AS-PTA http://aspta.org.br Tue, 21 Sep 2021 14:16:47 +0000 pt-BR hourly 1 Políticas públicas municipais: sementes crioulas e inspiração desde os territórios http://aspta.org.br/2021/09/20/politicas-publicas-municipais-sementes-crioulas-e-inspiracao-desde-os-territorios/ http://aspta.org.br/2021/09/20/politicas-publicas-municipais-sementes-crioulas-e-inspiracao-desde-os-territorios/#respond Mon, 20 Sep 2021 23:41:36 +0000 http://aspta.org.br/?p=18945 Leia mais]]> “Precisamos desesperadamente de outras histórias” é o que propõe a filósofa belga Isabelle Stengers*. Em outras palavras, trata-se de colocar em questão um fluxo histórico que, escrito sob a narrativa do progresso, tem nos conduzido a crises econômicas, políticas, ecológicas e, sem dúvidas, sanitárias. A partir de experiências de políticas públicas municipais, inspiradoras de “outras histórias”, nos propomos a pensar em algumas formas de fazer política que falam tanto dos novos caminhos que a agroecologia vai tecendo na relação com o Estado e seus representantes quanto da criatividade que emerge dos territórios na construção de outras agriculturas possíveis. Para não perder a tradição, colocamos atenção especial nas sementes crioulas, mais especificamente no campo de relações estabelecidas entre elas e as políticas públicas municipais.

Apesar de algumas políticas terem uma trajetória de desenvolvimento bem mais longa, começamos nossa análise a partir da iniciativa promovida pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) no último ano – Municípios Agroecológicos e Políticas de Futuro. A ação envolveu mobilizações e debates públicos durante o processo eleitoral nos municípios, evidenciando a importância da participação social na proposição e na execução de políticas públicas efetivas.

No âmbito da iniciativa, organizações vinculadas à ANA produziram um mapeamento de políticas públicas municipais que fortalecem a agroecologia. Uma parada importante. Para além de uma definição categórica e abstrata das “políticas públicas agroecológicas”, tratou-se de pensar e dar visibilidade a experiências de políticas públicas formuladas e executadas com princípios agroecológicos. Essas políticas caracterizam-se por sua capacidade de estabelecer conexões territoriais, combinando recursos sociais e ecológicos e governança local, que se efetivam mediante relações de reciprocidade entre as partes envolvidas, sejam elas pertencentes à sociedade civil ou ao poder público. Esses arranjos sociopolíticos permitem, assim, o surgimento de novas lentes de aproximação e novos enfoques sobre a agroecologia, os territórios, o papel do Estado e sobre processos inovadores de construção das próprias políticas.

Ao todo, foram identificadas 721 políticas públicas municipais orientadas para o fortalecimento da agroecologia. Elas estão espalhadas por todo o país, envolvendo diferentes biomas e dizem ainda sobre a inseparabilidade entre campo e cidade. Os dados coletados foram sistematizados na plataforma Agroecologia em Rede (AeR), um ambiente de software livre que reúne uma coleção de informações sobre experiências do movimento agroecológico.

 

No acervo mapeado, identificamos 17 políticas públicas que dizem respeito diretamente às sementes crioulas. Grande parte dessas políticas foi criada a partir de 2002. Uma das exceções localiza-se no município de Muqui/ES. Nesse município, a política pública de fomento ao melhoramento genético participativo está em curso desde 1994, garantindo, por meio de dispositivos adequados, como sistemas de irrigação e assistência técnica, o plantio e seleção de variedades em campos comunitários, como é o caso dos milhos Aliança e Fortaleza. Ainda em Muqui, existe também uma política pública destinada à promoção do acesso das famílias agricultoras a variedades de milho e feijão e à criação de galinhas caipiras. Mais de 1.000 famílias foram beneficiadas, dentre agricultores familiares, quilombolas, indígenas e ribeirinhos. Em Itanhém-SP uma política municipal foi também desenhada para apoiar povos e comunidades tradicionais, especialmente com a inserção do milho Guarani no cardápio de escolas indígenas por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Em Minas Gerais, os campos de plantio comunitários são apoiados por políticas públicas nos municípios de Juvenília e Januária, garantindo a multiplicação de sementes, tanto pelo cultivo e seleção, quanto pelo processo coordenado de distribuição do material reprodutivo aos/às agricultores/as familiares nas regiões. Em ambos os municípios, as políticas se realizam em parceria com a EMATER, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais. Já em Guaraciaba-SC, também foi identificada uma política pública de distribuição de sementes. Com orçamento anual de R$ 15.000,00, entre 2004 e 2010, foi garantindo o acesso de 500 famílias agricultoras a sementes crioulas. Em que pese o êxito da iniciativa, a política se encontra inativa atualmente. No mesmo município de Guaraciaba/SC está ativa uma política pública municipal de fortalecimento de viveiro de mudas que, desde sua instalação em 2017, conta com 113 espécies de árvores nativas e um orçamento de R$ 40.000,00, e garante a distribuição contínua de mudas aos/às agricultores/as familiares.

Em Tauá-CE, o viveiro florestal é também apoiado por política específica no âmbito municipal. O objetivo é fomentar a produção de mudas e espécies nativas da Caatinga, visando à recuperação de áreas degradadas com vegetação adaptada ao bioma. Em Picuí/PB a recuperação da Caatinga é, da mesma forma, o objetivo da parceria do município com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA), que além das nativas, tem se dedicado junto aos/às agricultores/as na identificação de espécies forrageiras. No município de Caxias/MA existe também política pública associada à recuperação da cobertura vegetal do Cerrado, por meio da distribuição de nativas e espécies frutíferas.

Em Anchieta-SC, a política pública de fortalecimento à agroecologia e às sementes crioulas se transformou na Lei nº 2.457/2019. O instrumento combina, por exemplo, apoio à pesquisa e a realização das Festas das Sementes Crioulas, para o intercâmbio e troca de sementes e conhecimentos. Também é de apoio à Festa de Sementes a política pública identificada do município Treze de Maio-SC. Além do intercâmbio de sementes, a dimensão cultural dos alimentos é parte das festas, durante as quais são estimuladas a partilha de receitas típicas e de suas histórias. Em Juti-MT, o apoio à realização de eventos de trocas de sementes é também objeto de políticas públicas. A festa de sementes acontece há 15 anos e tem dentre seus principais objetivos a valorização dos guardiões e guardiãs da agrobiodiversidade e a disseminação de práticas e saberes agroecológicos.

O apoio aos Bancos de Sementes é também parte das políticas públicas municipais. Em Jucati-PE, o Banco reúne agricultores e o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA). Inaugurado em 2018, foi o primeiro Banco de sementes municipal da região. Em Soledade/PB, o Banco foi criado por meio de lei municipal. O apoio ao armazenamento e distribuição de sementes crioulas adaptadas ao Semiárido tem sido fundamental no enfrentamento aos longos períodos de estiagens.

Indo do Nordeste para o Sul, em Mandirituba-PR, a política pública municipal que apoia a Casa de Sementes também é prevista por lei e dispõe de orçamento anual de R$ 25.000,00, visando especialmente a produção de sementes de hortaliças e adubação verde.

Ainda que num rápido sobrevoo, o conjunto das políticas públicas que identificamos guardam singularidades associadas aos territórios de pertença, ao mesmo tempo que compartilham de fazeres comuns. Assim, embora inscritas em realidades diferentes, inspiram umas às outras ao suscitarem criatividades locais e combinações profícuas entre o poder público e a sociedade civil. As políticas públicas municipais apontam a inviabilidade de pensar em soluções únicas difundidas e replicadas indiscriminadamente. As espécies nativas da Caatinga e do Cerrado são distintas, assim como as variedades de milho e feijão que florescem nos Bancos, nos campos comunitários e nos intercâmbios de sementes. Essas diferenças evidenciam diversidades que carecem de cuidados localizados, ao mesmo tempo que testemunham a contínua luta pela defesa das sementes crioulas. Sigamos fertilizando essas “outras histórias” de que tanto precisamos e aprendendo com as experiências dos territórios que proliferam a diversidade na defesa do bem comum.

A iniciativa Políticas de Futuro segue em curso em 2021, agora como o nome de Agroecologia nos municípios, acompanhe!

Veja algumas postagens que foram feitas no Agroecologia em Rede sobre sementes crioulas e políticas públicas!

