AS-PTA http://aspta.org.br Tue, 24 May 2022 13:45:14 +0000 pt-BR hourly 1 ANA lança vídeo final do Prêmio #AHistóriaQueEuCultivo no Dia Internacional da Biodiversidade http://aspta.org.br/2022/05/24/ana-lanca-video-final-do-premio-ahistoriaqueeucultivo-no-dia-internacional-da-biodiversidade/ http://aspta.org.br/2022/05/24/ana-lanca-video-final-do-premio-ahistoriaqueeucultivo-no-dia-internacional-da-biodiversidade/#respond Tue, 24 May 2022 13:45:14 +0000 http://aspta.org.br/?p=19389 Leia mais]]> Produção reúne depoimentos de guardiãs e guardiões da agrobiodiversidade de todas as regiões do Brasil

O Grupo de Trabalho (GT) Biodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) lançou no Dia Internacional da Biodiversidade, 22 de maio, o vídeo final do Prêmio #AHistóriaQueEuCultivo, inciativa de comunicação popular que condecorou guardiãs e guardiões de sementes crioulas de todas as regiões do Brasil. A produção final foi nomeada de “História Coletiva – Biodiversidade Resiste” e reúne trechos de vídeos enviados por agricultoras e agricultores familiares, indígenas, quilombolas, dentre outros integrantes de povos e comunidades tradicionais que participaram do concurso. O vídeo traz um olhar panorâmico sobre a defesa do patrimônio genético alimentar no Brasil a partir da diversidade de pessoas e de grupos que constroem cotidianamente a agroecologia.

“Na nossa visão, os saberes e as práticas de assentadas e assentados da reforma agrária, de camponesas e camponeses e de integrantes de povos e comunidades tradicionais são fundamentais para a proteção da biodiversidade. Seus modos de vida precisam ser respeitados por toda a sociedade. Nesse sentido, a importância desses segmentos, que cuidam das águas, faz o manejo das sementes crioulas, produzem comida de verdade sem agrotóxicos, só para citar alguns exemplos, precisa ser mais visibilizada e valorizada. Acredito que avançamos com esse objetivo a partir do Prêmio”, avalia Naiara Bittencourt, do GT Biodiversidade da ANA.

Qual história você cultiva? A partir da pergunta e da convocatória do Prêmio, o GT Biodiversidade da ANA recebeu 115 vídeos, a maioria feita de forma caseira com celulares ou câmeras. A “História Coletiva” é justamente um mosaico de alguns dos vídeos premiados. “Recebemos relatos de todas as regiões do país. Isso demonstrou a diversidade do movimento agroecológico, com diferentes sotaques e realidades locais. Ao mesmo tempo, localizamos muitos princípios compartilhados, como a relação integrada do ser humano ao meio ambiente, assim como muitas ameaças comuns em diversos territórios, a exemplo dos transgênicos e dos agrotóxicos”, destaca Naiara, que também integra a organização Terra de Direitos.

Comunicar saberes

Muitos vídeos inscritos no Prêmio demonstram o trabalho de guardiãs e guardiões da agrobiodiversidade em armazenar, selecionar, semear e compartilhar as sementes crioulas, que englobam grãos, mudas, raízes, ramas, espécies nativas de animais, enfim, todas as formas de reprodução da vida. Ao contarem suas histórias, as pessoas e grupos enfatizaram a importância de passar seus conhecimentos para as futuras gerações.

Vera Lúcia Ferreira, por exemplo, orgulha-se de ter aprendido “muitas coisas boas com a roça”. Ela trabalha, em especial, com saúde integral e plantas medicinais, e conta que começou a se interessar pelo tema ainda criança, a partir das vivências com sua mãe e sua avó. Em seu vídeo, um dos que receberam “Menção Honrosa”, Vera reforça que a saúde vem do seu quintal, onde cultiva “plantas medicinais e plantas de comer”.  “Quero continuar cultivando, fazendo chás, xaropes, passando os saberes para quem for chegando. A minha preocupação é a seguinte: quando a gente for, que fique o nosso conhecimento. O que aprendemos, o que gravamos na cabeça e no coração, ninguém tira”, afirma a agricultora familiar, que vive no município Paula Cândido, em Minas Gerais.

Um dos objetivos do Prêmio, inclusive, foi comunicar a agroecologia a partir dos territórios, estimulando a comunicação popular entre as guardiãs e os guardiões de sementes crioulas e fortalecendo o debate público sobre a biodiversidade. “É sempre importante reafirmar que a comunicação é um direito. Acredito que ações como essa contribuem para visibilizar o nosso povo, ecoar essas diferentes vozes das regiões e reconhecer a força e a importância da comunicação popular”, reforça Wanessa Marinho, que participou da comissão de premiação do concurso.

O Prêmio

Lançado em 2020, o Prêmio #AHistóriaQueEuCultivo prestou homenagem à animadora de sementes crioulas Emília Alves Manduca (em memória), que integrou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), o Grupo de Intercâmbio em Agroecologia (Gias), a Associação Regional de Produtores Agroecológicos (Arpa), dentre outras organizações, participando de lutas pela reforma agrária, contra os agrotóxicos, em defesa das águas, da educação no campo e do direito das mulheres.

Mesmo após conquistar legalmente seu pedaço de terra em 2002, Emília continuou vivendo “de acampamento em acampamento, de despejo em despejo”. Dizia que já tinha “terra e pão”, mas que continuaria sempre sendo Sem Terra enquanto vivesse. “Estamos aqui para que esse povo todo seja assentado. Enquanto as injustiças estiverem acima dos trabalhadores e da vida, continuarei lutando”, afirmava. O vídeo final do Prêmio inclui imagens inéditas de Emília declamando uma poesia de sua autoria: “Por um minuto apenas fui feliz”, um texto de 1997.

Além da “História Coletiva”, cinco produções ganharam na categoria “Histórias Regionais”. Outros 15 vídeos foram condecorados como “Histórias Locais” e 11 receberam “Menções Honrosas”. “A chamada do Prêmio ocorreu em um contexto de grande isolamento social por causa da Covid 19. Foi muito especial ter a oportunidade de ver todas essas pessoas atuando em diferentes territórios do nosso país, ouvir suas vozes e ainda ajudar a compartilhar essas experiências. Temos que fazer circular cada vez mais os vídeos, que mostram a força da agroecologia”, conclui Wanessa, que faz parte do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM).

 

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Intercâmbio entre Arranjos – os caminhos da chaya e as cozinhas comunitárias http://aspta.org.br/2022/05/10/intercambio-entre-arranjos-os-caminhos-da-chaya-e-as-cozinhas-comunitarias/ http://aspta.org.br/2022/05/10/intercambio-entre-arranjos-os-caminhos-da-chaya-e-as-cozinhas-comunitarias/#respond Tue, 10 May 2022 19:07:05 +0000 http://aspta.org.br/?p=19380 Leia mais]]> De uma visita à Bolívia, o ativista Luiz Poeta retornou ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, com uma estaca de Chaya na mão. Por ali disseminou seu plantio pela Serra da Misericórdia junto aos seus companheiros e companheiras da organização comunitária Verdejar Socioambiental. Não demorou muito para os parceiros do CEM no complexo vizinho, ali na Penha, se encantarem também com saberes dessa planta tão nutritiva conhecida como “espinafre de árvore”. Alguns anos depois, integrantes da Verdejar participavam de um encontro preparatório para o III ENA, em Pedra de Guaratiba e por lá conheceram as mulheres do acampamento Marli Pereira da Silva, onde as presentearam também com uma muda. Hoje esses três grupos se reencontram e trocam sobre como essa planta mudou o caminho de cada uma delas

O dia começou na Fazenda Renascer, mais conhecida como Sítio da Marli, em Jaceruba, Nova Iguaçu. As boas vindas das mulheres do coletivo Empório da Chaya para as mulheres da Verdejar e do CEM foi um saboroso café da manhã recheado com pães, bolos, sucos e pastas feitos a partir da chaya, e outros matos de comer a ora-pro-nóbis, clitória e malvavisco.  As mulheres do Empório fizeram uma apresentação das receitas que estavam na mesa e todas comeram com curiosidade.

