AS-PTA http://aspta.org.br Fri, 15 Jan 2021 15:17:43 +0000 pt-BR hourly 1 Programa de Agricultura Urbana e lideranças territoriais dão início às atividades do Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta http://aspta.org.br/2021/01/15/programa-de-agricultura-urbana-e-liderancas-territoriais-dao-inicio-as-atividades-do-projeto-sertao-carioca-conectando-cidade-e-floresta/ http://aspta.org.br/2021/01/15/programa-de-agricultura-urbana-e-liderancas-territoriais-dao-inicio-as-atividades-do-projeto-sertao-carioca-conectando-cidade-e-floresta/#respond Fri, 15 Jan 2021 15:15:14 +0000 http://aspta.org.br/?p=18486 Leia mais]]> O lançamento oficial do projeto, realizado com patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, ocorreu pela plataforma zoom e reuniu quilombolas do Maciço da Pedra Branca, famílias agricultoras urbanas, gestores e pesquisadores de instituições locais

Foram muitas idas e vindas ao Maciço da Pedra Branca para construir coletivamente o projeto. Reuniões no Quilombo de Dona Bilina, caminhadas no Quilombo Cafundá Astrogilda, visitas ao Sítio arqueológico do Quilombo do Camorim, reuniões às segundas-feiras na Agroprata, e tantas prosas no Bar Tô na Boa, da Gisele de Vargem Grande. O motivo de tantos encontros? Idealizar um plano de trabalho que conseguisse expressar as demandas locais, e ao mesmo tempo, fortalecer as ações territoriais já existentes nas comunidades participantes.

Marcio Mattos, coordenador do Programa de Agricultura Urbana da AS-PTA, relembrou que, desde o início, o processo de construção coletiva teve como desafio “colocar as ações para fortalecer a agricultura urbana e os processos de organização protagonizados pelos moradores que já ocorrem, há muito tempo, nos territórios quilombolas”.

Responsáveis por preservar o ecossistema de floresta por meio de práticas tradicionais de conhecimento e manejo do solo, agricultoras e agricultores urbanos dos Quilombos do Camorim, Quilombo Dona Bilina e Quilombo Cafundá Astrogilda são os participantes prioritários da ação. A eles, somam-se agricultores(as) de 8 feiras ligadas à Rede Carioca de Agricultura Urbana, que participarão de atividades e formações, ao longo dos próximos 2 anos. São cerca de 400 pessoas atuando diretamente, e cerca de 3000 participantes eventuais.

Reunião realizada no Quilombo Cafundá Astrogilda para construção do projeto, Out./2018.

Mulheres e crianças serão envolvidas nas atividades, que buscarão fortalecer ainda mais as experiências produtivas e a geração de renda das famílias agricultoras urbanas e quilombolas da região.

Ingrid Pena, coordenadora geral do projeto, destaca que, para que tudo isso ocorra, é necessário reforçar os vínculos e as metodologias de participação e educação popular. “Para essa conexão acontecer é necessário o reconhecimento do diálogo e das estratégias de participação comunitária.  Nosso projeto pressupõe a atuação direta dos públicos envolvidos, como a participação de agentes comunitários moradores dos territórios quilombolas. Estamos à disposição para conversar, tirar dúvidas e acolher sugestões para que a gente caminhe, ao longo desses 2 anos, da melhor forma possível” destacou Ingrid.

Para isso, a gestão ocorre de maneira descentralizada por meio da integração dos parceiros em comissões e coletivos, que, articulados em rede, realizarão um conjunto de ações vinculadas a três eixos de trabalho: sociocultural, ambiental e econômico.

A implantação de um laboratório didático vivo, a realização de cartografia social participativa, a implantação e suporte técnico de 30 unidades agroflorestais e hortas comunitárias, apoio à organização do acervo histórico-cultural para a constituição de um ecomuseu, apoio no desenvolvimento do turismo de base comunitária, e estruturação de uma linha de produtos da sociobiodiversidade são algumas das principais ações do projeto.

Além da promoção do desenvolvimento territorial, essas ações são base para estratégias de conservação, uso e manejo sustentável dos recursos naturais da floresta do Parque Estadual da Pedra Branca e suas áreas de amortecimento, a partir de uma perspectiva que valoriza os saberes tradicionais locais associados à biodiversidade.

Sandro da Silva Santos, do Quilombo Cafundá Astrogilda, reafirmou sua participação no projeto Sertão Carioca e reforçou que, em 2021, tem muito trabalho para ser feito. Ele nos lembrou que é preciso considerar a diversidade existente no território de atuação, fato que impõe desafios que precisarão ser superados. “Vamos atuar em um lugar que é como uma colcha de retalhos de várias realidades. Mas, vai dar para fazermos um trabalho bem legal”, comentou a liderança comunitária.

Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta

O Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta é realizado pelo Programa de Agricultura Urbana da AS-PTA e tem o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Está sendo executado em colaboração com uma rede de parceiros: organizações da agricultura familiar, grupos de mulheres e jovens, instituições universitárias e de pesquisa, além de organismos públicos vinculados a dinâmicas de desenvolvimento local.

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Programa de Agricultura Urbana e parceiros realizam encontro de final de ano http://aspta.org.br/2021/01/15/programa-de-agricultura-urbana-e-parceiros-realizam-encontro-de-final-de-ano/ http://aspta.org.br/2021/01/15/programa-de-agricultura-urbana-e-parceiros-realizam-encontro-de-final-de-ano/#respond Fri, 15 Jan 2021 13:58:41 +0000 http://aspta.org.br/?p=18479 Leia mais]]> No dia 21 de dezembro de 2020,  cerca de 60 pessoas se reuniram para refletir sobre o ano que passou e projetar sonhos para o novo ano que chega. Como não poderia ser diferente, o foco central do encontro foi o destaque das experiências de resistência e solidariedade construídas neste cenário de pandemia.

Pela primeira vez, em mais de 20 anos, o tradicional encontro de final de ano do Programa de Agricultura Urbana da AS-PTA e parceiros no Rio de Janeiro aconteceu de forma remota. Mas isso não foi impeditivo para que os participantes trouxessem seus sorrisos e para que pudéssemos sentir o calor do abraço.

 

Além da equipe da AS-PTA, também participaram representantes da Embrapa, da Fiocruz, da Petrobras, do Verdejar, Mulheres de Pedra, do Centro de Integração da Serra da Misericórdia, da Fundação Angélica Goulart e, é claro, agricultoras e agricultores que produzem comida de verdade em diferentes localidades da cidade.

Na roda de conversa, dialogamos e refletimos acerca da importância fundamental da articulação e da formação de redes da agricultura urbana para o enfrentamento das consequências da crise da pandemia, entre elas o aumento da fome.

Sobre essa iniciativa, Evelyn, do Arranjo Local da Penha, retomou a experiência da distribuição das cestas agroecológicas solidárias que foi desenvolvida como estratégia no início da pandemia e que se consolidou durante todo o ano de 2020. Para a liderança territorial, a articulação: “possibilitou que a gente conhecesse pessoas do território que ainda não conhecia, ampliou as redes de troca. Foi uma mobilização social muito importante que surgiu em torno do alimento”.

Ainda sobre essa ação, Lucas, da organização comunitária Verdejar Socioambiental, destacou que o trabalho foi uma vitória, pois permitiu levar comida de verdade para as famílias que estavam em situação de insegurança alimentar. “Eu sempre quis que as pessoas da comunidade conhecessem os alimentos agroecológicos. Com essa ação, a gente abrangeu diversas partes do Rio de Janeiro. Levamos alimento nesses tempos difíceis.” afirmou o jovem que também compõe o Coletivo de Juventude da Rede Carioca de Agricultura Urbana.

Outro desafio enfrentado pelos produtores durante a pandemia foi a extinção do Conselho Gestor do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas e a anulação do seu regimento interno. Bernardete, integrante da Rede Carioca de Agricultura Urbana, conta que “em um contexto de crise, quando as feiras são suspensas, ficamos em um impasse, sem saber qual seria a forma de sobrevivência. Mas, conseguimos nos organizar e tornamos nossa reação uma ação.”