*STENGERS, Isabelle. No tempo das Catástrofes – resistir à barbárie que se aproxima. São Paulo: Cosac Naify, 2015. 160 p

Fotos: Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e Giorgia Prates
Arte: Beatriz Cancian

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Feira Agroecológica da Freguesia completa oito anos de re-existência! http://aspta.org.br/2021/09/20/feira-agroecologica-da-freguesia-completa-oito-anos-de-re-existencia/ http://aspta.org.br/2021/09/20/feira-agroecologica-da-freguesia-completa-oito-anos-de-re-existencia/#respond Mon, 20 Sep 2021 23:20:08 +0000 http://aspta.org.br/?p=18937 Leia mais]]> Inaugurada em 17 de Agosto de 2013, a feira, que compõe o Circuito Carioca de Feiras Orgânicas, surgiu como uma demanda antiga dos moradores da Freguesia à AMAF (Associação de Moradores da Freguesia). Acontece todo sábado no coração do bairro, na Praça Professora Camisão. Lá é possível encontrar alimentos livres de agrotóxicos, com qualidade e preços acessíveis. Atualmente, são seis barracas que comercializam os mais variados produtos que vão desde frutas, legumes e verduras da estação até beneficiados como bolos, pães e biscoitos. 

Os responsáveis por essa diversidade de Produtos da Gente são as agricultoras e agricultores, feirantes e suas famílias que ocupam o espaço da praça para oferecer agroecologia para a mesa de seus consumidores. Feirantes da região de Jacarepaguá e entorno da cidade do Rio fazem parte da feira: Russo e família, do Pau da Fome, Sumaya e Fátima dos quintais produtivos da Colônia, Dona Lourdes e família de Queimados, Angélica de Vargem Grande, Eduardo e Lidiane de Magé, Lucas de Petrópolis e Jorge da Freguesia.

Ao longo de oito anos de existência, um espaço de comercialização como esse incentiva a diversidade na produção e cria novas oportunidades de participação em outros locais e circuitos de venda, como grupos de compras coletivas e entrega de cestas de alimentos orgânicos e/ou agroecológicos. 

A feira é também um local de aprendizado sobre os modos de vida dos agricultores urbanos,  onde são trocados  receitas e saberes sobre plantas e cultivos, consumo responsável e padrões de mercado. É um lugar de resistência da agricultura carioca, de defesa de uma cidade que cria condições de acesso público a alimentos frescos e saudáveis. 

Apesar das conquistas e da incrível trajetória da feira até aqui, ela enfrenta alguns desafios que dificultam a sua ampliação e seu funcionamento, como a falta de manutenção da Praça Professora Camisão, a calçada irregular, e a ausência de lixeiras no local. E sendo uma feira do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas passa por inseguranças administrativas ligadas ao município do Rio, como a suspensão do Conselho Gestor e do regimento do Circuito. 

A Rede Carioca de Agricultura Urbana e a AS-PTA, além de outras instituições como FIOCRUZ, UFRRJ e Rede Ecológica, têm acompanhado de perto esses desafios e seguem apoiando e tentando suprir as demandas. Annelise Fernandez, professora da UFRRJ e membro da Rede Carioca de Agricultura Urbana e da Rede Ecológica, acompanha a feira desde a sua formação e, sendo também moradora do bairro da Freguesia, passou a frequentar a feira todos os sábados. Para ela, consumir na feira é uma questão de coerência com o esforço de pesquisa e extensão em defesa da agricultura carioca.  É uma forma cotidiana de apoiar a agricultura familiar e urbana do Rio de Janeiro. Ela nos conta:

“Temos consumidores fiéis, que frequentam a feira desde o seu início, mas a feira ainda sofre de um desequilíbrio entre produção e comercialização.  Ainda é preciso alargar o alcance da feira no bairro.” E complementa: “Estar há oito anos na praça, vendendo alimentos orgânicos é uma conquista!  Funcionar  em um bairro da Zona Oeste, onde se concentra a maior parte da agricultura carioca é uma conquista maior ainda.” 

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“Reproveitar as águas vai ser tão importante quanto as cisternas de água de beber e de produção”, diz uma das lideranças do Polo da Borborema http://aspta.org.br/2021/09/20/reproveitar-as-aguas-vai-ser-tao-importante-quanto-as-cisternas-de-agua-de-beber-e-de-producao-diz-uma-das-liderancas-do-polo-da-borborema/ http://aspta.org.br/2021/09/20/reproveitar-as-aguas-vai-ser-tao-importante-quanto-as-cisternas-de-agua-de-beber-e-de-producao-diz-uma-das-liderancas-do-polo-da-borborema/#respond Mon, 20 Sep 2021 23:12:24 +0000 http://aspta.org.br/?p=18927 Leia mais]]> “Fico imaginando o que seria de nós sem as cisternas. Acho que estaríamos em situação… acho que de morte. As cisternas de beber e de produção estão dando um grande suporte nessa seca. Não está fácil. São anos seguidos de chuvas finas, que não encharcam a terra para acumular água nos barreiros, açudes.” A fala é de Zeneide Granjeiro, da Comissão de Água do Polo da Borborema e presidenta do Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais de Areial.

O Polo é um coletivo que agrega 13 sindicatos rurais, mais de 150 associações comunitárias, uma associação regional de agricultores/as familiares, a EcoBorborema, e uma cooperativa com capacidade de atuar em todo o Estado, a CoopBorborema.

“Com as mudanças climáticas, temos muito sol, poucas chuvas e o jeito é racionar as criações animais”, atesta a agricultora. Mas, além das águas que caem do céu, há outro jeito de fazer render a água que as famílias estocam. Trata-se das águas já utilizadas, mas que são reaproveitadas para aguar plantas e outros usos de higiene, como lavar a casa e o chiqueiro dos porcos.

“A maioria das famílias já faz isso a partir da sabedoria popular. A gente aprendeu muito. A necessidade nos ensinou a aproveitar todas as águas. Agora, o Polo da Borborema e a AS-PTA estão implementando, a partir do projeto Borborema Agroecológica, alguns sistemas de reuso de água. Essa tecnologia vai ser tão importante para nós quanto as cisternas de água de beber e das de produção”, sustenta Zeneide.

A iniciativa Borborema Agroecológica faz parte do projeto INNOVA AF, financiado pelo FIDA e executado pelo IICA, que busca fortalecer as capacidades das famílias camponesas, por meio da gestão participativa do conhecimento e disseminação de boas práticas para a adaptação às mudanças climáticas.

Quanto mais a água for aproveitada, mais plantas serão aguadas – Essa frase povoa as mentes das agricultoras da Borborema paraibana. Foi dito tanto por Zeneide, quanto por Marleide Marinho da Silva, que vive na zona rural de Esperança. Ela, seu marido Sandro e a filha de 19 anos Patrícia Gabriela aproveitavam o máximo de água que conseguem da lavagem de prato e roupa e da que usavam para higiene pessoal. Tudo era posto em baldes e reutilizada. Seja no vaso sanitário, seja nas plantas do quintal.

“Mas, desse jeito sempre perde água. E também tinha o trabalho de ficar carregando baldes e a gente não podia jogar a água com sabão na raiz da planta porque não era tratada”, conta Marleide de 44 anos no dia em que uma equipe finalizava a encanação do seu novo sistema de reaproveitamento de águas totais. “Amanhã, a gente já começa a usar”, assegura ela feliz da vida. “Tem muitas plantas no quintal e pouca água”.

Agora, além das águas de sabão, a da fossa também vai ser tratada e conduzida para matar a sede das plantinhas do arredor de casa. O sistema consiste em uma fossa, um reator para tratamento, dois tanques de polimento para que a água descanse por sete dias antes do uso e, por fim, uma última caixa para distribuição do líquido no quintal.

A capacidade de reserva de água na família de Marleide é pequena. Eles contam com a cisterna de água de consumo humano e um barreiro que, esse ano, pegou um pouco de chuva apenas. “A gente planta quando Deus manda chuva. Este ano, a gente deixou de plantar as verduras. Só deu um pouco de cenoura, nem feijão a gente colheu.”

Este é o primeiro sistema de reaproveitamento de águas totais de Sítio Benefício, comunidade onde mora Marleide e família. “Só tenho a agradecer a todos que trouxeram este sistema até a minha casa”, diz outra vez já no final da entrevista.

Assim como Marleide, outras 12 famílias também terão instaladas nas suas casas um sistema que vai aperfeiçoar muito o reaproveitamento das águas servidas. Serão 3 sistemas de reaproveitamento de águas totais, como a de Marleide, e 10 de águas cinzas, vindas das pias e banho. “A nossa ideia é associar essas experiências às organizações de pesquisa, como o INSA [Instituto Nacional do Semiárido] e universidades, para a gente monitorar o impacto na produção de alimentos, assim como a qualidade dela”, comenta José Camelo, assessor técnico da AS-PTA para o tema do acesso à água.

“O nosso objetivo é que essas experiências ganhem uma dimensão política para transformá-la numa política pública nacional como a gente fez com as cisternas”, sustenta Camelo. “Várias organizações da ASA Brasil vem trabalhando com essas experiências como o Patac [PB], Centro Sabiá [PE], Caatinga [PE], Cetra [CE], IRPAA [BA] e outras.”

São águas com grande potencial para melhorar os quintais, principalmente as fruteiras, e também para aguar os campos de forragens que servem para alimentar os animais. Além disso, devido ao aproveitamento das águas de fossa, são tecnologias com dupla função, servindo também como solução para o saneamento rural, um grande problema vivenciado no Brasil.

