Notícias – AS-PTA https://aspta.org.br Tue, 06 Apr 2021 22:12:39 +0000 pt-BR hourly 1 Mutirão do Verdejar: agricultores urbanos trabalham na recuperação de áreas degradadas e produção de alimentos https://aspta.org.br/2021/04/06/mutirao-do-verdejar-agricultores-urbanos-trabalham-na-recuperacao-de-areas-degradadas-e-producao-de-alimentos/ https://aspta.org.br/2021/04/06/mutirao-do-verdejar-agricultores-urbanos-trabalham-na-recuperacao-de-areas-degradadas-e-producao-de-alimentos/#respond Tue, 06 Apr 2021 22:12:39 +0000 http://aspta.org.br/?p=18630 Leia mais]]> Onde antes só havia capim-colonião (Panicum maximum Jacq.) agora se encontra uma mata densa, composta de espécies arbóreas em consonância com cultivos agrícolas. A recuperação da área é o resultado do trabalho realizado pelo Coletivo Verdejar Socioambiental, e tem contribuído com a produção de alimentos e a aumento da área verde na cidade do Rio de Janeiro

O dia começou na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, na comunidade Sérgio Silva, bairro do Engenho da Rainha, no sopé da Serra da Misericórdia. Na visita de apoio do projeto Arranjos Locais, desenvolvido pela AS-PTA em parceria com organizações comunitárias,  foi feito um mutirão na agrofloresta.

Pelo caminho, era possível notar que, dentre as árvores de grande porte, era abundante a presença de leucenas (Leucaena leucocephala) e pau-formiga (Triplaris americana). Essas espécies são consideradas pioneiras, e por isso são muito utilizadas na recuperação de áreas degradadas. 

“Uma árvore pioneira é aquela que possui madeira leve, crescimento rápido e que se estabelece rapidamente. Já o Pau-Formiga tem um papel importante na incorporação de matéria orgânica em solos degradados, contribuindo através da  adubação verde” é o que nos conta Marina Pellegrini, estudante de biologia da UFRJ e estagiária da AS-PTA.

Após a porção de mata, cresce a implementação de cultivos agrícolas. Na integração entre floresta e agricultura marcam presença espécies frutíferas (goiaba, açaí, pitanga, bananeira, cacau), maior biodiversidade de espécies arbóreas (pau-ferro, jurema) e a horta com variedade de PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e plantas medicinais. Dentre elas o destaque para Chaya (Cnidoscolus aconitifolius) uma espécie importante na história deste quintal. Marcelle Fellipe conta que uma estaca de Chaya foi trazida por um dos fundadores da Organização de uma viagem que fez para Bolívia,  o Luiz Poeta – ambientalista e agricultor urbano – e logo observou seu rápido crescimento, tornando-se uma das primeiras árvores da horta e espalhando-se por toda a Serra da Misericórdia

Apesar de toda essa diversidade, de uma floresta no meio da cidade, “os Verdejantes” informam que a horta comunitária precisa de um novo desenho de manejo, em que se faz necessário refazer o sistema de irrigação. Devido a pandemia, não tem acontecido atividades no espaço, de modo que alguns moradores, que antes trabalhavam frequentemente, hoje em dia se dividem em visitas esporádicas.  

Com isso, Rodrigo Morelato destaca: O Verdejar tem passado por dificuldades desde que perdemos nossa sede, primeiro em 2011, na Comunidade Sérgio Silva (Engenho da Rainha) e depois em 2018, no Morro da Esperança (Complexo do Alemão) ambas perdidas por conta da operação da polícia na comunidade. No entanto, direcionamos nossas ações para a construção do Espaço de Educação Ambiental e Práticas Sustentáveis Luiz Poeta.

Participantes: Marina Pellegrini, Gabriela Storino, Rodrigo Morelato, Dominick Salles, Edson Gomes, Roberto França, Marcelle Felippe, Adriana Princisval, Josefa da Conceição

Durante a visita foram abertos buracos para fincar troncos que vão servir de alicerce para nova sede, além disso, serão construídos portais com placas nas áreas chamadas de ecolimite, justamente para informar aos moradores onde termina a área de construção e onde se inicia a área verde. 

Com o intuito de somar forças para a obra do espaço, nesse dia os verdejantes gravaram uma série de pequenos depoimentos para um vídeo sobre o processo de bioconstrução.

O Projeto Redes Locais de Produção e Abastecimento Alimentar:  Fortalecendo laços de produção, comercialização e consumo de alimentos saudáveis tem apoio da Misereor e é realizado pela AS-PTA com um conjunto de parcerias comunitárias.

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Sementes da Paixão: ação coletiva na defesa da agrobiodiversidade no território da Borborema, na Paraíba https://aspta.org.br/2021/03/30/sementes-da-paixao-acao-coletiva-na-defesa-da-agrobiodiversidade-no-territorio-da-borborema-na-paraiba/ https://aspta.org.br/2021/03/30/sementes-da-paixao-acao-coletiva-na-defesa-da-agrobiodiversidade-no-territorio-da-borborema-na-paraiba/#respond Tue, 30 Mar 2021 20:41:06 +0000 http://aspta.org.br/?p=18623 Leia mais]]> O dia de São José é comemorado em 19 de março. No semiárido brasileiro a data anuncia a chegada do inverno e as chuvas para início dos plantios. É o início da safra, período no qual agricultoras e agricultores começam a retirar as sementes dos Bancos de Sementes Comunitários e também dos bancos familiares.

O encontro entre sementes e a terra, proporcionado pelas chuvas, tem, no entanto, se alterado ao longo dos anos, tanto pela seca prolongada que a região semiárida tem enfrentado, quanto pela chegada dos transgênicos, que contaminam sementes cultivadas há décadas pela agricultura familiar camponesa.

As Sementes da Paixão, como são (re)conhecidas as sementes crioulas no território da Borborema, “são como um filho”. Sendo livres de transgenia e agrotóxicos, elas são sementes com que as crianças podem brincar e ajudar a plantar como nos explicou a agricultora do município de Queimadas, Severina da Silva Pereira, mais conhecida como Silvinha, mãe do José Miguel e da Maria Julia. Sementes são também parte da família. É por isso que Euzébio Cavalcanti, agricultor e presidente do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Remígio, nos fala sobre o pesar de ter que dizer a um agricultor ou a uma agricultora que a semente que selecionaram há mais de 20 anos não é mais a mesma semente, que ela está contaminada por genes desconhecidos – “é como se um parente tivesse morrido e só a gente soubesse e tivesse que dar a notícia”.

É nesse entremeio, da conservação da agrobiodiversidade pela agricultura familiar e da luta contra os transgênicos, que, em 2016, nasce no território da Borborema a Campanha Não Planto Transgênico para não Apagar minha História.  Conversamos com Silvinha e Euzébio, que nos trazem as memórias da Campanha, assim como os fios que ela foi tecendo com a vida cotidiana dos agricultores, agricultoras, bancos de sementes e a organização política na região.

De onde vem a necessidade da Campanha Não Planto Transgênico para não Apagar minha História? Como o problema da transgenia começa a aparecer no território da Borborema?

Euzébio (STTR Remígio): A Campanha nasce com a Comissão de Sementes do Polo da Borborema, quando a gente começou a mapear os guardiões de sementes, por causa, justamente, das políticas de sementes, que eram sementes de uma variedade só. A gente ficou muito preocupado com a questão da erosão genética das sementes, porque temos uma diversidade de sementes muito grande, tanto do milho, quanto do feijão.

Em 2006, quando começamos a fazer a Festa das Sementes da Paixão, a gente pensava que os transgênicos eram uma coisa que estava longe da gente. A gente tinha conquistado uma lei de bancos de sementes no estado. Nossa luta era pelo reconhecimento das nossas sementes, as Sementes da Paixão. A gente ainda não tinha essa luta contra o transgênico, como no Sul e no Paraná. A gente sabia que era um problemão, um perigo para nossa diversidade, mas achava que não ia chegar aqui tão cedo. Quando veio a seca, em 2012, a Conab tinha um programa de venda de milho subsidiado para alimentação dos animais. Foi quando veio o milho de Goiás, 90% transgênico. Embora fosse para ração, nos levantou uma preocupação muito grande, porque a natureza camponesa é experimentar algo novo. A gente tinha esse medo de as pessoas testarem quando vissem uma semente bonita.