Em um breve passeio pelo local, foi possível identificar algumas espécies já plantadas, além das famosas colmeias de abelhas do apicultor Renato Baldez. 

O sítio que pertencia a uma apaixonada pelas lutas da agroecologia, Dona Marli, tinha a intenção ainda em vida de criar um centro de referência em agroecologia. Após sua recente partida os filhos e filhas procuraram o MPA para fazer a doação de parte da fazenda e assim implantar algum projeto para homenagear e concretizar o sonho da mãe. Hoje é esse o espaço que mulheres estão se organizando enquanto culinaristas e agricultoras. 

Depois do café e da andança foi a hora de voltar à casa e, em roda, foi relembrado sobre os caminhos que a chaya percorreu em cada coletivo – Verdejar, CEM, Empório – e como hoje ela é beneficiada pelas mãos de cada uma dessas mulheres. 

Dona Josefa, verdejante, conta que sempre faz suco de chaya com limão e que usa no lugar da couve pois está cara; Ana Santos, do CEM, relembra que depois que conheceu a chaya, em meados de 2011 em um mutirão do Verdejar, desenvolveu várias receitas, inclusive utilizando também a jaca e que desde então a chaya faz parte da alimentação dos integrantes do CEM   e que esse uso foi um marco para o coletivo: “Chaya pra mim representa fartura e exuberância”; Sandrinha conta que, em sua casa, todos adoram arroz de brócolis, mas com o aumento do preço dessa hortaliça ela passou a usar a chaya do seu próprio quintal; Leoildes também diz que já fez ensopado de carne com chaya e que todos pensaram que era coentro. 

Todas reforçaram também sobre as propriedades e experiências de cura: o uso para anemia, tratamento de câncer, melhorias de feridas abertas. Para além das folhas o leite da chaya faz sumir verrugas, sua flor alivia cólica menstrual e que na raiz é onde estão as substâncias anticancerígenas. Áurea, uma das fundadoras do coletivo Empório da Chaya, conta que fez macarrão com chaya para a vizinhança depois de terem passado por uma enchente “A chaya alimenta nas emergências, ainda mais considerando o valor nutricional, então substitui carne, feijão, sem precisar fazer muita comida”

Após a conversa todas se reuniram no espaço em que elas se reiventam, criam e alimentam, a cozinha! As mulheres do Empório ensinaram como fazer: 1. Massa de lasanha com chaya, ora-pro-nobis e clitoria ternatea; 2. Hambúrguer de banana verde com chaya; 3. Pãozinho vegano de ora-pro-nobis; 4. Geleia de malvavisco; 5. Farinha de chaya ; 6. Geleia de chaya; 7. Sacolé de ora-pro-nobis; 8. Queijo mussarela vegano

A ideia é que esses intercâmbios permaneçam e que as mulheres tenham a oportunidade de conhecer e trocar mais experiências pelas cozinhas comunitárias e agroecológicas do Rio de Janeiro.

Presentes: Mari Portilho (AS-PTA), Letícia Ribeiro (AS-PTA) , Marina Pellegrini (AS-PTA), Estella (AS-PTA), Thais Reis (AS-PTA), Gabriela Storino, Áurea Andréa (Empório da Chaya), Irani de Almeida (Empório da Chaya), Romilda da Silva (Empório da Chaya), Eliete dos Santos (Empório da Chaya), Regina de Lourdes (Empório da Chaya), Vanessa Geraldino (CEM), Sandra Regina (CEM), Leoildes Xavier (CEM), Ana Santos (CEM), Evelin Dias (CEM), Maria do Carmo (CEM), Rosemeri Barcelos (CEM), Rosangela Maria (CEM), Jéssica Marinho (CEM), Marcia da Silva (CEM), Josefa Santos (Verdejar), Mara Sassara (Verdejar), Larissa Alves (Verdejar), Adriana Regina (Verdejar), Mayra Reis (Verdejar)

 

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Em reunião com Secretaria Estadual da Agricultura Familiar, Polo da Borborema recusa sementes de milho contaminadas por transgenia e a instalação de parques eólicos http://aspta.org.br/2022/05/09/em-reuniao-com-secretaria-estadual-da-agricultura-familiar-polo-da-borborema-recusa-sementes-de-milho-contaminadas-por-transgenia-e-a-instalacao-de-parque-eolicos/ http://aspta.org.br/2022/05/09/em-reuniao-com-secretaria-estadual-da-agricultura-familiar-polo-da-borborema-recusa-sementes-de-milho-contaminadas-por-transgenia-e-a-instalacao-de-parque-eolicos/#respond Mon, 09 May 2022 14:22:23 +0000 http://aspta.org.br/?p=19376 Leia mais]]> “É um crime ambiental”, sentencia Roselita Victor, da coordenação política do Polo da Borborema, referindo-se à distribuição de sementes de milho contaminadas pela transgenia pelo programa do Estado. Essa fala foi direcionada para o secretário estadual da Agricultura Familiar e Desenvolvimento do Semiárido, Bivar Duda, na manhã de hoje (5), na sede do Banco Mãe de Sementes, em Lagoa Seca.

“Trata-se de um crime que silencia e marginaliza os nossos guardiãos e guardiãs de sementes da Paixão”, segue Roselita. “É um crime que ameaça esse espaço [o Banco Mãe e a Unidade de Beneficiamento de Milho Livre de Transgenia] que foi construído com um investimento de R$ 200.000,00 levantados pelo Polo e pela AS-PTA. Sem sementes livres de transgenia não podemos fabricar o flocão”, acrescenta.

Por fim, Roselita se põe à disposição para a construção de uma política que atenda as necessidades das famílias: “Se quiser, a gente vai dialogar com o governo. O Rio Grande do Norte, da governadora Fátima Bezerra, tem uma lei de distribuição de sementes crioulas. Não queremos que o Estado faça pra gente, queremos construir políticas públicas em parceria com o governo. Foi assim que fizemos com o Programa Cisternas [no âmbito federal], assim construímos junto ao governo estadual o edital do projeto de raças nativas que empodera e traz autonomia para as famílias e valoriza suas experiências.”

O tom da audiência com o governo estadual foi de críticas duras ao programa estadual de sementes. “A política estadual de distribuição de sementes precisa ver também os agricultores do território como fornecedores de sementes”, dispara o jovem agricultor dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Queimadas e vice-presidente da CoopBorborema, Mateus Manassés.

A sentença de Mateus sintetiza um dos pleitos da sociedade civil e do movimento sindical do território da Borborema para essa política pública que, no estado da Paraíba, não está a serviço das famílias e, sim, das empresas de sementes.

“Uma das maiores contradições dessa política é que um programa de sementes direcionado para a agricultura familiar seja gerido pela secretaria que atende aos interesses do agronegócio”, sustenta por sua vez o secretário de Agricultura Familiar e Abastecimento de Lagoa Seca, Nelson Anacleto.

No que toca o abastecimento de sementes às famílias agricultoras, a secretaria coordenada por Nelson está pondo em prática o modelo de programa público defendido pelos guardiões e guardiãs de sementes da Paixão e expressado por Mateus.

Um modelo que não só compra o material genético das famílias do território, mas empresta as sementes para que sejam devolvidas no ano seguinte, criando assim um senso de responsabilidade e coletiva e reforçando os laços de solidariedade entre as famílias agricultoras.

Além de Manassés e Anacleto, outras tantas pessoas, representantes de sindicatos, conselhos de desenvolvimento rural, organizações da sociedade civil, negaram a política atual e propuseram como encaminhamento que as sementes contaminadas não fossem mais distribuídas para as famílias agricultoras.

