AS-PTA http://aspta.org.br Wed, 27 Oct 2021 20:02:18 +0000 pt-BR hourly 1 Na Borborema paraibana, muito empenho no resgate do cultivo da mandioca pelas famílias agricultoras http://aspta.org.br/2021/10/27/na-borborema-paraibana-muito-empenho-no-resgate-do-cultivo-da-mandioca-pelas-familias-agricultoras/ http://aspta.org.br/2021/10/27/na-borborema-paraibana-muito-empenho-no-resgate-do-cultivo-da-mandioca-pelas-familias-agricultoras/#respond Wed, 27 Oct 2021 18:10:29 +0000 http://aspta.org.br/?p=19035 Leia mais]]> A estratégia envolve a disseminação de minicasas de farinha, uma inovação desenvolvida por um casal de agricultores, e de roçados comunitários para multiplicar as sementes perdidas

“Há mais de 20 anos que não tem mais casa de farinha na comunidade. Aqui, eram nove casas na minha infância. Hoje, só resta uma abandonada porque ninguém mais planta mandioca. Só conheço uma pessoa que cultiva. As mais velhas se aposentaram e as mais jovens não continuaram como antes, muitas preferem comprar”. Quem conta esta história é a agricultora familiar agroecológica e guardiã das Sementes da Paixão, Rita Izidoro Félix, a conhecida Ritinha da comunidade Benefício do município de Esperança.

O que Ritinha fala, infelizmente, não é exceção na região onde vive, a Borborema paraibana. O mesmo acontece no Sítio Xique-Xique, em Remígio, onde moram José Irenaldo Nunes Bezerra, Elisabeth Ananias Barbosa e os dois filhos, Kaliane (10 anos) e Kaymim (15).

“Quando a gente chegou aqui, há 30 anos, essa região do Brejo, era uma potência em produção de mandioca e farinha, sabe?”, relata Irenaldo. “No decorrer do tempo, as pessoas foram diminuindo o plantio, as casas de farinha foram se fechando. Chegou uma época em que as casas de farinha praticamente não funcionavam mais. Das 20 casas que existiam aqui na região, hoje só existem duas e o pessoal não tem mais a cultura do plantio da mandioca e de fazer a farinha”, acrescenta.

Além da perda do cultivo da mandioca, que sempre esteve na base da alimentação do Nordestino, o desinteresse pelo tubérculo é uma mudança nada alvissareira para quem vive da agricultura numa área semiárida, cada vez mais afetada pelas mudanças climáticas. Ano a ano, o que se presencia na Borborema e em outros territórios do grande Semiárido brasileiro são chuvas abaixo da média anual.

Isso porque a mandioca tem muita tolerância a um longo período de estiagem. “É uma cultura extremamente resistente e se adapta a qualquer região do nosso país”, assegura Ivanilson Estevão, técnico da AS-PTA. O mesmo não se pode dizer da macaxeira, que começou a ganhar o espaço que a mandioca tinha em tempos antanhos. Cientes do comportamento das duas plantas, há cerca de sete anos, o casal Irenaldo e Beta, que antes plantava muito mais macaxeira do que mandioca, inverteu os roçados.

“Trocamos o plantio de uma por outra. Com chuva pouca, é melhor mandioca”, assegura Beta. “Hoje, a macaxeira que plantamos é só pra comer.” Da mandioca, vem metade da renda que faz nas feiras semanais na Feira Agroecológica de Remígio, que o casal que ajudou a fundar. Beta faz e leva para vender vários produtos beneficiados como os beijus e o pé de moleque temperado e cozido na palha da bananeira.

Mas, até chegar neste ponto da história, foi preciso fé que dias melhores viriam, determinação, persistência e coragem para trabalhar. “Eu tinha muita vontade de trabalhar para ganhar meu dinheiro e via grande parte da macaxeira que a gente plantava sendo vendida para atravessador. Uma caixa com 30 quilos de macaxeira por R$ 13,00”, conta Beta.

Ao mesmo tempo, na feira, os clientes sempre perguntavam se alguém ali vendia pé de moleque e beiju. E aí, Beta juntou o interesse das pessoas à sua vontade de aumentar a renda familiar beneficiando a macaxeira que tinha ao seu dispor. E temperou esta mistura com fé e pensamento positivo. Natural da região do Cariri, sem a cultura dos alimentos à base da mandioca e da macaxeira, Beta decidiu que transformaria a macaxeira em quitutes, mesmo sem receitas e sem ter quem a ensinasse.

Ela foi testando as misturas dos ingredientes. “Igual a cozinhar arroz pela primeira vez. Às vezes, fica duro, às vezes, cozinha demais.” De teste em teste, o pé de moleque foi levado para a feira e conquistou o gosto da clientela. A produção dos beneficiados começou com meia caixa de macaxeira, passou para uma e meia e chegou a duas.

Mas, o trabalho era bem exigente. Tanto Beta como Irenaldo não aguentavam mais ralar e espremer. A cada produção, panos de cozinhas terminam esgarçados e rasgados e as mãos, raladas. Foi aí que veio a invenção de Irenaldo.

“Como eu tinha ideia de como era uma casa de farinha, disse a ela (Beta): ‘Vou num ferreiro, que é meu amigo e faz maquinário e adaptar’. Aí cheguei lá e disse: ‘Nelsinho, é o seguinte, eu tô com uma ideia de montar uma pequena casa de farinha na cozinha mesmo. Eu preciso de uma prensa pequena, de 80 cm de comprimento e 50 cm de largura, e um rodete pra gente moer uma pequena quantidade de mandioca’. E ele disse: ‘Ah, rapaz, eu faço, num tem problema não’. E ele fez. Na época custou R$ 1,2 mil. Em casa, a gente fez uma bancada para montar os equipamentos. E foi um sucesso. Para ralar duas caixas de mandioca é uma questão de 20 minutos. A prensa também é um sucesso. Ai não teve mais problema. A gente conseguiu produzir com mais facilidade.”

A teimosia de Beta em nadar contra a corrente e resgatar receitas que estavam esquecidas mais a invenção de Irenaldo estão dando nó em pingo d’água e transformando a relação das famílias agricultoras com a mandioca novamente.

Desde quando adaptaram a casa de farinha na cozinha de casa, Beta passou a demonstrar a invenção em vários encontros de agricultoras e agricultores promovidos pelo Polo da Borborema e a AS-PTA.

“Teve encontro que a AS-PTA levou a máquina e a macaxeira, fui demonstrando como fazia e muita gente ficou interessada”, lembra a agricultora. Daí em diante, o trabalho do casal iluminou o caminho de muitas mulheres no território que passaram a fazer renda a partir do beneficiamento destes tubérculos.

Na feira de Remígio, por exemplo, além de Beta, há mais cinco mulheres que vendem esses produtos. “Saber que tudo isso ajudou a muitas mulheres, é muito gratificante”, confessa Beta.

Juntou a fome com a vontade de comer – Ao mesmo tempo em que Beta e Irenaldo buscavam suas melhoras, a AS-PTA e o Polo trabalhavam com várias estratégias para resgatar a cultura da mandioca no território.

E aí a inovação do casal deu um casamento perfeito com o trabalho de desenvolvido desde 2016. “A gente começou a incentivar este resgate da cultura da mandioca por meio do apoio ao melhoramento e à aquisição de equipamentos – o triturador e a prensa de Beta e Irenaldo – para o beneficiamento”, comenta Ivanilson, o técnico da AS-PTA que assessora a Rede de Agroindústrias Caseiras e Comunitárias do território da Borborema.

“Esse ano, com o projeto Borborema Agroecológica, a gente ampliou mais esse trabalho e apoiamos cinco unidades coletivas para o beneficiamento de mandioca. A novidade é que, em cada local, está sendo implantado um roçado coletivo para resgate das variedades de mandioca que foram perdidas na região”, acrescenta Ivanilson.

O projeto Borborema Agroecológica faz parte do INNOVA AF, que busca fortalecer as capacidades das famílias camponesas para a adaptação às mudanças climáticas, por meio da gestão participativa do conhecimento e disseminação de boas práticas. Trata-se de uma iniciativa financiada pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrário (FIDA) e executado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

Dos cinco grupos beneficiados com a minifábrica de mandioca e o roçado coletivo, quatro são compostos só por mulheres e um por jovens que toparam empreender este trabalho. Um dos grupos de mulheres fica em Benefício, na zona rural de Esperança, a comunidade de Ritinha que deu o depoimento de abertura deste texto.