“As casas de muitas famílias não têm saneamento. Isso é um grande problema para a saúde delas na medida em que a gente instalando uma cisterna no arredor da casa e, ao mesmo tempo, as fezes ao ar livre podem contaminar a água da família”, destaca Camelo.

 

Não deixe de assistir o vídeo sobre o reuso de águas

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“É possível cultivar hortaliças, banana, milho e muito mais na cidade”, afirma doutora em engenharia florestal e professora da UFPR http://aspta.org.br/2021/09/17/e-possivel-cultivar-hortalicas-banana-milho-e-muito-mais-na-cidade-afirma-doutora-em-engenharia-florestal-e-professora-da-ufpr/ http://aspta.org.br/2021/09/17/e-possivel-cultivar-hortalicas-banana-milho-e-muito-mais-na-cidade-afirma-doutora-em-engenharia-florestal-e-professora-da-ufpr/#respond Fri, 17 Sep 2021 19:10:46 +0000 http://aspta.org.br/?p=18913 Leia mais]]> Produção de alimentos através de sistemas agroflorestais (SAFs) é alternativa para atender demanda de soberania e segurança alimentar da população urbana.

Ter uma agrofloresta ou sistema agroflorestal (SAF) – sistema de produção que consorcia plantas alimentícias com espécies arbóreas, está longe de ser algo apenas feito no campo. Aliás, é cada dia mais comum encontrarmos nas cidades espaços sendo destinados para a produção de alimentos saudáveis e diversificados, para o consumo próprio ou até mesmo como fonte de renda.

Rozimeiry G. Bezerra Gaspar, doutora e professora de engenharia florestal e agronomia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, e coordenadora do Projeto de Extensão Horto Agroflorestal Sabores e Saberes desde 2010, tem realizado, com seus estudantes e comunidade, ações para potencializar a produção de alimentos na cidade. Um dos objetivos é garantir a soberania e segurança alimentar para a população urbana, além de possibilitar a inclusão da população em espaços acadêmicos.

Na entrevista abaixo, Rozimeiry aborda questões fundamentais sobre o papel da universidade na democratização da informação e ferramentas que possibilitem à comunidade acessar uma alimentação saudável através dos SAFs e da agroecologia, garantindo que pequenos espaços nas cidades sejam altamente produtivos tornando-se, assim, uma opção para combater a fome nos centros urbanos.

 

Rede Sementes da Agroecologia (ReSA) – Como entrou em contato com a agroecologia e a nutrição?

Rozimeiry G. Bezerra Gaspar– A minha origem é rural, aprendi desde criança com a minha mãe a cultivar e criar animais de forma sustentável, respeitando o meio ambiente. Como a propriedade da minha mãe era no Bioma Cerrado, e estarmos muito distante dos centros urbanos, tínhamos o cerrado como a nossa farmácia viva, com os conhecimentos tradicionais  dela e o seu respeito com a natureza foi onde aprendi muito do que sei sobre agroecologia e alimentação saudável. E aqui na UFPR através do Projeto de Extensão Horto Agroflorestal Sabores e Saberes, em uma área de 600 metros quadrados no Campus do Botânico,  estamos fomentando a agroecologia e troca de saberes locais e conhecimento científico.

Nesse projeto o objetivo é trazer a comunidade para dentro da universidade, ação que deveria ser mais rotineira. Buscamos dar espaço para as comunidades, dar empoderamento para essas pessoas, valorizando a troca do conhecimento popular tradicional e científico. Através dele, realizamos muitos cursos, encontros e oficinas de capacitação na área da agroecologia, desenvolvimento sustentável, e daí entram os sistemas agroflorestais (SAFs) e alimentação saudável.

No horto, trabalhamos com as plantas medicinais, frutíferas nativas e alimentícias não convencionais, chamadas PANCs, mas que conhecemos como plantas tradicionais. Lá, temos uma área de cultivo dessas espécies, onde realizávamos vários encontros com a comunidade até o início do ano passado, agora com a pandemia acabamos tendo que nos adaptar e esses eventos passaram a ser virtuais ou no sistema drive-thru para a doação de mudas e sementes para a comunidade interessada e também receber donativos de alimentos, roupas, brinquedos e material escolar para famílias vulneráveis. E com a pandemia vimos a necessidade de aumentar o incentivo virtualmente para que as pessoas fizessem o  cultivo de seus alimentos, plantas medicinais e frutíferas como forma de terapia e também soberania alimentar, fazendo  o uso do quintal, sacada, laje ou jardim de suas casas.

Também trabalhamos com o resgate e valorização das frutas nativas daqui do Paraná e ao lado desse viveiro de frutíferas, que fica na UFPR, temos uma área de agrofloresta urbana, cujo objetivo é trazer os estudantes e a comunidade para realizar atividades práticas de agroecologia, trabalhando com troca de experiências e vivências. Nessa área utilizamos muitas espécies tradicionais e sementes crioulas, objetivando a conservação e também a divisão desses materiais com as pessoas interessadas em cultivar em suas casas e propriedades. Fazemos mutirões para os cultivos, manutenção e colheita das espécies plantadas. Nessa área, as espécies colhidas o seu principal objetivo não é servir de alimento, mas aumentar a quantidade de sementes e mudas para multiplicar e dividir com a comunidade para terem material de qualidade para plantar e cultivar nos seus vasos, hortas, quintais, jardins e áreas rurais.

ReSA – Qual a conexão entre os SAFs urbanos e a agricultura urbana? Tem como fazer SAF na cidade? Como fazer?

Rozimeiry – No início se pensava em usar as plantas apenas em sacadas, apartamentos, quintais e jardins, agora nós fazemos agrofloresta urbana. As pessoas têm entendido que em qualquer tamanho de área na cidade é possível cultivar alimentos. Posso muito bem ter um jardim agroflorestal com beleza, mas que todas as plantas eu possa comer ou usar para fins medicinais, como, por exemplo, a rosa que pode ser consumida como chá, geléia, salada, etc.

Foi com esse objetivo que criamos a agrofloresta urbana, para que as pessoas vejam que podem cultivar seu alimento na cidade, com isso, se atende a demanda de soberania e segurança alimentar, de produzir alimentos diversificados e saudáveis.

Podemos pensar na agricultura urbana sendo cultivando somente hortaliças de espécies com ciclos de um mês, seis meses. Já no caso dos SAFs, para a produção de alimentos na cidade, eu tenho que planejar a inclusão de pelo menos um componente arbóreo de modo que ele não atrapalhe futuros cultivos, no caso de construção ou o próprio crescimento das espécies de cultura agrícola. O manejo correto das espécies é imprescindível para permitir a entrada de luz, chuva, ciclagem de nutrientes e que as espécies sejam companheiras se beneficiando com o multicultivo na mesma área.

Pensando no planejamento, é preciso verificar que espécies a pessoa gostaria de cultivar, como as plantas alimentícias, medicinais, madeireiras, frutas ou flores. É preciso verificar a necessidade que se tem e por quanto tempo essa área estará disponível para plantio.

ReSA – Qual a importância dos sistemas agroflorestais em áreas de maior vulnerabilidade social, e como eles fortalecem as organizações dos bairros periféricos como, por exemplo, as associações e cooperativas?

Rosimery – É fundamental que na hora que se pense nos locais de planejamento de implantação dos sistemas agroflorestais, olhemos essas áreas de uma forma que as pessoas que serão beneficiadas consigam ter autossuficiência. E não é só a autossuficiência alimentar, é a elevação da autoestima, para que elas não precisem receber uma doação, pois estão produzindo seu alimento e sintam orgulho disso.

Na hora que trabalhamos com comunidades em vulnerabilidade social e começamos a mostrar experiências positivas de outros locais, as pessoas começam a se animar e fazer muito melhor do que falamos. Um exemplo é na hora que fazemos os cursos de capacitação para as mulheres, é muito rica a percepção e a vivência de cada uma, o quanto sabem, como lidam com situações diversas que vivem ali. Isso acaba dando uma oxigenada e fortalecendo essas mulheres, esses bairros que estão participando.

Então, é fundamental que tenhamos esse discernimento do nosso papel enquanto professores, universidade, organizações de várias áreas, na vida dessas pessoas. Muitas vezes esses bairros, comunidades, só precisam de uma oportunidade, de conhecer um projeto e suas possibilidades. Esse empoderamento das pessoas, esse fortalecimento de vínculo, pode começar com o simples cultivo do alimento, com essa troca de conhecimento entre comunidade e universidade.

ReSA – Quais são os fatores que limitam o desenvolvimento de sistemas agroflorestais na cidade e como a sociedade civil pode se organizar com a universidade para fortalecer as ações existentes?

Rozimeiry – O principal fator é o desconhecimento e com ele vem o preconceito, muita gente pensa em uma agrofloresta cheia de mato, porque tem árvores ali, juntará mosquitos, ratos, baratas. Precisamos desmistificar isso e a melhor forma é divulgar técnicas que podem ser utilizadas de formas sustentáveis.