A ação foi criar uma nova modalidade de mercado reafirmando estratégias de comercialização e conquistando novos espaços. “O que fizemos surpreendeu os gestores, foi criada uma coesão de maneira muito espontânea freando o processo de avanço do conservadorismo. Também demonstrou que os espaços de venda direta são um importante espaço de encontro.” concluiu Cristina, da ABIO

Ainda durante o encontro, foi feito o lançamento do Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta , patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Para finalizar o encontro, nada melhor que uma boa prosa, falando sobre os alimentos que abasteceram nossas mesas na época de pandemia.

Para isso realizamos a dinâmica da partilha dos Produtos da Gente, e cada participante mostrou sua cesta que continha Café, Arroz, feijão, e um delicioso pote de doce de leite! Todos da Feira Cicero Guedes, da Reforma Agrária, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

 

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Seminário de final de ano reúne parceiros e parceiras do Programa de Agricultura Urbana http://aspta.org.br/2020/12/17/seminario-de-final-de-ano-reune-parceiros-e-parceiras-do-programa-de-agricultura-urbana/ http://aspta.org.br/2020/12/17/seminario-de-final-de-ano-reune-parceiros-e-parceiras-do-programa-de-agricultura-urbana/#respond Thu, 17 Dec 2020 14:01:52 +0000 http://aspta.org.br/?p=18472 Leia mais]]> Na próxima segunda, 21 de dezembro, às 16h, horas ocorre mais uma tradicional confraternização de fim de ano promovida pelo programa de Agricultura Urbana. Por conta da pandemia, o encontro será realizado de forma virtual na plataforma zoom.

Famílias agricultoras urbanas, lideranças comunitárias, quilombolas, juventude, mulheres e assessores técnicos de diferentes localidades do município e região metropolitana do Rio de Janeiro participarão de uma roda aberta para troca, reflexão e planejamento de sonhos e futuros para o ano de 2021

Na programação teremos também intervenção cultural com a Juventude Agroecológica da Rede Carioca de Agricultura Urbana, apresentação dos destaques do ano por representantes dos territórios e exibição de vídeos que relatam as vivências e enfrentamentos do abastecimento alimentar na época da Covid-19.

É tempo de colheita!

Também realizaremos o lançamento do Projeto Sertão Carioca Conectando Cidade e Floresta, realizado com o patrocínio da Petrobras, por meio do programa Petrobras Socioambiental.

Idealizado junto às comunidades quilombolas e famílias agricultoras do entorno do Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), a iniciativa é fruto de um longo ciclo de escuta e conexão com os territórios participantes. O objetivo da ação é fortalecer o força popular e promover a integração produtiva e sociocultural de famílias agricultoras urbanas, por meio de ações de preservação ambiental em biomas de floresta.

O projeto abrange cerca de 400 pessoas dos territórios do Quilombo do Camorim, Quilombo de Dona Bilina, Quilombo Cafundá Astrogilda, da Comunidade Bosque dos Caboclos, da Colônia Juliano Moreira e do Jardim Sulacap, além de 7 feiras ligadas à Rede Carioca de Agricultura Urbana. Comunidades tradicionais, mulheres e crianças da primeira infância são públicos prioritários da ação, que ocorre em parceria com as lideranças e organizações territoriais.

Vamos celebrar a chegada do Verão com esse grande encontro, esquentando nossos corações e refrescando nossas ideias.

 

O quê: Seminário Anual de Parceiras e Parceiros da AS-PTA
Quando: 21 de dezembro, às 16h pela plataforma zoom
Quer participar e não sabe como? Entre em contato.

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Jovens da Borborema estão encontrando caminhos para permanecer no meio rural por meio da apicultura http://aspta.org.br/2020/12/15/jovens-da-borborema-estao-encontrando-caminhos-para-permanecer-no-meio-rural-por-meio-da-apicultura/ http://aspta.org.br/2020/12/15/jovens-da-borborema-estao-encontrando-caminhos-para-permanecer-no-meio-rural-por-meio-da-apicultura/#respond Tue, 15 Dec 2020 21:01:01 +0000 http://aspta.org.br/?p=18464 Leia mais]]> Apesar do 8º ano de seca que diminui a produção de mel, criação de abelhas atrai interesse das juventudes e rede de apicultores/as do Polo aumenta de tamanho em plena pandemia

Terceira filha de dona Rosália Benedita da Silva e seu Itamir Machado da Silva, Marcelânia é a única que segue morando com os pais na comunidade rural de Serra Alta, em Queimadas, no território da Borborema. Os irmãos migraram para o Rio Janeiro perto dos 18 anos. “Sair do campo só se não tiver oportunidade de emprego”, sustenta Marcelânia que está fazendo atualmente a terceira graduação à distância. Já se formou em Pedagogia por uma faculdade particular sediada no Rio Grande do Sul e agora leva adiante os cursos de Recursos Humanos e Administração pela Uninassau.

Marcelânia não só resistiu ao movimento feito pelos seus irmãos, como se mantém na região desenvolvendo uma atividade que gera renda e tem sido uma alternativa para a permanência de muitos outros jovens: a apicultura. Há 11 anos, Marcelânia se dedica à arte de criar abelhas para extrair o mel para autoconsumo e venda. Um ofício que aprendeu com o pai e praticava de forma muito artesanal, como ela mesma costuma definir por não usarem equipamentos adequados para a criação e improvisarem na mata as colmeias de pedras.

Em 2015, entrou no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rural de seu município, desconstruiu a imagem de que a instituição só é para pagar benefício. “Hoje eu sei que os sindicatos dão continuidade a uma luta que vem de antes. A luta das mulheres, da juventude”, reconhece ela, comentando que através deles muita gente consegue enxergar e perceber o valor que tem a produção agroecológica. “Não é só cuidar da natureza. Há um valor muito grande por trás de tudo isso”.

Hoje com 26 anos, Marcelânia não faz parte só do Sindicato de Queimadas, no qual é uma das diretoras, ela também integra a Comissão de Juventude e a Rede de Apicultores e Apicultoras do Polo da Borborema e é uma das gestoras do Fundo Rotativo Solidário para estimular a atividade de apicultura no território junto aos jovens. O Polo da Borborema é uma rede territorial de sindicatos rurais de 13 municípios, mais de 150 associações comunitárias e uma associação de produtores agroecológicos, a EcoBorborema.

Antes de se inserir nos espaços da juventude, Marcelânia achava que era a única jovem mulher que trabalhava na agricultura com os pais na sua região. Isso porque era o que costumava ouvir do tratorista que o pai contratava. “Uma das primeiras coisas que percebi ao entrar no Polo foi que não estava só eu. Tinha outros jovens nos outros municípios. Jovens e mulheres.”

Em novembro passado, Marcelânia e seus pais receberam na sua propriedade uma visita com 12 jovens de Solânea, Remígio, Montadas, Areial e Lagoa Seca. No mesmo mês, outro grupo de oito jovens conheceram o trabalho de um casal de jovens apicultores de Esperança, um dos 13 municípios que integra o Polo.

As visitas são uma das atividades organizadas pela Comissão de Cultivos Agroflorestais, que integra as Redes de Viveiristas e Apicultores, e foram realizadas para proporcionar a troca de conhecimento e para ampliar as inovações desenvolvidas para a criação de abelhas africanizadas e as sem ferrão no território. Segundo Marcelânia, a maioria dos jovens que foram para sua propriedade estava começando a criar abelhas.

“Nos últimos seis meses, entraram mais jovens [na rede] que trabalhavam de forma artesanal com sua família, criando abelhas na mata”, atesta ela. A rede de apicultores, que começou com 10 jovens, tem hoje 26 integrantes. Pela grande procura de mel no mercado, a apicultura é uma atividade que tem atraído a atenção dos mais jovens, que não dispõem de terra para plantar e criar seus animais, uma vez que as propriedades dos seus pais são bem pequenas. Em média, as propriedades no território da Borborema têm 3,5 hectares.

Para estimular ainda mais a apicultura entre os jovens, a AS-PTA e o Polo da Borborema, com apoio de instituições como a terre des hommes schweiz, a Porticus, a Fundação Laudes e o Projeto Innova-AF, desenvolvem ações para apoiar quem se interessa pelo ofício. Os recursos direcionados para estas ações possibilitam a realização de oficinas, intercâmbios e compras de equipamentos para fortalecer o Fundo Rotativo Solidário de Apicultura e dar suporte ao manejo das abelhas.