Sobre a minicasa de farinha, Ritinha fala com muita empolgação. Ela conta que as famílias da comunidade estão construindo, em regime de mutirão, todos os sábados, uma estrutura física para abrigar a pequena fábrica de beneficiados da mandioca e macaxeira. “Se juntam seis ajudantes e três pedreiros da comunidade. A família, que não pode ajudar com a mão de obra, dá o lanche.”
Ao passo em que se constrói a estrutura física, a comunidade também decide coletivamente onde vai ser implantado o roçado comunitário da mandioca. “A gente está se reunindo e pesquisando para saber qual o pedaço de terra que vai ser doado para, principalmente, as mulheres plantarem a mandioca.”

Este ano, por causa das chuvas poucas, não houve plantio. Elas aguardam 2022 para lançar as manivas no campo de multiplicação das sementes que, no caso da mandioca, são pedaços do caule da planta. Mais um motivo para reforçar as vibrações e a esperança de chuvas sejam mais promissoras em 2022.

O Polo da Borborema e a AS-PTA – O Polo é um coletivo que agrega 13 sindicatos rurais, mais de 150 associações comunitárias, uma associação regional de agricultores/as familiares, a EcoBorborema, e uma cooperativa com capacidade de atuar em todo o Estado, a CoopBorborema. E a AS-PTA oferece assessoria técnica e apoio aos processos organizativos do Polo.

Não perca o vídeo sobre a minifábrica de farinha

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Agravamento da fome e da pobreza: Especialistas e organizações alertam sobre perigos da MP 1061 http://aspta.org.br/2021/10/27/agravamento-da-fome-e-da-pobreza-especialistas-e-organizacoes-alertam-sobre-perigos-da-mp-1061/ http://aspta.org.br/2021/10/27/agravamento-da-fome-e-da-pobreza-especialistas-e-organizacoes-alertam-sobre-perigos-da-mp-1061/#comments Wed, 27 Oct 2021 17:40:33 +0000 http://aspta.org.br/?p=19042 Leia mais]]> Medida Provisória cria o Auxílio Brasil e Alimenta Brasil e extingue o Bolsa Família e o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA)

Enquanto cenas de miséria e fome se espalham entre as capas de jornais e as cenas do cotidiano, Jair Bolsonaro está provocando um desmonte sem precedentes na estrutura das políticas públicas sociais e de segurança alimentar no país. Esse alerta vem dos especialistas e organizações sobre o cenário nacional e, principalmente, sobre a Medida Provisória 1.061, editada com uma canetada há poucos meses do ano eleitoral, sem justificativa técnica, sem fonte de recurso prevista e sem diálogo com os conselhos e partes da federação.

Como um clássico exemplo do Cavalo de Tróia, oficialmente, essa MP institui o Programa Auxílio Brasil e o Programa Alimenta Brasil, e extingue o Bolsa Família e o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), políticas públicas que foram estratégicas quando o país saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014.

“Vivemos um momento muito trágico de nossa história porque o número de famintos que foi identificado em dezembro do ano passado, seguramente já aumentou”, reflete a antropóloga Maria Emília Pacheco se referindo à pesquisa que revelou o montante de mais de 19 milhões de famintos e 55% do povo brasileiro em situação de insegurança alimentar, conforme estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Rede Penssan, em dezembro de 2020.

Maria Emília faz parte do Núcleo Executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), é pesquisadora da FASE e foi presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) entre 2012 e 2016, órgão que foi extinto no primeiro dia de mandato do Governo Bolsonaro. Ao ser perguntada sobre o sentimento que fica diante desse grande desmonte que está acontecendo nas políticas sociais, ela pontua: “é um sentimento de indignação, mas ao mesmo tempo de muita determinação, porque a vida e a dignidade humana precisam ser colocadas em primeiro lugar.”

Em Carta Aberta divulgada na última sexta-feira, dia 15, durante a Semana da Alimentação, 230 organizações sociais e entidades populares apontam as incoerências e pedem a rejeição da MP 1061, que ainda não foi votada no Congresso. O documento  proposto pela ANA, pelo Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) e pela Comissão de Presidentes de Conselhos Estaduais de Segurança Alimentar e Nutricional (CPCE), lista as fragilidades e ameaças da MP e, segundo as organizações, representa mais um dos muitos ataques aos direitos sociais por este governo, que, desde seu início, vem imprimindo esforços voltados para desmonte do sistema de proteção social do país.

“Trata-se de uma proposta que fere a constituição, visto que é um dispositivo inadequado, do ponto de vista formal, para encaminhar um assunto de tamanha dimensão e que impacta na vida de milhões de brasileiros/as, além de atropelar processos democráticos historicamente construídos.  A proposta reflete a visão ultraneoliberal desta gestão, e reafirma uma concepção equivocada e preconceituosa de políticas e programas que preveem transferência monetária de renda voltados para populações em situação de extrema vulnerabilidade social”, divulga a Carta Aberta.

MP 1.061 provoca fim do Bolsa Família, política social mais importante do país

Referência mundial e há 18 anos sendo o único benefício para milhares de famílias brasileiras, o Bolsa Família ganha novo nome e uma série de alterações que não favorecem as pessoas mais empobrecidas que se beneficiam do Programa, uma média de 100 milhões de brasileiros e brasileiras.

O novo Programa reúne Auxílio Criança Cidadã, Auxílio Inclusão Produtiva Rural, Auxílio Inclusão Produtiva Urbana, Auxílio Esporte Escolar; Bolsa de Iniciação Científica Junior, porém não especifica critérios para inclusão de beneficiários/as ou aponta reajustes periódicos dos valores pagos. Ou seja, o ideal é que novos programas apresentem melhorias para o público beneficiário, mas não é isso que tem observado especialistas que estão se debruçando sobre o estudo desta MP.

Para o professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e ex-diretor da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Sílvio Porto, a criação desses novos programas é apenas uma tentativa de apagamento institucional, atende a uma intencionalidade eleitoral, uma vez que não apresenta elementos que melhorem o funcionamento dos programas, apenas traz outro nome. “Isso mostra claramente que o governo tá muito mais preocupado com uma afirmação política do que efetivamente resolver ou atender ou minimizar a problemática da insegurança alimentar e de acesso à renda por parte das famílias agricultoras”, avalia.

A MP não estabelece, por exemplo, o aumento de recursos injetados no atual Bolsa Família, assim como não fica claro como será o acesso das famílias que estão na fila do cadastro. “A questão é que o governo erra querendo dar a sensação que tá criando algo novo no contexto atual para o enfrentamento da pobreza urbana e rural”, reforça Sílvio.

A ameaça central desta MP para o Brasil é o desmonte da política social, isto afeta diretamente a vida das famílias em situação de pobreza e extrema pobreza e, consequentemente, atinge a economia dos municípios, especialmente dos que possuem menor PIB (Produto Interno Bruto). Segundo relatório do IPEA intitulado “Os Efeitos do Programa Bolsa Família sobre a Pobreza e a Desigualdade: um balanço dos primeiros quinze anos”, publicado em 2019, aponta que o Programa Bolsa Família registrou, em 2017, “uma redução de cerca de 15% no número de pobres e mais de 25% no número de extremamente pobres”. Significa dizer que as transferências do Programa “retiraram 3,4 milhões de pessoas da pobreza extrema e outras 3,2 milhões da pobreza”.

Aparentemente há um salto na proteção social, mas “essa medida provisória, por si só, representa um enfraquecimento da política social”, lamenta Maria Emília. “É como se fosse uma cesta de auxílios, uma cesta de iniciativas, bolsas (…), cujos valores não estão previstos. Não se sabe a que esse conjunto vai atender (…), não são definidos os critérios”, alerta.

Na contramão da pseudo novidade apresentada pelo governo federal, “há de se dizer que o Programa Bolsa Família, que agora vem ser substituído por esse Auxílio Brasil, é um Programa grandemente reconhecido, que merece ser aperfeiçoado”, analisa Maria Emília. Para ela, “esse aperfeiçoamento vai no sentido do debate da renda básica, que não signifique a supressão de direitos conquistados, mas que mantenha um sistema de proteção social, que se avance numa proposta de renda básica”.

A MP pode ser regulamentada em até 90 dias e, conforme observa Sílvio Porto, o ideal é que a medida não seja convertida em Projeto de Lei.

Programa “Desabastece” Brasil

“Se o que tinha funcionava, porque fazer algo para substituir o que já existia? porque não ajustar, aprimorar e melhorar ao invés de fazer uma nova regulamentação? O que precisamos é para agora, para ontem, ano passado”, questiona o professor da UFRB.

Porto se refere a tentativa de apagamento institucional, por parte do governo Bolsonaro, da teia de políticas de segurança alimentar e nutricional que existiam no Brasil. Alguns nós dessa rede ainda resistem bravamente, fruto da mobilização social, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mas estão sob constante ataque. Soma-se ao constante corte de recursos, a ineficiência na execução do programa por parte do estado, o enfraquecimento da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) com a venda de unidades armazenadoras (responsáveis por guardar os estoques públicos de alimentos), agora o ataque à estrutura do programa, impetrado pela MP 1061.