Acredito que a maior dificuldade seria isso, mostrar ser possível sim, realizar agricultura na cidade. Foi por isso que criamos esse sistema da agrofloresta urbana, justamente para as pessoas irem lá e entenderem que é possível cultivar hortaliças, banana, milho e muito mais na cidade, tudo de forma saudável e sustentável.

Então, é preciso difundir, ensinar, aprender, trocar e fortalecer esse conhecimento multidisciplinar e cultural. Não é porque se planeja a implantação de uma agrofloresta que a produção de alimentos em área urbana não dará certo, é preciso entender essa maneira mais complexa e biodiversa de cultivo. É preciso conhecer técnicas de como tornar o solo com mais vida e mais produtivo, de forma orgânica para conseguir suprir essas plantas nutricionalmente. Entender os arranjos com as espécies que devem ser cultivadas juntas para conseguirem aproveitar os diferentes estratos do solo, e exigências de luz e sombra. Em que período devemos plantar cada espécie, por quanto tempo cada uma fica na área, quais os manejos que cada espécie precisa para ter um bom desenvolvimento, qual a função de cada uma (adubadeira, sombra, fruto, sementes, folhas, etc.).

Felizmente essa visão de que é possível ter agrofloresta urbana com objetivo cênico, terapêutico, organização social, soberania alimentar, segurança alimentar, etc, já está sendo consenso em muitas cidades no Brasil e no exterior. E como professora o que mais desejo é que os meus estudantes entendam a importância desses exercícios práticos e integrados com a sociedade, o momento de aplicação do conhecimento teórico na prática e, ao mesmo tempo, aprender a ler a real necessidade da sociedade e em conjunto buscar formas de transformação social e pessoal. E é muito gratificante acolher e ter o acolhimento da sociedade para desenvolver parcerias e trabalhos em conjunto, estamos à disposição. 

Estamos sempre disponíveis para receber a sociedade e trocar ideias e conhecimentos, é só entrar em contato conosco no Facebook  e Instagran Horto Agroflorestal Sabores e Saberes.

ReSA – O estudo “Efeitos da Pandemia na Alimentação e na Situação da Segurança Alimentar no Brasil”, coordenado pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgado em abril de 2021, mostrou que mais de 59,4% dos domicílios brasileiros apresentaram algum grau de insegurança alimentar entre os meses de agosto e dezembro de 2020.  Como essa questão da insegurança alimentar pode se agravar a partir do corte em políticas públicas que poderiam viabilizar a vida de agricultores do campo, a produção de alimentos, geração de renda, inclusive para quem mora nas cidades?

Rozimeiry – A pandemia é um fator muito grave que aumentou a desigualdade social, deixando muita gente sem renda. Além disso, temos perdido muito das políticas públicas que foram uma conquista árdua, resultado de muita luta. Tem muita gente que pensa que política pública é esmola. Como fazer com que as pessoas tenham sustentabilidade e autonomia sem incentivo ou suporte?

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) são exemplos desse momento de corte, principalmente no início da pandemia. Em muitas famílias, os filhos só tinham alimentação na escola, digo a melhor alimentação, proporcionados pelo PNAE. E no início da pandemia em muitos municípios foi suspenso, o que ocasionou perdas para os agricultores, mas depois foi possível a continuidade desse programa fazendo a doação de kit alimentício para as famílias. Precisamos de maiores investimentos nos programas PNAE e PAA, e mais políticas públicas de incentivo à agricultura familiar, que levará a valorização ainda maior da agricultura familiar  responsável pela  produção dos alimentos que chegam à mesa da população brasileira. 

Contudo, como em toda dificuldade pode vir a solução dos problemas, com o isolamento social e impedimento de feiras livres, muitos agricultores passaram a fazer a venda direta para os consumidores através das redes sociais, ofertando cestas de alimentos, orgânicos, principalmente com entrega à domicílio, o que fortaleceu a relação produtor-consumidor.

Diante da situação do aumento da insegurança alimentar no Brasil, que é fato, precisamos sensibilizar as pessoas e mostrar que têm realmente cada dia mais gente passando fome, sem ter o que comer. Além do desemprego, estamos passando por um momento de inflação cada dia mais alta, que está comprometendo a vida da população, afetando principalmente a de baixa renda. Aumentou o desemprego, e reduziu o salário, sem contar o quanto o nosso alimento encareceu nesses últimos meses. É importante fortalecer a política de estoques públicos de alimentos para fortalecimento dos pequenos agricultores e garantir ao Estado regular o preço do mercado, justamente para que os alimentos básicos não sejam commodities.

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Arranjo local de Guaratiba realiza formação para manejo de canteiros com uso de insumos orgânicos na Horta Professora Aline Scribelk de Carvalho Maciel http://aspta.org.br/2021/09/14/arranjo-local-de-guaratiba-realiza-formacao-para-manejo-de-canteiros-com-uso-de-insumos-organicos-na-horta-professora-aline-scribelk-de-carvalho-maciel/ http://aspta.org.br/2021/09/14/arranjo-local-de-guaratiba-realiza-formacao-para-manejo-de-canteiros-com-uso-de-insumos-organicos-na-horta-professora-aline-scribelk-de-carvalho-maciel/#respond Tue, 14 Sep 2021 23:54:48 +0000 http://aspta.org.br/?p=18906 Leia mais]]> A horta, que também faz parte do programa “Hortas Cariocas” da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, possui 35 canteiros com cultivo dos mais variados tipos de alimentos. Couve, alface, almeirão, coentro, aipim, ora-pro-nóbis, hortelã-pimenta, banana, salsinha, milho, pimenta, tomate, chuchu são algumas das espécies cultivadas

No dia 24 de agosto foi realizada mais uma atividade do Arranjo Local de Guaratiba. Dessa vez, o local escolhido foi a Escola Municipal Emma D’ávila de Camillis, onde fica a Horta Professora Aline Scribelk de Carvalho Maciel. Cercada pelo Parque Natural Municipal da Serra da Capoeira Grande, uma área protegida de extrema importância para a região, a escola é referência no desenvolvimento de atividades ambientais e educativas em Pedra de Guaratiba.

Durante o café da manhã partilhado, Carlos de Oliveira, diretor adjunto da escola, fez um breve relato sobre o histórico da horta que existe há mais de 18 anos. O nome foi dado em homenagem à sua fundadora, a professora Aline, que já está aposentada. Hoje,a horta continua viva e crescente, sendo cuidada por muitas mãos. 

Valdete Alves começou há cinco anos como “hortelã”, nome dado à pessoa que cuida e zela pelos canteiros de produção. Atualmente, é quem coordena todo o espaço e contou: “Eu vi aqui um hospital para me curar. Eu vi um espaço legal que a gente poderia fazer coisas lindas. Já tivemos muita dificuldade aqui, por conta da falta d’água na região. Mas hoje essa horta é um ponto de referência para os vizinhos e para as crianças. Eu tenho uma trajetória de vida nessa escola e vejo essa escola como um lar pra mim”

Tudo que é produzido na horta é utilizado nas refeições oferecidas na merenda escolar, enquanto o excedente é distribuído para a comunidade do entorno. Durante o  período de pandemia, em que há um aumento de famílias em situação de vulnerabilidade social, os alimentos colhidos e distribuídos têm sido de grande contribuição para quem recebe. 

Além de conhecer a horta, a atividade também contou com a realização de uma oficina de manejo de solo e aplicação de insumos agrícolas. Facilitada por Letícia Ribeiro, assessora técnica agrícola da AS-PTA e Paulo Monteiro, educador ambiental pela Fundação Angélica Goulart, os dois utilizaram canteiros vazios para apresentar, de maneira prática, técnicas de aplicação e uso da torta de mamona e calcário.

Letícia ressaltou sobre a importância dessa atuação em rede para o território: “O Arranjo Local de Guaratiba recebeu insumos e ferramentas para potencializar seus espaços produtivos:  pás, enxadas, cavadeiras, facões, torta de mamona e calcário agrícola para a melhorar o manejo ecológico e fertilidade do solo. Vimos a necessidade dessa formação para o melhor aproveitamento desse material para o Arranjo como um todo”

E Paulo complementou: “É preciso experimentar as possibilidades de adubação com as matérias orgânicas, e para cobertura do solo usar capim, cascas e bagaço de cana”. 

Todo o procedimento foi realizado respeitando a realidade local: quantidade de aplicação de cada produto, ordem de aplicação, melhor período e tempo de preparo do solo. O conteúdo conversado na oficina será transformado em uma cartilha para uso dos participantes.

Todos e todas saíram do encontro com a programação do próximo encontro definida! A próxima atividade será uma oficina de construção de iscas para abelhas nativas sem ferrão, no espaço Mulheres de Pedra, também em Pedra de Guaratiba.

Fotos: Rudson Amorim 

Realização: Amigos da Horta da Brisa, AS-PTA, Escola Municipal Emma D’Ávila de Camillis, Fundação Angélica Goulart, Mulheres de Pedra e Pastoral da Criança.