“Com a parceria dos projetos, além do conhecimento, recebemos kits completos com macacão, luva, bota, formão – para ajudar a abrir a caixa onde estão as abelhas – caixas, tela, fumigador, garfo desoperculador. A gente já recebeu várias vezes. Na segunda e terceira remessas, beneficiamos novos jovens que fomos incluindo nas atividades”, conta Marcelânia.

Como a necessidade pelos equipamentos sempre existe mesmo por quem um dia já ganhou, os jovens da rede resolveram criar um Fundo Rotativo Solidário (FRS). “Primeiro, a gente sentiu necessidade porque os projetos têm período de acabar e quando a gente precisar de macacão vai sair de onde?”, conta Marcelânia, acrescentando que cada jovem contribui com R$ 5 por mês e que, quando surge a necessidade, a comissão do FRS se reúne para decidir como atendê-la.

E quando a demanda é maior do que o recurso levantado? “Digamos que tem no fundo o valor de um macacão e tem duas ou três pessoas precisando. A gente compra o macacão e faz rodízio dele. Isso é bem possível por não mexemos com a apicultura todos os dias.”

Como começou – Este trabalho mais estruturado com os jovens, alguns deles egressos do projeto Ciranda da Borborema voltado para crianças e adolescentes, teve suas sementes lançadas ao solo em 2010. Eles foram se aproximando dos viveiros municipais e, junto aos adultos, faziam mudas para serem plantadas nas comunidades. Muitos deles se envolveram também nas brigadas para a coleta de sementes para a produção das mudas. Várias destas sementes eram de espécies nativas e a coleta se dava nas matinhas próximas das propriedades.

“Esta era uma ação da Rede de Viveiros Comunitários e Municipais articulados pelos adultos. Foi quando os jovens sentiram a necessidade de produzir suas próprias mudas”, lembra Cleibson dos Santos Silva, um dos três assessores técnico do Núcleo de Agrobiodiversidade e Juventude da AS-PTA. “Hoje, o trabalho que os jovens e os adultos desenvolvem com a agrobiodiversidade não está separado. Todo o processo de experimentação e formação envolve ambos”, comenta Cleibson.

Se em 2010, os jovens assumiram o papel de coletores de sementes, em 2012, formaram a Rede de Viveiristas do Polo da Borborema, que são aqueles que cultivam as sementes para que gerem mudas. E, em 2013, se formou a rede de Jovens Apicultores/as. Num impulso e rapidez característicos desta fase da vida.

Também em 2013, Cleibson lembra que a publicação de uma cartilha aguçou nos/as jovens interessados/as na apicultura o olhar para além das abelhas. Foi uma cartilha feita a partir da pesquisa das árvores de cada município do Polo cujas flores atraem as abelhas. “Os jovens passaram mais a observar as abelhas com as árvores”, destaca Cleibson, contando que o comportamento da floração se diferencia muito em cada ambiente presente no território. “No Brejo, a florada se estende por um período mais longo. Já em Curimataú, a florada é mais passageira”, explica.

Interessante dizer que os jovens que criam abelhas também, em geral, produzem as mudas. Na agricultura familiar e na convivência com o Semiárido, a diversificação das atividades é uma das questões básicas que permitem o enfrentamento das condições adversas.

Sonho que se sonha grande – Na conversa com Marcelânia, ela deixa escapar um desejo de um dia ampliar e estruturar a produção de mel na região, mas logo em seguida enumera as pedras que há no meio do caminho.

“A nossa produção ainda é artesanal porque não temos um espaço ideal, dentro das normas, com cerâmica, pia de mármore… para fazer a extração do mel, embalar e vender para grandes mercados. A gente também não tem o selo que é necessário para isto. Tem outra dificuldade que é o transporte, que muitos produtores não têm. Precisamos de caminhão baú porque o mel cheira e a abelha vem em cima. Visitei no Rio Grande do Norte uma cooperativa que vendia mel por quilo. Tinha muitos produtores e uma grande produção de mel. Na Borborema, especialmente na região do Agreste e Cariri, a seca se prolonga. Há mais de dez anos, eu e meu pai extraíamos mel quatro vezes por ano. Hoje, conseguimos duas vezes por ano.”

Apesar de tudo isto, Marcelânia vislumbra no trabalho conjunto com a rede de viveiristas uma boa oportunidade para superar as dificuldades. Ela destaca que a importância disto tudo não se deve só ao ganho financeiro, mas também ao papel fundamental destas polinizadoras e à sensibilização que esta ação pode gerar. “Para ter abelhas, é preciso manter a matinha na propriedade, não posso desmatar tudo”, dispara a jovem o olhar de quem vê a longo prazo e sonha grande.

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Projeto gera renda e garante alimentação saudável para mais de 3 mil agricultores no Paraná http://aspta.org.br/2020/12/11/projeto-gera-renda-e-garante-alimentacao-saudavel-para-mais-de-3-mil-agricultores-no-parana/ http://aspta.org.br/2020/12/11/projeto-gera-renda-e-garante-alimentacao-saudavel-para-mais-de-3-mil-agricultores-no-parana/#respond Fri, 11 Dec 2020 17:48:28 +0000 http://aspta.org.br/?p=18455 Leia mais]]> Iniciativa que busca combater a insegurança alimentar durante pandemia já distribuiu mais de 30 toneladas de sementes crioulas para agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais de 150 municípios

Compra e distribuição de sementes crioulas – que é qualquer espécie vegetal e animal que não possui restrição de multiplicação. Este é o eixo principal do Projeto Emergencial de Conservação e Multiplicação da Agrobiodiversidade realizado no Paraná, desde agosto deste ano. As ações  já atenderam cerca de 3 mil famílias agricultoras de terras indígenas, quilombolas, assentados e acampados da reforma agrária, sindicatos de trabalhadores rurais, cooperativas da agricultura, guardiões e guardiãs das sementes, de mais de 150 municípios de todas as regiões do Estado.

Em duas etapas de distribuição das sementes já realizadas, a rede de 100 famílias guardiãs forneceram cerca de 30 toneladas de grãos de 69 variedades, 40 mil mudas de mandioca de 9 variedades, 50 mil mudas de batata salsa, além de aproximadamente 16 mil pacotes de 135 variedades de sementes de hortaliças. Com isso, até o momento, foram atendidas 30 comunidades quilombolas, 10 comunidades faxinalenses, 25 terras indígenas, 18 comunidades caiçaras, 8 assentamentos e 3 acampamentos da reforma agrária, 85 comunidades de 10 municípios ligadas ao Grupo Coletivo Triunfo e 6 cooperativas da agricultura familiar.

O projeto, construído coletivamente pelas organizações que compõem a Rede Sementes da Agroecologia (ReSA), com apoio do Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR), nasceu durante a pandemia de Covid-19, após o cancelamento de aproximadamente 30 feiras e festas de sementes crioulas que seriam realizadas em toda a região sul do País para difundir e trocar experiências sobre agrobiodiversidade, agricultura familiar e alimentação saudável. A não realização desses eventos atingiu diretamente a aquisição de sementes e a renda das famílias guardiãs – pessoas que têm uma relação profunda de respeito e convívio com a natureza.

André Jantara, integrante da ReSA, explica que com a pandemia de Covid-19 houve uma preocupação muito grande com as famílias guardiãs, e como a ReSA poderia contribuir na manutenção da renda, produção de alimentos e preservação da agrobiodiversidade. “Ficamos muito preocupados em como nós, enquanto Rede, poderíamos estar contribuindo na disseminação dessas sementes que foram multiplicadas pelos agricultores, porque a feira é um espaço de troca e comercialização, uma forma de geração de renda para essas famílias guardiãs das sementes”.

Em um período de profundos cortes de orçamento para políticas públicas de incentivo à produção e venda de alimentos da agricultura familiar feitos pelo Governo Federal, o aumento acentuado da pobreza resultando na falta de condições para adquirir alimentos e a liberação desenfreada de agrotóxicos para as lavouras, Jantara destaca que o projeto precisava atender esse público que tem sofrido com a exclusão dessas políticas, viabilizando a produção de alimentos agroecológicos. 