Então começamos a fazer uma campanha para que as pessoas não plantassem essa semente, apenas usassem como ração. Na Festa das Sementes da Paixão, em 2016, entregamos um documento para o governo federal para que as sementes da Conab fossem trituradas, já que eram apenas para fomento, para evitar o risco de plantio.

Nós aqui já começávamos a perceber a presença [dos transgênicos] também no mercado. Tínhamos aqui as feiras agroecológicas desde 2001, que se ampliaram bastante a partir de 2006, e os agricultores e agricultoras da feira faziam à moda antiga o fubá para cuscuz, com uma grande dificuldade, já que todo fubá que tinha no mercado era transgênico. Dificilmente a gente encontrava um fubá que não fosse transgênico. Para nós, o transgênico era mais no alimento, a gente não tinha isso no roçado. No entanto, quando começamos a fazer o fubá, começamos também a fazer o teste no milho e a gente ficava feliz que nenhum milho dava transgênico.

Um dia fomos comprar um milho no Assentamento Queimadas, na região do Gabinete, onde todo ano a gente comprava o milho de seu Biruquinha, que há 20 anos tinha o milho Pontinha dele. Entramos no meio do roçado para pegar uma amostra. Com o teste, vimos que a contaminação tinha chegado dentro do roçado. Para a gente, isso foi assustador, porque não sabíamos de onde veio, porque aquela comunidade planta milho Pontinha e guarda as sementes em casa.  Resolvemos ir para a comunidade testar o milho dos outros agricultores, mesmo daqueles de quem não iríamos comprar o milho. Fizemos um encontro com a comunidade e notamos que todo milho estava contaminado. Somente um agricultor tinha produzido 100 sacos, então era muito milho que estava sendo produzido. Isso nos deu um alerta. Fizemos um encontro regional e começamos a testar o milho de todo mundo. Nessa comunidade, nós criamos um Banco de Sementes e começamos uma campanha de descontaminação. A gente levava semente para constituir campos comunitários de milho.

Nós realizamos ainda um encontro com o Polo da Borborema, com todas as comunidades, para relatar esse fato acontecido na região do Gabinete e aí tivemos a tristeza de encontrar outras regiões do Polo da Borborema com sementes contaminadas. No caso específico do Gabinete o que aconteceu foi que seu Antônio Cabeção disse que tinha plantado milho e estava muito animado com o roçado. Resolveu comprar mais uma quantidade para completar uma área que tinha. Ele comprou numa venda em Casserengue, e nessa venda, provavelmente, era milho da Conab que o agricultor comprou como semente. Era muito bonita e ele comprou essa semente. Não levou em conta a variedade, não levou em conta nada, levou em conta que era milho. E como o milho transgênico vem do mesmo jeito do que outro, ele contaminou toda a região.

Ali, também, a gente começou a encontrar histórias bonitas de proteção das sementes. Em 2016, fizemos um encontro em Santa Fé, no município de Arara e a gente contou várias histórias de “como é que você protege seu milho?”. Nós tivemos a história de vários agricultores. A partir do momento que identificamos que a comunidade estava contaminada, realizamos encontros municipais e regionais do Polo para que a gente pudesse fazer uma Campanha. Ali, em 2016, começou a Campanha Não Planto Transgênico para não Apagar minha História.

Como é o funcionamento da Campanha, quais são as ações no território? Quais são momentos importantes durante o ano, por exemplo?

Sílvinha (Agricultora): A gente tem a maior preocupação no início e no fim do inverno. A gente pede para o pessoal trazer suas sementes [para o armazenamento coletivo] no final, depois da colheita. Como aqui é um Semiárido e as chuvas são poucas, a gente corre o risco da primeira planta se perder. Por isso, a gente pede para que os agricultores tragam sementes a mais do que plantam. Se plantar 10 kg, tragam 15 kg para deixar 5 kg no Banco. Utiliza os 10 kg, mas é importante ter sempre uma reserva no Banco para não perder a semente. Os agricultores que fazem parte do Banco também têm seu banco familiar em casa. Eles nunca deixam de guardar ali também. Essa é uma forma da gente fazer a Campanha. Tem anos aqui que a gente planta umas três vezes e três vezes perde. Então, a gente recorre ao Banco Mãe de Sementes [uma espécie de banco dos bancos comunitários], onde há sementes armazenadas para podermos multiplicar nossas sementes.

Euzébio (STTR Remígio): Nesse primeiro momento [março], a gente costuma fazer reuniões com as comunidades onde tem Banco de Sementes e onde não tem também, para que a gente possa levantar esse cuidado de que semente vai para dentro do seu roçado. Além do perigo dos transgênicos, há também as sementes contaminadas com agrotóxicos. Porém, o ponto forte mesmo da Campanha é no momento de guardar a semente para plantar, que é o momento da safra. No período da safra acontece testagem em massa de sementes de milho para analisar se estão contaminadas e para ver se poderão ser armazenadas nos Bancos, tanto nos familiares quanto nos comunitários e também porque nós temos a unidade do Banco Mãe.

Na Unidade Mãe a gente faz o beneficiamento do milho e quem tem milho livre de transgênico e agrotóxicos a gente compra as sementes com preço 30% a mais do mercado para fazermos o Fubá da Paixão. Nós agora vamos fazer o flocão também. Isso também tem ajudado as pessoas a terem um cuidado maior na hora de plantar, porque elas sabem que isso é uma perda deles, pois se estiver contaminado não é possível comprar. Isso tem sido um incentivo para que os agricultores possam ficar atentos às suas sementes. Alguns agricultores na época da safra já procuraram os Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTRs) e a AS-PTA para fazer testes com as sementes que irão plantar. A gente está também nos Conselhos Municipais reforçando para que as prefeituras comprem testes de transgenia, para que entrem nessa luta também, para deixar o município livre de transgênicos. A gente já tem comunidades livres de transgênico e precisamos que os municípios fiquem livres também. É uma luta política contra os transgênicos por dentro dos Conselhos, de denúncia de lugares onde se contamina de propósito, como o agronegocinho que acha que tanto faz ser uma coisa como outra. Uma luta que não é fácil, mas é necessária.

Como vocês se organizam na defesa das Sementes da Paixão e como vão estabelecendo relações, também, com os municípios?

Euzébio (STTR Remígio): Nós temos a Comissão Regional do Polo da Borborema e temos uma Rede de Sementes da Articulação do Semiárido (ASA), além da Rede de Sementes do Semiárido. Essas redes estão aí permeando esse debate das políticas de sementes, das sementes crioulas, das Sementes da Paixão. Nós temos a Comissão Regional e cada município tem uma forma de se organizar. Se organizam em comissões municipais com os Bancos de Semente. Em alguns municípios, o próprio Sindicato trata de ser o mobilizador dos Bancos de Sementes.

Então, nós temos essas formas de se organizar e nós temos trabalho de formação, intercâmbio, que é uma formação bastante interessante que temos conseguido levar os agricultores de Bancos de Sementes menos organizados para conhecer aqueles mais organizados, aprendendo sobre o formato, o jeito e o trabalho da comunidade também. Temos também a comunicação, os agricultores têm feito vídeos sobre suas sementes, compartilham nos grupos WhatsApp e a gente aproveita isso, as informações que vêm dos próprios agricultores. E há outros vídeos que a gente procura fazer, com mais qualidade e que possam ajudar nas reuniões de outras comunidades.

Vocês acham que a Campanha tem fomentado transformações na agricultura do território, um maior conhecimento entre os agricultores e agricultoras sobre a transgenia, a contaminação e formas de evitá-la e, em contrapartida, cultivo de variedades crioulas? Como percebem isso na relação entre as sementes e as agricultoras?

Sílvinha (Agricultora): A Campanha veio fortalecer os agricultores e veio ter um reconhecimento do que os agricultores estavam fazendo, que é plantar o milho, o milho crioulo, a Semente da Paixão, plantar e permanecer com ele. Além disso, a Campanha tem o objetivo de valorizar os agricultores que já têm essas sementes de anos, de décadas, de muitos anos, trazendo de seus avós e sem a contaminação. Não Planto Transgênico para não Apagar minha História é uma campanha muito bonita e estamos preocupados tanto com a minha semente, quanto com a semente que o vizinho planta. Não adianta eu plantar uma semente livre de transgênico e o vizinho plantar uma semente contaminada. Com essa preocupação, os Bancos têm se fortalecido, fortalecido o que os agricultores vêm fazendo e promovendo o resgate dessas sementes.