O Arranjo Local de Guaratiba compõe um dos seis Arranjos Locais que são animados pela AS-PTA por meio do projeto REDES LOCAIS DE PRODUÇÃO E ABASTECIMENTO ALIMENTAR: FORTALECENDO LAÇOS DE PRODUÇÃO, COMERCIALIZAÇÃO E CONSUMO DE ALIMENTOS SAUDÁVEIS que conta com o apoio da MISEREOR. O projeto prevê potencializar as ações agroecológicas desenvolvidas na região metropolitana do Rio de Janeiro promovendo o fortalecimento local, autonomia e direito à alimentação saudável.

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Inverno fraco de 2021 reforça necessidade de estratégias diversificadas para manter as criações na Borborema paraibana http://aspta.org.br/2021/09/13/inverno-fraco-de-2021-reforca-necessidade-de-estrategias-diversificadas-para-manter-as-criacoes-na-borborema-paraibana/ http://aspta.org.br/2021/09/13/inverno-fraco-de-2021-reforca-necessidade-de-estrategias-diversificadas-para-manter-as-criacoes-na-borborema-paraibana/#respond Mon, 13 Sep 2021 18:23:16 +0000 http://aspta.org.br/?p=18895 Leia mais]]> “Ninguém esperava que 2021 fosse dessa forma. Ao contrário, as pessoas estavam animadas pensando que o ano seria bom”. Essa foi a primeira afirmação de Mateus Manassés na entrevista sobre as perspectivas da criação animal no território da Borborema para este ano. Mateus é um jovem de 25 anos, criador de animais em Queimadas, município bem próximo do Cariri paraibano, uma das regiões com o clima mais seco no estado.

“As primeiras chuvas, em março, encheram os barreiros, que há muito não eram enchidos. No início de abril, todo mundo começa a plantar. Nesse mês, sempre tinha uma chuvada. Em maio, foi mais ou menos, mas deu para sustentar o roçado. Já em junho, época da florada no milho, não houve um pingo de chuva e aí se perdeu a safra.”

Quando a safra não é boa/ Sabiá não entoa/ Não dá milho e feijão/ Na Paraíba, Ceará, nas Alagoas/ Retirantes que passam/ Vão cantando seu rojão, diz um verso da letra de Luiz Gonzaga que cantou muito as agruras de quem dependia só das águas caídas do céu para ter comida no prato e umas pequenas criações de animais.

Mas, diferente da letra do rei do baião, no território da Borborema paraibana, espaço onde se constrói há mais de 20 anos a agroecologia e a convivência com o Semiárido, apesar dos tempos difíceis, as famílias agricultoras têm construído estratégias para resistir.

E, pelo que se sabe das mudanças climáticas que afetam todo o planeta e já provocou o aquecimento médio do planeta em 1,1º C em comparação com a temperatura medida em 1850, período pré-industrial, os fenômenos climáticos extremos, como as secas mais intensas, só tendem a piorar.

Ou seja, a hora é de se munir de estratégias para superar os tempos desafiadores que virão. Lendo os sinais que anunciam as mudanças climáticas no território, o Polo da Borborema e a AS-PTA têm multiplicado a atenção aos sistemas de criação animal, seja trazendo para a região raças de ovinos adaptados à escassez de água e ao alimento disponível no Semiárido, seja cuidando da diversificação das reservas de forragem para os animais e das formas de fazer silagens.

Apesar dos pesares, a família de Mateus, o rapaz que relatou mês a mês as chuvas deste ano, conseguiu juntar uma reserva de duas toneladas de silo de palha dos pés de milho que não frutificaram por falta das chuvas juninas. Numa propriedade de 16 hectares, Mateus, o pai, a mãe e a irmã criam seis vacas e duas novilhas, 16 cabras, 25 ovelhas, além das aves. O silo deste ano não vai ter o reforço nutricional do capim sorgo, cujo plantio se perdeu com a falta de chuvas, igual ao milho.

Antes de abrir os silos, eles estão oferecendo o capim elefante e as palmas plantados na propriedade, além das plantas nativas que nasceram com as chuvas. “Com isso, vamos tentar fazer com que os silos cheguem até dezembro, comenta Mateus, que é biólogo e tem formação técnica em agroecologia.

“A palma é uma das culturas que mais defendo no Semiárido, porque é muito resistente à falta de água”, destaca ele que renovou seu campo de palma com as espécies resistentes à praga da cochonilha de carmim, que dizimou as plantações do todo o Nordeste. Apesar de novas, as palmas plantadas já pegaram e até deram “uma filha”.

Infelizmente, as famílias do território estão órfãs de seus velhos campos de palma que foram atacados e dizimados pela praga. Este ano, cerca 200 famílias receberam raquetes com espécies de palmas resistentes à cochonilha, mas ainda não deu tempo suficiente para que estes novos campos sustentem os animais neste ano, mas hão de servir para os próximos

“Até o momento, poucos sistemas pecuários conseguiram, nestes 10 anos desde a perda da palma comum, constituir uma reserva a ponto de ter condições de usá-la para alimentar os animais”, lamenta Felipe Teodoro, assessor técnico da AS-PTA para o tema de criação animal desde 2008.

As raquetes das palmas resistentes à cochonilha do carmim foram distribuídas às famílias envolvidas no projeto Borborema Agroecológica, que faz parte do projeto regional INNOVA AF, financiado pelo FIDA e executado pelo IICA que busca fortalecer as capacidades das famílias camponesas, por meio da gestão participativa do conhecimento e disseminação de boas práticas para a adaptação às mudanças climáticas.

A diversificação – Enquanto os novos campos de palma se estruturam, o estímulo da Comissão de Criação Animal do Polo é para as famílias diversificarem os cultivos de plantas forrageiras e também das nativas que servem para este fim.

“De acordo com cada região do território da Borborema, temos uma série de iniciativas. Desde o plantio de cactáceas, leguminosas, palmas resistentes à cochonilha, como a construção de um banco de proteínas com a separação de uma área da propriedade destinada exclusivamente à produção de alimentos para os animais, como áreas de milho, capim sorgo e abóbora forrageira”, conta Felipe.

Outra estratégia recomendada é o plantio de mudas de plantas nativas e exóticas para recomposição das matas, utilizando espaços marginais na propriedade, assim como a área do próprio campo de palmas.

E para favorecer o estoque de alimentos, mais seis máquinas ensiladeiras foram adquiridas também através do projeto Borborema Agroecológica, a novidade dessa vez é que esses equipamentos serão geridos diretamente pelas comunidades beneficiadas com o projeto.

“A gente acredita que assim facilitará o processo de armazenamento porque a gestão é mais próxima das famílias. E as demandas conseguem ser atendidas de forma mais rápida”, conta Felipe.

No campo das inovações para dotar as famílias de mais capacidade de resistência, há os sacos para guardar de 30 a 35kg de forragem por cada unidade, o que permite o uso parcelado das reservas feitas. É que quando se abre um silo, é preciso consumi-lo todo num certo tempo para evitar que o material se estrague. Nos sacos, dá para racionar mais este uso e evitar possíveis perdas, a opção de silagem em saco no formato trincheira depende da realidade de cada sistema de criação No território, foram distribuídos 3000 sacos para este fim.

E não dá para falar de criação animal no Semiárido sem destacar a necessidade de adotar as raças adaptadas ao clima cada vez mais extremo. “Sempre quando estamos passando por anos difíceis como esse, a gente vê o quanto a introdução de animais exóticos [na região] os faz sofrer. Cuidar destes animais é muito dispendioso em termos de trabalho, energia, alimentos e uma série de insumos”, comenta o assessor da AS-PTA.

“Esses animais sofrem, morrem, não reproduzem. É um grande erro manter um sistema de raças não adaptadas”, atesta Mateus, que também faz parte da diretoria do Sindicato dos trabalhadores Rurais de Queimadas e acumula várias outras responsabilidades como integrar as Comissões Executivas da Juventude de Queimadas e do Polo, animador os Fundos Rotativos Solidários da ovelha Morada Nova na sua comunidade, fazer parte do Banco Comunitário de Sementes e presidir a Associação Comunitária.

“O pior é que quando vamos pedir financiamento no banco para comprar animal, o próprio banco desacredita nas raças nativas e incentiva a compra das exóticas. O banco nem tem conhecimento das raças nativas. Nos comerciais de TV também é o mesmo processo. Em todos esses meios, há a desvalorização destes animais que são superimportantes para a convivência com o Semiárido”, indigna-se Mateus.

Sinal vermelho – Segundo estimativa da AS-PTA, no território da Borborema, o estoque de forragem animal de 2021 deve ficar na metade dos anos anteriores. “Se nos anos anteriores, também de seca, fizemos mais ou menos 2 mil toneladas que serviram de 180 a 200 famílias, este ano, alcançaremos de mil a 1,3 mil toneladas, beneficiando, no máximo, entre 100 a 120 famílias”, mensura Felipe.