“Nós entendemos que o projeto precisa atender o público mais carente, disseminando a agrobiodiversidade, espalhando o máximo possível de variedades de sementes para que sejam multiplicadas, além de melhorar a qualidade da alimentação dessas famílias, garantindo uma comida mais diversificada, pois todas as sementes distribuídas são agroecológicas, o que garante uma alimentação saudável na mesa”, afirma. 

Destaca, ainda, a importância na multiplicação e partilha das sementes, ampliando a rede e fortalecendo a troca de saberes entre as comunidades. “As mais de 100 famílias guardiãs aqui do Paraná estão conseguindo comercializar suas sementes, com a intenção de que essas sementes cheguem nas outras famílias agricultoras para que sejam multiplicadas, garantindo que cada um tenha sua autonomia, não precisando comprar todo ano das empresas. Além disso, os agricultores firmaram um compromisso de multiplicar as sementes distribuídas e devolver a mesma quantia para que se faça um banco de sementes, que poderá atender novas famílias”.

De guardiã para guardiã

A guardiã de sementes, agricultora e integrante do grupo de Mulheres do Coletivo Triunfo, em Fernandes Pinheiro (região central do Paraná), Terezinha Aparecida Vieira Santos comenta que ela e a família sempre viveram da agricultura familiar, e grande parte da produção da terra era comercializada nas feiras e eventos realizados pela ReSA, mas com a pandemia e o cancelamento dessas atividades a renda ficou comprometida. “Com o projeto pude comercializar essas sementes evitando deixá-las guardadas para o próximo ano, e para nós tem ajudado muito, pois é através disso que ganhamos nosso sustento, como não teve as feiras o projeto é muito importante para as famílias agricultoras”.

Terezinha se reconhece enquanto uma guardiã de sementes ao participar das feiras e festas. Já conservava diversas variedades há muitos anos, como a semente de alface roxa que cultiva há mais de 37 anos. Para a guardiã, é muito importante participar de uma rede que potencializa outras redes e saber que, através deste projeto, pode comercializar suas sementes e ajudar a sua e outras famílias. “É um sentimento muito gratificante saber que as minhas sementes estão contribuindo para a vivência de outras famílias, e por saber que estou contribuindo para uma sociedade ainda melhor”.

Maria Arlete Ferreira da Silva, matriarca do quilombo Adelaide Maria da Trindade Batista, em Palmas (sudoeste do Estado), conta que as sementes recebidas já foram plantadas e vão ser multiplicadas. “Estamos muito felizes com essas sementes. Estamos plantando sementes que não têm veneno nenhum, gerando nossa comida e fortalecendo nossa renda”.

Para o ano que vem está prevista a realização da terceira etapa do projeto, na qual serão distribuídas mudas e plantas medicinais. “O projeto se estende até abril, mas não vamos só terminar as entregas e acabou aí. Queremos dar sequência e atender um número ainda maior de famílias através do resultado dessas distribuições que foram feitas agora”, ressalta Jantara. 

Aproximando campo e cidade 

Como parte das ações do projeto, a ReSA e a Casa da Semente de Mandirituba realizaram, no dia 28 de novembro, um encontro com representantes de 15 hortas urbanas de Curitiba e região metropolitana. A atividade teve como objetivo estreitar os laços entre famílias agricultoras do campo e da cidade, trocar experiências e compartilhar sementes crioulas. 

“Fizemos uma atividade com as hortas urbanas, em Curitiba, pois queremos atender aquelas pessoas que moram no campo, mas também aquelas que moram na cidade e querem multiplicar a semente e também produzir o próprio alimento”, explica Jantara.

Durante a atividade, cada participante pôde relatar as experiências que vêm sendo desenvolvidas em suas comunidades e bairros com as hortas urbanas. Ao final, foram distribuídos aproximadamente 800 pacotes de sementes crioulas, organizados em kits com cerca de 50 variedades de sementes de hortaliças.

A representante da Casa da Semente de Mandirituba Ines Polidoro explica que nesse momento em que a Covid-19 aumenta a fome na cidade, se faz necessário apresentar saídas para a população – e a execução do projeto em parceria entre ReSA e MPT-PR é um caminho para isso. 

“É importante trazer o projeto para a cidade, apresentar o que as organizações estão fazendo, trazer as sementes crioulas para as hortas urbanas fazendo com que cheguem nos bairros e na casa das famílias. Nós temos que pensar no que a gente come, e temos que plantar o alimento para não depender de auxílios do governo ou da doação da comida. Esse é o propósito: a luta em defesa da vida através da semente crioula”. E acrescenta. “Nos fortalecemos enquanto Rede de Sementes, mas também fortalecemos a rede das hortas urbanas. Esses encontros são encontros de resistência”.

Para James Willian, que participou como representante da horta urbana da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), o encontro foi um espaço muito importante de troca de experiências entre campo e cidade. “Esse encontro foi importante em duas linhas: uma que conecta o campo com a cidade, traz essa coisa ancestral da semente crioula, e a outra, o lado da conexão das próprias hortas urbanas como rede. Com certeza a gente vai ver o impacto muito em breve, já que foram várias hortas participando e bastante sementes distribuídas”.

 

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Para enfrentar as mudanças do clima, comunidades auto-organizadas e capazes de gerir seus recursos materiais e imateriais http://aspta.org.br/2020/12/07/para-enfrentar-perturbacoes-externas-comunidades-auto-organizadas-e-capazes-de-gerir-seus-recursos-materiais-e-imateriais/ http://aspta.org.br/2020/12/07/para-enfrentar-perturbacoes-externas-comunidades-auto-organizadas-e-capazes-de-gerir-seus-recursos-materiais-e-imateriais/#respond Mon, 07 Dec 2020 19:52:29 +0000 http://aspta.org.br/?p=18441 Leia mais]]>

Muito já foi dito sobre a seca iniciada em 2012 no Semiárido brasileiro: que sua intensidade foi a maior dos últimos 100 anos e, que apesar disto, a população da região não a sentiu como as estiagens das décadas de 1990 e 1980. O que talvez ainda não seja tão divulgado é que esta mesma estiagem ainda se faz presente até os dias atuais, de forma mais branda, em alguns territórios deste Semiárido de um milhão de quilômetros quadrados.

Este é o caso do território da Borborema, na Paraíba, que é caracterizado por faixas de ambientes mais úmidos, como o brejo, e mais secos como o agreste e o curimataú. Em todos estes ambientes, as chuvas ainda não voltaram ao normal. Segundo Luciano Marçal, assessor técnico da AS-PTA, ao se comparar a média pluviométrica dos últimos 50 anos observa-se uma redução média de 25% a 30% nas precipitações totais anuais de 2012 até 2020. “Nas áreas mais úmidas, o impacto é grande. Mas, na região do Curimataú, o quadro é mais severo”, pontua Luciano.

Este fato nos remete a um desafio global que Luciano transformou em pergunta: “Como vamos lidar com uma conjuntura onde a perturbação do clima tende a ser cada vez mais severa?”

Os dados levantados por Luciano são sentidos por Paulo Alexandre da Silva, agricultor familiar de 63 anos com muito orgulho de ser experimentador. Nascido e criado na zona rural de Remígio, sem nunca ter migrado para nenhuma outra região e, tampouco, seus cinco filhos, seu Paulo não pensa duas vezes antes de afirmar que o inverno “caiu muito de 10 anos pra cá”.

Por isso, ele passou a preparar o terreno cedo para aproveitar as primeiras chuvadas. “Se não, não tiramos nada”, enfatiza. E aí o agricultor familiar emenda a conversa destacando a importância de ter guardado até hoje as sementes conservadas e cultivadas pelo seu pai e seus avôs que “com pouco inverno, planto e faço uma boa colheita”.

Com entusiasmo, seu Paulo enumera as sementes de feijão que são da sua paixão. Numa tacada só, ele citou quatro variedades diferentes, falou do tempo do ciclo do plantio, do comportamento da planta quando a vagem está pronta para ser colhida e se o feijão é bem aceito no mercado e se tem bom preço.

