimenta de produtos com resíduos de venenos já é um grande exagero! É, também, muito fácil e injusto responsabilizar o trabalhador rural pela própria intoxicação ao não usar EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), uma vez que sabemos que a falta de orientação e assistência técnica no campo é a regra, que em grande parte dos casos quem orienta os agricultores são os próprios vendedores de venenos e que mesmo com o uso de toda a parafernália recomendada a exposição aos venenos não é completamente eliminada. As matérias sobre fumicultura citadas acima trazem depoimentos de agricultores afirmando que há contaminação do aplicador mesmo com o uso do EPI.

Além disso, a falta de registros de trabalhadores intoxicados não significa que não os haja: a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Anvisa estimam que para cada caso de intoxicação registrado existam outros 50 não registrados.

Mais que isso, ao dizer que nunca atendeu ninguém intoxicado através da alimentação, o médico refere-se apenas aos casos de intoxicação aguda, aquela que se manifesta algumas horas após exposição elevada a produtos muito tóxicos. Ele não avalia a intoxicação crônica, aquela que se manifesta depois de muitos anos de exposição pequena a produtos pouco ou moderadamente tóxicos, normalmente através de câncer, problemas renais, neurológicos, entre muitos outros. Os sistemas de registros de intoxicações por agrotóxicos são completamente cegos para os casos de intoxicação crônica.

E o médico continua:

Muitos países adotam o princípio da precaução ao extremo ou simplesmente vetam alguma substância porque não precisam dela para cuidar de pragas ou insetos ou por suas características de agricultura. Também vale lembrar que não há em uso no Brasil nenhum agrotóxico cancerígeno. O limite máximo de resíduo que a Anvisa usa para essas avaliações já tem uma boa margem de segurança, basta imaginar um saco de 1kg de açúcar e dividir por 100 mil porções: haverá um grãozinho para cada quilo de pimentão. E nosso organismo tem capacidade de metabolizar isso, assim como faz com produtos químicos para cabelo, aerosol, tabaco e bebidas alcoólicas.”

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É de grande má fé diminuir a importância do Princípio da Precaução (aprendeu com a CTNBio?) e, mais ainda, dizer que o que motivou a proibição de tantas substâncias em outros países foi o fato de “não precisarem delas”, bem como afirmar, com tanta autoridade, que “não há em uso no Brasil nenhum agrotóxico cancerígeno”. Entre as principais indicações de toxicidade que motivaram a Anvisa, em 2008, a colocar em reavaliação toxicológica 14 substâncias estão, além de carcinogenicidade (em diversos produtos), outras mazelas como toxicidade reprodutiva, teratogenicidade (que produz malformação fetal), distúrbios neuropsiquiátricos, desregulação endócrina, imunotoxicidade, mutagenicidade, entre outros. É pouco? Destes 14 produtos, apenas um já foi retirado mercado brasileiro (o triclorfom).

Ainda sobre os resíduos nos alimentos, vale a pena lembrar que, quando foi autorizada no Brasil a soja transgênica tolerante ao herbicida glifosato (o Roundup, da Monsanto), a Anvisa aumentou em 50 vezes (!!) o Limite Máximo de Resíduos (LMR) do veneno na soja. Sem qualquer justificativa científica. Depois, quando foi liberado o milho tolerante ao herbicida, o LMR de glifosato no milho foi aumentado em 10 vezes.

Leia a íntegra da matéria do Correio Braziliense em IHU-Unisinos.

7. Bayer compra Soytech

A Bayer CropScience anunciou ontem um acordo para adquirir a totalidade de ações da holding Goiânia Investimentos e Participações (GIP), que controla a brasileira SoyTech Seeds, especializada em melhoramento genético de sementes na cultura da soja. A aquisição possibilitará à empresa elevar sua capacidade de pesquisa e desenvolvimento de variedades de soja. (…)

Fonte: Valor Econômico, 07/06/2011 (via Pratos Limpos).

N.E.: Com a aquisição a empresa ampliará acesso de sementes de soja para venda do transgênico resistente ao herbicida glufosinato de amônio.

A alternativa agroecológica

Vereda Funda: geraizeiros lutam pela reconquista de suas terras e modos tradicionais de vida

Seu Nerim Rodrigues Barbosa, 68 anos, é um dos anciãos da comunidade de Vereda Funda, localizada no município de Rio Pardo de Minas, norte de Minas Gerais. Seu sonho é o de que um dia os parentes que foram embora venham morar de novo em sua comunidade, e que as chapadas voltem a dar as frutas e ter água com fartura como era antigamente.