É um trabalho de formiguinha. É a gente convencer aquela outra pessoa de que o milho crioulo é mais produtivo, é mais saboroso, é livre de transgênico. A produtividade do nosso milho é muito superior à produtividade do outro milho. Muitas pessoas já estão conscientes. Temos trabalhado em reuniões, formações e folhetos informativos pelas comunidades. As pessoas estão ficando mais conscientes e não estão plantando esse milho. Mas há agricultores que estão fora dos Bancos e nós temos essa preocupação, temos feito conversas com eles também para não plantar sementes contaminadas, pois uma vez o milho contaminado pelo transgênico ele já não é mais o mesmo. A gente tem que procurar dar destino a esse milho e procurar a semente pura.

As mulheres têm o maior cuidado com as sementes. Tem homens que têm o cuidado com as sementes, mas na maioria são as mulheres. Têm o cuidado de olhar para a semente como se fosse um filho, cuidar, deixar limpinha, trazer uma semente selecionada, de boa qualidade. A mulher tem esse papel importante junto à agricultura familiar. Aqui vem desenvolvendo bastante [o trabalho com as agricultoras]. Tem guardiãs de sementes que resgataram as sementes de fora, umas sementes que têm um grande conhecimento e um grande valor nutricional, como o Fogo na Serra, que é um feijão gordo. A guardiã desse feijão, ele veio de Pernambuco, ela achou bonito esse feijão e plantou dele e foi com ele que ela curou a anemia da criança dela. A filha estava doente e ia fazer uma cirurgia e ela deu uma semana o caldo desse feijão, que é bem forte, e ela curou a anemia e a criança pôde fazer a cirurgia. Ela conta com grande valia dessa semente, que hoje ela é guardiã e com muito orgulho dessa semente. Cada semente tem uma história.

Euzébio (STTR Remígio): Nós temos diferentes agricultores dentro das comunidades. Temos aqueles que participam de reuniões. Esses têm uma possibilidade de estar mais atentos a tudo isso. Muitas vezes eles até trabalham na formação daqueles que não participam de reuniões, e assim o assunto se espalha muito dentro da comunidade até para aqueles que não participam. Existem aqueles que de certa forma são desligados, não guardam sementes. Esses são agricultores que colocam muito em risco essa questão dos transgênicos, porque qualquer semente para eles é semente, desde que eles plantem seu roçado.

Nós temos ajuda dos agricultores que ganham uma consciência maior, eles são os Guardiões mesmo. Estão nas comunidades protegendo as sementes deles e ficam atentos aos que são mais descuidados. Não é um trabalho que atinge 100%, mas os agricultores Guardiões têm um papel importantíssimo para que possamos atingir o máximo de agricultores e não se contamine as sementes.

Vocês enfrentam outros problemas com políticas públicas, como foi o caso da política da Conab a partir de 2012?

Euzébio (STTR Remígio): O maior desafio nosso é com as políticas públicas, porque a política pública não conhece esse milho, não conhece o milho crioulo. A política pública pensa é naquele milho que a empresa produziu em grande escala. Assim, quase todo o estado recebe uma variedade só. Não conhece que se for para o sertão não vai ter uma variedade de milho igual à que tem no agreste ou no brejo, são outras variedades. A política de sementes vem com uma variedade só, infelizmente sem o cuidado de ser semente, porque ela foi contaminada com transgênicos, mas vem como milho variedade. Nosso desafio com a política de sementes é grande.

Nós temos também a política pública de sementes [estadual] que nunca deu ouvidos às comunidades. Está ali porque eles querem dizer “nós distribuímos sementes, então, vocês nos devem um favor”. Nós, por outro lado, temos um trabalho com as lideranças, até com as que não tenham Bancos de Sementes nas comunidades, para que elas compreendam a importância das Sementes da Paixão e o risco das sementes transgênicas.

A gente tem tido reunião com o governo do estado, eles têm tentado desenvolver uma política de sementes com a gente, mas não bate com o orçamento. O prazo do orçamento do governo não é o mesmo que faz no roçado, tem plano plurianual que passa da data da chuva da gente e aí termina atrapalhando. O maior desafio é com as políticas públicas, porque a campanha de agricultor para agricultor tem crescido bastante, ajudado as pessoas a reconhecer novamente as variedades de sementes que têm na nossa região, mas com as políticas públicas tem sido difícil, é uma briga do agronegócio contra a agricultura familiar e a gente tem que ser forte para não se deixar ser engolidos por eles.

E há outros desafios enfrentados? Como são construídos caminhos para superá-los?

Euzébio (STTR Remígio): Um grande desafio nosso é a consciência sobre as sementes crioulas. Nós temos aqui milho Jabatão, milho Pontinha, Adelaide, Dente de Cavalo.  Quem tem o milho e é Guardião, sabe muito bem o que é esse milho. Mas para quem não tem, alguns conhecem muito o Pontinha e o Jabatão, que são os mais conhecidos na região. Ainda tem na região aqueles que não conhecem mais o milho como variedades. Para eles o milho é o mesmo, um desafio nosso é adquirir essa consciência de que o milho Jabatão, Pontinha e outras variedades crioulas são as variedades daquele lugar. Isso é um desafio no nosso trabalho de formação.

Quando a gente conhece que esse milho é importante, as pessoas adquirem um outro lado da consciência e entendem que têm que proteger esse milho. Como ele vai proteger o milho se para ele qualquer milho é milho? A gente vê pessoas que perdem produção porque não tiveram o cuidado com o milho. Uma segunda coisa é o armazenamento do milho. Você não pode selecionar de qualquer jeito. Tem que selecionar a parte do meio das melhores espigas. Tudo isso são trabalhos que a gente tem de formação, conscientização, porque aí você vai garantir um bom roçado com aquela variedade.

Outra luta que nós temos é que a gente vai para dentro dos Conselhos Municipais, fazemos audiências com prefeitos. Nos municípios de Remígio e Lagoa Seca, os prefeitos eleitos assinaram a Carta da Agroecologia nas eleições. Vamos ter uma conversa com eles para cobrar esse compromisso. E nós temos um fator da natureza que é a questão da seca. Estamos vivendo 10 anos de seca. Isso significa que até Guardião sofre, ele tem a semente todo ano e ele tem esse cuidado e essa consciência. Porém nós temos uma diminuição de pessoas com semente guardadas por causa da seca. Roçados que perderam suas sementes. Então, a gente tem que apoiar com os Bancos Comunitárias e não tem Banco em todas as comunidades, mas aquelas que têm estão mais protegidas do que as que não têm.

Em Queimadas, com o Conselho Municipal a gente conseguiu evitar distribuir o milho convencional da política pública. O mesmo aconteceu no município de Lagoa Seca. Esse ano já está acontecendo em Remígio. A gente tem ido nas comunidades para apresentar o perigo de contaminação pelos transgênicos. As políticas públicas estão há muitos anos seguidos com sementes perdidas, porque as pessoas não quiseram plantar para não contaminar seu milho.

Sílvinha (Agricultora): Uma dificuldade que a gente tem é do pessoal ter poucas terras para plantar e a gente produzir pouco, poucas sementes. Mas tem lugares no Polo que tem gente que mora em áreas de assentamentos e onde a gente procura esse socorro. Há agricultores que plantam 30 quadros de terra [pouco mais de 30 hectares], mas há agricultores que plantam meio quadro. O Banco de Semente procura um representante do Polo, da Comissão de Sementes, e a gente localiza agricultores que têm essas sementes.

Há agricultores e agricultoras que estão há muitas décadas cuidando de suas sementes. Como foi para aqueles/as que tiveram suas sementes contaminadas receber essa notícia?