Nestes tempos de menos chuva, as variedades de ciclo mais ligeiro são as mais adequadas. E ele tem duas sementes que levam 55 dias para a colheita (feijão fava e feijão gorgutuba), outra de 60 dias (feijão mulatinho de cacho) e outra ‘mais custosa’ que carece de 70 dias e de mais chuva para brotar (feijão carioca tochinha). “Tem agricultor que não guarda a sementes da paixão. Vai comprar no mercado sem nem saber que semente é aquela. Planta e tem dia que não colhe nada”.

Desde 2002, seu Paulo é um dos coordenadores de um banco de sementes comunitário que funciona na casa dele, no assentamento da reforma agrária Oziel Pereira. A comunidade guarda no banco variedades de feijão de arranca e outras tantas de feijão de corda, além de duas sementes de milho que são armazenadas só depois dos testes de verificação da contaminação pela transgenia. “O que ajuda também é que a palhada do milho serve de forragem”, emenda ele, que cria junto a esposa seis cabeças de gado, dois cavalos, galinhas, guiné e peru. O Banco de Sementes Comunitário de Oziel Pereira integra uma rede com 62 BSC gerido pela comissão de Sementes do Polo da Borborema.

No arredor de casa, espaço de cuidado de dona Zefinha, fica a criação das aves. Todas cercadas com telas para evitar de devorar as plantas cultivadas na área. A tela para cercar as galinhas foi conseguida por meio do Fundo Rotativo Solidário (FRS) gerenciado pela própria comunidade. Este fundo proporcionou também para o assentamento a construção de cisternas de placa de 16 mil litros, a criação de ovelhas e de galinha de capoeira, entre outros bens. “Hoje, o fundo está adormecido, mas o que implantamos está tudo funcionando”, ressalta o agricultor experimentador.

E a sua produção é diversificada, seu Paulo? “Ah, tenho muita coisa que eu plantei. Pra forragem, gliricídia e sabiá.” E emenda com uma relação de pés de frutas semeados no arredor de casa: cajueiro, acerola, graviola, pinha, ‘imbu’, coco, mamão, banana. “Sou agricultor experimentador. De tudo, experimento. O que dá certo, eu continuo. O que não dá, descarto”, diz ressaltando que é difícil algo não dar certo nas mãos dele. “A gente que está na região de Agreste, quase Curimataú, tem que regar a muda duas vezes por dia. Tem que cuidar dela como se cuida de uma criança.”

E de onde vem a água que o senhor usa? “Tenho três cisternas. Duas de 16 mil litros e uma calçadão. E aqui perto tem dois açudes que, quando chove passa água de ano pra ano”. As cisternas são resultado das parcerias com a Articulação no Semiárido (ASA). O açude fica a 1,5km da propriedade dele. Seriam 3km pra ir buscar água sempre que precisasse, mas a comunidade, por meio da Cooperativa que constituíram, comprou um trator com tanque pipa, que faz a coleta no açude e sai abastecendo toda a comunidade. O bem coletivo foi conquistado via um projeto do Governo da Paraíba, que pagou uma parte e financiou o restante para a Cooperativa.

A seca iniciada em 2012 foi marcada pela morte de milhares de animais, principalmente o gado bovino. O esgotamento dos recursos forrageiros gerou um colapso na oferta de alimentos para os rebanhos. Esse impacto não foi sentido com a mesma intensidade no Território da Borborema. As estratégias de produção e armazenamento de alimentos para os animais com destaque para implementação de campos de palma consorciados, as cercas de mandacaru e a prática da silagem apoiada pela Rede Itinerante de Máquinas Motoensiladeiras permitiram com que as famílias envolvidas constituíssem estoques de forragem no ano de 2011 e que foram determinantes para atravessar o período de estiagem prolongada dos anos que se seguiram. Seu Paulo é um exemplo dessa iniciativa e em 2011, armazenou dois silos.

No alto de seus 63 anos, seu Paulo tem energia e vigor para fazer parte de espaços como a Rede de Agricultores e Agricultoras Experimentadores/as do território da Borborema e o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Remígio, do qual é diretor há três mandatos. A quantidade de intercâmbios que participou nem sabe precisar, mais citou rapidamente “vários na Bahia, no sertão do seu estado, em Pernambuco”. Até palestra ele foi fazer no Mato Grosso do Sul em 2016. “Era pra falar o que era Banco Comunitário de Semente e o que era a Semente da Paixão”.

Se já visitou muitas famílias e comunidades rurais, semiárido afora, já recebeu também muita gente da região e até da França e Moçambique. “Nem me lembro a quantidade. Nestes intercâmbios, a gente ensina e também aprende”.

Do individual para o coletivo – É certo que a propriedade de seu Paulo e Dona Zefinha está cercada de infraestruturas para torná-la mais resiliente à seca. E que seu Paulo tem acesso a informações e conhecimentos que lhe proporcionam maior condição de adaptação à severidade climática. Mas, se ele estivesse isolado, não participasse das diversas dinâmicas comunitárias como o banco de sementes, o fundo rotativo solidário, a rede de agricultores experimentadores, o sindicato, entre outros, quase nada disto seria realidade.

São nas relações e nos fluxos estabelecidos no âmbito comunitário – e também para além das comunidades – que se tecem os fios que sustentam as famílias frente às adversidades climáticas ou de qualquer outra perturbação externa, como a pandemia do novo coronavírus e os desmontes das políticas públicas de fortalecimento da agricultura familiar, da agroecologia e da convivência com o Semiárido, por exemplo.

“As propriedades mais inovadoras estão inseridas em redes e em formas coletivas de gestão de bens comuns”, garante Luciano. Segundo ele, isto tem a ver com a capacidade das comunidades desenvolverem atividades autogestionárias de recursos como a água, a biodiversidade, equipamentos coletivos, o conhecimento e também tem a ver com uma série de mecanismos de reciprocidade, como os mutirões e as trocas não só de produtos e dias de trabalho, mas também as imateriais, como o conhecimento.

Dentro deste cenário, chamam atenção os vários dispositivos de ação coletiva, como as máquinas forrageiras, os equipamentos que bombeiam água, os bancos de sementes comunitários, os fundos rotativos solidários, entre outros, que gerenciam os diversos recursos existentes nas comunidades, municípios e territórios.

“Os recursos existentes, quando regulados por redes descentralizadas, comunitárias e integradas, se ampliam. E a circulação destes recursos  conferem qualidades que atenuam as perturbações do clima, fortalecem a autonomia da comunidade e mantém dinâmicas de inovação apesar de um quadro  desmonte das políticas públicas para a agricultura familiar, que foram, em grande medida, as ativadoras destes processos locais”, confere Luciano.

Para Roselita Victor, da coordenação do Polo da Borborema, uma rede territorial de sindicatos rurais de 13 municípios, mais de 150 associações comunitárias, e uma associação de produtores agroecológicos, a EcoBorborema, é preciso refletir como as comunidades rurais assumem a trajetória de auto-organização e gestão coletiva nos últimos anos.

“Apoiar dinâmicas comunitárias fortalece a organização local a construir um olhar coletivo a partir de sua realidade, dos seus desafios e perspectivas de fortalecimento pensando na convivência com o Semiárido e nas mudanças climáticas”, assegura Rose.

Assentada da reforma agrária e sindicalista há mais de 30 anos, Rose lembra que nos anos de 1980, no território da Borborema, as associações só serviam aos interesses dos políticos. De lá pra cá, elas têm se tornado células coletivas muito importantes para a construção de forças nas comunidades rurais. “Quando as famílias se juntam, criam outra dinâmica”, atesta ela.

Projeto INNOVA-AF – A partir desta ação, a AS-PTA e o Polo da Borborema estão sistematizando experiências de sete comunidades de sete municípios do território para perceber os mecanismos que acionam um maior nível de proteção e resiliência à  frente aos efeitos das mudanças climáticas globais. O projeto é financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), uma agência da ONU, e do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

“Já realizamos seis oficinas comunitárias e seis oficinas de auto-organização das mulheres. Está faltando só uma comunidade do município de Queimadas que está com um alto índice de contaminação pelo Covid-19. Deixamos para fazer as reuniões no ano que vem”, informa Adriana Galvão, assessora da AS-PTA.