Em um momento em que é necessário e urgente aprimorar o PAA, política pública de abastecimento alimentar já consolidada e reconhecida internacionalmente, com um maior aporte do Estado, por exemplo, vê-se o seu contínuo desmantelamento. Além de alocar mais recursos, é preciso trazer mais celeridade aos processos do programa, ao invés de uma mudança de nome e um projeto que ainda será regulamentado. Ou seja, não se sabe o que virá.

Entre as incoerências apontadas por especialistas na Carta Aberta pela Rejeição da MP 1061, está o diferente apoio à produção urbana e rural. A inclusão produtiva rural prevê que parte dos recursos acessados terão que ser pagos em alimentos, como contrapartida, a partir do terceiro mês. A regra dificulta o planejamento do ciclo produtivo e não leva em consideração a produção para a subsistência e questões que interferem nas condições de produção (acesso a água, estiagem,…) e que afetam, sobretudo, as famílias mais vulneráveis à fome. Caso as famílias não tenham condições de entregar, correm o risco de serem excluídas e até mesmo criminalizadas. Já a inclusão produtiva urbana não demanda contrapartida – nem com alimentos e nem com trabalho. Para Porto, “é uma inversão de valores e sem justificativa”.

A Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) exerce um importante papel de diálogo com as organizações da sociedade civil, que assumem protagonismo na execução do PAA, em todas as suas modalidades. A MP 1061 pretende retirar esta função da CONAB, estabelecendo relação exclusiva entre os entes da gestão governamental (estados e municípios). No texto, ainda há previsão de recursos para CONAB, porém o indicativo é que a destinação seja via Estado, que será centralizado no Ministério da Cidadania, mas sem apresentar nitidamente como esse processo se dará.

E, ainda, extingue a modalidade do PAA de “aquisição de sementes”, uma das formas concretas de acesso a sementes crioulas para agricultura familiar camponesa. E, ao falar de agroecologia e produção de alimentos saudáveis, elas são o ponto de partida.

 

Por Érica Daiane Costa, Luiza Damigo e Helen Borborema da Coletiva de Comunicação da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA)

 

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Está no ar a Folha Informativa N.7- Divulgação das ações do Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta http://aspta.org.br/2021/10/22/esta-no-ar-a-folha-informativa-n-7-divulgacao-das-acoes-do-projeto-sertao-carioca-conectando-cidade-e-floresta/ http://aspta.org.br/2021/10/22/esta-no-ar-a-folha-informativa-n-7-divulgacao-das-acoes-do-projeto-sertao-carioca-conectando-cidade-e-floresta/#respond Fri, 22 Oct 2021 14:56:10 +0000 http://aspta.org.br/?p=19031 Leia mais]]> Nessa edição, trazemos um Olhar agroecológico para a Ciência e Tecnologia, por Cristhiane Amâncio, pesquisadora da Embrapa. Na seção Divulgação científica, Rogério Ribeiro de Oliveira da PUC-RJ apresenta o texto “As carvoarias e os carvoeiros do  Maciço da Pedra Branca no Rio de  Janeiro”. Na seção Gente Que Faz o Projeto, você conhece guardiãs e guardiões de sementes do Rio de Janeiro. Por fim, na seção Diários de Campo, acompanhe as atividades que estão sendo desenvolvidas no cotidiano das nossas ações!

O material é acessível para celular. Basta clicar no título da capa, e será direcionado para o texto correspondente.

O projeto é realizado pela AS-PTA, em parceria com as comunidades quilombolas Quilombo Dona Bilina, Quilombo Cafundá Astrogilda e Quilombo do Camorim. Tem patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Boa leitura!

Folha informativa 7 – Sertão Carioca 

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Em combate à fome, projeto distribuirá mais de 40 toneladas de sementes crioulas pelo Paraná http://aspta.org.br/2021/10/20/em-combate-a-fome-projeto-distribuira-mais-de-40-toneladas-de-sementes-crioulas-pelo-parana/ http://aspta.org.br/2021/10/20/em-combate-a-fome-projeto-distribuira-mais-de-40-toneladas-de-sementes-crioulas-pelo-parana/#respond Wed, 20 Oct 2021 14:48:26 +0000 http://aspta.org.br/?p=19025 Leia mais]]> Ação emergencial, que está em sua 2.ª edição, é realizada pela ReSA e entidades parceiras, com o apoio do Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR)

A farta colheita realizada por cerca de 5 mil famílias agricultoras beneficiadas com as mais de 30 toneladas de sementes crioulas distribuídas entre agosto de 2020 a julho de 2021, na 1ª edição do Projeto Emergencial de Conservação e Multiplicação da Agrobiodiversidade (PECMAP), consagrou o sucesso do trabalho coletivo realizado pela Rede Sementes da Agroecologia (ReSA). Com esse saldo positivo, em julho deste ano, foi aprovada a continuidade e ampliação da ação, abrindo as portas para a 2.ª edição da iniciativa.

Consideradas tesouros por muitos povos, as sementes crioulas são essenciais para a produção de alimentos saudáveis, geração de renda e autonomia de produção para muitos agricultores familiares, indígenas, quilombolas, caiçaras, ribeirinhos, faxinalenses, sem terras e produtores de hortas urbanas. Ciente disso, e em plena pandemia da Covid-19 que inviabilizou a circulação, troca e comercialização de variedades, a ReSA, com o aporte do Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR), efetivou a ação emergencial, distribuindo na primeira edição mais de 200 variedades de espécies, para cerca de 150 municípios paranaenses.

Nesse contexto, visando comprar e doar espécies para famílias que integram as mais de 15 organizações que compõem a Rede, o projeto é realizado em três fases de partilha, sempre atento à sazonalidade de produção e colheita de cada variedade. Assim, iniciando a primeira etapa dessa segunda edição, começou em setembro a aquisição e partilha de sementes crioulas de milho, feijão, arroz, hortaliças, ramas de mandioca, mudas de batata salsa, batata inglesa e plantas medicinais.

Renato Ribeiro, integrante ReSA e do Coletivo Triunfo, explica o cronograma do  PECMAP e destaca que para essa segunda edição a expectativa é que o projeto seja ainda mais abrangente, atendendo um número maior de famílias agricultoras, de todas as regiões do Paraná, e com uma diversidade mais ampla de espécies.

“Nesse momento, o projeto emergencial está na fase dos grãos e tudo isso atenderá mais de 5 mil famílias de cerca de 250 municípios. Na primeira edição, muitas famílias beneficiadas conseguiram multiplicar as sementes recebidas, de tal forma que hoje elas possuem suas espécies, reduzindo a sua demanda para essa segunda edição. Com isso, também conseguimos dobrar a quantidade de famílias fornecedoras de variedades, antes tínhamos 100, agora estimamos chegar em 200. Além disso, diferente do ano passado, esse ano estamos trabalhando com mudas de plantas nativas e medicinais, produzidas por mulheres, beneficiando muito mais agricultoras”.

Durante a ação serão compradas e doadas cerca de 20 toneladas de milho, 7 toneladas de feijão, 4 toneladas de arroz, 30 mil pacotes de hortaliças e plantas alimentícias não convencionais (PANCs), mil metros de rama de mandioca, 38 mil mudas de batata salsa e 800 quilos de batata inglesa. Além disso, aproximadamente 16 mil mudas de plantas medicinais, frutíferas, nativas e de erva-mate circularão pelo Estado.

Ação em Rede – Para garantir a qualidade das espécies distribuídas e assegurar que as sementes crioulas cheguem nas mãos das famílias beneficiadas, diversas entidades que compõem a ReSA têm se envolvido na iniciativa. Nessa edição, 9 cooperativas, 7 sindicatos, 25 associações de agricultores, 9 ONGs e comissões inter-religiosas, 8 instituições de ensino, secretarias de agricultura, movimentos sociais, sindicatos e coletivos, têm cumprido papel fundamental no fortalecimento dessa grande ação coletiva realizada em rede.

“É importante destacar o empenho das entidades ligadas à Rede que estão abrindo novos locais e famílias para serem beneficiadas. Há locais que chamamos de tesouro escondido, que nós não sabemos onde estão, nem o que precisam, e essas entidades estão envolvidas, contribuindo na circulação dessas sementes. Sem o apoio e contribuição de todas, essa ação não chegaria a quem mais precisa, as famílias agricultoras”, afirma André Jantara, assessor técnico da AS-PTA e integrante da ReSA, sobre a importância do empenho das organizações para fazer com que as sementes crioulas circulem.