Euzébio (STTR Remígio): A gente tinha que dar a notícia para o agricultor, é como se um parente tivesse morrido e só a gente soubesse e tivesse que dar essa notícia. Foi esse o sentimento de ter que dizer a seu Biruquinha que aquela semente não era mais o milho Pontinha dele, foi invadido por genes desconhecidos e o agricultor nem sabia o que era transgênico. É realmente um choque. Nós tivemos em Lagoa Seca um agricultor que trouxe uma variedade do Paraná, seu Zé Paraná, e ele jamais imaginaria que aquelas sementes que há mais de 50 anos ele vinha plantando ali, ele não plantava outra e nem deixava ninguém plantar outra, pudesse ter sido invadida por transgênicos. Quando o teste apontou contaminação, ele chorou muito na reunião. Ele perguntou “e agora, como vou fazer para recuperar essa semente?”.

Nós tivemos também o caso de seu Zé Pequeno, um Guardião símbolo do Banco de Sementes mais antigo aqui da região. Ele plantou o milho Jabatão dele e o vizinho achou por bem plantar um milho acima do dele e ele não viu.  A semente dele era inclusive uma semente bastante selecionada, com seleção massal para o Banco receber uma semente de bastante qualidade. Mas quando a gente testou deu contaminada e ele chorou bastante. Por sorte ele não perdeu a história desse milho porque nós tínhamos uma política no Banco Mãe de Semente, que toda semente que nós compramos para o fubá ou para Bancos de Sementes, guarda-se garrafas daquela variedade no Banco Mãe para que, se o agricultor tiver a semente contaminada, a gente possa devolver o gene de volta para ele, para que ele possa novamente multiplicar a sua mesma semente. Por sorte seu Zé Pequeno tinha, mas seu Zé Paraná não tinha, ele perdeu mesmo a semente e só ele plantava daquela semente. E foi difícil, é uma situação muito difícil essa.

A gente fica pensando nos agricultores do Paraná, que, além de ter a semente contaminada, veio o royalty, que além de apagar a história deles, os obrigou a pagar. É tudo isso, é uma tristeza muito grande. Seu Biruquinha vinha há mais de vinte anos plantando o milho Pontinha e jamais imaginava que o milho seria contaminado e foi, por um descuido de um vizinho, que também guardava sementes.

No semiárido, plantar em época diferente do vizinho é muito difícil, certo? Diante disso, como garantir estratégias de cuidado e parceria?

Euzébio (STTR Remígio): Aqui a gente tem dificuldade de plantar em uma época diferente da do vizinho porque os invernos são bastante curtos. Quando começa a chuva a gente tem que aproveitar para plantar. Na comunidade de Lagoa do Jogo, por exemplo, seu Paulo costuma ficar muito atento em quem vai trazendo milho diferente para a comunidade. Uma vez o vizinho, seu Antônio Palala, tinha comprado na cidade 20 kg de milho para o plantio e antes dele plantar seu Paulo trocou o milho de fora pela variedade Pontinha, para que ele plantasse milho crioulo e não aquele milho de fora. Em um acordo entre eles, eles conseguiram fazer essa troca. Além disso, nós começamos a fazer muitos encontros nas comunidades onde a gente pedia o milho para testarmos o milho, testávamos na própria comunidade, as pessoas viam o teste e com as sementes livres recebiam o diploma de Guardião das Semente da Paixão. Nós temos comunidades que ficam bastante atentas, como o assentamento Dorothy, localizado em Remígio, que os agricultores não aceitam entrar outras sementes, a não ser aquelas que eles têm lá. Eles guardam as sementes todo ano para plantar e ter uma unidade no Banco comunitário para proteger a variedade da comunidade.

Sílvinha (Agricultora): Aqui no Semiárido a gente sobrevive com pouca chuva, pouquíssima chuva. Tem vez que a gente perde na folhagem do milho, por isso a importância de estar em rede, de envolver vários municípios. Tem uns municípios que puxam mais para brejo, que chove mais e a gente tem que estar se ligando com os outros municípios, porque se aqui a gente não lucrar, o outro município vai e a gente vai comprar semente de boa qualidade. O pessoal aqui com os anos de seca, toda semente que é boa a gente reproduz e arranja uma maneira de deixar nos Bancos.

Há Bancos de Sementes, por exemplo, aqui em Queimadas que fazem bingo, recolhem dinheiro da própria associação e entre os agricultores quando há perda e a gente procura comprar essas sementes e a gente só compra fazendo o teste. A AS-PTA faz o teste e a gente compra essa semente livre de transgênico. Isso também é uma forma dos agricultores reconhecerem suas sementes. Eles conhecem a semente, conhecem a história e a produtividade de suas sementes.

 

Clique aqui e conheça o material da campanha.

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Solidariedade e Agroecologia – Cestas de produtos agroecológicos da agricultura urbana familiar são distribuídas na cidade do Rio de Janeiro  https://aspta.org.br/2021/03/25/solidariedade-e-agroecologia-cestas-de-produtos-agroecologicos-da-agricultura-urbana-familiar-sao-distribuidas-na-cidade-do-rio-de-janeiro/ https://aspta.org.br/2021/03/25/solidariedade-e-agroecologia-cestas-de-produtos-agroecologicos-da-agricultura-urbana-familiar-sao-distribuidas-na-cidade-do-rio-de-janeiro/#respond Thu, 25 Mar 2021 21:41:22 +0000 http://aspta.org.br/?p=18609 Leia mais]]> Ação comunitária ocorrida entre os dias 19 e 20 de março contemplou 231 famílias em situação de insegurança alimentar. Foram cerca de 4 toneladas de alimentos agroecológicos vindos de quintais e áreas de produção familiar.

Para realizar a acolhida e montagem dos alimentos, voluntários acordaram bem cedinho e se reuniram na Arena Carioca Dicró, espaço cultural localizado na zona norte da cidade.  

Os alimentos produzidos pela agricultura familiar chegaram de diferentes regiões dos Estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. O arroz veio da Cooperativa Camponesa Central do MST/MG, a farinha de mandioca da agricultora Thamiris Leandro Pinto do MST/RJ; o feijão de agricultores de Friburgo vinculados à UNACOOP; As raízes de inhame, aipim e batata doce vieram da agricultora Leodicea Lima Salles, de Magé; as hortaliças do agricultor Pedro Gonçalves, certificado como orgânico associado ao Sistema Participativo de Garantia – SPG da ABIO de Petrópolis, o pão é da cozinha comunitária do Arranjo Local da Penha, feito pelas mãos da culinarista Tatiana de Souza Silva, do empreendimento Dobalacobaco. E de fruto ainda tinha o Caqui, tradicionalmente cultivado pela associação de produtores orgânicos (Agroprata) no Maciço da Pedra Branca, com grande expressão cultural na zona oeste da cidade.

Mariana Portilho, assessora técnica da AS-PTA destaca: “No contexto de pandemia, em que muitos perderam seus empregos, a agricultura urbana e o trabalho em rede reafirmam suas potencialidades. As redes solidárias atuam por meio da compra direta de alimentos apoiando quem consome e quem produz. Dessa forma possibilita o escoamento da produção que poderia ser perdida e abastece com comida de verdade quem precisa.”

A produção nas hortas de quintais e em outros espaços coletivos, somada à mobilização territorial, demonstra a força que os Arranjos Locais têm para promover a segurança alimentar e nutricional (SAN), principalmente em cenários de instabilidade socioeconômica. A distribuição das cestas agroecológicas chama a atenção para a importância da sociedade civil na promoção de ações de combate à fome e à pobreza. Dessa forma, o desenvolvimento desse projeto estimula que ações de agricultura urbana sigam contribuindo para a segurança alimentar e nutricional SAN de famílias moradoras de comunidades cariocas.

Ana Santos, agricultora urbana que participou de todas as entregas até então realizadas pelo projeto Ações de Assistência Social e Saúde, completa: “Cansada mas feliz! Essa etapa preparatória de montagem foi ótima e a logística bem desenhada. Estamos no ápice da pandemia, cada processo deve ser feito de forma cautelosa. Estive em cada momento e hoje temos muitos aprendizados pra contar.”

Os alimentos foram destinados às famílias moradoras do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Campo Grande, Vargem Grande, Quilombo Dona Bilina, Quilombo Cafundá Astrogilda, Quilombo do Camorim e Pedra de Guaratiba. Os critérios de distribuição das cestas levaram em conta as famílias que têm maior urgência de assistência, considerando a quantidade de filhos, idosos e a situação socioeconômica. 