Ela contou também que, nestas oficinas, se estimula uma leitura compartilhada trajetória histórica da agricultura nas comunidades olhando para os quatro últimos momentos de seca que assolaram a região: 2012 até hoje, 1998, 1993 e 1983. Nos encontros, também são estimuladas análises das mudanças ocorridas na agricultura familiar e nas políticas públicas. Na conversa, uma pergunta central é: “Como estamos construindo uma maior capacidade para enfrentar estas mudanças no clima?”

Por que isto que foi relatado acima, a partir da leitura da equipe técnica da AS-PTA e de Rose, liderança do Polo, precisa ser acessado a partir das próprias comunidades para que se deem conta do quanto sua organização e união são essenciais para a manutenção da vida independente das circunstâncias externas.

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Encontro com hortas urbanas em Curitiba estreita vínculos entre coletivos e ReSA  http://aspta.org.br/2020/12/05/encontro-com-hortas-urbanas-em-curitiba-estreita-vinculos-entre-coletivos-e-resa/ http://aspta.org.br/2020/12/05/encontro-com-hortas-urbanas-em-curitiba-estreita-vinculos-entre-coletivos-e-resa/#respond Sat, 05 Dec 2020 12:12:19 +0000 http://aspta.org.br/?p=18432 Leia mais]]>  

Promover a aproximação entre campo e cidade, a troca de saberes e a distribuição de sementes crioulas foi o que moveu a Rede Sementes da Agroecologia (ReSA) e a Casa da Semente de Mandirituba a realizarem, no último sábado (28/11), um encontro com representantes de 15 hortas urbanas da capital e região metropolitana. A atividade aconteceu na Casa da Ciclovia, no Centro Cívico de Curitiba, distribuindo aproximadamente 800 pacotes de sementes crioulas, organizados em kits com cerca de 50 variedades de sementes de hortaliças. 

A ação foi articulada através do Projeto Emergencial de Conservação e Multiplicação da Agrobiodiversidade, coordenado pela ReSA e com recursos do Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR). Durante a partilha, cada participante pode relatar as experiências que vêm sendo desenvolvidas em suas comunidades e bairros com as hortas urbanas. 

Para Ana Beatriz Figueiredo Tavares, da Utopia, uma rede de distribuição de cultivos agroecológicos, artesanais e orgânicos, um modo de integrar  campo e cidade é buscar relações mais justas e diretas entre quem consome e quem produz os alimentos. “O estreitamento dessas relações gera possibilidades de um consumo mais consciente, o que beneficia tanto o produtor, quanto o consumidor. As práticas de plantio comunitário em espaços urbanos também são um modo de aproximar campo e cidade, e reverberam no sentido de acessibilizar o alimento de boa qualidade proporcionando soberania alimentar”, afirma.

A representante da Casa das Sementes de Mandirituba, Ines Polidoro explica que nesse momento em que a Covid-19 aumenta a fome na cidade, se faz necessário apresentar saídas para a população, e a execução do projeto em parceria entre ReSA e MPT-PR é um caminho para isso.

“É importante trazer o projeto para a cidade, apresentar o que as organizações estão fazendo, trazer as sementes crioulas para as hortas urbanas fazendo elas chegarem nos bairros e na casa das famílias. Nós temos que pensar no que a gente come, e temos que plantar o alimento para não depender do auxílio governamental ou da doação da comida, esse é o propósito, a luta em defesa da vida através da semente crioula”. E acrescenta. “Nos fortalecemos quanto Rede de Sementes, mas também fortalecemos a rede das hortas urbanas. Esses encontros são encontros de resistência”.
Para James Willian, que participou representando a horta urbana da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), o encontro foi um espaço muito importante de troca de experiências entre campo e cidade. “Esse encontro foi importante em duas linhas: uma que conecta o campo com a cidade, traz essa coisa ancestral da semente crioula, e a outra, o lado da conexão das próprias hortas urbanas como rede. Isso com certeza a gente vai ver o impacto muito em breve, já que foram várias hortas participando e bastante sementes distribuídas”.

Ao final do encontro, cada participante preparou uma bandeja de muda de hortaliças para ser plantada em sua horta.

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Solidariedade e Agroecologia: a agricultura na cidade se organiza para enfrentar a fome nas comunidades http://aspta.org.br/2020/12/04/solidariedade-e-agroecologia-a-agricultura-na-cidade-se-organiza-para-enfrentar-a-fome-nas-comunidades/ http://aspta.org.br/2020/12/04/solidariedade-e-agroecologia-a-agricultura-na-cidade-se-organiza-para-enfrentar-a-fome-nas-comunidades/#respond Fri, 04 Dec 2020 20:34:53 +0000 http://aspta.org.br/?p=18423 Leia mais]]> Em tempos de pandemia e, consequente, maior agudização das condições de vida, acirramento da fome e dificuldade de abastecimento, o programa de Agricultura Urbana da AS-PTA em parceria com organizações e coletivos atuantes na região metropolitana do Rio de Janeiro têm se dedicado à realização de ações emergenciais para doação de alimentos agroecológicos às famílias que estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Por meio dessa iniciativa tem sido possível a realização da compra direta da agricultura familiar e urbana – produtora de alimentos agroecológicos, sem venenos e que respeita às culturas locais e as realidades territoriais. Essa aquisição fortalece o escoamento das colheitas  que também vem sofrendo com os impactos da pandemia, já que muitas agricultoras não estão conseguindo vender seus produtos nas feiras regulares, perdendo parte importante da renda.

Em cada ocasião em que foram montadas, as cestas trouxeram uma diversidade de alimentos que, em função da época, foi-se construindo diferentes arranjos alimentares. Na última entrega, cada cesta continha: arroz, feijão, farinha de mandioca, fubá, canjiquinha, café, hortaliças – como alface, couve, espinafre, salsa, coentro – frutas – banana, abacaxi, manga, limão galego – raízes, tubérculos e frutos – aipim, batata doce, abóbora, jiló – ervas alimentícias, temperos e ervas medicinais, a mais diversificada expressão da agricultura familiar agroecológica.

Nos últimos meses, foram entregues cerca de 4.000 cestas, contendo cerca de 12 quilos de alimentos cada, alcançando um total de 48 toneladas de alimentos saudáveis e 2 mil unidades de produtos de limpeza para as famílias, contribuindo para promoção da saúde nesse momento de crise.

A partilha do alimento saudável contagiou as agricultoras e agricultores. Conscientes da crise sanitária e econômica, e a importância do papel social que cumprem na produção de alimentos, muitos acabaram oferecendo maior quantidade do que lhes foi comprado.

Outro diferencial que vale destacar é a estratégia que as comunidades adotaram para fazer suas entregas das cestas solidárias. No formato de Feira livre, os gêneros alimentícios foram organizados em lugares que até então eram encarados apenas como “de passagem”. Essa iniciativa acabou promovendo o encontro mais próximo das agricultoras, agricultores, moradores voluntários aos beneficiários da comunidade, transformando esses espaços em referência de abastecimento de alimentação saudável. A dinâmica adotada deu autonomia às famílias para escolher quais alimentos iriam levar, resgatando saberes e criando vínculos.

Diversidade de alimentos, diversidade de atores – O exercício da solidariedade contagiou o envolvimento e a participação de muita gente na montagem das cestas. Voluntários de 9 territórios da cidade sendo estes: Favela do Grotão e Engenho da Rainha na Serra da Misericórdia, Quilombos do Camorim, Cafundá Astrogilda e Dona Bilina no Maciço da Pedra Branca, Quintais Produtivos da Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá, Horta da Brisa em Pedra de Guaratiba, Vargem Grande, Campo Grande e favela Tavares Bastos no Catete – se juntaram para organizar a logística da acolhida, montagem, pesagem, separação e entrega desses alimentos. 

Não há como não destacar nessa rede, o protagonismo das mulheres que elaboraram toda a gestão do processo de distribuição, da colheita até as mesas, passando pela mobilização e articulação dos moradores das comunidades. São elas que mais uma vez assumem o papel de cuidado e liderança, que conhecem as realidades de suas vizinhas e identificam as famílias que mais precisam. Ao mesmo tempo que são elas as mais prejudicadas e vulneráveis pela crise, pois se encontram muitas vezes desempregadas, chefes de família e na linha de frente do combate a covid-19.