“Desde o início de julho observamos cenas comuns de acontecer no auge da seca, nos meses de novembro e dezembro. As famílias estão usando as plantas de espinhos – mandacaru, xique-xique, coroa de frade, macambira, palma de espinhos – para alimentação dos animais. Imagine como se configurará este cenário quando estivermos em novembro e dezembro? Poucas foram as famílias que conseguiram constituir alguma reserva”, relata o assessor.

Felipe comenta que tem ouvido muitas famílias falarem que vão vender algumas cabeças para evitar um prejuízo maior ao sistema de produção animal a ponto de comprometê-lo integralmente, parecido ao que aconteceu em 2013 com o colapso da pecuária em todo o nordeste. Se as famílias acompanhadas pelo Polo e pela AS-PTA estão falando em diminuição dos rebanhos, imagine a situação daquelas completamente desassistidas de acompanhamento técnico e que não acessam conhecimentos que possibilitam a convivência com o Semiárido?

Nestas ocasiões, se destaca a importância de políticas públicas adequadas para dotar as famílias agricultoras de capacidades de reação ou resistência. Mas, infelizmente, “as políticas públicas que chegam em anos como este ainda são de carácter assistencialista e insuficientes”, sustenta Felipe.

O Polo é um coletivo que agrega 13 sindicatos rurais, mais de 150 associações comunitárias, uma associação regional de agricultores/as familiares, a EcoBorborema, e uma cooperativa com capacidade de atuar em todo o Estado, a CoopBorborema. E a AS-PTA oferece assessoria técnica e apoio aos processos organizativos do Polo.

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Oficina de biodigestor promove o uso de tecnologias sociais nas favelas do entorno da Serra da Misericórdia http://aspta.org.br/2021/09/09/oficina-de-biodigestor-promove-o-uso-de-tecnologias-sociais-nas-favelas-do-entorno-da-serra-da-misericordia/ http://aspta.org.br/2021/09/09/oficina-de-biodigestor-promove-o-uso-de-tecnologias-sociais-nas-favelas-do-entorno-da-serra-da-misericordia/#respond Thu, 09 Sep 2021 21:38:17 +0000 http://aspta.org.br/?p=18887 Leia mais]]> A Pedra do Sapo é uma localidade na favela do Morro da Esperança, no Complexo do Alemão, Zona Norte do município do Rio de Janeiro. Moradores da região reportam o aumento de antigos desafios no contexto da pandemia, sendo a ausência de coleta adequada dos resíduos orgânicos nas ruas e a dificuldade de acesso a serviços essenciais, como compra do botijão de gás, alguns dos problemas mais levantados.

Dona Josefa Santos, moradora há 15 anos da comunidade, passou a ser reconhecida  como ativista comunitária pela vizinhança, por animar ações de melhoria ambiental e estar sempre atenta às dificuldades do entorno. Participante da Verdejar Socioambiental desde 2012, ela vem recebendo apoio e assessoria do Projeto EcoFavela. Este tem a proposta de transformar Soluções Baseadas na Natureza (SbN) em Tecnologias Socioambientais de Baixo Custo, visando fortalecer a capacidade de resistência e adaptação dos moradores de modo que todos possam replicar as técnicas de maneira autônoma em seus territórios. 

Nessa perspectiva e pensando sobre o direito a áreas verdes saudáveis e o acesso a comida de verdade, integrantes do EcoFavela e do Arranjo Local da Serra da Misericórdia – rede territorial formada por coletivos e moradores na qual, de forma autogestionada elaboram estratégias de agricultura urbana ancoradas na base da agroecologia – promoveram no alto do morro, no dia 31 de julho, a oficina de confecção de um biodigestor.

O biodigestor é uma tecnologia socioambiental de baixo custo que permite a transformação da matéria orgânica em biogás – que pode ser utilizado no fogão de cozinha – e no biofertilizante – usado como insumo nas hortas – por meio da digestão anaeróbica (sem oxigênio) feita por microorganismos pelo processo de fermentação. Sobre essa ação Dona Josefa comenta:

Diante do caos que estamos vivendo, da pandemia que nos trouxe tantos problemas, tem muitas pessoas na minha comunidade que não tem mais como pagar um botijão. Até que comecei ver além, pensar em mim e nos outros, muitas vezes até penso mais nos outros do que em mim. A gente que mora em comunidade passa por muita dificuldade, então eu faço um trabalho de conscientização porta a porta. Eu tenho um olhar diferente sobre tudo que se joga fora. Comecei a fazer pesquisas na internet, assistir vídeos e participar de cursos online, e assim que descobri a tecnologia do biodigestor fiz dois protótipos no meu quintal com materiais que eu reaproveitei não deram certo, e então eu comecei a buscar orientação com pessoas da minha rede”.

Mediada  pelos oficineiros Izabela e Vagner do Instituto Socioambiental Reserva da Prata, a formação começou com uma apresentação teórica do funcionamento e contextualização histórica do biodigestor. O processo de instalação durou o dia todo e foi enriquecido pelas  trocas entre os participantes. 

Agricultores urbanos e moradores de favelas no Complexo do Alemão participam da oficina de construção de um biodigestor

O modelo implementado foi uma adaptação do chamado Bio21, que conta com o uso de 3 bombonas ligadas por um sistema de canos de PVC e conexões, sendo duas de 200L usadas como alimentador formando um sistema de êmbolo, e uma de 1000L como reservatório. Para seu manejo é necessário esterco para ativação, resíduos orgânicos e  água.

Conforme os oficineiros mostravam o passo a passo da confecção, Edson Gomes, da Verdejar Socioambiental, indicava a todo tempo alternativas para o uso das ferramentas e equipamentos apresentados por eles, de modo que ficasse claro para os participantes que, mesmo não tendo o equipamento sugerido, isso não seria um impeditivo para a construção. “Na agroecologia e na permacultura não se tem uma receita única e pronta, é a experimentação a partir de nossas próprias vivências, com recursos que estão disponíveis e que sejam compatíveis com a realidade local, que encontramos soluções para nossos desafios” complementa Mariana Portilho, assessora técnica da AS-PTA. 

O legado que fica é a geração própria de gás de cozinha, garantindo autonomia e autossuficiência à comunidade além do benefício ecológico na geração de biofertilizante garantindo a agricultura urbana orgânica sem uso de insumos químicos. Além disso, como forma de gerir resíduos orgânicos sem misturar com recicláveis, ajuda a prevenir a proliferação de doenças e animais indesejados.

A realização dessa ação é uma parceria entre os projetos: EcoFavela, realizada pela Verdejar Socioambiental, Agricultura Urbana e Arranjos em Mercados Locais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro realizada pela AS-PTA com apoio da MISEREOR e Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. 

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Rede de Bancos Comunitários de Sementes do Polo da Borborema elenca estratégias para superar baixa de 50% a 60% nos estoques http://aspta.org.br/2021/09/09/rede-de-bancos-comunitarios-de-sementes-do-polo-da-borborema-elenca-estrategias-para-superar-baixa-de-50-a-60-nos-estoques/ http://aspta.org.br/2021/09/09/rede-de-bancos-comunitarios-de-sementes-do-polo-da-borborema-elenca-estrategias-para-superar-baixa-de-50-a-60-nos-estoques/#respond Thu, 09 Sep 2021 12:11:38 +0000 http://aspta.org.br/?p=18880 Leia mais]]> “Em 2021, poucas comunidades tiveram lucro. Mesmo assim, foi pouco, só para consumo da família ou para guardar para o plantio do próximo ano. E essas comunidades estão na divisa com outros municípios. Até as comunidades que estão mais próximo a Campina Grande, mais para a região agreste, não lucraram”. O lucro que Silvinha se refere não é financeiro, mas de sementes colhidas nos roçados das comunidades de Queimadas, uma das áreas mais áridas do território da Borborema. Silvinha é uma guardiã de sementes bastante comprometida com a articulação não só de sua comunidade Maracajá, mas de todas as outras 12 comunidades que têm Bancos de Sementes Comunitários (BCS) em Queimadas.

Por causa da frustração nos roçados, as famílias envolvidas nos 13 BCS de Queimadas juntaram dinheiro num fundo comunitário e providenciaram a compra de sacas de sementes. “Por estar na rede de bancos de sementes, a gente sabe onde tem sementes, principalmente, em área de assentamento, onde o pessoal planta muito milho. Em Queimadas, alguns representantes de bancos de sementes fizeram bingo, outros usaram recursos dos Fundos Rotativos Solidários para comprar as sementes”, conta Silvinha, cujo nome de batismo é Severina da Silva Pereira.

Apesar da colheita crítica em 2021, não é o primeiro ano que os gestores e gestoras dos BSCs de Queimadas providenciam recursos próprios para reabastecer os seus estoques, principalmente, de feijão e milho. Esta estratégia, aliás, também foi adotada pela Rede de Banco de Sementes do Polo da Borborema para beneficiar o conjunto de bancos de sementes de todos os 13 municípios do território.