A rede solidária foi uma iniciativa da AS-PTA com organizações comunitárias, sendo elas Verdejar Socioambiental, Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM), Fundação Angélica Goulart (FAG), Mulheres de Pedra, Horta da Brisa Quilombos do Maciço da Pedra Branca, Feira da Roça de Vargem Grande, Feira Agroecológica de Campo Grande, Quintais da Colônia e Fiocruz Mata Atlântica.

A iniciativa teve o apoio da BB Seguros e do Banco BV, empresas do conglomerado Banco do Brasil, além da cooperativa de crédito COOPERFORTE, que destinaram recursos à Fundação Banco do Brasil para a promoção e gestão de ações de assistência social, prevenção e combate a pandemia de Covid-19.

Proteja e salve vidas!

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Conhecimentos unidos em proteção às sementes da Paixão https://aspta.org.br/2021/03/12/conhecimentos-unidos-em-protecao-as-sementes-da-paixao/ https://aspta.org.br/2021/03/12/conhecimentos-unidos-em-protecao-as-sementes-da-paixao/#respond Fri, 12 Mar 2021 15:18:32 +0000 http://aspta.org.br/?p=18589 Leia mais]]> O encontro dos saberes das famílias agricultoras com o acadêmico reforça o trabalho de monitoramento dos estoques dos bancos comunitários de sementes crioulas da Borborema

Um dos potenciais que a Agroecologia aporta aos territórios da agricultura familiar camponesa é a construção de diálogos e parcerias com os centros de pesquisa e conhecimento acadêmico, como as universidades. No território agroecológico da Borborema, no semiárido paraibano, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por meio dos departamentos de engenharia de produção, agroecologia e agronomia, desenvolve há cinco anos um trabalho que têm sido um ‘divisor de água’ no monitoramento participativo dos estoques de sementes crioulas dos bancos comunitários. Esta ação é desenvolvida no território há 12 anos.

Por meio da metodologia de pesquisa proposta pela UFPB, foi desenvolvido o ‘Sistema de Monitoramento da Biodiversidade de Sementes Crioulas’ que devolve a informação às comunidades por meio de um código de cores, facilitando a leitura e o entendimento das guardiãs e guardiões da biodiversidade.

Com jeito didático, a professora e doutora em Engenharia de Produção, Christine Saldanha, que coordena o estudo, resume os resultados do monitoramento que, por sua vez, já direcionam a ação prioritária: “A análise do conjunto das 145 variedades mostra que apenas cinco variedades encontram-se com estoques elevados, 14 com estoques bons, 15 regular, 47 estoques baixos e 64 estoques críticos, estas últimas exigindo estratégias de ação urgentes para evitar a erosão genética.”

Para além das análises quantitativas, Christine destaca, como um dos seus aprendizados, uma questão de ordem qualitativa fundamental para dar sentido à união dos saberes tradicionais e populares ao acadêmico: “A possibilidade dos envolvidos compreenderem criticamente sua região e sua história, reconhecendo a importância da articulação entre conhecimentos teóricos e conhecimentos tácitos para o desenvolvimento social sustentável.”

Como tudo o que é bem sucedido na vida gera vontade de ampliar e aprofundar, o trabalho de monitoramento dos estoques das sementes da Paixão gerou a pergunta: O que vamos encontrar nos bancos de sementes familiares se lançarmos um olhar semelhante? Movidos por este interesse, um trabalho experimental foi feito, no início do ano passado, com 27 bancos familiares em 11 municípios do território. Os resultados apontaram um horizonte interessante, demonstrando que agregar este campo de pesquisa vale muito a pena.

Dona de um olhar respeitoso e cheio de reverência ao trabalho das famílias agricultoras e das instituições de assessoria política e técnica que atuam no território, Christine é professora do Departamento de Engenharia de Produção (DEP) e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção e Sistemas (PPGEPS) da UFPB. Também, coordena o Grupo de Extensão e Pesquisa em Ergonomia (UFPB). Além de ser pesquisadora da Rede Brasil de Ergonomia e Resiliência.

Como surgiu tua aproximação enquanto pesquisadora com este trabalho com os bancos de sementes comunitários da Borborema?

Em 2014 eu comecei a desenvolver um projeto de pesquisa e desenvolvimento em conjunto com a AS-PTA, voltado para a Concepção e Implementação de Indicadores de Desempenho da Agricultura Familiar de base Agroecológica, financiado pela FAPESQ-PB [Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba]. A partir deste projeto fui conhecendo mais o trabalho desenvolvido pela AS-PTA e instituições parceiras, os agroecossistemas do território da Borborema, os agricultores e guardiões/guardiãs de sementes… Participei do Encontro dos Guardiões e Guardiãs de Sementes da Paixão, em Campina Grande, onde foram apresentados resultados do monitoramento das sementes nos BSCs [Bancos de Sementes Comunitários]. Fiquei encantada com a diversidade e com a relação dos agricultores com as sementes e, fiz alguns comentários e sugestões, agregando os conhecimentos da engenharia de produção e ergonomia. Em 2017, fui convidada para contribuir com o projeto de Monitoramento dos Bancos de Sementes Comunitários. Foi o início deste grande projeto participativo envolvendo o corpo técnico da AS-PTA, a Comissão de Sementes, docentes e discentes da Universidade. Um projeto de pesquisa e desenvolvimento que tem como objetivo, contribuir para a conservação da biodiversidade dos BSC e do Território da Borborema-PB.

Como tem sido o apoio dado por vocês a este monitoramento?

Este é um trabalho desenvolvido por muitas mãos, a partir de uma análise situada, de forma participativa, que conta bolsistas de Iniciação Científica (IC-CNPQ, IC-PROPESQ-UFPB) e de Extensão (PROBEX-UFPB; UFPB em seu Município). Desenvolvemos um Sistema de Monitoramento da Biodiversidade de Sementes Crioulas, das Sementes da Paixão, nos BSCs, que vem permitindo a classificação e análise da biodiversidade e dos estoques de semente. O Sistema de Monitoramento é uma ferramenta gerencial, que possibilita a tomada de decisão em diferentes níveis: nos BSC, nos municípios e no Território e, que poderá contribuir para a elaboração de Políticas Públicas. Os Cadernos de Sementes dos BSCs e os Anuários de Sementes dos Municípios e do Território, elaborados e entregues anualmente para os gestores dos Bancos [de Sementes], Sindicatos, Comissão de Sementes e AS-PTA, possibilitam a análise e o desenvolvimento de estratégias de ação. Buscamos elaborar os cadernos a partir de uma linguagem acessível, com a utilização de cores, facilitando a leitura e o entendimento dos resultados

O que foi agregado ao método que estava sendo usado antes de acompanhamento dos bancos?

O monitoramento permite fazer uma leitura anual da diversidade e dos estoques da Rede de BSCs do Território. Considero que a maior contribuição foi o desenvolvimento de uma escala de classificação dos estoques para os BSCs,  municípios e Território. Esta classificação – estoques elevado, bom, regular, baixo e crítico – permite o desenvolvimento de estratégias de ação para conservação da biodiversidade, em especial, das variedades com estoques críticos (EC ≤ 2 kg), que necessitam ser multiplicadas em campos de multiplicação de salvação.

Os resultados do monitoramento permitem que os gestores e associados dos BSC possam identificar e localizar espécies perdidas nas comunidades e fazer intercâmbio, receber doações de outros BSCs ou aporte do Banco Mãe. As variedades em estoques críticos ou muito baixo em um BSC, que não são classificadas como críticas no Território, podem ser multiplicadas nas próprias comunidades. No entanto, as 64 variedades que estão com estoque crítico no Território, muitas delas identificadas em um único BSC, precisam ser multiplicadas nos campos de multiplicação de salvação, garantindo assim sua conservação.