Uma das entidades envolvidas é a Cooperativa da Agricultura Familiar de Palmeira (CAFPAL), na região centro-sul do Paraná. A cooperativa é o entreposto de recebimento e distribuição de toda essa diversidade partilhada pelo Projeto.

Ismael Lourenço Albino, presidente da CAFPAL, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e agricultor no Assentamento Palmares II, em Palmeira, explica que a escolha da Cooperativa para ser o entreposto das sementes se deu justamente pela localização da entidade, o que facilita a logística.

“Após analisarmos as outras opções para centralizar, organizar e distribuir as sementes, optou-se pela CAFPAL devido à facilitação da logística, visto que a BR 277 passa pela cidade, e ficamos a 40 quilômetros da BR 376, além da PR 151 que passa no município. Também tivemos o apoio da Associação dos Moradores da Vila Rosa (ASMOVIR), que nos cedeu o anexo que serve para armazenar as sementes, facilitando a logística desde a primeira edição do projeto”.

De acordo com Lourenço, a contribuição da CAFPAL nas duas edições do PECMAP reforça a atuação da cooperativa e de todas as entidades envolvidas. “Essa ação com a ReSA fortalece a cooperativa no sentido da visibilidade da CAFPAL, no diálogo com os produtores e com outras entidades, porque foi através desse projeto que construímos algumas redes de negociações, trocamos ideias e experiências. Esse foi o maior legado que deixou o primeiro projeto e está se fortalecendo com essa 2ª. edição. Isso é ótimo para a CAFPAL, mas também para todas as cooperativas envolvidas”.

Lançamento oficial – No dia 1 de outubro ocorreu o lançamento oficial da 2.ª edição do PECMAP, no Assentamento São Joaquim, área do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Teixeira Soares, localizada a 140 quilômetros da capital paranaense.

O evento contou com ato cultural e político com a entrega de certificados para as mulheres guardiãs que comercializaram sementes crioulas através da iniciativa. O auge da celebração foi a devolução de variedades crioulas de feijão, arroz e milho para as famílias agricultoras do assentamento.

As sementes crioulas partilhadas, que retornaram para as mãos das famílias agricultoras, não foram escolhidas por acaso. Elas são parte de variedades perdidas pelas assentadas e assentados há alguns anos após serem contaminadas por transgênicos e agrotóxicos.

Neste ano, após um teste de transgenia realizado em oito variedades de sementes de milho produzidas por agricultores do município de Teixeira Soares, cinco estavam contaminadas, sendo que dois deles eram de famílias agricultoras do assentamento. Luiz Carlos Opata, assentado e integrante da coordenação da área, preservava a anos a variedade de milho catingueiro, que foi contaminada pelos transgênicos.

“No início do assentamento as primeiras produções eram com sementes crioulas que a pessoa tinha. Tinha milho de várias variedades crioulas e até soja orgânica. Mas, veio o cultivo de soja e milho convencional, depois os transgênicos, que levou a contaminação do milho catingueiro, carioca e outras variedades crioulas. Agora, essas sementes que recebemos vão ajudar na recuperação dessas variedades perdidas, para inclusive garantir a produção de alimentos básicos. É aquela coisa, como vamos falar de segurança alimentar e nutricional se não temos sementes de qualidade para plantar?”

Texto: Comunicação ReSA
Fotos: @diogo_fotografia_hd

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Um tempo de expansão do método LUME no apoio às transições agroecológicas nos territórios rurais http://aspta.org.br/2021/10/17/um-tempo-de-expansao-do-metodo-lume-no-apoio-as-transicoes-agroecologicas-nos-territorios/ http://aspta.org.br/2021/10/17/um-tempo-de-expansao-do-metodo-lume-no-apoio-as-transicoes-agroecologicas-nos-territorios/#comments Sun, 17 Oct 2021 17:15:53 +0000 http://aspta.org.br/?p=19006 Leia mais]]> No início deste mês, um evento virtual lançou o segundo livro sobre o LUME, que está sendo disseminado com apoio de organizações internacionais

Um dos dilemas dos tempos atuais é que não dá para ler o mundo a partir de um pensamento focado em dividi-lo em partes para aprofundar o olhar, sem levar em consideração as relações entre essas partes. O mundo em que vivemos é complexo e contraditório, regido pelas leis da simultaneidade e interdependência e não pela lógica da causa e efeito, da simples linearidade dos acontecimentos.

Esse dilema é sentido em várias áreas da vida e, na agricultura, não seria diferente. Os estudiosos da agricultura familiar agroecológica e as instituições que a pesquisam e fomentam têm se deparado com o limite claro do pensamento cartesiano e da economia neoclássica, que invisibiliza dimensões importantes das economias não monetárias, essenciais para reprodução socioecológica da agricultura familiar. E, assim, não levando-as em conta nas tomadas de decisões, na construção de políticas públicas e de estratégias capazes de fazer frente às grandes crises que a nossa civilização enfrenta, como a climática e a pandemia, completamente relacionadas, inclusive.

Até porque não dá para entender a complexidade dos agroecossistemas familiares e suas relações com os territórios se formos guiados exclusivamente pela lógica dos mercados, onde tudo é revertido em mercadoria, em oportunidade de negócio. Ou seja: é preciso ampliar o olhar para que ele abarque também o trabalho não monetizado, o do cuidado, as relações de trocas, as relações de poder entre homens e mulheres e as juventudes rurais, as relações que democratizam o conhecimento e empoderam agricultores e agricultoras… Só assim se consegue enxergar e interagir com os sistemas agrícolas familiares de forma mais potente e acurada.

Essa ideia foi o pano de fundo para a realização de um evento virtual que se soma a um movimento mundial em busca de leituras mais complexas da realidade na qual estamos inseridos e, por isso, somos parte. Promovido pela ASA e AS-PTA, com apoio do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o evento lançou o livro “Lume: Método de Análises Econômico-Ecológicas de Agroecossistemas”, a segunda publicação sobre o inovador método LUME, desenvolvido a partir da prática das organizações da sociedade civil, capitaneada pela AS-PTA. O método se inspira e é fonte de inspiração para experiências similares que pipocam em outras partes do mundo.

Realizado pela internet, na noite da última quarta-feira (6), o evento reuniu cerca de 100 pessoas de vários países da América Latina. Os/as participantes representam, em sua grande maioria, organizações da sociedade civil e de instituições de fomento da agroecologia que atuam no continente.

Representantes de redes da sociedade civil organizada que atuam nos Semiáridos da América Latina, do poder público e de organismos de fomento à agricultura familiar agroecológica, como o FIDA e a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) fizeram comentários na segunda parte do evento. Pela ASA, Glória Batista; pela Plataforma Semiáridos da América Latina, Gabriel Seghezzo; pelo governo do Rio Grande do Norte, Alexandre Lima; pelo FIDA, Claus Reiner; e pela FAO, Emma Siliprandi. Saiba mais aqui.

O que é o LUME? “O nome LUME carrega a ideia de jogar luzes em parcelas da realidade muito importantes e que são invisibilizadas pelas abordagens convencionais”, conta Luciano Silveira, também da equipe da AS-PTA, envolvido diretamente com o desenvolvimento deste método. Ele acrescenta: “O método se construiu a partir da crítica à racionalidade econômica que analisa hoje o desenvolvimento e que oculta dimensões essenciais do processo de desenvolvimento.”

“O LUME busca superar as visões cartesianas, mecanicistas, procurando ver a economia sem reduzi-la à circulação de mercadorias. Economia não é igual a mercado. Estamos dominados pela lógica dos mercados e se nós quisermos entender como programas e políticas públicos impactam na vida material, sobretudo, das populações mais empobrecidas, temos que, sobretudo, ampliar as nossas perspectivas econômicas”, agrega Paulo Petersen, também da AS-PTA e co-criador do LUME.

O LUME tem vários indicadores de ordem qualitativa e quantitativa. Há indicadores de autonomia, integração social, responsividade, aumento de renda, equidade de gênero/protagonismo das mulheres e equidade intergeracional/protagonismo da juventude. Juntos, eles revelam várias camadas relacionadas com as dimensões econômica, ecológica e social dos agroecossistemas familiares e também dos territórios agroecológicos.

Uma das principais chaves do LUME é a escuta dos protagonistas dos processos de transição agroecológica: as famílias agricultoras e as lideranças das organizações representativas. “O fato de partir das visões e sentimentos das pessoas que, em geral, não são escutadas é a chave para que as luzes sejam projetadas na realidade”, revela Paulo Petersen, que sempre destaca esta característica do LUME como o seu grande diferencial. “Pela voz dos agricultores e agricultoras, sujeitos de direito nas políticas públicas, percebemos as mudanças que acontecem em suas vidas.”