Uma carta assinada pela Articulação Semiárido Paraíba, da qual fazem parte o Polo da Borborema e a AS-PTA, foi entregue ao secretário Bivar. Nela, há exigências de que o governo do estado submeta as variedades de milho distribuídas a testes laboratoriais para comprovação do resultado dos testes realizados com fitas imunocromáticas que detectou presença de várias proteínas de organismos geneticamente modificados.

Pela gravidade da situação, a Comissão de Sementes do Polo orienta às famílias guardiãs das sementes da Paixão que não peguem as variedades de milho dadas pelo Estado para não contaminar o material genético que fazem parte das histórias delas de produtoras de alimentos saudáveis.

Neste caso, essas famílias receberão sementes crioulas adaptadas às características locais que sindicatos, prefeituras, Polo da Borborema e a AS-PTA estão comprando com seus próprios recursos. Essa distribuição local de sementes faz parte da estratégia da campanha “Não planto transgênicos para não apagar a minha história”, que o Polo realiza desde 2016.

Em resposta aos presentes, o secretário Bivar pediu que a denuncia da contaminação fosse levada para o Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável pelas organizações presentes e que ele, enquanto governo, também faria o mesmo. O mesmo conselho foi denunciado pelos presentes como espaço pouco democrático e que está sofrendo processos de manipulação pelo Estado.

Parques eólicos – O recado do Polo para o secretário inclui também a contraposição às indústrias de geração de energia a partir dos ventos e do sol. “A chegada dessa indústria nos força a entregar a nossa terra conquistada com tanta luta”, destaca Roselita que é assentada da reforma agrária no município de Remígio, onde há vários assentamentos que são grandes produtores de milhos livres de transgenia, inclusive.

Ela destaca que, com a aliança do Estado com as empresas privadas, quem sofre são as famílias agricultoras e o meio ambiente, salientando os impactos na vida das mulheres e das comunidades que se fragilizam ainda mais diante da fome, da pobreza e dos efeitos das mudanças climáticas que são sentidos de forma mais acentuada nas áreas mais secas do planeta, como o Semiárido brasileiro, onde se situa o território da Borborema.

Mateus também ressalta um aspecto bastante cruel desses empreendimentos para os jovens rurais. “Os contratos [que comprometem o uso prioritário da propriedade para a geração de energia por décadas] nos tiram a possibilidade de herdar as terras de nossos pais e avós. Onde estou hoje foi terra de meus avôs. Se os jovens rurais estão indo embora do campo é porque o sistema governamental está falhando. O governo deve nos escutar. Se isso não acontecer não vale a pena a gente estar aqui e eu ter deixado de cuidar das minhas cabras hoje de manhã.”

Sobre esse tema, o secretário disse que era inevitável a chegada desses empreendimentos no território.

Carta Política da ASA Paraíba sobre a distribuição de sementes

Resultados dos testes realizados com fitas imunocromáticas

Carta política da 13a. Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia

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Em Marcha, as agricultoras da Borborema paraibana dizem NÃO aos parques eólicos http://aspta.org.br/2022/05/02/em-marcha-as-agricultoras-da-borborema-paraibana-dizem-nao-aos-parques-eolicos/ http://aspta.org.br/2022/05/02/em-marcha-as-agricultoras-da-borborema-paraibana-dizem-nao-aos-parques-eolicos/#respond Tue, 03 May 2022 00:25:15 +0000 http://aspta.org.br/?p=19354 Leia mais]]> O ato público realizado hoje pela manhã (2) em Solânea faz parte de um processo de mobilização das famílias rurais para debater os impactos do modelo industrial da geração de energia

O céu nublado segurou a chuva grossa como se esperasse que as agricultoras dessem o giro pelas ruas de Solânea na 13ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, realizada hoje pela manhã (2). Foram cerca de cinco mil mulheres vindas, principalmente, dos 13 municípios que fazem parte do Polo da Borborema, mas também de outras regiões da Paraíba, do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Rio de Janeiro e Paraná.

Elas encheram o centro de Solânea cantando, marchando e levantando bandeiras coloridas. E suas vozes reafirmavam que, com seus corpos, elas seguirão defendendo o território onde vivem daquilo que ameaça a continuidade e expansão da agricultura familiar agroecológica. A exemplo dos parques eólicos e das usinas solares que, quando instalados, promovem uma série de perturbações para as famílias rurais, tirando delas o sossego, a saúde e a autonomia para gerir a sua terra.

“Com a Marcha, queremos debater com a sociedade o que acontece com as comunidades rurais a partir do olhar das mulheres que vivem no campo. Queremos também dialogar com nossos governantes sobre o modelo de geração de energia que a gente quer no nosso território. A gente não é contra as energias renováveis, mas contra a indústria energética que se instala pertinho das nossas casas, nos nossos roçados, nas nossas comunidades”, comenta Maria do Céu Silva, uma das lideranças do Polo da Borborema e do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Solânea.

Nos momentos iniciais do ato público, antes das mulheres saírem em Marcha, as paraibanas assistiram uma cena que, com a chegada das empresas eólicas no território, tende a se tornar comum na região. Numa esquete teatral, se desenrolaram alguns diálogos curtos que arrancaram das espectadoras gritos com conselhos para os personagens.

Depois de um casal de agricultores conversar, no café da manhã, sobre a dificuldade financeira pela qual passa e sobre a saudade dos filhos que migraram, eles recebem a visita de um representante da empresa eólica que apresenta um cenário maravilhoso para que aceitem a instalação das torres na sua propriedade. Na cena seguinte, após a saída do representante da empresa, chega uma sindicalista alertando para os perigos não ditos na conversa anterior.

Margarida ouve atenta a sindicalista e resolve ser prudente, enquanto o marido Biu se agarra à promessa do dinheiro fácil, sem esforço, como se não tivesse um custo por isso. Margarida, cabreira, resolve ser prudente e não arriscar seu pedaço de chão, suas pequenas criações, seu quintal produtivo em troca de promessas. E as mulheres presentes na Marcha a incentivam com gritos e orientações.

Após a esquete, as agricultoras de territórios onde os parques eólicos foram instalados falaram da sua realidade. “Eles prometem o mel e entregam o fel”, sustenta Soraia dos Santos de São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte. “Pra falar a verdade, na nossa comunidade, já faz seis anos que os parques eólicos foram instalados, e pra receber R$ 600 tá na justiça. E aquele pedaço de chão muitos não têm o direito de passar por lá. Muitos também já perderam até gado porque as porteiras se quebram, as empresas não consertam, e o gado vai pra mata e se perde”, comenta Tatiana Muniz, do município de Tibau, também no Rio Grande do Norte.

Em seguida, as Mulheres saíram em Marcha, de uma forma que orgulharia o educador pernambucano Paulo Freire na sua última entrevista em vídeo, em 17 de abril de 1997: “Meu desejo é que outras marchas se instalem nesse país. Marcha dos que se rebelam. Marcha dos que querem ser e estão proibidos de ser. Eu acho que as marcha nos afirmam como gente, como sociedade, querendo democratizar-se.”

Após o circuito pelas ruas centrais de Solânea, sob chuva forte, as mulheres voltaram a se reunir na frente ao palco armado numa das ruas ao redor da praça 26 de novembro. Suas vozes e seus cantos seguiam se espalhando pela cidade. Assim como as batidas dos instrumentos que tocavam a ciranda entoada pelas cirandeiras pernambucanas Severina e Dulce conhecidas como “Filhas de Baracho”, que há anos animam as Marchas das mulheres paraibanas em companhia de Lia de Itamaracá, que esse ano não pode estar presente.

Antes do encerramento, a coordenação da Marcha apresentou a Carta Política e assumiu o compromisso de transformá-la em instrumento de incidência junto ao governo da Paraíba, deputados estaduais e prefeitos para o diálogo e construção de um projeto de produção de energia que leve em consideração a qualidade de vida da população do campo.

O documento reafirma os potenciais do território que conquistou sua soberania alimentar e declara, ponto por ponto, porque as mulheres se atravessam na frente das indústrias eólicas que querem se instalar no território.