No monitoramento realizado no início de 2020, na Rede de Bancos Comunitários de Sementes do Território da Borborema-PB, foram identificados 60 BSCs em 12 municípios, distribuídos da seguinte forma: Queimadas (13), Solânea (8), Areial (6), Casserengue (6), Remígio (5), Massaranduba (7), Alagoa Nova (4), Arara (3), Esperança (3), Montadas (2), Lagoa Seca (2) e Lagoa de Roça (1), totalizando 1.061 associados e atendendo 1.490 famílias de agricultores nas comunidades correspondentes. Os 60 BSC estocavam, conjuntamente, 9,294 kg de sementes distribuídos em 11 espécies e 145 variedades, assim distribuídas: feijão de arranque (34 variedades), feijão macassar (23 variedades), fava (29 variedades), feijão guandú (2 variedades), milho (18 variedades), forrageiras (13 variedades), hortaliças (6 variedades), oleaginosas (5 variedades), tubérculos (3 variedades), fruteiras (8 variedades) e flores (3 variedades).

Dentre as 11 espécies identificadas, quatro destacam-se por possuírem estoque elevado (≥ 500 kg): feijão de arranque (34 variedades: 3.729,66 kg) e milho (18 variedades: 3.277,14 kg), feijão macassar (23 variedades: 1.119,15 kg) e fava (29 variedades: 768,96 kg. Duas espécies possuem estoques bons (igual ou maior que 100kg e menor que 500kg):  forrageira (13 variedades: 219 kg) e o feijão guandú (2 variedades: 184,05 kg). Três espécies com estoques baixos (maior que 2 kg e menor que 30 kg): hortaliças (6 variedades: 8,65 kg), oleoginosas (5 variedades: 6,65 kg), tubérculos (3 variedades: 3,85 kg). E duas com estoques críticos (igual ou menor que 2 kg): fruteiras (8 variedades: 1,75 kg) e flores (3 variedades: 0,60 kg).

A análise do conjunto das 145 variedades mostra que apenas cinco variedades se encontram com estoques elevados, 14 com estoques bons, 15 regular, 47 estoques baixos e 64 estoques críticos, estas últimas exigindo estratégias de ação urgentes para evitar a erosão genética.

Qual tem sido sua avaliação deste trabalho que se realiza em parceria universidade e comunidade?

Considero a parceria da universidade com a comunidade uma “ação de mão dupla”, em que os dois lados se beneficiam. Para a universidade, é uma oportunidade de aplicação prática dos conhecimentos em situações reais.

Ouvi depoimentos de que a aproximação com você está sendo bem positiva para a comunidade no sentido de retorno que algumas pesquisas realizadas antes não deram. Pra você, qual o papel da universidade numa ação como essa?

Este projeto possibilita a articulação de diversas áreas do conhecimento técnico com os conhecimentos tácitos, buscando, conjuntamente, desenvolver e implementar ações voltadas para desenvolvimento sustentável e, encaminhamento de questões sociais e ambientais prioritárias.

O que você percebe de aprendizados enquanto acadêmica que pode compartilhar com que tem interesse em desenvolver pesquisas ou projetos junto aos agricultores familiares?

É difícil descrever o aprendizado em um projeto como este, são inúmeros e em diversos âmbitos. Além profissional e pessoal, inclui aspectos mais globais, ambientais e humanos. Um aspecto que destaco, é a possibilidade dos envolvidos compreenderem criticamente sua região e sua história, reconhecendo a importância da articulação entre conhecimentos teóricos e conhecimentos tácitos para o desenvolvimento social sustentável.

Estão sendo desenhadas outras iniciativas em parceria com a AS-PTA e Polo da Borborema, não é? Elas já podem ser anunciadas?

No início de 2020, realizamos um monitoramento experimental em 27 Bancos de Sementes Familiares (BSF) em 11 municípios do território. Contabilizamos, nesta amostra, 9 espécies e 72 variedades, sendo 17 variedades diferentes das catalogadas nos Bancos Comunitários, comprovando a elevada diversidade dos BSCs e justificando a importância de pesquisas mais abrangentes. É uma ampliação do Sistema de Monitoramento que gostaria de desenvolver, entre outros projetos.

Você quer acrescentar algo mais?

Minha Gratidão a todas as pessoas que tornam este projeto uma realidade, em especial a Emanoel Dias da Silva, da AS-PTA, aos alunos bolsistas de Iniciação Científica e de Extensão da UFPB, Tharine da Silva Santos e Isabella de Oliveira Araújo (engenharia de produção), Daniel Ferreira da Silva (agroecologia) e, Vitória Azevedo de Andrade (agronomia) e, principalmente, a todos os agricultores familiares de base agroecológica do Território da Borborema, guardiões e guardiãs das Sementes da Paixão que conservam a biodiversidade do Brasil, um patrimônio genético e cultural da Humanidade.

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Festival virtual destaca a luta e o trabalho das mulheres guardiãs pela preservação da vida no Paraná https://aspta.org.br/2021/03/10/festival-virtual-destaca-a-luta-e-o-trabalho-das-mulheres-guardias-pela-preservacao-da-vida-no-parana/ https://aspta.org.br/2021/03/10/festival-virtual-destaca-a-luta-e-o-trabalho-das-mulheres-guardias-pela-preservacao-da-vida-no-parana/#respond Wed, 10 Mar 2021 12:21:12 +0000 http://aspta.org.br/?p=18580 Leia mais]]> Atividade que acontecerá amanhã (11/03), apresentará narrativas das experiências das guardiãs e momentos culturais, além do lançamento de cartilha construída coletivamente pelas mulheres que compõem a ReSA

Com o objetivo de celebrar e valorizar o trabalho das mulheres agricultoras familiares, assentadas da reforma agrária, indígenas e de comunidades tradicionais, a Rede Sementes da Agroecologia (ReSA), realizará na quinta-feira (11/03), às 19h, através das suas redes sociais, o Festival Guardiãs de Sementes do Paraná – Terra, alimento e preservação da vida pelas mulheres. O encontro se soma às diversas atividades realizadas pelas entidades e movimentos sociais na semana do Dia Internacional das Mulheres, celebrado no dia 8 de março.

As guardiãs do campo e da cidade, conhecidas pelo profundo respeito e relação muito próxima com a natureza e pela preocupação com todo o processo de resgate, multiplicação, colheita e armazenamento de sementes crioulas, contarão suas histórias de luta pela preservação da diversidade genética, da agrobiodiversidade, a produção diversificada de alimentos, inclusive em áreas urbanas, e os processos auto-organizativos em diferentes regiões do Estado, através de depoimentos, momentos culturais e de bate-papo.

Durante o encontro, está previsto o lançamento de uma cartilha que leva o mesmo nome do Festival. O material construído coletivamente pelas guardiãs e outras mulheres que integram a ReSA, traz as reflexões e análises das guardiãs em torno das sementes crioulas, da produção agroecológica de alimentos, direitos e legislação, políticas públicas e auto-organização, além de apresentar receitas de alimentos e chás medicinais.

A realização do Festival é resultado de ações de distribuição de sementes crioulas produzidas pelas mulheres guardiãs que ocorreram no Paraná durante o ano de 2020. Foram atendidas 23 comunidades da agricultura familiar, quilombolas, indígenas, assentamentos da reforma agrária e áreas urbanas, totalizando cerca de 2 mil famílias paranaenses, que receberam 185 variedades de sementes, entre elas grãos, mudas, plantas medicinais e ramas.

A distribuição, que contou com o apoio da ReSA e organizações que a integram, teve as mulheres como protagonistas da ação, justamente por compreender que são elas as responsáveis pelo armazenamento, plantio e colheita das sementes crioulas, e por consequência a produção de alimentos saudáveis.

A realidade das mulheres no campo

O Festival realizado pela ReSA e parceiros busca visibilizar o protagonismo das mulheres na produção de alimentos, na garantia da segurança alimentar e nutricional, principalmente no contexto atual de crise sanitária, econômica e humanitária provocado pela pandemia. A atividade também destaca o papel das guardiãs no fortalecimento da agrobiodiversidade. Além do mais, o festival e a publicação pretendem contribuir na desconstrução da ideia de que a produção de alimentos é feita majoritariamente pelos homens. Dados apresentados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em 2020, demonstram que a atividade das mulheres na produção da agricultura familiar chega a 80% em comparação à masculina em 2019.

Coletivos e movimentos de trabalhadoras rurais também apontam que ainda há obstáculos para a participação das mulheres em espaços sociais organizativos, como, por exemplo, as associações das suas comunidades. Dados do IBGE, apresentados no Censo Agropecuário de 2017, evidenciam a disparidade da participação das mulheres e homens associados às cooperativas. Enquanto eles somam 91,3% do total de associados destes espaços, elas ainda são apenas 8,7%.