Um método em amplo processo de aplicação – Para ver através das lentes do LUME é preciso aprender a usar essa ferramenta de análise sistêmica. E a AS-PTA tem trabalhado em várias frentes com processos de capacitação técnica para que mais organizações e pessoas utilizem o método. Duas frentes destas envolvem, de forma complementar, a equipe da instituição na Paraíba.

“Pela primeira vez, toda a equipe da AS-PTA na Paraíba se envolveu num processo de sistematização e aprendizagem. Esse processo está sendo muito rico porque ele permite, de um lado, a gente avaliar os impactos das inovações frente as mudanças climáticas e, por outro lado, nos aperfeiçoarmos tecnicamente na execução dos nossos trabalhos”, assegura Adriana Galvão, da equipe técnica da AS-PTA, que acompanha diretamente as ações de comunicação e o trabalho organizativo com as mulheres agricultoras junto ao Polo da Borborema.

Nos últimos meses, a equipe técnica da organização desenvolvedora do LUME teve a oportunidade de aplicar o método em sete agroecossistemas, um em cada comunidade onde o projeto Borborema Agroecológica atua. A iniciativa faz parte do programa internacional INNOVA-AF, financiado pelo FIDA e executado pelo (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA). O INNOVA-AF busca reforçar as capacidades das famílias camponesas, por meio da gestão participativa do conhecimento e disseminação de boas práticas para a adaptação às mudanças climáticas.

Além desta oportunidade de aplicação do LUME, toda a equipe da AS-PTA se envolveu também no estudo dele por meio do projeto Gestão de Conhecimento e Redes Territoriais do Semiárido Brasileiro, promovido pela AKSAAM, com financiamento do FIDA, e envolvimento da Rede ATER Nordeste, da qual a AS-PTA faz parte.

Clique aqui para conhecer o livro:

LUME: Método de Análise Econômico-Ecológica de Agroecossistemas – em português

LUME: Método para el análisis económico-ecológico de los agroecosistemas – em espanhol

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“O LUME traz uma grande inovação na forma de pensar e melhor entender a agricultura agroecológica”, diz representante da FAO http://aspta.org.br/2021/10/17/o-lume-traz-uma-grande-inovacao-na-forma-de-pensar-e-melhor-entender-a-agricultura-agroecologica-diz-representante-da-fao/ http://aspta.org.br/2021/10/17/o-lume-traz-uma-grande-inovacao-na-forma-de-pensar-e-melhor-entender-a-agricultura-agroecologica-diz-representante-da-fao/#respond Sun, 17 Oct 2021 11:06:58 +0000 http://aspta.org.br/?p=19017 Leia mais]]> A afirmação foi feita em evento de lançamento de nova publicação sobre o método LUME e sua aplicação em pesquisa voltada a avaliar efeitos dos programas de ASA sobre a agricultura familiar no Semiárido brasileiro.

http://aspta.org.br/2015/05/25/metodo/Promovido pela ASA e pela AS-PTA, com apoio do FIDA, o webnário “Transição ecológica justa no Semiárido brasileiro: Ensinamentos das ações da ASA segundo o Método LUME” reuniu na quarta-feira passada (6), representantes de organizações que atuam em distintas áreas secas da América Latina para debater o potencial do método LUME em avaliar os efeitos multidimensionais de políticas e programas públicos voltados ao desenvolvimento rural e à agricultura familiar.

“Diante do desafio colocado pela agenda internacional dos ODS, há uma busca, no mundo inteiro, pela renovação das perspectivas de análise de impacto dos programas e políticas de desenvolvimento rural. Isso porque os métodos convencionais revelam-se insuficientes, senão inadequados, para avaliar de forma conjugada resultados finalísticos relacionados aos vários objetivos estabelecidos na agenda”, sustenta Paulo Petersen, da coordenação da ONG AS-PTA, que capitaneou o desenvolvimento do método e coordena o processo de contínuo aperfeiçoamento com o apoio de instituições do campo agroecológico do Brasil e de outros países latinoamericanos.

“Com o nome que demos ao método, procuramos deixar claro que o nosso objetivo seria o de jogar luzes em parcelas da realidade essenciais para a compreensão da economia da agricultura familiar, mas que são invisibilizadas pelas abordagens de análise convencionais”, conta Luciano Silveira, também da equipe da AS-PTA.

“O LUME busca superar as visões cartesianas, mecanicistas dos enfoques convencionais, procurando analisar as dinâmicas econômicas sem reduzi-las à circulação de mercadorias. Definitivamente, a economia não se restringe aos mercados, sobretudo se estamos falando dos mercados convencionais. Estamos dominados pela lógica dos mercados controlados pelas grandes corporações. Se quisermos entender como programas e políticas públicas impactam na vida material, sobretudo, das populações mais empobrecidas, temos que, sobretudo, ampliar as nossas perspectivas de análise econômica”, destaca Paulo.

O LUME combina análises qualitativas com quantitativas. Com as últimas, o LUME identifica resultados econômicos anuais do trabalho realizado pelas famílias agricultoras. “Esses resultados são apresentados em diferentes níveis de agregação, desde o conjunto do agroecossistema até cada um dos seus subsistemas constituintes. Também são apresentados segundo as contribuições proporcionais de homens e mulheres à renda gerada no conjunto do agroecossistema e em cada um de seus subsistemas. Por meio de um amplo conjunto de indicadores relacionados à remuneração do trabalho dos membros das famílias, o método permite analisar o grau relativo de autonomia do agroecossistema em relação aos mercados de insumos e serviços”, explica Paulo.

Com base em informações objetivas obtidas em entrevistas realizadas junto às famílias agricultoras, o método contribui para aferir qualitativamente os graus de autonomia, de integração social, de responsividade, assim como o protagonismo das mulheres e da juventude nos processos de gestão do agroecossistema. A responsividade diz respeito à capacidade desenvolvida nos agroecossistemas para que as famílias agricultoras respondam às variações no entorno sobre as quais não podem controlar. Eventos climáticos extremos, que tendem a se acentuar com as mudanças climáticas, são exemplos dessas variações.

Segundo Paulo, a construção de melhores índices de responsividade é condição importante para que a agricultura familiar esteja melhor preparada para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.

LUME e as políticas de convivência com o Semiárido – De forma didática e envolvente, Paulo Petersen discorreu sobre a variação nos índices qualitativos e indicadores quantitativos revelados pelas lentes do LUME em agroecossistemas que tiveram suas trajetórias de desenvolvimento influenciadas pela instalação das infraestruturas viabilizadas pelos programas da ASA em dez territórios do Semiárido brasileiro.

Essa avaliação foi realizada no bojo de uma pesquisa conduzida em parceria pela ASA e o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) entre os anos de 2014 e 2017. A pesquisa investigou como as famílias que dispõem das tecnologias para armazenamento da água da chuva para consumo humano e produção de alimentos atravessaram a longa seca que assolou o Semiárido nesses anos. Em alguns lugares, a seca começou em 2010, em outros, em 2012.

Os resultados evidenciados na pesquisa mensuram dimensões como autonomia, integração das famílias a espaços auto-organizativos e comunitários, além da contribuição proporcional do trabalho realizado por homens e mulheres nas propriedades rurais.

Na dimensão Integração Social, verificou-se uma variação no índice de 0,5 para 0,9 (em uma escala de 0 a 1). O primeiro valor remete ao período em que as famílias ainda não tinham acesso às tecnologias do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), aquelas destinadas a armazenar água da chuva para a produção de alimentos. O segundo valor refere-se ao ano de 2015, período em que a pesquisa de campo foi realizada.

“Embora seja um dos efeitos mais expressivos, dos programas, ele é absolutamente negligenciado pelas avaliações convencionais”, acredita Paulo. Na sua avaliação, a participação das famílias agricultoras em espaços políticos-organizativos, em redes de aprendizagem, em gestão de recursos de uso comum e em outros processos de auto-organização local é um elemento fundamental para a adaptação às mudanças climáticas.

“O LUME não analisa as unidades familiares como se fossem empresas isoladas, lutando para sobreviver nas cadeias de valor verticalizadas”, salienta Paulo. “Infelizmente, ao desconsiderar a importância dos processos econômicos baseados na cooperação local, algumas políticas e programas públicos acabam fragilizando os mecanismos de defesa de que a agricultura familiar depende para conviver com o Semiárido.

A variação em outros índices foram igualmente apresentados e comentados, revelando os significativos impactos da ação da ASA sobre a realidade rural no semiárido.