A Carta política, ao final, ressalta a necessidade de medidas protetivas que o Estado deve adotar para proteger as famílias rurais das violações de seus direitos. Destaca também a necessidade de ampliar o debate na sociedade sobre a geração de energia que também contemple a visão das mulheres agricultoras defensoras dos territórios e da biodiversidade.

 

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Está no ar a Folha Informativa n.10: Sem feminismo, não há agroecologia! http://aspta.org.br/2022/04/13/esta-no-ar-a-folha-informativa-n-10-sem-feminismo-nao-ha-agroecologia/ http://aspta.org.br/2022/04/13/esta-no-ar-a-folha-informativa-n-10-sem-feminismo-nao-ha-agroecologia/#respond Wed, 13 Apr 2022 19:57:06 +0000 http://aspta.org.br/?p=19342 Leia mais]]> Na seção Gente Que Faz o Projeto, conheça as mulheres da agricultura urbana responsáveis pela preservação e conservação das águas e dos solos das florestas do RJ.

Na seção Divulgação Científica, confira o texto O papel da Agroecologia no desenho de sistemas agrícolas resilientes às mudanças climáticas.

Já na seção Diários de Campo, confira o conjunto de atividades desenvolvidas em torno dos seguinte eixos:

Intercâmbio de Mulheres dos Arranjos Locais do Rio de Janeiro

Tecnologias Sociais de Produção agroecológica e Justiça Climática

Identidade quilombola, memórias e conservação ambiental no Maciço da Pedra Branca
Boa leitura!

Folha Informativa 10 – Sem feminismo, não há agroecologia!

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“Dos ventos, faremos um furacão” http://aspta.org.br/2022/04/13/dos-ventos-faremos-um-furacao/ http://aspta.org.br/2022/04/13/dos-ventos-faremos-um-furacao/#respond Wed, 13 Apr 2022 19:50:59 +0000 http://aspta.org.br/?p=19334 Leia mais]]> A 13ª Marcha pela Vida das Mulheres diz NÃO ao modelo industrial de geração de energia eólica, incompatível com a produção de alimentos livres de agrotóxicos e agroecológicos do território da Borborema 

No dia 2 de maio, cerca de 5 mil mulheres rurais ocuparão as ruas centrais de Solânea para reafirmar que, na Borborema paraibana, as famílias agricultoras produzem alimentos diversificados e totalmente livres de venenos e de transgênicos. Com suas vozes, afirmarão também que, onde vivem, não cabem os parques eólicos porque são incompatíveis com a segurança alimentar de suas famílias e ameaçam a venda de seus produtos para os clientes das cidades.

Elas se encontrarão a partir das 8h, na praça 26 de novembro, para realizar a 13ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia. Com o lema Mulheres em defesa do território: Borborema agroecológica não é lugar de parques eólicos, a Marcha declara que esse modelo de produção de energia assentado na construção de parques eólicos, que ao se apropriar da terra e do território, muda completamente a vida das comunidades e ameaça a produção da agricultura familiar.

“Onde se instalam os parques eólicos diminui a produção nas propriedades rurais. Eles são uma grande ameaça, principalmente, para as famílias que têm pouca terra, porque onde trabalharão com a agricultura se você não pode trabalhar perto desses aerogeradores e das linhas de transmissão? Esse modelo precisa ser revisto”, sustenta Roselita Vitor, da coordenação do Polo da Borborema.

A primeira coisa que acontece quando se instala um parque eólico numa comunidade rural é as terras serem usadas, prioritariamente, para gerar energia que não necessariamente é usada na localidade ou mesmo no estado. Nos contratos das empresas com as famílias, a primeira cláusula transfere para a empresa a tomada de decisão sobre o uso da terra.

“Quando a propriedade que é para produção de alimentos passa a ser a sua principal fonte a produção de energia, como é que fica a produção agrícola? A produção da agricultura familiar que vai para as nossas feiras que existem aqui no território da Borborema”, indaga Roselita e acrescenta: “Nós não somos contra a energia renovável. Pelo contrário. Somos a favor. Porque a gente entende que os bens da natureza são bens públicos, o sol, a terra, a água, são bens comuns, que devem servir a todas as pessoas. Porém, esse modelo de produção de energia renovável, a partir dos parques eólicos, não é um modelo que produz energia limpa. Se ele deixa as nossas comunidades mais pobres, se as famílias passam a usar menos a sua área de produção, se esses contratos beneficiam mais as empresas do que as famílias agricultoras, inclusive, com o risco de perder sua terra, que modelo é esse? Que energia limpa é essa? A gente faz esse questionamento: Energia pra quem? E energia para quê?”

Incompatibilidade – Onde há torre instalada, os donos da terra perdem sua autonomia para produzir. Além disso, o volume do que se produz cai porque a presença das torres de 140 metros, que equivale a um prédio de 50 andares, afeta a temperatura, a acústica e a luz do local, causando desequilíbrio ambiental. Um parque tem, no mínimo, 30 torres. 

Sem autonomia e com produção reduzida, há impactos na alimentação da família e também na renda. “Meu filho cria vacas leiteiras e houve uma redução de 20% na produção. As vacas se estressam com os ruídos, as sombras. Elas se assombram e não produzem como antes. Em um ano, contei 12 abortos de ovelhas e 15 burregos (filhotes de ovelhas) rejeitados pelas mães. De 18 a 20 ovos que ponho para serem chocados, nascem 5, 6 ou 8 filhotes, quando muito. Destes, se criam 3 ou 4. Os outros atrofiam e morrem. Isso nunca aconteceu antes”, conta seu Simão Salgado, do Sítio Pau Ferro, em Caetés, no semiárido pernambucano, onde foi morar e produzir alimentos em 2008 e de onde saiu, no ano passado, expulso pelas perturbações provocadas pelos parques eólicos implantados na comunidade em 2016. 

Ele observou que a presença do parque eólico fez desaparecer as abelhas, essenciais para a polinização das plantas e produção dos frutos. Ele também indica o desaparecimento de pássaros como o juriti, asa branca, bacurau, acauã, mãe da lua, entre outros. E ainda põe na conta dos aerogeradores o não desenvolvimento das fruteiras. “Antes, no tempo que um pé de pinha, laranja, goiaba, mamão levava para crescer dois metros, uma árvore não ultrapassa um metro. E se a planta flora, o fruto não vinga.”

E ainda tem os danos à saúde humana: “Com a zuada, minha esposa não conseguia mais dormir à noite, ficou com depressão e o médico recomendou que a gente saísse do sítio”, acrescenta. A propriedade de seu Simão era referência em produção de alimentos agroecológicos. 

Juntando todos os impactos, a produção do agricultor experimentador foi reduzida pela metade. Por outro lado, a sua despesa fixa aumentou com o aluguel que passou a pagar no centro de Caetés para se ver livre do som intermitente das hélices e com o aumento da energia que paga no sítio mesmo usando os mesmos equipamentos. “De R$30,00 e poucos, passei a pagar de R$120,00 a R$130,00″, diz se queixando de dificuldades para ouvir depois do ruído constante das hélices.

Além dos prejuízos individuais, os modelos industriais de energia eólica, com concentração de torres, abertura ou ampliação de estradas, implantação das redes de transmissão da energia gerada para a rede do sistema nacional, promovem uma série de danos ambientais com impactos locais e mundiais, como o desmatamento da Caatinga, contribuindo para a ampliação e aprofundamento do processo de desertificação do solo e intensificação os efeitos das mudanças climáticas. Na comunidade de seu Simão, árvores centenárias foram cortadas: baraúna, pau ferro, umbuzeiro, aroeira, juazeiro, imburana, entre outras.  

Do ponto de vista das comunidades rurais, os parques eólicos causam uma série de perturbações como rachaduras nas casas, perdas das cisternas de placas de cimento construídas a partir do Programa Cisternas, uma das políticas públicas mais importantes para as famílias rurais do Semiárido brasileiro. 