Já os recursos públicos que incentivam e fortalecem a agricultura familiar, e por consequência viabilizam a independência financeira das mulheres, vêm sofrendo um grave desmonte e sucateamento por parte do Governo desde a mudança no cenário político em 2016. Ações direcionadas para as agricultoras são apontadas por movimentos campesinos como centrais para a autonomia financeira feminina. 

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), política que beneficia agricultoras, sofreu uma drástica redução orçamentária. Em 2012 o orçamento totalizava R$587 milhões atendendo 128,804 famílias, em 2019, foram R$ 41,3 milhões, beneficiando apenas 5.885 famílias. Já a proposta de auxílio emergencial para agricultores familiares aprovada pelo Congresso foi vetada por Jair Bolsonaro (sem partido) em agosto de 2020. O pagamento de cinco parcelas de R$ 600 para agricultores familiares, incluindo mulheres, poderia suprir necessidades das guardiãs. O Senado ainda não apreciou, até o momento, os vetos presidenciais.

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Demandas de agricultores(as) urbanos do Maciço da Pedra Branca são debatidas em atividades de campo https://aspta.org.br/2021/03/09/demandas-de-agricultoresas-urbanos-do-macico-da-pedra-branca-sao-debatidas-em-atividades-de-campo/ https://aspta.org.br/2021/03/09/demandas-de-agricultoresas-urbanos-do-macico-da-pedra-branca-sao-debatidas-em-atividades-de-campo/#respond Tue, 09 Mar 2021 17:41:39 +0000 http://aspta.org.br/?p=18574 Leia mais]]> Assessoria técnica e agroecológica no manejo do solo e ideias para produtos da sociobiodiversidade foram alguns dos temas conversados entre equipe e agricultoras(es) familiares e quilombolas do território do Maciço da Pedra Branca

Nesta última semana, colocamos o pé na terra, a máscara no rosto e seguimos em direção às áreas de produção agrícola que ficam no território do Sertão Carioca. Seguindo todos os protocolos de segurança frente à situação de Covid 19, visitamos os Sistemas Agroflorestais (SAFs) no Quilombo Cafundá Astrogilda e no Quilombo do Camorim, localizados na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

A ação faz parte de dois projetos que são realizados pelo Programa de Agricultura Urbana da AS-PTA no Rio de Janeiro, o projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta e o projeto Redes Locais De Produção e Abastecimento Alimentar:  Fortalecendo laços de produção, comercialização e consumo de alimentos saudáveis, mais conhecido como Arranjos Locais.

Ingrid Pena, coordenadora geral do projeto Sertão Carioca destaca que, apesar das dificuldades decorrentes do momento da pandemia, as atividades de campo são indispensáveis, “Elas ajudam a identificar demandas e estreitar os laços com as comunidades participantes. A atividade também ajuda a traçar as estratégias e pensar nos melhores caminhos para desenvolvermos as ações” destacou.

Quilombo do Camorim

A visita começou no Quilombo do Camorim. O território foi reconhecido pela Fundação Palmares, em 2014, como área de remanescentes de negros escravizados, e, em 2018, teve uma área identificada como Sítio Arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artsítico (IPHAN).

No Camorim, fomos recebidos pela liderança quilombola Adilson Almeida, da Associação Cultural do Quilombo do Camorim (ACQUCA), grupo representativo do Quilombo do Camorim no Projeto Sertão Carioca.

Lá, andamos por uma verdadeira floresta em pé que inclui espécies nativas, frutíferas como citrus, cajá e cambucá e também temperos, ervas medicinais e plantas alimentícias não convencionais. Adilson conversou conosco sobre o trabalho de educação ambiental com crianças que realiza em parceria com escolas, compartilhou desafios e também boas ideias para o espaço da horta comunitária.

Renata Souto, assessora agrícola do projeto, foi a educadora responsável por organizar a horta junto com a comunidade em 2015, destaca que a visita busca apoiar e incrementar o trabalho que já existe por lá. “A comunidade já desenvolve o manejo agroecológico e a produção de mudas e temperos. Nossa ideia é incentivar a produção, e incluí-la dentro da linha de produtos da sociobiodiversidade que vamos construir” destaca Renata.

Temperos e outros produtos de fácil beneficiamento estão previstos para comercialização e integrarão a linha de produtos da sociobiodiversidade, ação que faz parte da campanha Produtos da Gente, também realizada por meio do programa de AU da AS-PTA.

Quilombo do Cafundá Astrogilda

Em Vargem Grande, no Quilombo Cafundá Astrogilda, território que também foi reconhecido pela Fundação Palmares, em 2014, como área de descendentes de quilombolas, o cuidado com a terra e a agricultura são heranças de toda essa ancestralidade presente no território até hoje.

A banana cultivada no Maciço já ganhou um prêmio, sendo reconhecida como maravilha gastronômica do Rio de Janeiro, e a comunidade do Quilombo Cafundá Astrogilda é grande produtora dessa delícia gastronômica. Diante de uma grande diversidade de espécies nativas medicinais no meio da floresta, reforçamos a necessidade de apoiar o manejo do solo e a logística da comercialização da produção.

Fomos visitar o quintal da Tati, espaço com enorme diversidade de plantas ornamentais, medicinais, ervas para temperos e grande criatividade na organização do local, incluindo itens de artesanato feitos por sua filha. Conversamos sobre maneiras de beneficiar as ervas para chás e a comercialização de mudas feitas por ela.

Outros temas de assessoria técnica identificados foram o manejo de pragas, as doenças no bananal e a necessidade de incremento da produção com equipamentos simples para realizar a irrigação.

Adilson Mesquita Júnior, que é bisneto da matriarca Astrogilda, que dá nome à comunidade, acompanhou nossa visita.

Ele conta que são duas as principais demandas que identifica em seu território: apoio técnico e a permanência das novas gerações no trabalho da agricultura urbana. Adilson Jr, que possui um quintal rico em biodiversidade com pimenta, maracujá, inhame, café, palmito de pupunha, abacate, juçara, cana, graviola e banana destaca que “a visita permitiu conversar sobre o projeto e mostrar a proposta de trabalho. Permitiu também que a gente, que mora aqui no território, pudesse falar sobre a forma como a gente faz agricultura e com isso ajudar a pensar como devem ser as ações para cá” destacou Adilson, que é estagiário do projeto e estudante do curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Letícia Ribeiro, assessora agrícola da AS-PTA, destaca que a visita permite interação, troca de conhecimento e de informações. “Ir para o local é muito importante para pensar o que vamos desenvolver. A visita ajudou a gente a fazer um diagnóstico das unidades produtivas e identificar algumas necessidades, como adubação, calagem e adoção de algumas práticas de manejo”.

No plano de trabalho do projeto Sertão Carioca, a visita compõe o eixo ambiental das ações, e ajuda na coleta de informações para a implantação de 30 unidades agroflorestais / hortas florestas, visando a ampliação do elemento arbóreo nativo nas comunidades situadas no Parque Estadual da Pedra Branca e em sua zona de amortecimento.

Já no plano de trabalho do projeto Arranjos Locais o objetivo é fortalecer os mercados e promover a saúde e a soberania alimentar através da agricultura urbana nas favelas, quilombos e comunidades da cidade do Rio de Janeiro de modo participativo.

Apoios e Patrocínios

O Projeto Sertão Carioca: Conectando Cidade e Floresta é realizado pela AS-PTA, com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Já o projeto  Redes Locais de Produção e Abastecimento Alimentar:  Fortalecendo laços de produção, comercialização e consumo de alimentos saudáveis tem apoio da Misereor. Ambos são realizados por meio de parcerias comunitárias que intervêm no planejamento e na tomada de decisões das iniciativas.