Vereda Funda recebeu esse nome em função das características geográficas do lugar: em uma das vias de acesso existem veredas em um vale profundo, na cabeceira de um dos afluentes do Rio Pardo. As famílias da comunidade vivem ao longo dessa vereda.

O povo de Vereda Funda se identifica como geraizeiro. Seu Nerim confirma essa identidade. “Sou geraizeiro porque a região aqui chama de Gerais e eu nasci e vivi aqui e por isso sou geraizeiro. Nos dias de antes a pessoa vivia aqui, do que tinha na região, plantando pouco e colhendo pouco, buscando alguma coisa pra completar no mercado, mais vivia com o que saia da roça. Não dou nem conta de falar o que tinha aqui. Tinha mandioca, cada um tinha uma chacrinha de café, plantava feijão, arroz, milho, engordava uns porquinhos com o que saía da roça, não comprava ração, não. E tinha um gadinho que criava na solta. Um recurso bom que tinha aqui era a coleta de fruta do mato. Minha família pegava muito o pequi e fazia o óleo pra vender. Plantava cana, eu fui criado fazendo rapadura. A gente tinha um dizer assim que o lugar nosso é pobre, mas é rico de água. O que a gente não tinha levava uma coisa pra comprar outra, como o sal, as ferramenta e o tecido” .

Os “dias de antes”, descritos por seu Nerim, se referem aos Gerais antes da chegada do eucalipto. Por volta de 1970 o Estado de Minas arrendou terras públicas a preços muito baixos para empresas de eucalipto. A região do Alto Rio Pardo reunia as melhores condições para que elas se instalassem: áreas planas de chapadas e solo que responde rápido para o crescimento do eucalipto. A comunidade se viu encurralada nas grotas, expropriadas de seus territórios. O lugar onde criavam o gado na solta, faziam coleta de lenha e frutos, principalmente o pequi, que era importante fonte de renda, deu lugar a extensas monoculturas de eucalipto e pinus, destinadas à produção de carvão. O eucalipto diminuiu o espaço de produção dos geraizeiros. Muita gente se viu obrigada a ir para São Paulo e para o Sul de Minas trabalhar no corte de cana e colheita do café, a fim de ganhar dinheiro para sobreviver, já que o eucalipto não permitia mais o desenvolvimento das atividades de produção e coleta de frutos como era feito antigamente. E não gerava os empregos prometidos.

Na Vereda Funda, sempre foi muito forte a vida de comunidade. Foi nas reflexões das comunidades eclesiais de base que os geraizeiros encontraram a força para pensar seu processo de reapropriação dos territórios. A cultura era muito forte com tradição de celebrar o natal e a festa de reis.

As reflexões feitas durante os encontros e reuniões fortaleciam o sentimento de que era importante buscar alternativas para mudar aquela realidade. Uma das estratégias encontradas foi ampliar as parcerias. Com a ajuda da Comissão Pastoral da Terra, Elmy Pereira Soares, um jovem da Vereda Funda, hoje presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais do município, começou a participar do Curso de Formação para Jovens promovido pelo Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM). A discussão sobre a agroecologia e a valorização do modo nativo de produção dos agricultores familiares possibilitou a troca de conhecimento e experiências entre o curso e a realidade da comunidade. Nas atividades intermodulares, o CAA/NM acompanhava nas comunidades a ação dos jovens. Foi assim que percebeu a grave situação em que viviam os geraizeiros: sem água, sem espaço para produzir e tendo sua agrobiodiversidade ameaçada em função do “deserto verde”, que devastou todos os recursos naturais da comunidade.

Nos momentos de encontro, a comunidade sempre questionava por que as águas tinham acabado, os animais tinham sumido, a terra tinha diminuído e não conseguiam mais viver somente da agricultura. Pairava tristeza, revolta e uma grande vontade de ver os “tempos de antes” voltarem. Ao final de 1998, após essas reflexões, a comunidade começou a entender que a falta d’água, a terra seca, o pouco espaço de produção não eram causados pela falta de chuva. Compreenderam os motivos de perda do território e as consequências da degradação ambiental provocada pelas extensas áreas de monocultura. Foi assim que a luta começou.

Em 2003, começaram a vencer os contratos da “firma” de eucalipto. Os movimentos sociais se uniram, assessoraram a comunidade e elaboraram uma proposta de reocupação produtiva e ambiental das chapadas, no seu entorno, que estavam nas mãos das empresas Florestaminas e Gerdau. Mas o governo de Minas Gerais, pressionado pelo setor florestal e guseiro, tomou a decisão de ir renovando os contratos com as “reflorestadoras”. A Via Campesina iniciou então sua articulação junto às comunidades tradicionais e apoiou a ocupação da Comunidade de Vereda Funda (ocorrida em 2004), que conseguiu finalmente negociar com a Florestaminas, intermediada pelo ITER, a devolução de 5.000 hectares para os geraizeiros. Foi a primeira experiência de reapropriação de terras públicas feita por comunidades tradicionais em Minas Gerais.