Por sua vez a juventude chega no apoio da comunicação popular. Com celular na mão, realizam registros feitos em forma de fotografia, vídeos e áudios traduzindo em sons e imagens a riqueza que foi a ação.

O exercício da montagem das cestas até sua distribuição foi rico em ensinamentos. A cidade e as suas comunidades responderam prontamente aos problemas causados pela pandemia.  Recolocou no centro do debate a cidade que queremos e como podemos, de forma coletiva e solidária, construir condições de fazer encurtar os caminhos de quem produz e de quem precisa de um alimento saudável.

Essa ação foi realizada pela articulação dos Arranjos Locais: AS-PTA, CEM, Verdejar, Levante Popular da Juventude, Feira da Roça,  Fundação Angélica Goulart, ABIO, UNACOOP, MST, Feira Agroecológica de Campo Grande, Quintais produtivos da Colônia e agricultoras e agricultores da Rede Carioca de Agricultura Urbana

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Novos transgênicos, velhos agrotóxicos http://aspta.org.br/2020/12/02/novos-transgenicos-velhos-agrotoxicos/ http://aspta.org.br/2020/12/02/novos-transgenicos-velhos-agrotoxicos/#respond Wed, 02 Dec 2020 12:15:53 +0000 http://aspta.org.br/?p=18369 Leia mais]]>

Em 1962 o prêmio Nobel de medicina foi para Francis Crick e James Watson, a dupla que descobriu a famosa estrutura de dupla hélice do DNA, o chamado código genético da vida (na verdade foram três pesquisadores, mas essa é outra história). Em 1970, o prêmio Nobel da paz foi para Norman Borlaug, tido como o pai da Revolução Verde. Semanas atrás, as laureadas com o Nobel de química foram Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna, pesquisadoras reconhecidas por terem desenvolvido a técnica de edição genética chamada Crispr (lê-se crisper). Revistas científicas, como Science e Nature, consideram a técnica “revolucionária” por promover modificações genéticas precisas e que poderão alterar genes humanos, eliminar doenças e abrir novos campos de terapias genéticas.

Não é difícil lembrar que uma das justificativas para a adoção dos transgênicos estava na vantagem de esses novos organismos serem resultantes justamente de técnicas mais precisas de modificação genética. As alegações de fundo permanecem as mesmas, mudaram as metáforas. Antes se falava em “cortar e colar” genes, hoje são as “tesouras genéticas”. Tal discurso dá até a entender que o pacote tecnológico que rendeu o prêmio a Borlaug virou peça de museu, que as sementes híbridas foram substituídas por sementes mais modernas e que o aumento da produtividade das lavouras resolveu o problema global da fome e da degradação ambiental. Quem não saiu de cena nos 50 anos que separam esses dois prêmios foram os agrotóxicos, base da Revolução Verde e produtos que tiveram seu uso ampliado com a adoção das sementes transgênicas. É o modelo agroalimentar dominante que molda os usos dessas velhas e novas tecnologias.

O sistema de edição genética Crispr, associado a impulsores (gene drives), pode ser usado para alterar rapidamente os mecanismos de herança genética de toda uma população de uma dada espécie. Essa edição do DNA aumenta a taxa com que uma dada característica é transmitida para a geração seguinte. Avança, assim, a capacidade técnica de intervir na natureza e ampliam-se os dilemas éticos. Os bebês passarão a ser geneticamente editados para nascerem com determinada cor de pelo ou de olhos? Essas técnicas serão aplicadas para eliminar as populações de plantas espontâneas como buva ou amendoim bravo, que se tornaram resistentes aos herbicidas aplicados nas lavouras transgênicas? Quem decide qual espécie deverá ser alvo dessa extinção programada?

Além de novas metáforas, essas tecnologias emergentes trazem a novidade de que seus desenvolvedores e proponentes agora alegam que não se trata mais de organismos transgênicos como os que já conhecemos. E não sendo transgênicos, não se aplicam sobre eles nem a lei de biossegurança, nem a rotulagem. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) criou uma norma para isso: a empresa pergunta se seu novo produto é OGM. Se a CTNBio disser que não, pronto, está desregulado. Entre 2018, quando essa regra foi editada, e novembro de 2020, a Comissão julgou 16 desses pedidos e concluiu que 14 não eram OGM. Esse vazio jurídico não tem respaldo técnico nem legal. Do ponto de vista da alteração do genoma, importa o que é mudado e seus efeitos e não só a técnica empregada. Do ponto de vista jurídico, a definição do Protocolo de Cartagena de Biossegurança da Convenção sobre Diversidade Biológica, da qual o Brasil é parte, já previa novos desenvolvimentos das tecnologias de recombinação de DNA e sua definição incorpora esse conjunto de novas técnicas no qual o Crispr e outras se enquadram.

Debater o tema das novas biotecnologias a partir da ótica dos direitos humanos, da soberania alimentar e da justiça social é hoje relevante por alguns motivos principais: i) a capacidade de essas tecnologias causarem impactos negativos pode ser ainda maior do que a dos organismos transgênicos; ii) esses efeitos podem ocorrer em larga escala, dado que são tecnologias incorporadas ao modelo agrícola dominante; (iii) a possibilidade de vazio regulatório pode facilitar a entrada desses produtos no mercado sem debate público; (iv) a aceleração desse processo pode inibir, além da informação pública, estudos sobre potenciais riscos, de médio e longo prazos, feitos sob a ótica do princípio de precaução. Como temos visto, desde o Nobel de 1962, a ciência orientada pelo mercado segue colhendo os louros, e muitas vezes vendendo soluções para os problemas que ela mesma criou.

Essas e outras questões são apresentadas e debatidas em maior profundidade no livro Novas biotecnologias, velhos agrotóxicos: um modelo insustentável que avança e pede alternativas urgentes, lançado no final de 2019 pela Fundação Heinrich Boll.

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O estoque de silagem mudou a sina dos criadores de animais do território da Borborema http://aspta.org.br/2020/11/27/o-estoque-de-silagem-mudou-a-sina-dos-criadores-de-animais-do-territorio-da-borborema/ http://aspta.org.br/2020/11/27/o-estoque-de-silagem-mudou-a-sina-dos-criadores-de-animais-do-territorio-da-borborema/#respond Fri, 27 Nov 2020 18:25:42 +0000 http://aspta.org.br/?p=18343 Leia mais]]> “Sentimos na pele como é ter que sustentar a criação no tempo de seca”, dispara Adailma Ezequiel, uma jovem liderança que mora no Sítio Lutador, em Queimadas, e faz parte da Comissão Executiva da Juventude e da Coordenação Política do Polo da Borborema. O Polo é um coletivo de sindicatos rurais de 13 municípios localizados no trecho paraibano do planalto da Borborema, que se estende de Alagoas até o Rio Grande do Norte.

Sobre o impacto da seca na criação, a lembrança mais forte de Adailma, nos seus 30 anos de vida, é a da venda dos animais para “não ver morrer”. Essa era a sina das famílias de Queimadas e dos demais municípios que têm zonas em regiões mais secas como Agreste, Curimataú e Cariri. “Minha mãe sempre dizia: ‘Quando é pra vender, os compradores só querem comprar de graça. E quando [a gente] vai comprar, os animais dos vendedores têm valor’”, lembra Adailma.

Na sequência, a jovem boa de fala emendou: “A partir da parceria entre o sindicato, a AS-PTA e o Polo da Borborema, a gente vai aprendendo e se adaptando à seca. Hoje, eu e minha mãe temos oito cabeças de gado, alguns bodes, ovelhas e porcos. Quando eu preciso, vendo. Mas não é mais obrigação.”

No mapa da Paraíba, o município de Queimadas se situa na região do Cariri, com características de clima mais árido. Lá, o verão chega a durar quase 10 meses. Sobram 2 meses e poucos dias com chuvas. E, mesmo assim, as chuvas são tão irregulares que, às vezes, nem chegam a completar a capacidade máxima das cisternas e demais tecnologias nas quais as famílias agricultoras estocam água.