Reconhecimentos da importância do método – Na segunda parte do evento, representantes de diversas instituições com atuações mundiais ou em distintos territórios da América Latina fizeram comentários sobre o método: Gabriel Seghezzo, da Plataforma Semiáridos da América Latina; Claus Reiner, diretor do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) no Brasil; Emma Siliprandi, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO pela sigla em inglês); Alexandre Lima, secretário de Agricultura do Rio Grande do Norte; e Glória Batista, da ASA Brasil.

“O LUME traz uma grande inovação na forma de pensar e melhor entender a agricultura agroecológica”, sustenta Emma, do Secretariado da Agroecologia da Organização da FAO e autora do livro “Mulheres e agroecologia: transformando o campo, as florestas e as pessoas”.

Outra constatação feita é do quanto o LUME representa um instrumento capaz de agregar os conceitos e inovações da economia feminista à análise material da agricultura familiar. E, isso, reforça também as lutas feministas por emancipação política e econômica. “O LUME contribui enormemente na discussão sobre a questão de gênero ao pôr trabalho produtivo e trabalho reprodutivo no mesmo campo”, destaca a professora Emma.

Gabriel Seghezzo ressalta a dificuldade de mensurar quantitativamente os impactos econômicos junto à agricultura familiar. E, do ponto de vista dele, neste campo o LUME tem uma grande contribuição a dar.

As considerações foram distintas, com elementos complementares, que perpassaram o reconhecimento das capacidades diversas do LUME a partir de seu olhar sistêmico, inclusive, o de promover o envolvimento das famílias neste olhar para sua realidade.

Para Claus Reiner, do FIDA no Brasil, um dos potenciais do método LUME é a leitura do agroecossistema feita ao longo do tempo. “Foram 25 anos para o desenvolvimento da família no caso mostrado por Paulo. Neste intervalo, há muita formação, acesso à informação. O desenvolvimento observado não se faz só comprando um maquinário”, conclui.

Outro elemento destacado por Claus foi a importância do LUME para balizar decisões de investimento. “Sabemos que as cisternas são bons investimentos. Mas outras decisões não são tão evidentes assim. Seria bom ver esta aplicação do método LUME”, sugere.

Campanha Tenho Sede – Dona Nena e outras mulheres do Semiárido, cujas imagens e falas se transformaram em vídeos da nova campanha da ASA para mobilização de recursos que darão continuidade à disseminação das cisternas no Semiárido, também marcaram presença no evento virtual. Elas apareciam entre as falas dos participantes do webnário como que para reforçar o que a análise dos dados da pesquisa revelou sobre a mudança na vida delas e das famílias a partir da chegada da água para beber, cozinhar, se higienizar e para plantar e dar aos animais.

O evento foi encerrado com o videoclipe Tenho sede, regravado por Gilberto Gil especialmente para a campanha lançada no mês passado.

Por Verônica Pragana para www.asabrasil.org.br.

Webnário: Trasnsição Ecológica Justa no Semiárido

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Cooperativismo em foco http://aspta.org.br/2021/10/13/cooperativismo-em-foco/ http://aspta.org.br/2021/10/13/cooperativismo-em-foco/#respond Wed, 13 Oct 2021 17:04:40 +0000 http://aspta.org.br/?p=19000 Leia mais]]> Seminário de dois dias promove trocas e construção de conhecimentos para desenvolver a gestão da nova instituição do Polo, a CoopBorborema

Um passo super importante foi dado, em setembro passado (dias 21 e 22), para fortalecer a Cooperativa de Agricultores e Agricultoras Familiares do território da Borborema, a CoopBorborema. Um seminário de dois dias, que reuniu cooperados e representantes das diretorias dos sindicatos e do Polo da Borborema, da AS-PTA e da EcoBorborema.

A partir da condução experiente e leve de Generosa de Oliveira Silva, que atua há mais de 20 anos na área e é uma das lideranças da União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes), os/as participantes chegaram, de forma conjunta, em lugares novos ao olhar para a vida da cooperativa.

Estimulados pela visita ao setor de beneficiamento do Banco Mãe, um complexo onde funciona a cooperativa e que será gerido por ela, os participantes elencaram necessidades da cooperativa que precisam ser resolvidas, associando a cada demanda um nível de urgência.

Um momento marcante do seminário foi quando, a partir de esquetes encenadas por subgrupos, foram destacados, por quem estava no papel de observador da cena retratada, um conjunto de orientações importantes para a gestão da cooperativa, como a necessidade de planejar a produção junto aos cooperados e a venda, tendo como referência o volume da produção fornecida pelos/as associados.

De forma brincante e séria, ao mesmo tempo, o grupo acessou diversas situações corriqueiras no dia a dia de uma cooperativa e se deu conta de várias questões que não podem ser negligenciadas e até de alguns caminhos a seguir.

Por meio da apresentação teatral de todos os grupos, foram percebidas as principais dificuldades da gestão e também ficou bastante evidente que a diretoria da cooperativa busque entender o ponto de vista dos cooperados e prime pela boa comunicação para que cada um/a assuma o seu papel.

A essência da CoopBorborema – Associado a esse conteúdo, o seminário tratou com bastante ênfase da natureza da cooperativa, da sua essência, do que a faz diferente de muitas outras. Nas palavras de Generosa, a CoopBorborema “é uma cooperativa que se preocupa com o ser humano, com a vida do seu cooperado, que se preocupa com o que está acontecendo na produção, que se preocupa com a questão do alimento saudável, que significa a segurança e a soberania alimentar, o direito à alimentação saudável e de qualidade.”

E continua: “Porque aquilo que eu não como, eu não posso vender para o outro. Na maioria das vezes, as cooperativas criadas no Brasil, infelizmente, nem sempre o presidente ou a direção ou as pessoas que estão naquela cooperativa comem o que produzem, porque vão comprar outro produto. Eu vi uma vez isso de um produtor e grande comerciante de morango de São Paulo.
– E aí, vamos comer o morango?
– Não, esse morango eu não como.
– Opa!
Se ele não come o morango é porque ele sabe que o morango não é bom para saúde. Para a saúde dele não serve, mas e para as outras pessoas?

Essa é a diferença desta cooperativa [a CoopBorborema]. Ela está preocupada com o que vai alimentar a nossa família. Primeiro a família se alimenta. O excedente, vende. Então já pensa diferente das outras cooperativas que fazem o planejamento só para vender para fora”, testemunha.

Gizelda Beserra, da diretoria do Polo da Borborema e presidenta da CoopBorborema, reforça as palavras de Generosa. “Nos últimos anos, a gente tem aumentado a produção de alimentos e também o debate sobre a soberania alimentar das pessoas, o alimento sagrado. Que alimentos vamos produzir para a sociedade? Que alimentos vamos produzir para a nossa família? O que vamos comer? Entendemos que o alimento sagrado é aquele alimento que a gente planta sem nenhum tipo de veneno, sem agredir o meio ambiente. Então é esse alimento que a gente precisa para a nossa família. E é esse mesmo alimento que devemos ofertar para as pessoas, para a sociedade comprar.”

A CoopBorborema para quem busca alimentos que fazem bem – Saber disso para quem compra os alimentos comercializados pela cooperativa criada pelo Polo da Borborema faz toda a diferença. É claro! E é bem capaz que o sabor dos produtos Do Roçado ganhe até mais realce, mais intensidade.

Quando Alexandre Yuri de Assis, morador do Recife, tomou conhecimento da produção do Flocão da Paixão na Paraíba, fez logo contato com a Agroecoloja pedindo para avisá-lo da chegada do produto. A Agroecoloja é um dos pontos de venda da marca da CoopBorborema na capital pernambucana e é uma iniciativa do Centro Sabiá, uma organização de apoio à agricultura familiar agroecológica com atuação em Pernambuco.

“Sou uma pessoa que prezo por minha saúde e fiquei sabendo que a produção do Flocão da Paixão é feita sem o uso de agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes químicos, que as técnicas do processo de produção têm como objetivo maior manter a qualidade do alimento. Procurei saber como poderia ter acesso ao flocão e fiquei feliz ao descobrir que algo produzido no interior paraibano, seria comercializado aqui no Recife, no centro da cidade, perto do local do meu trabalho, pela Agroecoloja. Senti-me privilegiado”.

Em breve, pronta para brilhar – A CoopBorborema tem diretoria, sócios, objetivos, estatuto e CNPJ. Já está encaminhando o alvará, inscrição municipal, inscrição estadual e conta bancária. Tudo para agir de forma plena e ir ao encontro de quem deseja ter mais opções de alimentos que reforçam a saúde. E, aumentando as vendas, aumenta-se também a renda das famílias agricultoras – homens, mulheres e jovens.