Queremos energia renovável descentralizada – Assim como uma política pública foi essencial para promover a democratização do acesso à água no Semiárido, a solução para a crise energética no Brasil deveria ir pelo mesmo caminho.

“Seria essencial que políticas públicas realmente incentivassem o uso massivo da Geração Distribuída da energia solar fotovoltaica para instalações residenciais, pequenos comércios, pequenas indústrias e em áreas rurais”, comenta o professor aposentado da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), Heitor Scalambrini, em uma reportagem da série Energias do Nordeste produzida e publicada por mídias nordestinas: A Nossa Pegada, Eco Nordeste, Marco Zero Conteúdo, Notícia Sustentável e Saiba Mais.

Especialista na área de energia, Heitor tem sido um defensor do modelo descentralizador de produção de energia a partir da instalação de painéis solares em telhados, fachadas e pequenos terrenos. Ele conta que a Geração Distribuída contribui aproximadamente com menos de 5% da potência total instalada no País (pouco mais de 180 GW), muito aquém do grande potencial disponível, em particular na região Nordeste, uma das mais ensolaradas do mundo. “Poderia ao menos se esperar que em curto espaço de tempo a potência instalada passasse para 20% – 25% sua contribuição à matriz elétrica”, declara o professor.

“Já comprovamos com simplicidade e com iniciativas nossas que podemos gerar energia para nossas diferentes necessidades, sejam elas da família, sejam elas para uso coletivo”, enfatiza Ivo Polleto, do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental. “Nós não precisamos de empresas que não têm nenhum respeito pela vida e que privatizam os recursos naturais e produzem energia como negócio, como mercadoria a ser vendida. Chega de conversa falsa de que é bom utilizar recursos públicos para as empresas, porque isso traz progresso, aumenta o PIB. Tudo isso é mentira”, complementa ele.

A Borborema é território da agricultura familiar agroecológica – Em Solânea, Casserengue, Arara, Algodão de Jandaíra, Remígio, Esperança, Areial, Montadas, Lagoa de Roça, Alagoa Nova, Matinhas, São Sebastião de Lagoa de Roça e Queimadas, municípios cujos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais fazem parte do Polo da Borborema, há 30 anos é alicerçado um projeto de construção da agricultura familiar agroecológica, que vem dando significativos resultados na redução da fome e da pobreza nas famílias agricultoras.

Dos roçados, quintais produtivos e cozinhas de centenas de famílias agricultoras saíram 50 toneladas de alimentos – in natura e beneficiados – para compor as quase 5 mil cestas doadas durante a pandemia. Assim como saem as hortaliças, frutas, legumes, grãos, leite, queijo, bolos, polpas de frutas, doces e outros alimentos beneficiados que abastecem as 12 feiras semanais e as cinco Quitandas da Borborema fixas e mais a unidade móvel.

A Borborema também abriga uma rede de 60 bancos comunitários de sementes, além do Banco Regional, que representam outro nível de segurança para as sementes crioulas que passaram, naturalmente, por um longo processo de adaptação às características ecológicas da região.

Para além dos resultados quantitativos, o projeto político de fortalecimento da agricultura familiar protagonizado pelo Polo da Borborema tem fomentado a auto-organização de comunidades e grupos de mulheres e jovens que são os segmentos sociais mais afetados pelos efeitos das mudanças climáticas em todo o mundo.

Essa capacidade auto-organizativa no território o torna um ambiente mais resistente aos grandes empreendimentos que vêm de fora, promovendo violações de direitos das comunidades rurais. “É nesse sentido de preservar a agricultura camponesa, a nossa forma de vida, que a gente assume a resistência a esse modelo [de produção concentrada e monopolista de energia eólica], como assumimos diante da fumicultura [cultura de fumo] em 2006, assumimos esse enfrentamento ao agrotóxico aqui no território em 2010. É a força das mulheres em defesa da vida e dos nossos corpos aqui no nosso território. Dos ventos, faremos um furacão”, aponta Roselita.

O Polo da Borborema reúne os 13 sindicatos dos municípios citados acima e mais 150 associações comunitárias, além de gerir uma associação regional da agricultura familiar, a EcoBorborema, e uma cooperativa, a CoopBorborema. Para mobilizar e articular as famílias e comunidades campesinas, o Polo tem a assessoria política e metodológica da ASPTA. Tanto o Polo, quanto a AS PTA fazem parte de articulações estaduais, regionais e nacionais, como a Articulação do Semiárido Paraibano (ASA PB), a ASA Brasil e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

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Agroecologia em Rede lança plataforma de consulta com informações sobre agroecologia no Brasil http://aspta.org.br/2022/03/30/agroecologia-em-rede-lanca-plataforma-de-consulta-com-informacoes-sobre-agroecologia-no-brasil/ http://aspta.org.br/2022/03/30/agroecologia-em-rede-lanca-plataforma-de-consulta-com-informacoes-sobre-agroecologia-no-brasil/#respond Wed, 30 Mar 2022 20:39:41 +0000 http://aspta.org.br/?p=19327 Leia mais]]> Novo sistema torna a navegação mais fácil, dinâmica e completa, ampliando ainda mais a construção coletiva do conhecimento agroecológico  

Arte: Bibi Cancian

O Agroecologia em Rede (AeR) agora conta com um novo sistema de consulta aprimorado da base de dados do AeR, mais fácil, dinâmico e completo. A plataforma se apresenta com novas funcionalidades que tornam possível navegar pelos cadastros a partir de três formas diferentes: a) por meio do mapa interativo; b) da listagem completa dos cadastros e; c) dos panoramas, esquemas gráficos que possibilitam um olhar amplo e completo da potência da agroecologia no Brasil. 

Além disso, o novo sistema de consulta possibilita a pesquisa por meio de diversos filtros, permitindo a visualização das experiências por critérios de busca como a identidade dos sujeitos envolvidos, a abrangência territorial, a data em que a experiência foi cadastrada na plataforma e os temas relacionados à agroecologia, entre outros. 

O novo sistema de consulta é fruto de um processo de reestruturação da plataforma, iniciado em 2018 por meio de uma Cooperação Técnica com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e aperfeiçoa a navegação por cadastros que vêm sendo realizados desde os anos 2000 na plataforma. 

Ecologia de Saberes a serviço do movimento agroecológico

Acervo AeR

Mais de 3 mil experiências em agroecologia no Brasil e em outros países da América Latina estão sistematizadas e cadastradas na plataforma “Agroecologia em Rede”, uma ferramenta virtual de Ecologia de Saberes a serviço da construção do movimento agroecológico. Na plataforma, estruturada a partir de tecnologias da informação em software livre, estão registradas experiências de agricultoras e de agricultores, seus relatos de vida, as memórias de projetos e organizações, políticas públicas, entre outras informações sobre os movimentos pulsantes da agroecologia em diferentes territórios e temporalidades.

Ao longo de 20 anos de existência, o Agroecologia em Rede (AeR) foi construído por muitas mãos, em diferentes tempos históricos e lógicas diversas de mapeamento e sistematização. Por isso, a reestruturação organizacional e metodológica iniciada em 2018, culmina hoje em uma grande potência para o movimento agroecológico, firmemente enraizado na atuação da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

É sob essa perspectiva que o AeR hoje é considerado uma plataforma referência de desenvolvimento de tecnologias da informação e metodologias para produção e partilha de conhecimentos coerentes com os fundamentos que fazem da agroecologia um movimento portador de ideias e ideais contra-hegemônicos. 

Como o curso das águas, o Agroecologia em Rede vem constantemente renovando seus caminhos. Ora um mar com ondas agitadas a cada momento por novos ciclos de marés, ora a calmaria de fim de tarde em sua contemplação, a plataforma se amplia e se renova continuamente com os dados e informações aportados por novos modos de navegação. Venha conosco tecer suas histórias e ajudar a colorir as histórias coletivas das muitas mentes e corações que fazem agroecologia por esse mundo afora!