Emanoel Dias, da equipe de assessoria técnica da AS-PTA para o tema de sementes, estima que haverá diminuição média de 50% a 60% nos estoques dos 62 bancos de sementes comunitários do território. Segundo ele, 2021 é o 11º ano com chuvas abaixo da média no território. E a precipitação deste ano foi a pior de todos estes anos. “Não tenho informações se antes de 2010 tivemos um problema de desabastecimento tão grande quanto o que estamos passando neste ano”, confessa.

Além da reposição dos estoques a partir da compra de sementes dentro do território – estratégia superimportante porque as sementes já estão adaptadas às condições ambientais da região – a Rede dos BCS elencou outras quatro estratégias:

A primeira é a orientação dada a todos e todas que fazem parte da Rede de armazenar todas as sementes que puderem. A segunda destina-se aos gestores e gestoras dos bancos comunitários: receber qualquer semente como pagamento do empréstimo feito. A regra usual é de receber a mesma semente emprestada. Mas, nesse momento crítico, houve uma grande flexibilização. “Se o agricultor tiver pegado a semente de feijão carioca e tiver colhido o macassar, devolve ao banco o macassar. Se tiver pegado o milho e colhido só a fava, aceita-se a fava como devolução”, explica Emanoel.

A terceira estratégia foi a já citada mobilização emergencial de recursos para comprar sementes de feijão e milho para doação às comunidades mais afetadas pela seca. No caso dos recursos para atender esta demanda em todo o território, a AS-PTA e o Polo da Borborema remanejaram, com o aval das organizações parceiras Pórticus e Misereor, recursos não utilizados nos projetos para investir na aquisição das sementes.

“Começamos o trabalho com o feijão que é colhido primeiro. Já distribuímos cerca de 800 quilogramas de feijão que estavam no Banco Mãe, além das 2,5 toneladas de sementes que compramos dos agricultores/as. Todas estas sementes doadas retornarão ao estoque do banco regional quando tiver colheita. E estamos mapeando quem produziu o milho no território”, comenta Emanoel.

Foram distribuídos, por bancos de sementes, cerca de 100 a 120 quilos de sementes de diversas variedades de feijão. Tem feijão preto, carioca, faveta, rosinha, macassar, ovo de rolinha ou gurgutuba. Cada banco recebe as variedades mais adaptadas à região onde ficam. Os BCS da região de Curimataú, por exemplo, receberam mais o macassar e o carioca.

A quarta estratégia, aliás, está ligada ao cuidado com os estoques de milho, numa situação bem mais crítica que a do feijão. “Ficou definido que vamos comprar o milho no território, fazer os testes de transgenia e armazená-lo no Banco Mãe. Depois, vamos escolher quais bancos de sementes receberão estas sementes com a intenção de bloquear a comunidade do plantio das sementes transgênicas, como fizemos em Casserengue”, continua o agrônomo, acrescentando que esse estoque de milho vai ser importante para o reforço da campanha “Não planto transgênico para não apagar a minha história”, realizada no território desde 2015.

A quinta estratégia é a jornada de testes de transgenia nos milhos colhidos no território, tanto os que serão comprados para doação aos bancos comunitários, quanto os que vão ficar na família que o produziu.

Municípios mais atingidos – Dos 13 municípios incluídos na área de atuação do Polo da Borborema, os que ficam nas faixas mais áridas foram os mais afetados. Nas regiões de Curimataú, estão Casserengue, com 07 BCS e 227 famílias envolvidas, e uma parte do território de Solânea, com 8 bancos e 166 famílias. Em Queimadas, o município de Silvinha, que tem 13 bancos e 245 famílias.

O Polo da Borborema é um coletivo que reúne 13 sindicatos rurais, mais de 150 associações comunitárias, uma associação de atuação regional, a EcoBorborema, e uma cooperativa com capacidade de ação estadual, a CoopBorborema.

Além da estratégia emergencial, o que fazer para ampliar a resiliência das famílias? “O que podemos fazer é fortalecer a dinâmica da rede de bancos de sementes. A rede faz diferença na vida de uma família que produziu pouco. Se estivesse isolada, já tinha pensado em outras estratégias. Como ela está numa rede, sabe que consegue novamente mais material crioulo”, responde Emanoel. Sobre as ‘outras estratégias’ citadas por ele podemos imaginar desde compra de sementes transgênicas no mercado ou uso das sementes não adaptadas à região que são distribuídas pelos governos, ou a migração para outras regiões em busca de alternativas para se ganhar dinheiro.

Para além destas estratégias pensadas, outras estão sendo experimentadas no território como a diversificação dos plantios com culturas mais resistentes à seca como o algodão agroecológico.  “Do algodão, além de vender a pluma, se aproveita a semente e a forragem para a alimentação animal”, comenta ele. Outra cultura “extremamente resistente à seca” é a mandioca que serve tanto para alimentar as famílias, quanto os animais.

Para Emanoel, a intenção por trás de todas as estratégias é de animar a rede de bancos de sementes. “Com a pandemia, estamos chegando a dois anos sem reuniões comunitárias com a intensidade de antes. E, agora, com a baixa nos estoques, pode acontecer uma esfriada na mobilização das famílias. E quando chegar o tempo da chuva, todos querem plantar e então as pessoas saem no mercado para adquirir sementes. E a possibilidade de aumentar a quantidade de milho contaminado com a transgenia é muito grande”, arremata ele citando as consequências a médio prazo trazidos pelo problema do desabastecimento.

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Lideranças do Programa Petrobras Socioambiental (PPSA) conhecem duas comunidades quilombolas que participam do Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta  http://aspta.org.br/2021/08/23/liderancas-do-programa-petrobras-socioambiental-ppsa-conhecem-duas-comunidades-quilombolas-que-participam-do-projeto-sertao-carioca-conectando-cidade-e-floresta/ http://aspta.org.br/2021/08/23/liderancas-do-programa-petrobras-socioambiental-ppsa-conhecem-duas-comunidades-quilombolas-que-participam-do-projeto-sertao-carioca-conectando-cidade-e-floresta/#respond Mon, 23 Aug 2021 16:30:17 +0000 http://aspta.org.br/?p=18870 Leia mais]]> O encontro ocorreu numa sexta-feira, 06 de agosto, e contou com uma equipe multidisciplinar que visitou as ações de conservação, agroecologia e turismo de base comunitária que ocorrem no Quilombo Cafundá Astrogilda e no Quilombo do Camorim, localizados no Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB) 

 

Sandro Santos do Quilombo Cafundá Astrogilda narra as histórias e memórias da comunidade para as lideranças do Programa Petrobras Socioambiental

Fazia frio no início da manhã da sexta-feira, dia 06 de agosto, quando chegamos na trilha que percorre os caminhos do Quilombo de Vargem Grande como também é conhecido o Quilombo Cafundá Astrogilda. 

Quando as equipes da Petrobras e do projeto chegaram por lá, Sandro Santos, liderança comunitária do quilombo e agente comunitário do projeto, já estava nos aguardando. Sandro apresentou as atividades através da Ação Griot, a iniciativa de educação ambiental e Turismo de Base Comunitária criada e gerida pela comunidade há sete anos, e que é apoiada pelo projeto

À medida que percorremos a trilha, ele também narrou o processo de ocupação do território da zona oeste, destacou os conflitos socioambientais relacionados à implantação do PEPB,  e enfatizou o papel da comunidade agricultora e quilombola do Cafundá Astrogilda para a conservação da floresta. 

Através da narrativa de Sandro, herança do conhecimento ancestral que aprendeu com sua família através do engajamento político e social em sua comunidade, os técnicos da Petrobras  puderam conhecer a ideia central que orienta as ações do nosso projeto: o fortalecimento das práticas e dos conhecimentos tradicionais das comunidades quilombolas amplia e possibilita um manejo sustentável da floresta, contribui com a conservação da biodiversidade e gera serviços ecossistêmicos relevantes para a cidade, tais como, estocagem de carbono no solo, produção de alimentos e regulação hídrica e  climática.

Para Edson Cunha, que atua na área de relacionamento comunitário da Gerência de Responsabilidade Social da Petrobras, “Essa vertente, que articula agroecologia,  turismo de base comunitária e culturas tradicionais, pode até ser vista como uma inovação para pensarmos a questão socioambiental. A possibilidade de você apresentar a realidade de um quilombo que fica em uma unidade de conservação através de um circuito cultural permite conhecer uma realidade diferente da que vemos através de outros meios de comunicação.”, destacou Edson, que também é geólogo. 

Ele comentou que a visita das lideranças tem o objetivo de conhecer essas ações e, deste modo, planejar oportunidades de integração com outras iniciativas e territórios que também são apoiados pelo PPSA.