“Meu sonho é que a CoopBorborema venha como outra fonte, principalmente, para os agricultores que já estão na roda, no trabalho, na dinâmica, como também para esta juventude. Muitas vezes a juventude procura espaço para se manter no campo e não encontra. E a CoopBorborema vem como esta outra chance dessa juventude estar produzindo e vendendo e se mantendo no campo sem precisar se deslocar para a cidade e para outros estados”, sentencia Mateus Manassés.

E por falar em geração de renda, uma notícia boa: a ampliação da procura dos produtos Do Roçado, especialmente, os derivados do milho livre de transgenia. “Desde o lançamento do Flocão da Paixão [em maio passado], a gente [AS-PTA], enquanto assessoria com o Polo e a CoopBorborema, fez uma ação de ampliar a comunicação dos produtos da marca, principalmente, dos produtos derivados do milho. A gente percebe hoje uma procura muito maior de instituições, de grupos, de famílias que se interessam por este tipo de produto”, anuncia Alane.

Dentro da constelação de instituições da agricultura familiar existentes no território da Borborema, criadas a partir da ação do Polo da Borborema e da AS-PTA, a Coopborborema ocupa um lugar estratégico no fortalecimento da rede de feiras agroecológicas e da rede de Quitandas da Borborema, numa ação complementar ao papel já cumprido pela Ecoborborema na gestão das feiras agroecológicas e na certificação participativa para a venda direta, enquanto uma associação regional de agricultores e agricultoras agroecológicos. “A Cooperativa tem o papel de fazer circular o volume de produção do território, que é agroecológico, mas não todo certificado”, destaca Marcelo Galassi, da coordenação da AS-PTA na Paraíba.

Desmistificando uma cooperativa – Desde que a cooperativa estava sendo gestada, já estavam previstas capacitações para o seu corpo de gestores e gestoras. Até porque, quem assume esta função precisa desenvolver algumas habilidades específicas, que não são do domínio de quem tem muita desenvoltura para lidar com o solo, as sementes, os animais e a Mãe Natureza. Mas, por conta da pandemia, as capacitações aconteceram meses depois, em setembro passado.

“Os agricultores e as agricultoras não são educados/as para gerir uma instituição de comercialização. Sempre é para produzir e passar para o atravessador e o atravessador fazer esse processo de comercialização. Então, quando se cria uma organização específica para atender [o mercado] e democratizar o acesso a ele, é um desafio. Um desafio na gestão, um desafio no planejamento, desafio no contexto organizativo”, conta Alane Lima, camponesa e assessora técnica da AS-PTA, cujo ação é fortalecer os processos organizativos da agricultura familiar na região assessorando o Polo.

Segundo a técnica da AS-PTA, uma das forças da CoopBorborema observada durante o seminário é que a iniciativa surgiu como uma necessidade do projeto de fortalecimento da agricultura familiar do território. E isso faz toda a diferença para mudar o olhar dos agricultores e agricultoras que andavam desconfiados/as desta tal cooperativa por conta dos exemplos mal-sucedidos no território.

“Cooperativismo é um tema que a gente ouve muito, mas pouco estuda, principalmente, as/os camponesas/es. A gente teve no território, um período no qual ouvíamos falar muito mal sobre cooperativa porque, em sua maioria, as experiências davam sempre errado, porque elas iniciavam sempre a partir do interesse de algumas pessoas que queriam se beneficiar da experiência”, relata Alane.

E segue: “Mas, com a organização do Polo da Borborema, da AS-PTA e dos sindicatos junto aos agricultores e às agricultoras, com o processo organizativo junto aos mercados, as demandas foram aumentando. E foi sentida a necessidade de ter uma instituição que pudesse dialogar e tratar do acesso ao mercado para além do território e também o acesso às políticas governamentais de comercialização. Uma instituição jurídica que, por lei, estivesse regulamentada para ter acesso a mercados”.

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Chegou a Primavera, estação das flores, que representa vida e fertilidade. Você sabe como atrair abelhas nativas? Veja como foi a oficina de produção de iscas para abelhas nativas http://aspta.org.br/2021/10/10/chegou-a-primavera-estacao-das-flores-que-representa-vida-e-fertilidade-voce-sabe-como-atrair-abelhas-nativas-veja-como-foi-a-oficina-de-producao-de-iscas-para-abelhas-nativas/ http://aspta.org.br/2021/10/10/chegou-a-primavera-estacao-das-flores-que-representa-vida-e-fertilidade-voce-sabe-como-atrair-abelhas-nativas-veja-como-foi-a-oficina-de-producao-de-iscas-para-abelhas-nativas/#respond Sun, 10 Oct 2021 14:22:38 +0000 http://aspta.org.br/?p=18995 Leia mais]]> No dia 22 de setembro, o Arranjo Local de Guaratiba promoveu oficina com café coletivo e respeitando as normas de segurança 

O encontro mensal do AL Guaratiba teve sua acolhida na Casa das Mulheres de Pedra – coletiva que existe há mais de 21 anos no bairro de Pedra de Guaratiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Leila de Souza, uma das fundadoras e liderança comunitária da região, nos conta que a casa funciona como uma rede de apoio protetiva e que atualmente se encontra com cerca de 30 mulheres que se organizam por meio da cultura e da agricultura de quintal.

Christiane dos Santos Rio Branco, zootecnista de formação e que também é uma mulher de Pedra, foi quem mediou a oficina. Por meio de uma apresentação teórica, aos poucos, o grupo ia conhecendo sobre a história da Meliponicultura – como é chamada a criação de abelhas nativas sem ferrão.

Diferente das abelhas africanas, as nativas possuem ferrão atrofiado e de fácil manejo. Produzem um mel mais aquoso que dependendo da florada pode apresentar diferentes sabores e coloração. Chris ressalta: “Essas abelhas possuem hábitos de nidificação bem diversificados podendo ocupar locais como: ocos de árvores, troncos caídos, bambus, termiteiros, frestas de paredes ou muros e, por isso, na primavera, quando as colônias tendem a se multiplicar naturalmente, é o momento oportuno para serem instaladas iscas na natureza”. 

Mariana Portilho, assessora técnica da AS-PTA, complementa sobre a função ecológica que esse grupo desempenha: “A cada visita para sugar o néctar as abelhas se “sujam” com o pólen e o levam a outra flor. Este serviço ecossistêmico se torna essencial para a manutenção da produção de alimentos, em especial na agricultura urbana, em que as grandes cidades têm sofrido cada vez mais com a ausência desses polinizadores”.

Após formação teórica foi feita a atividade prática de elaboração de iscas. A intenção é que cada coletivo participante do Arranjo passe a ter a sua própria colmeia.

Para preparação da isca: 1 garrafa PET, 1 joelho de meia ¾ ou conduíte (algo que simbolize o canudo natural das abelhas); Saco preto; Jornal ou revista; Tesoura; durex; Atrativo. Confecção: Pegue a Garrafa pet limpa e seca e faça 2 furos na parte debaixo; Enrole a garrafa com folhas de revista ou jornal para evitar a claridade e manter a temperatura; Encaixe na boca da garrafa o joelho ou conduíte; Unte a garrafa por dentro com o atrativo (exemplo: própolis); Envolver com plástico preto e colocar a garrafa com a boca para baixo toda vedada; No Joelho ou conduíte já na garrafa, encaixar outra ponta de garrafa pet cortada (opcional).

O Arranjo já tem data para o próximo encontro, dia 27/10 na Horta da Brisa às 9hs com a oficina de Compostagem e banheiro seco.              

Fotos: Rudson Amorim 

Participantes: Antônia, Caroline,  Carlos, Christiane, Ednaldo, Gloria, Leila, Leonidia, Leticia, Mari, Maria, Nair, Paulo, Rudson 

Realização: Amigos da Horta da Brisa, AS-PTA, Escola Municipal Emma D’Ávila de Camillis, Fundação Angélica Goulart, Mulheres de Pedra e Pastoral da Criança.

O Arranjo Local de Guaratiba compõe um dos seis Arranjos Locais que são animados pela AS-PTA por meio do projeto REDES LOCAIS DE PRODUÇÃO E ABASTECIMENTO ALIMENTAR: FORTALECENDO LAÇOS DE PRODUÇÃO, COMERCIALIZAÇÃO E CONSUMO DE ALIMENTOS SAUDÁVEIS que conta com o apoio da MISEREOR. O projeto prevê potencializar as ações agroecológicas desenvolvidas na região metropolitana do Rio de Janeiro promovendo o fortalecimento local, autonomia e direito à alimentação saudável.

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Poderá a Agroecologia alimentar o planeta? http://aspta.org.br/2021/10/10/podera-a-agroecologia-alimentar-o-planeta/ http://aspta.org.br/2021/10/10/podera-a-agroecologia-alimentar-o-planeta/#respond Sun, 10 Oct 2021 14:06:01 +0000 http://aspta.org.br/?p=18993 Leia mais]]>

Espectro da fome, cada vez mais assustador no Brasil, assombra o mundo todo. Modelo agrícola atual é, além de devastador, vulnerável. Opção agroecológica é real – mas requer políticas públicas. Como promover a mudança de paradigma? 