Fonte: Agroecologia em Rede (www.agroecologiaemrede.org.br)

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“Ficamos muito felizes por semear essa experiência de articulação regional sindical para outros lugares” http://aspta.org.br/2022/03/30/ficamos-muito-felizes-por-semear-essa-experiencia-de-articulacao-regional-sindical-para-outros-lugares/ http://aspta.org.br/2022/03/30/ficamos-muito-felizes-por-semear-essa-experiencia-de-articulacao-regional-sindical-para-outros-lugares/#respond Wed, 30 Mar 2022 20:27:22 +0000 http://aspta.org.br/?p=19313 Leia mais]]> A afirmação é de uma liderança do Polo da Borborema ao final de uma visita com 18 sindicalistas do Rio Grande do Sul na Paraíba

“Para nós é uma riqueza saber que, entre os 5 mil e poucos sindicatos [de trabalhadores e trabalhadoras rurais do Brasil], além de nós, tem vocês com o compromisso, pensamento e espírito não só político, mas de militantes em defesa da luta da agricultura familiar. É difícil encontrar grupos com essa mentalidade de procurar fazer um sindicalismo numa perspectiva diferenciada, apostando na diversificação da agricultura familiar”, dispara Manoel Oliveira, conhecido como seu Nequinho, do Sindicato de Alagoa Nova, na roda de avaliação do intercâmbio com sindicalistas do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, que aconteceu de terça a quinta-feira da semana passada (de 22 a 24), na Borborema paraibana.

Foram três dias de muita conversa, visita de campo e observação das estratégias, princípios e ações do Polo da Borborema para mobilizar as mulheres, jovens e homens que se dedicam a cultivar a terra e criar animais no território que reúne uma diversidade de climas – brejo, agreste e uma região mais árida chamada de Curimataú – e uma diversidade de estratégias produtivas da agricultura familiar.

O começo e o encerramento do intercâmbio aconteceram na sede do Polo da Borborema e, nas demais manhãs e tardes, o grupo de 18 gaúchos e gaúchas visitou o Sindicato de Remígio e Queimadas, as comunidades Soares, em Queimadas, e Benefício, em Esperança, conheceu o complexo onde fica o Banco Mãe de Sementes da Paixão, a Unidade de Beneficiamento do Milho da Paixão e a Cozinha Escola.

O trabalho com as crianças, jovens, mulheres e guardiões e guardiãs da biodiversidade foram os temas principais apresentados. Em cada estação temática, as histórias eram contadas a partir de diretores sindicais, que traziam um olhar baseado em leituras e reflexões coletivas. E também havia espaços para que as pessoas das comunidades contassem um pedacinho dessa história através de seus depoimentos cheios de verdade e com jeitinhos próprios de falar que arrancavam sorrisos dos/as visitantes e animavam não só o ambiente, mas os corações desejosos de contribuir com a transformação social no país.

Era tanto a ser apresentado que dois dias para as visitas em campo pareciam insuficientes para quem está na lida diária dos 13 sindicatos envolvidos no Polo da Borborema. Por outro lado, para os visitantes, era tanto volume de informação que o grupo se sentia saciado e se dizia encantado quando agradecia a acolhida e se despedia dos anfitriões do momento.

As atenções dos visitantes estavam voltadas para questões como a integração da ação dos 13 sindicatos do Polo a partir de um projeto político de fortalecimento da agricultura familiar no território, a mobilização das mulheres, a sucessão rural, como fazer para as pessoas participarem de atividades coletivas, para entender os papeis do Polo, dos sindicatos e da AS-PTA nesta ação conjunta no território, como se dá a gestão de projetos e da equipe do Polo, entre outros elementos dos campos metodológico, de governança e político que permeiam a ação sindical.

Os visitantes – No grupo, havia pessoas da Associação Regional Sindical do Litoral Norte gaúcho e lideranças dos sindicatos que fazem parte dessa Regional. Homens, mulheres e jovens, que além do papel representativo que exercem nos sindicatos também são agricultores e desenvolvem diversas atividades no campo como o turismo rural e o artesanato. A visita ao Polo da Borborema representa um módulo da formação em Agentes de Desenvolvimento Regional que o grupo está fazendo.

Uma das intenções que move o coletivo é, justamente, transformar a prática sindical no litoral norte do Rio Grande do Sul. A região se destaca por ter uma grande quantidade de famílias agricultoras envolvidas com agroecologia e produção orgânica. “Essa caminhada formativa promove oportunidades para que o grupo construa percepções para ler seu território”, comentou Gustavo Martins, que facilita o processo formativo. “É um grupo interessado numa ação representativa, mas também numa ação prática, como organizar a produção agroecológica, a comercialização…”, comentou Raimunda Oliveira, da Escola de Formação Nacional da Contag (Enfoc), que está apoiando esta formação.

Na última plenária do intercâmbio, foi organizada uma devolutiva para os anfitriões de alguns aspectos que chamaram a atenção do grupo de visitantes. Foram citadas questões como: a democratização do poder e a definição de papeis entre a AS-PTA, organização que presta assessoria técnica e política ao Polo da Borborema – uma articulação de 13 sindicatos e associações comunitárias; a conexão entre a formação das crianças com o trabalho com a juventude; o espaço de autonomia dado aos jovens envolvidos nas ações e nas diretorias dos sindicatos; a importância dos Bancos de Sementes Comunitários diante não só das estiagens mas como uma estratégia de proteção contra o avanço da transgenia; o poder de organização que “faz acontecer mesmo quando não existe condições favoráveis”, entre outros pontos.

Depois, Gustavo fez uma pergunta direcionada aos integrantes do Polo da Borborema e da AS-PTA, organização que presta assessoria técnica e política ao Polo da Borborema: “Para vocês, qual a importância do Polo nos acolher como um território que está revisitando seu processo de ação sindical?” Provocado pela pergunta, seu Nequinho fez a fala que abriu este texto, sendo seguido por outras pessoas como Giselda Beserra, da diretoria do Sindicato de Remígio e da coordenação política do Polo: “Ficamos muito felizes por semear essa experiência de articulação regional para outros lugares”. E sustenta: “Sindicato é lutar junto, gritar junto. É tá na base.”

Além de ser composto por 13 sindicatos, o Polo reúne cerca de 150 associações comunitárias e gerência uma Associação Regional, a EcoBorborema, e uma cooperativa regional da Agricultura Familiar, a CoopBorborema.

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Mudanças climáticas e produção de alimentos: o que as mulheres têm a ver com isso http://aspta.org.br/2022/03/18/mudancas-climaticas-e-producao-de-alimentos-o-que-as-mulheres-tem-a-ver-com-isso/ http://aspta.org.br/2022/03/18/mudancas-climaticas-e-producao-de-alimentos-o-que-as-mulheres-tem-a-ver-com-isso/#respond Fri, 18 Mar 2022 18:38:00 +0000 http://aspta.org.br/?p=19305 Leia mais]]> Com a implantação da agroecologia, de sistemas agroflorestais e com a preservação das sementes crioulas, elas têm sido contraponto ao agronegócio

Fauna e flora se reproduzindo, água em abundância, temperaturas equilibradas e chuvas regulares são situações que estão cada dia mais difíceis de serem vistas e sentidas. Ao contrário, se tornou mais comum ocorrerem tempestades severas, altas ondas de calor, escassez hídrica e incêndios. Um desequilíbrio total dos ecossistemas que contribuem inclusive ao surgimento de muitos vírus, como a Covid-19. Todas essas situações, que têm sido mais frequentes e intensas, são resultados das mudanças climáticas, que ocorrem em grande parte pelo “modelo produtivo” pautado na monocultura e uso de insumos químicos.