 

Márcio Mendonça e Ingrid Pena, do Projeto Sertão Carioca, e Marcos Monteiro, fiscal de contrato da Petrobras que acompanha nosso projeto

Marcio Mendonça, coordenador do Programa de Agricultura Urbana da AS-PTA e supervisor metodológico do projeto, relembrou o aspecto participativo e ativo das comunidades na organização das ações, destacando que, desde o início, essa tem sido a premissa de trabalho. Para ele “uma das grandes forças desse projeto é a participação das comunidades desde a sua elaboração. Por isso, os saberes e fazeres das comunidades são valorizados e fortalecidos.”

 

Para Amanda Borges, consultora e analista da gerência de Projetos Ambientais, estar na atividade foi muito importante, pois permitiu ver como esse tipo de metodologia pode ter um resultado que é esperado no âmbito dos indicadores de clima, mas também está ligado a outros tipos de benefícios sociais e ambientais. 

“Esse tipo de iniciativa traz benefícios para a conservação ambiental e também para as pessoas que participam das ações, seja ampliando a possibilidade de segurança alimentar, seja permitindo a manutenção e divulgação dos seus conhecimentos tradicionais.”, destacou Amanda, que também é bióloga.

Ingrid Pena, coordenadora geral do projeto, contextualizou as ações demonstrando o vínculo entre as estratégias de uso e manejo sustentável da biodiversidade e a valorização dos saberes tradicionais associados. Ela relembrou que as pesquisas desenvolvidas no âmbito do projeto, debatidas através da Comissão de Pesquisa, têm um papel importante para evidenciar como as práticas culturais de manejo da terra e de uso racional dos recursos podem impactar positivamente na conservação da floresta e no atendimento a demandas sociais.  

“Estamos atentos tanto ao monitoramento de funções ecológicas das florestas e de unidades de produção, quanto à importância do fortalecimento da memória coletiva como ferramenta de resgate de saberes tradicionais que envolvem alimentação saudável, práticas religiosas e possibilidades de geração de renda através, por exemplo, do turismo de base comunitária e da comercialização de produtos agroecológicos. Destacou Ingrid Pena, coordenadora geral do projeto. 

Na parte da tarde, fomos à comunidade quilombola do Camorim onde fomos recebidos pelas lideranças da Associação Cultural Quilombo do Camorim (ACUQCA).  Lá, Adilson Almeida narrou o processo que permitiu à comunidade ser reconhecida pela Fundação Palmares, em 2014, como área de remanescentes de negros escravizados e, em 2018, teve uma área identificada como Sítio Arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artsítico (IPHAN).

O local, que está na área de amortecimento do PEPB e está próximo à um dos principais acessos ao parque, tem sofrido com especulação imobiliária e devastação de áreas verdes, a partir de um processo que configura-se como racismo ambiental. 

 

Ingrid Pena explica como as pesquisas ambientais desenvolvidas no âmbito do projeto podem contribuir para o fortalecimento das iniciativas comunitárias

Adilson Almeida destacou que o processo de resistência da comunidade perpassa o fortalecimento da memória dos seus antepassados e da ancestralidade. Ele relatou que a ACUQCA tem buscado fortalecer essa perspectiva, promovendo um conjunto de ações de educação ambiental, fortalecimento cultural e  combate ao racismo.

Junto com a ACUQCA, a equipe da Petrobras refletiu sobre o tema do racismo, enfatizando a importância de ações que fortaleçam a promoção da igualdade étnico-racial.  Após a exposição de Adilson, Caroline Leão, da gerência do PPSA, destacou que o programa estimula – tanto na carteira ambiental quanto na social – ações e temas que fortalecem as ações de luta contra o racismo.

“Vejo que, nesse projeto, uma das potencialidades está em poder trabalhar o tema da preservação ambiental no contexto das comunidades tradicionais  quilombolas, comunidades que resistem e lutam historicamente contra o racismo. É olhando para a história dessas comunidades que poderemos avançar na discussão racial e, desse modo, contribuir com a superação da marca racista na nossa conformação social. Vejo que uma das contribuições que podemos dar é difundir suas narrativas e ações, e assim contribuir com uma comunicação que permita pautar o debate na sociedade

Na comunidade, através do projeto Sertão Carioca, estamos realizando oficinas de Cartografia Social Participativa, um método que promove e facilita processos de planejamento e gestão do território da comunidade. Ao final, serão impressos fascículos contendo informações que buscam apoiar a capacidade de inserção da comunidade no diálogo sobre políticas públicas e governança.

 

Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta

O projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta tem como objetivo contribuir para a conservação dos recursos naturais da floresta urbana do Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB) e suas áreas de amortecimento, com base em estratégias de uso e manejo sustentável da biodiversidade que valorizem os saberes tradicionais associados.

Ele é realizado pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia em parceria com associações quilombolas que ficam no Parque Estadual da Pedra Branca, e outras parcerias comunitárias e institucionais, como associações de agricultores e universidades. Tem o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

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http://aspta.org.br/2021/08/23/liderancas-do-programa-petrobras-socioambiental-ppsa-conhecem-duas-comunidades-quilombolas-que-participam-do-projeto-sertao-carioca-conectando-cidade-e-floresta/feed/ 0
Carbono no solo em agroecossistemas familiares: Treinamento com estagiários do Projeto Sertão Carioca no Quilombo Cafundá Astrogilda http://aspta.org.br/2021/08/23/carbono-no-solo-em-agroecossistemas-familiares-treinamento-com-estagiarios-do-projeto-sertao-carioca-no-quilombo-cafunda-astrogilda/ http://aspta.org.br/2021/08/23/carbono-no-solo-em-agroecossistemas-familiares-treinamento-com-estagiarios-do-projeto-sertao-carioca-no-quilombo-cafunda-astrogilda/#respond Mon, 23 Aug 2021 16:14:42 +0000 http://aspta.org.br/?p=18866 Leia mais]]> O treinamento, realizado no dia 23  de junho, visou a capacitação de jovens para a coleta de amostras de solo em sistemas agroflorestais em Vargem Grande, zona oeste do Rio de Janeiro. Com a análise, será possível verificar a densidade de carbono, possibilitando estimar a quantidade de carbono estocado no solo.  

Fabiano Balieiro, pesquisador da Embrapa Solos, ensina técnicas de coleta de amostragem do solo para os estagiários do Projeto. Foto: Acervo Projeto Sertão Carioca.

Fabiano Balieiro, pesquisador da Embrapa Solos, ensina técnicas de coleta de amostragem do solo para os estagiários do Projeto. Foto: Acervo Projeto Sertão Carioca.

O treinamento foi realizado por Fabiano Balieiro, pesquisador da Embrapa Solos. Participaram do treinamento os estagiários Michel Cole, estudante de engenharia agrícola ambiental, e Adilson Mesquita Junior, estudante de licenciatura em educação no campo. As amostras de solo que serão coletadas em alguns SAFs do Quilombo Cafundá Astrogilda  serão encaminhadas para o laboratório a fim de determinar a fertilidade do solo e a densidade e estabilidade do carbono no solo. 

Os estagiários deverão colaborar no dimensionamento das áreas dos sistemas agroflorestais escolhidos, e coletar dados relacionados à idade dos SAFs a partir de consulta com os moradores da região. Em seguida, será realizada a tradagem, um tipo de coleta de amostragens. Esta análise permitirá verificar a quantidade de carbono estocado em relação às outras unidades de produção e em relação a trechos de floresta. 

Em um segundo momento, será feito o estudo da biomassa florestal e da biomassa aérea. Neste primeiro treinamento, Fabiano já iniciou a conversa sobre o componente arbóreo, e como é possível medi-lo. Para esta etapa da pesquisa, serão necessários coletores de serrapilheira.  

Fabiano Balieiro orienta estagiários sobre o planejamento de coleta de dados da região. Foto: Acervo Sertão Carioca.

Fabiano Balieiro orienta estagiários sobre o planejamento de coleta de dados da região. Foto: Acervo Sertão Carioca

O perfil dos solos do quilombo será obtido com os dados prontos. Entender quais espécies de cultivo se adequam melhor em cada canto do território é um ganho obtido com esta pesquisa. Michel Cole acrescenta: “A pesquisa nos permite descobrir os níveis de potássio, alumínio e outros componentes do solo. Vamos saber se o solo está pobre ou rico, o que podemos fazer com isso e o que queremos plantar”. O levantamento dos dados é fundamental para o planejamento dos SAFs.

O treinamento para a pesquisa de  carbono no solo em agroecossistemas familiares  no âmbito do Projeto Sertão Carioca está em consonância  com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS). Com a promoção da agricultura familiar e urbana, avançamos para a fome zero e agricultura sustentável (ODS 2), incentivamos o desenvolvimento de cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11) e o consumo e produção sustentáveis (ODS 12), além de combatermos a mudança global do clima (ODS 13).

O Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta, realizado pela AS-PTA em parceria com as comunidades quilombolas do Quilombo Dona Bilina, Cafundá Astrogilda e Quilombo do Camorim. Tem o patrocínio da Petrobrás, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

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