Em regiões como esta, a vocação das famílias rurais é a criação de animais. No caso de Queimadas, é de vaca para produção de leite e derivados. Lá, segundo Adailma, os criadores de pequeno porte têm até 10 cabeças de gado. Há também quem crie mais de 20 animais, apesar da demanda deles por água e alimento ser grande e o período seco, extenso.

O que vem dando suporte à criação em Queimadas e nos demais municípios do território é a estocagem de forragem para os animais. A cada final de inverno, se colhe capim e milho ainda verde para triturar, armazenar e dar aos bichos ao longo do período sem chuva. “A gente que é criador precisa entender que a gente necessita estocar para a criação. Na mesma lógica de estocar para família. Este estoque é o que salva a criação no verão”, destaca Adailma.

Felipe Teodoro, assessor técnico da AS-PTA para o tema de criação animal desde 2008, assegura que, hoje, a prática de armazenamento está amplamente disseminada em todos os municípios de atuação da organização e do Polo – Solânea, Casserengue, Arara, Remígio, Algodão de Jandaíra, Esperança, Areal, Montadas, São Sebastião de Lagoa de Roça, Lagoa Seca e Queimadas – e para além destes.

Ele conta também que foi nos anos 2000 que as famílias agricultoras começaram a ter contato com a técnica de silagem adaptada à capacidade e realidade deles. E que, no início, “as famílias achavam loucura triturar o milho e o capim e colocar num buraco. Mas, quando viram que quem tinha forragem estava passando a seca com tranquilidade, a resistência começou a ceder. Quem não tinha a forragem, os animais emagreciam, a família gastava seu capital financeiro para comprar ração fora e cara. E, quando o período [da seca] era extenso, ou vendiam ou animais morriam. Isso gerava um grande estresse no sistema produtivo.”

Segundo Felipe, na década de 1990, a silagem já existia na região, mas era uma técnica restrita apenas para os grandes agricultores, que faziam silos enormes, usando trator e muita mão de obra. “Esta estrutura passava uma mensagem que os pequenos não tinham capacidade para fazer o mesmo”, comenta.

Quando a história começou a mudar – Para as famílias superarem os desafios de manter o rebanho com peso ideal e produzindo leite o ano todo, a AS-PTA trouxe para o território com o apoio do Polo novas técnicas de silagem e também o primeiro dos 20 equipamentos disponíveis hoje para as 300 famílias dos 11 municípios que necessitam armazenar ração para manter os bichos vivos e com boa saúde.

Em processos formativos, as famílias conheceram o silo cincho menor, com três metros de diâmetro. A visita de intercâmbio aos Sertões de Pernambuco e de Sergipe possibilitou aos agricultores e agricultoras paraibanos/as o contato com outras tecnologias: o silo trincheira e o tambor. “Os intercâmbios cumpriram papel importante para que as famílias se apropriassem das técnicas e desencadeou um processo de experimentação vigoroso”, assegura uma sistematização feita pela AS-PTA sobre este trabalho.

Mas, mesmo com equipamento adaptado e famílias estimuladas, a técnica de ensilagem carecia de mão de obra considerável. E este desafio foi encarado com a realização dos mutirões de trabalho entre as famílias, uma cultura da região que ainda hoje existe, mas numa proporção menor.

Daí em diante, outras soluções foram sendo desenvolvidas para tornar esta técnica de produção de forragem cada vez mais acessível às famílias que tinham a criação como principal fonte de sustento. Em parceria com outra organização de assessoria à agricultura familiar da Paraíba, o Patac, as máquinas ensiladeiras se tornaram móveis para facilitar o transporte para as comunidades.

Atualmente, as prefeituras e particulares possuem os equipamentos. Tem até quem alugue as máquinas para atender a alta demanda da região, uma vez que o poder aquisitivo das famílias agricultoras aumentou e tornou possível contratar este tipo de serviço, assim como pagar diárias para ampliar a mão de obra nas semanas dedicadas à feitura dos silos.

E as famílias levam tão a sério a estocagem de forragem que separam uma área exclusiva para plantar o milho que vai matar a fome dos seus animais. O tamanho desta área vai depender, é claro, do tamanho da propriedade. Daí que a limitação das terras termina sendo um grande empecilho para o aumento da produção das famílias.

Apesar da disseminação da técnica da ensilagem na região do Polo, Felipe defende que esta ação se torne uma política pública para que os seus benefícios possam alcançar mais famílias. “Iniciativas como esta pode ser apoiada por um conjunto de prefeituras, por exemplo, para favorecer dinâmicas auto-organizativas territoriais. O que acontece aqui pode ser desenvolvido em qualquer lugar”, assegura.

Gestão descentralizada – Em Esperança, um dos 11 municípios beneficiados com as máquinas adquiridas pela AS-PTA e Polo, a produção de forragem de 40 famílias chega a quase mil toneladas. Este resultado foi alcançado em 2019. E, segundo João Paulo Diniz Brito, em 2020, o desempenho não foi diferente.

João Paulo faz parte do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Esperança há 10 ou 12 anos pelos cálculos dele. Atualmente, está como vice-presidente e membro bastante ativo da Comissão Municipal de Criação Animal, fórum que faz a gestão do uso e da manutenção das ensiladeiras, e também de uma comissão semelhante do Polo. Nas eleições passadas, ele se candidatou a vereador e, por pouco, não foi eleito. Ficou como primeiro suplente da Câmara Municipal Legislativa.

O sindicato de Esperança faz a gestão de três das 20 máquinas disponibilizadas para uso pela AS-PTA e Polo. “O Sindicato se responsabiliza pelas orientações de uso, deslocamento e manutenção. Desde que assumimos isso, não teve mais problemas de equipamento quebrado e desperdício de silo”, pontua. Para as famílias sindicalizadas, não há cobrança de taxa para uso do equipamento. Elas só precisam comprar a gasolina para fazer a máquina funcionar e a lona quando vai fazer pela primeira vez a silagem.

“A gente orienta que, assim que começar o corte, as famílias falem com o sindicato. Recomendamos bem para não deixar secar [a matéria-prima] pra não perder os nutrientes.” Ele explica que o processo requer que se limpe um terreiro plano na propriedade, forre o chão com capim, palha de feijão ou lona, que é para não “melar” a ração. Feito isso, pode pôr o material verde triturado, depois cobrir com a lona e, sobre esta, por uma camada de cerca de dez centímetros de terra para proteger a lona do sol e de algum animal. “O segredo é vedar bem vedado. É preciso tirar todo o ar, compactar bem com os pés ou com trator. Se entrar ar, o fungo se desenvolve e o material apodrece”.

Para que as ensiladeiras estejam disponíveis para todas as famílias que demandarem, é preciso um planejamento. De agosto a outubro, primeiros meses após o fim do inverno na região, é o período de uso concentrado dos equipamentos. As regras para a utilização dos equipamentos são definidas pelos integrantes da Comissão de Criação Animal de cada sindicato. Essa autonomia só favorece a capacidade deles de se auto-organizarem para fazer o bom uso de um bem coletivo.

Relações no agroecossistema – Além do trabalho com a silagem, João Paulo destaca também várias outras atividades e tecnologias sociais que giram em torno da criação animal, como o biodigestor que, a partir do esterco dos animais, produz o gás de cozinha e livra a família do gasto com a compra de botijão que pesa no orçamento. Ele citou também como importante para manter os rebanhos dos agricultores e agricultoras familiares as oficinas que estão sempre aperfeiçoando os conhecimentos dos/as criadores/as, como a oficina de sal mineral para evitar a verminose.

Em dois tempos, o sindicalista também falou do cultivo das palmas mais resistentes à praga da cochonilha, que substituiu as palmas forrageiras desaparecida da região por causa do ataque dos insetos que se parecem com mofos brancos. E não se esqueceu das tecnologias que armazenam a água para a segurança hídrica do rebanho.

As tecnologias, os conhecimentos e a gestão integrada dos insumos produzidos na propriedade são princípios da convivência com o Semiárido, que tem proporcionado condições reais das famílias ampliarem a sua resistência aos períodos cada vez mais severos de estiagem devido às mudanças climáticas. Mas, isto é assunto para outro texto.
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Informativo-12 – Rede Itinerante de Máquinas Moro-ensiladeiras do Polo da Borborema

Fotos: Túlio Martins/Arquivo AS-PTA

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