No Brasil, o agronegócio tem se mostrado historicamente como o grande responsável por transformações no clima. Uma pesquisa divulgada em 2020 pelo Mapbiomas, mostrou que entre 1985 e 2020, 90% das áreas desmatadas no país foram destruídas para dar espaço à agropecuária – seja com a produção de grãos, que alimentam a criação, ou com os próprios animais, o que a torna a principal responsável pelo desmatamento. Além disso, a fim de abrir mais espaço para produzir, as queimadas nas áreas de floresta e mata nativa são crescentes. Situação que, além de aumentar a emissão de gases como o carbono e o metano, destrói instantaneamente o habitat de animais, plantas e outros organismos vivos da natureza, colocando em risco ecossistemas inteiros.

Em contrapartida a esse cenário, as mulheres e seus quintais produtivos – áreas próximas à residência onde se cultivam múltiplas espécies – e com a implantação da agroecologia, têm sido fundamentais na mitigação das mudanças climáticas. Além de garantirem a produção de alimentos diversificados e saudáveis em equilíbrio com o meio ambiente, elas têm atuado para recuperar a agrobiodiversidade e os ecossistemas, se mostrando verdadeiras guardiãs da terra, das águas e das florestas.

Para Noemi Margarida Krefta, camponesa do município de Palma Sola, de Santa Catarina, integrante do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, “enquanto o agronegócio tem como princípio a monocultura, a agroecologia consorcia diferentes espécies vegetais e animais, e ainda produz alimentos diversos, garantindo a proteção e recuperação de nascentes de água, das plantas nativas, dos animais e de toda a agrobiodiversidade.” 

De acordo com Noemi, é necessário refletir sobre o modo de produção imposto pelo agronegócio e a revolução verde, pois as mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes. “Repensar o modo de fazer agricultura é urgente, é preciso erradicar o uso dos agrotóxicos, que estão matando nossas águas, florestas, nossa alimentação, acabando com saúde não só das pessoas, mas de todo tipo de vida. Os insumos químicos, sintéticos e as sementes transgênicas precisam estar na nossa agenda de lutas, só assim poderemos preservar as sementes crioulas tão ameaçadas de extinção.”

Neste processo de regeneração da agrobiodiversidade, Noemi conta que as mulheres têm se destacado pois conseguem, a partir dos seus quintais produtivos, produzir alimentos e garantir a preservação e multiplicação das sementes crioulas, fundamentais para a recuperação da terra, das águas e das florestas.

“As mulheres camponesas concebem no seu quintal produtivo um espaço das grandezas capazes de suprir as necessidades alimentares e nutricionais dos que ali convivem, seja das pessoas, seja dos pequenos animais. Com isso, temos como missão produzir alimentos saudáveis, mas também cuidar das sementes crioulas, as quais sabemos como recuperar e melhorar. Cultivamos plantas medicinais e aromáticas, árvores nativas e frutíferas. Diversificamos a produção e melhoramos a alimentação, que dá o equilíbrio saudável ao nosso organismo, mas, além disso, vamos equilibrando e recuperando o ambiente onde vivemos”.

Para amenizar os efeitos das mudanças climáticas na agricultura familiar, Noemi ressalta que a implementação de práticas e técnicas agroecológicas e a preservação das sementes crioulas, feitas em grande parte pelas mulheres, são fundamentais. 

“Recuperar, melhorar e produzir sementes crioulas e as plantas nativas traz consigo a diversificação da produção, mas também repõe os nutrientes necessários para manter a fertilidade do solo e contribui para melhor utilização das águas da chuva, que não evaporam tão rapidamente. Fazer reciclagem de toda matéria orgânica, também fortalece e dá vida ao solo e as plantas. Aproveitar as águas das chuvas contribui para menor exploração das fontes e nascentes que vão sendo protegidas por agroflorestas, que além de dobrar a quantidade de água ainda produz frutos que alimentam as pessoas e os pássaros.”

As práticas agroecológicas pautam ainda a construção de relações igualitárias entre seres humanos e destes com a natureza. “Quando as mulheres estudam e aplicam os conhecimentos da agroecologia, elas olham para o todo do ambiente e contribuem para a construção de relações mais saudáveis entre as pessoas e destas com a natureza. Por isso, sem a participação efetiva das mulheres nos espaços de poder e decisão, sem a superação das violências praticadas contra as mulheres, poderá até ter produção orgânica, mas não haverá agroecologia. Agroecologia presume vida em harmonia, meio ambiente saudável, sem exploração de um ser vivo de qualquer espécie sobre outro(a)”.

Recuperação da agrobiodiversidade – Jovana Cestille, assentada da reforma agrária e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Assentamento Eli Vive, em Londrina, região norte do Paraná, conta que quando as mais de 500 famílias ocuparam a área de cerca de 7 mil hectares das antigas fazendas Guairacá e Pininga, em setembro de 2013, o espaço era tomado por “capim”, sem matas e com pouca água. Segundo ela, quando saiu o decreto de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 2014, a família sonhava com um lote cheio de biodiversidade, fato que não ocorreu.

“O processo de distribuição dos lotes no Assentamento Eli Vive foi por sorteio. Nós sonhávamos em conquistar um lote que tivesse uma reserva florestal com água, mas a gente acabou pegando um lote que tinha apenas três árvores e nenhuma água correndo nele. Uma parte dessa área estava tomada pelo picão e outra por guanxuma, não tinha biodiversidade. Então, nós fomos plantando a biodiversidade, trabalhando com a adubação verde. Hoje temos um solo bem mais rico, por exemplo, antes se quiséssemos pescar e precisasse de uma minhoca não achava, agora quando mexemos na terra encontramos muitas. Fomos melhorando o solo e recuperando a fauna”, conta.

De acordo com Jovana, desde que foram assentados, ela e a família buscaram realizar o reflorestamento e recuperação das espécies nativas da região, através da agrofloresta e implementação da agroecologia. “Nossa principal missão é reflorestar esse espaço, tentando organizar o lote e a produção de forma agroecológica dentro da discussão de reforma agrária popular. Então, desde 2016 implementamos uma agrofloresta que tem árvores para madeira, outras nativas da mata atlântica e as frutíferas, entre elas, a acerola, manga, goiaba e 150 pés de abacate que devem começar a produzir a partir do próximo ano. Temos também as frutíferas nativas da região, a uvaia, gabiroba, ingá, jaracatiá, jatobá.”

A assentada do MST explica que com a implementação da agrofloresta no lote, já se vê uma grande diversidade de animais. “Uma área que não tinha praticamente fauna, hoje vemos várias lebres correndo, lagartos, uma diversidade de pássaros. Conforme vamos recuperando a área, vão aparecendo novas plantas, novos animais, já chegamos a ver veado, saruê. É uma diversidade de animais que têm aparecido e nós aprendemos a conviver com esses animais. Algumas plantas também que conseguimos capinar tudo, deixamos vir para virar matéria orgânica para o solo. Então, estamos fazendo a recuperação do solo, e a fauna está aparecendo aqui de forma espontânea.”

Ela frisa que esse equilíbrio e respeito com a natureza garante uma grande e diversa produção de alimentos agroecológicos. “Na agrofloresta temos o café, que já fizemos a primeira colheita. Em 2020 passamos a trabalhar com as plantas aromáticas, condimentares e medicinais destinadas para a extração de óleos essenciais, como a melaleuca, eucalipto dunni e citriodoro, erva-baleeira, um potente anti-inflamatório que foi muito utilizado pelos nossos ancestrais, mas que caiu no esquecimento e hoje vem sendo recuperado. Temos também o alecrim, lavanda, alfavaca cravo, capim-cidreira, mil-em-rama e uma diversidade de plantas. Também trabalhamos com as hortaliças, como: alface, rúcula, beterraba, cenoura, almeirão, chicória e tomate.” 

Para Jovana, preservar a natureza e amenizar os efeitos das mudanças climáticas é possível, mas para isso é necessário fortalecer os movimentos de mulheres, famílias agricultoras, redes e entidades que desenvolvem ações de proteção e multiplicação das sementes crioulas, as agroflorestas e a agroecologia. “Pra gente fazer os reflorestamentos, retomar a biodiversidade e conviver da melhor forma possível com as mudanças do clima, é preciso apoiar as pessoas e famílias dos assentamentos e comunidades dos pequenos agricultores fazendo a troca e produzindo sementes e mudas, implementando as agroflorestas. É preciso fortalecer projetos e espaços que produzem biodiversidade, como os viveiros, e as ações dos agricultores em torno das técnicas tradicionais e dos produtos, como as caldas, os adubos e as receitas”.