Está em curso agora no Alto Rio Pardo um amplo movimento das comunidades geraizeiras pela reapropriação dos territórios e recuperação do Cerrado. Vereda Funda é uma delas. O desafio agora é implementar o “Projeto de Reconversão Extrativista: da monocultura do eucalipto para sistemas agrossilvipastoris”, que prevê a devolução de 170.000 ha de terras, que foram arrendados durante as décadas de 1970 e 1980, para cerca de 3.000 famílias de geraizeiros que vivem em dezenas de comunidades da região do Alto Rio Pardo. O projeto busca promover a implantação de um assentamento agroextrativista, visando a reocupação e utilização sustentável das terras públicas arrendadas no entorno da comunidade de Vereda Funda, beneficiando diretamente as 133 famílias de geraizeiros que ali vivem. Prevê também o estímulo à produção diversificada de alimentos, madeira e lenha, a segurança alimentar e a geração de empregos, através da transição para sistemas agroextrativistas, tendo como referência os potenciais ecossistêmicos e culturais do território e a melhoria da qualidade de vida.

O sonho de seu Nerim é o sonho de toda a comunidade: recuperar os Gerais, voltar a ter água, construir uma escola diferenciada e ver todo o povo de volta à comunidade. A comunidade já colocou um pé na chapada: abrindo espaços para moradia dos filhos que não tinham terra, para as famílias plantarem lavouras diversificadas, formação de pastagens, recuperação dos cerrados e suas águas. Onde o Cerrado se regenerou, os frutos nativos já podem ser novamente coletados, a água voltou a correr. A comunidade tem esperança de que seja possível viver no lugar. E Vereda Funda segue na luta pela garantia da concretização do sonho de recuperar o modo geraizeiro de se viver.

Fonte: Agroecologia em Rede.

 

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Campanha Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.

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2 comentários

  1. Paulo Andrade
    Postado 25 de junho de 2011 às 15:19 | Permalink

    Na verdade a pesquisa publicada sobre a proteína inseticida Cry1Ab no plasma de mulheres e fetos no Canadá, de autoria de Ariz e Lebranc, não confirma nada porque está cheia de erros metodológicos. Cito apenas alguns, mas espero que os leitores deste site baixem o artigo e leiam com atenção, antes de acreditarem na manchete.
    a) os autores empregaram um ensaio de detecção ELISA comercial desenvolvido para plantas e procuram detectar a presença de proteína Cry no soro de mulheres do Canadá. Esta metodologia é profundamente equivocada e não foi validade de forma alguma.
    b) os níveis detectados estão todos no limite inferior de detecção do teste, ainda que ele tivesse sido validado, sugerindo que o que se mediu foi apenas uma reação cruzada.
    c) não foram feitos controles negativos (isto é, testes com soros de mulheres de países ou lugares onde não se consome a proteína nem se cultiva qualquer planta transgênica expressando a proteína Cry
    Há muitos outros erros graves metodológicos. O artigo é, na verdade, mais um exemplo de má ciência publicado em boa revista. Lamentável.
    Mas mais lamentável é assumir que isso seja uma demonstração de uma hipótese amplamente descartada e meter o pau em toda a literatura (centenas de artigos) que mostra o contrário. Lembro aos leitores que a ciência é feita de maioria e as vozes discordantes estão erradas até prova em contrário, e não o oposto.
    Boa (e crítica) leitura do texto original a todos que se interessarem pelo assunto.

    • adriana
      Postado 27 de junho de 2011 às 14:03 | Permalink

      Integrantes das CTNBios do Brasil e de outros cantos, como o Dr. Paulo Andrade, se esforçam para desqualificar as pesquisas independentes que cada vez mais vão confirmando que os transgênicos foram liberados de forma açodada e com base em regulamentações frouxas. A atitude científica mais correta, no caso de se criticar a pesquisa, seria pedir a continuidade dos estudos ou sua repetição. Teriam os autores inventado a presença da toxina transgênica no sangue? E o que dizer da contaminação do sangue pelos agrotóxicos associados às sementes transgênicas, igualmente achado no sangue das canadenses? Os que inovam ou pensam diferente sempre foram atacados pelo status quo, inclusive na ciência, mas acabaram reconhecidos com o tempo.

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