Uma em cada duas famílias brasileiras sofre de insegurança alimentar – ou seja, seus membros não sabem, ao despertar, se poderão alimentar-se adequadamente ao longo do dia. Em apenas doze meses, o preço do óleo de soja subiu 83,79%; o do feijão, 48,19%; e o do músculo, um dos cortes bovinos menos caros, 46,06%. A cena urbana brasileira agora é marcada pelas famílias que imploram por comida diante dos supermercados, ou pelas pequenas multidões que se aglomeram em bairros como a Glória (zona Sul do Rio), para esperar que motoristas de caminhão lhes doem ossos e pelanca bovinos – antes destinados aos cães. Mas seriam a fome e os preços descontrolados da comida uma nova jabuticaba brasileira?

O primarismo arrogante do governo Bolsonaro tem o poder de agravar qualquer drama, mas uma série de dados demonstra que estamos diante de um problema mais profundo e estrutural. O pesquisador holandês Jan Douwe van der Ploeg, professor nas Universidade de Wageningen, na Holanda, e de Pequim, na China e parceiro intelectual de diversos movimentos camponeses pelo mundo afora, está empenhado em compreendê-lo. Num vasto estudo, que acaba de ser traduzido e publicado no Brasil – e que Outras Palavras publicou em três partes [1 2 3] – ele aponta a existência de uma crise alimentar e agrícola global associada à pandemia da Covid-19, mas com origens anteriores a ela. Entre outros fenômenos, Van der Ploeg destaca “a configuração a pleno vapor de uma onda de fome” e a elevação em cerca de 50%, nos últimos dois anos, dos preços das commodities agrícolas.

A pandemia, pensa o professor, serviu como gatilho. Ela atingiu múltiplos setores da cadeia agroalimentar – de frigoríficos fechados pelo isolamento social a rotas marítimas interrompidas e restaurantes vazios. Ao fazê-lo, destroçou ou impôs perdas severas a pequenos produtores de bens e serviços e permitiu que os gigantes ocupassem espaço ainda maior. Mas se isso se deu, é porque o modelo dominante já era regido por uma espécie de lei das selvas.

Van der Ploeg desvenda o mundo dos impérios alimentares que hoje dirige a produção do alimento do mundo. Um punhado de corporações gigantescas, mostra ele, controla das sementes aos fertilizantes, agrotóxicos, estocagem dos produtos, vias de transporte, industrialização e varejo. Tais impérios são cada vez mais financeirizados. Por visar, essencialmente, o lucro máximo e a acumulação, a produção passou a depender dos serviços financeiros – empréstimos, seguros, garantias, fundos de todos os tipos, mercados gigantescos de derivativos – que cresceram a seu redor. Um punhado de banqueiros pode, por exemplo, deixar de oferecer crédito a determinado setor agrícola (por julgar que oferecer riscos superiores à média) e inviabilizá-lo.

Os impérios alimentares e as finanças articuladas com eles, prossegue Van der Ploeg, adquiriram, na configuração hegemônica, poder sobre o mundo agroalimentar muito superior ao dos Estados e sociedades. Por isso, os preços e as políticas variam movidos por interesses muito poderosos – não por objetivos humanistas, como reduzir a fome ou oferecer alimentação saudável. Porém, alerta o autor, o sistema tem pés de barro. A produção real apoia-se na estrutura financeira. O que acontecerá se esta revelar-se, como na crise de 2008, um castelo de cartas?

Felizmente, sustenta por fim van der Ploeg, a Agroecologia avançou muito nas últimas décadas – e pode consolidar-se como alternativa. O último capítulo do estudo descreve os progressos, tanto entre os que produzem alimentos (e constróem aos poucos um modelo contra-hegemônico) quanto entre os consumidores (que rejeitam crescentemente os ultraprocessados, os venenos agrícolas, a homogeneização que destrói antigas culturas alimentares). Mas o trabalho não difunde um otimismo vazio. O autor aponta, também, os limites a um avanço agroecológico mais vasto. E chega a apontar, ao final, caminhos concretos para superar estes entraves.

O trabalho de van der Ploeg foi traduzido e editado no Brasil pela AS-PTA, uma associação de pesquisadores e ativistas empenhados na construção da Articulação Nacional da Agroecologia e na assessoria direta a organizações e movimentos camponeses. Será publicado em três partes neste site, entre hoje e 6/10. Nos próximos meses, a AS-PTA e Outras Palavras trabalharão em conjunto para produzir uma sequência de textos e diálogos sobre um novo modelo agrícola para o Brasil. A cada mês, haverá um novo ensaio e um diálogo, via internet, sobre ele. Este esforço resultará também na construção, em parceria, de um dos capítulos do projeto Resgate, por meio do qual queremos refletir sobre um Brasil pós-neoliberal.

O primeiro diálogo da série ocorrerá nesta quinta-feira, 7/10, às 16h. Teremos o prazer de ouvir Jan Douwe van der Ploeg. Ele conversará, com Roselita Vitor, liderança proeminente de um dos movimentos territoriais de agroecologia mais avançados no Brasil – o da região da Borborema, na Paraíba. O encontro, virtual, poderá ser acompanhado nas redes de Outras Palavras e da AS-PTA. O ensaio de Van der Ploeg pode ser lido nos três capítulos publicados por Outras Palavras [1 2 3], ou na íntegra, em pdf.

por  editor de Outras Palavras.

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Série Cadernos de Debate promove e estimula reflexões sobre a necessária  reestruturação dos sistemas alimentares http://aspta.org.br/2021/10/01/serie-cadernos-de-debate-promove-e-estimula-reflexoes-sobre-a-necessaria-reestruturacao-dos-sistemas-alimentares/ http://aspta.org.br/2021/10/01/serie-cadernos-de-debate-promove-e-estimula-reflexoes-sobre-a-necessaria-reestruturacao-dos-sistemas-alimentares/#respond Fri, 01 Oct 2021 22:35:58 +0000 http://aspta.org.br/?p=18970 Leia mais]]> A AS-PTA, em parceria com Projeto Resgate do site Outras Palavras, publica conjunto de textos que apresentam questões centrais para criar estratégias de superação da crise atual

A iniciativa de lançamento dos Cadernos de Debate tem o intuito de jogar luzes sobre o abismo em que o país se encontra e despertar reflexões conjuntas sobre suas possíveis saídas. Em um anseio de compreender os desafios e olhar para as  experiências trazidas após a chegada da pandemia, nesta quinta-feira, 30/09, ocorre o primeiro encontro desta inédita parceria entre AS-PTA e Outras Palavras.

“A pandemia da Covid-19 evidenciou três faces perversas e interdependentes do capitalismo neoliberal: a globalização da insegurança econômica, da vulnerabilidade social e dos agravos à saúde coletiva”, afirma Paulo Petersen, coordenador executivo da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia. No enfrentamento às desigualdades que já existiam e foram aprofundadas pela Covid-19, é preciso irradiar a ideia de outros mundos possíveis e viáveis, pautados pela agroecologia, que sempre estiveram presentes nos territórios.

O primeiro texto da série, que pode ser acessado abaixo na íntegra, foi produzido pelo sociólogo holandês Jan Douwe van der Ploeg. O convite é para analisar criticamente os efeitos da Covid-19 nos sistemas alimentares e seus alertas para um futuro ainda incerto. Não há respostas prontas, mas diversas experiências em curso nos territórios que apontam bons caminhos a seguir.

A coleção traz temas que estimulam reflexões acerca das redes locais de abastecimento alimentar e suas narrativas contrastantes, a crise sanitária da Covid-19 e seus impactos, o desenvolvimento rural e economia ecológica, a análise crítica sobre as estratégias do agronegócio e suas justificativas na ocupação dos territórios são algumas delas, que partem de questionamentos como: quais respostas visualizamos a partir das experiências dos territórios? O que está por vir?

Conhecer a conjuntura atual é imperativo para que seja possível ajustar as estratégias coletivas dos movimentos populares. Por isso, os textos estão ancorados numa perspectiva de pós-pandemia, pois é necessário pensar o futuro a partir das formas que ele assume no presente.

Acompanhe o debate com o sociólogo Jan Douwe van der Ploeg e Roselita Vitor, assentada da reforma agrária e da coordenação do Polo da Borborema, mediado por Antônio Martins, nesta quinta-feira (30/09), a partir das 16h, nos canais do Outras Palavras e AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia.

Acesse o texto na íntegra.

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