A agricultora finaliza frisando a importância das mulheres nesse processo de proteção e multiplicação das sementes crioulas e da agrobiodiversidade. “As mulheres têm um papel muito importante nisso tudo, pois sempre foram elas que guardaram e fizeram a troca das sementes de hortaliças, flores, medicinais… Elas sempre tiveram essa preocupação e cuidado com a vida. Contudo, pra gente continuar avançando na agroecologia, precisamos avançar na igualdade de gênero. Quando lutamos pelo feminismo e contra o machismo, nós estamos lutando pela igualdade de direitos. E, quando a mulher tem a possibilidade de participar de todas as discussões e encaminhamentos do seu lote, com seu companheiro, com sua família, nós conseguimos avançar na agroecologia.”

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Rio das Feiras: sementes crioulas, memórias e lutas no Centro-sul do Paraná e Planalto norte catarinense http://aspta.org.br/2022/03/15/rio-das-feiras-sementes-crioulas-memorias-e-lutas-no-centro-sul-do-parana-e-planalto-norte-catarinense/ http://aspta.org.br/2022/03/15/rio-das-feiras-sementes-crioulas-memorias-e-lutas-no-centro-sul-do-parana-e-planalto-norte-catarinense/#respond Tue, 15 Mar 2022 22:31:55 +0000 http://aspta.org.br/?p=19297 Leia mais]]> As Feiras de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade são espaços privilegiados da livre circulação da biodiversidade e de convergência dos atores que conservam essas sementes e aí compartilham experiências e recriam seus conhecimentos. A região de atuação do Coletivo Triunfo, no Centro-sul do Paraná e no Planalto norte catarinense, tem uma longa trajetória na organização dessas feiras. Como bem nos lembra um agricultor guardião de sementes, essa história, assim como nossas vidas, não pode ser contada na forma de uma linha reta. Segue muito mais como o curso de um rio, com curvas, nascentes, afluentes, baixas e cheias.

A partir de um plano de navegação, capaz de transitar pelo rio das Feiras de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade, a AS-PTA e o Coletivo Triunfo organizaram uma viagem na história desses eventos, ouvindo agricultoras, agricultores e muitos parceiros envolvidos na conservação e na troca de sementes.

A primeira Feira da região, uma das nascentes desse rio, aconteceu no município de Pinhalão, no Paraná, em 1999. A abundância de espécies e de variedades crioulas então expostas foi uma bonita surpresa trazida pelas famílias agricultoras, face ao contexto regional marcado pelo processo acelerado de erosão genética disparado desde a década de 1970 com a chamada modernização da agricultura. Ao promover a integração subordinada da agricultura à indústria como única via para o desenvolvimento rural, esse processo – amplamente apoiado pelas políticas públicas – teve forte impacto desorganizador sobre as práticas socioprodutivas camponesas fundadas na produção, conservação e uso das sementes próprias. A “modernização da agricultura”, também chamada de Revolução Verde, estimulou a adoção de insumos produtivos dependentes dos pacotes tecnológicos que amarram agrotóxicos, adubos químicos e sementes de origem empresarial comprados nos mercados.

A viagem no rio das Feiras demonstrou como as variedades localmente adaptadas de milho e soja foram desaparecendo dos territórios do Paraná e de Santa Catarina, sobretudo, pela entrada das sementes híbridas e dos organismos geneticamente modificados (OGMs), que têm contaminado das variedades crioulas, algumas cultivadas ao longo de gerações. Outro impacto negativo evidenciado pela crescente utilização dos insumos químicos na agricultura convencional foi a redução do uso da adubação verde para a fertilização dos solos. Tornou-se difícil encontrar nas feiras variedades antes abundantes de sementes de plantas adubadeiras.

Apesar dos desafios, o rio das Feiras de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade não deixou de correr e de receber novas águas. Os testemunhos dos agricultores e agricultoras guardiões e guardiãs das sementes participantes das feiras destacam como, com o passar do tempo, houve um aumento notável da participação das mulheres agricultoras. A guardiãs das sementes enriqueceram as feiras com espécies e variedades de hortaliças, flores, medicinais e mudas. Além da diversificação dos produtos aportados, as agricultoras introduziram nas feiras ao debate as questões de gênero, fomentando a reflexão e o amadurecimento coletivo sobre o papel fundamental da mulher na agricultura camponesa e no crescimento da agroecologia.

Na medida em que as feiras foram se popularizando e se enraizando nos municípios, elas assumiram também uma dimensão regional. Um grande evento anual passou então a polarizar vários municípios do Centro-sul do Paraná, ampliando-se, em seguida, para o conjunto do estado e municípios do Planalto norte de Santa Catarina. Essa trajetória de ampliação da abrangência das Feiras da Agrobiodiversidade se fortaleceu, sobretudo na década de 2010, com o apoio das políticas públicas voltadas ao fortalecimento da produção agrícola familiar e da agroecologia, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Esse cenário positivo da evolução sofreu uma forte inflexão a partir de 2016, com o golpe parlamentar e o drástico desmonte dessas políticas e a ruptura dos canais de cooperação e controle social Sociedade-Estado.

Em que pesem os revezes, a capacidade de resistência e de iniciativa das organizações da agricultura familiar da região, principalmente o Coletivo Triunfo, manteve cheio o leito do rio. O calendário de Feiras da região Centro-sul e do Planalto norte Catarinense previa para 2020 a realização de mais de 30 feiras envolvendo cerca de 700 famílias agricultoras. No entanto, com o surgimento e a propagação da pandemia de Covid-19, os protocolos de isolamento social impediram a organização das feiras no formato tradicional. O fortalecimento da biodiversidade e dos intercâmbios que elas vinham promovendo nos territórios, porém, inspiraram iniciativas inovadoras, a fim de garantir que as sementes circulassem, gerando renda, produção de alimentos e a continuidade da partilha de saberes entre guardiãs e guardiões.

As feiras passaram a ocupar os espaços virtuais, por meio de trocas de saberes, seminários e cursos, nos quais agricultoras e agricultores foram protagonistas. Além disso, as organizações territoriais, notadamente o Coletivo Triunfo, a AS-PTA e a Rede Sementes da Agroecologia (ReSA) desenvolveram ações de solidariedade, face à conjuntura de agravamento da fome no país e diminuição da renda das famílias guardiãs, sob o impacto desorganizador do distanciamento social sobre os circuitos da comercialização direta de suas produções. Com o apoio do Ministério Público do Trabalho e a mobilização das redes locais foi constituído um sistema de compra de sementes crioulas da agricultura familiar e sua distribuição às famílias camponesas em situação de vulnerabilidade. Foram, assim, distribuídas mais de 30 toneladas de grãos de 69 variedades de sementes e 50 mil mudas de batata-salsa, além de aproximadamente 16 mil envelopes de 135 variedades de sementes de hortaliças.

Essas sementes passaram das mãos dos/as agricultores/as para mais de 3 mil famílias, envolvendo comunidades indígenas, quilombolas e camponesas. As Feiras, por aquilo que são capazes de mobilizar, encontraram formas de se refazer, reafirmando que são mais do que um evento anual nos municípios e na região. Trata-se, na verdade, de arranjos coletivos inspirados em valores como a solidariedade e a cooperação, que fortalecem as ações territoriais, como as redes de agroecologia, as organizações e o trabalho das mulheres e a conservação da agrobiodiversidade, ao mesmo tempo em que são também alimentadas por essas inteligências coletivas. O rio das Feiras se espraia fortalecendo a relação entre seus afluentes, cada nascente e cada olho d’água.

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