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Depois do sucesso da Marcha virtual, quem duvida da capacidade das mulheres da Borborema de superar desafios? https://aspta.org.br/2021/03/09/depois-do-sucesso-da-marcha-virtual-quem-duvida-da-capacidade-das-mulheres-da-borborema-de-superar-desafios/ https://aspta.org.br/2021/03/09/depois-do-sucesso-da-marcha-virtual-quem-duvida-da-capacidade-das-mulheres-da-borborema-de-superar-desafios/#respond Tue, 09 Mar 2021 12:50:44 +0000 http://aspta.org.br/?p=18561 Leia mais]]> Com capricho nos detalhes e programação, a 12ª edição da Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia manteve aceso o fogo da revolução

Com alegria, cantoria e amor é que se faz uma marcha virtual com as mulheres. Porque as mulheres, quando se juntam para defender a vida, vibram no amor, na alegria e na solidariedade. Foi assim que a 12ª edição da Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia aconteceu no entardecer do dia 8 de março de 2021, no Dia Internacional das Mulheres, no território da Borborema, no Semiárido paraibano.

Não teve pandemia, nem baixa cobertura de internet na zona rural que impediram as mulheres agricultoras de dizerem ao mundo o que elas querem para si, para suas famílias, para as comunidades rurais, para todas as mulheres do planeta.

As diversas vozes femininas anunciaram que querem vacina para todas as pessoas e rápido. Querem respeito às suas vidas. Querem a divisão justa do trabalho doméstico com seus companheiros. Querem o fim da violência doméstica. Querem educação contextualizada do campo. Querem o SUS forte. Querem o auxílio emergencial para as famílias agricultoras. Querem produzir e vender os alimentos agroecológicos. Querem solidariedade. Querem construir uma sociedade mais humana, mais justa, mais fraterna, entre tantos outros quereres.

Como todos os anos acontece nas edições da Marcha, o Grupo de Teatro Amador do Polo da Borborema preparou uma encenação, que foi gravada e mostrada em vídeo para todo mundo. Na peça, a personagem Margarida era requisitada o tempo todo, por todo mundo da família, para servir. O marido exigiu a presença dela na roça. O sobrinho, que voltou pro sítio porque sua mãe se desempregou e na cidade é muito mais difícil de viver, a chamou quando teve problema com a internet e não entendeu como fazer a tarefa. A mãe idosa pediu sua ajuda para ir ao banheiro. E Margarida ainda tinha que dar conta de suas tarefas no arredor de casa, cuidar dos animais, cozinhar, limpar a casa… E isso tudo sem ter nenhum dedinho de prosa com as vizinhas, nenhum momento de descanso.

A denúncia da sobrecarga de trabalho é uma realidade na vida das mulheres do campo e da cidade, principalmente, agora quando o país contabiliza mais de 11 milhões de casos de Covid confirmados. “Sofremos mais com a falta de medidas de combate à pandemia porque estamos no centro de sustentação da vida. Assumimos a função de cuidados dos nossos doentes. Nós, mulheres, temos um papel fundamental nos cuidados com a alimentação, com a agroecologia. Contribuímos com a segurança alimentar e nutricional no campo e na cidade”, assegurou Mazé Morais, secretária de Mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag).

Se a pandemia trouxe muita coisa ruim, ela também desafiou as mulheres a abrirem outras frentes de comercialização dos alimentos tirados de seus quintais, cultivados sem veneno, com sementes livres de transgenia. Marlene Henriques, agricultora familiar agroecológica e sindicalista de Lagoa Seca, deu seu testemunho a respeito das vendas pela internet, o que ela chamou de “aprender a conviver com o mercado”.

Ao final de seus minutos de fala, Marlene conclamou as mulheres agricultoras como ela: “São tempos difíceis e vemos que as coisas não estão mudando. Por isso, temos que continuar fazendo a nossa agroecologia”.

Um dos momentos altos da live foi a participação das mulheres desde as suas comunidades. A primeira comunidade a contagiar com entusiasmo as espectadoras da live foi o Sítio Palma, em Solânea. “Não importa o que aconteça. Se tem pandemia, ou se não tem, as mulheres continuarão marchando”, afirmou a jovem Joana D’Arck Pê de Nero.

E assim se sucederam as imagens, cantorias, gritos de guerra e palavras de ordem de comunidade em comunidade. Entre uma e outra, o canto era essa marchinha: “Ô abre alas que as mulheres vão chegar. Com esta marcha muita coisa vai mudar. Nosso lugar não é no fogo ou no fogão. A nossa chama é o fogo da revolução”.

As falas eram todas fortes, sentidas, vindas do coração. Não eram palavras soltas ao vento. Elas tinham o poder de tocar cada uma que lá estava. Um termômetro disso foi a enxurrada de comentários no Youtube. Mesmo em tempos de lives esvaziadas, a Marcha virtual chegou a ter mais de 200 computadores e celulares conectados. Sabendo que nas comunidades, a transmissão era acompanhada por várias mulheres, o alcance da live foi surpreendente.

“Ficamos imensamente surpreendidas com a capacidade de superação das mulheres em suas comunidades. Por um lado, o reencontro era muito desejado, por outro, tínhamos o imenso desafio da inclusão digital. Criamos um grupo de WhatsApp com 250 mulheres lideranças de várias comunidades e a partir dali, fomentamos nas últimas duas semanas a energia da Marcha. Foram mais de 1345 mensagens no chat do Youtube, outras tantas nos Facebooks do Polo da Borborema e da AS-PTA por onde conseguimos ter um total de 1253 engajamentos com a publicação. A Marcha acabou chegando para as nossas mulheres, lá nas comunidades”, comenta Adriana Galvão Freire, assessora do movimento de mulheres.

Se a live foi emocionante, com um capricho especial em cada detalhe da transmissão, nas camisas, máscaras, no cenário que acolheu as apresentadoras Roselita Victor e Maria do Céu Silva Batista, não poderia ter um fim sem graça. Quem abrilhantou o encerramento, com sua voz potente de mulher negra, foi a companheira Lia de Itamaracá.

Há anos, Lia participa da marcha, canta junto às milhares de agricultoras e as convida a dançar ciranda, lembrando-as de que devem seguir na vida assim: de mãos dadas, irmanadas em círculo, dançando e cultivando alegria em seus corações. Assim se vence qualquer obstáculo. E a realização desta live é uma prova perfeita disto.

E o que virá depois da Marcha? – Terminada a live, a Marcha segue firme nas comunidades rurais. Com cuidados para não pôr as mulheres em risco, o processo de debate e reflexão sobre o tema ‘Sem cuidado não há vida” vai acontecer em algumas comunidades rurais da Borborema. A intenção é que as várias reuniões comunitárias envolvam cerca de 600 mulheres.

A organização da Marcha é da AS-PTA e Polo da Borborema, uma rede formada por sindicatos rurais, mais de 150 associações comunitárias, uma associação de produtores agroecológicos, a EcoBorborema, e uma cooperativa de agricultores e agricultoras familiares inaugurada em janeiro passado.

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Para conhecer o processo preparatório, clique em:

no YouTube: Playlist da 12a. Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia

no Instagram Marcha pela Vida das Mulheres

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Campos de multiplicação de sementes: a experiência do Projeto Agrobiodiversidade no Semiárido https://aspta.org.br/2021/03/03/campos-de-multiplicacao-de-sementes-a-experiencia-do-projeto-agrobiodiversidade-no-semiarido/ https://aspta.org.br/2021/03/03/campos-de-multiplicacao-de-sementes-a-experiencia-do-projeto-agrobiodiversidade-no-semiarido/#respond Thu, 04 Mar 2021 00:12:03 +0000 http://aspta.org.br/?p=18547 Leia mais]]>
Ilustração: Priscila Helena Machado.

Os campos comunitários de multiplicação de sementes vêm ganhando força no semiárido brasileiro. A proposta favorece o resgate de variedades locais e promove espaços dedicados a ampliar o conhecimento sobre as sementes crioulas. Campos de sementes são também implantados em outras regiões e têm potencial para fortalecer a luta em defesa das sementes em todo o país.

No final de 2020, a Embrapa Tabuleiros Costeiros divulgou uma publicação em que apresenta passo a passo a metodologia para implantação de campos de multiplicação de sementes. A informação é baseada na experiência do Projeto Agrobiodiversidade no Semiárido (InovaSocial), executado em parceria com organizações sociais ligadas à Articulação do Semiárido Brasileiro – ASA.

Intitulada “Manejo comunitário da agrobiodiversidade: produção agroecológica de sementes de variedades crioulas por agricultores familiares”, a publicação destaca que o avanço de experiências comunitárias de produção coletiva de sementes de variedades crioulas vem favorecendo sua comercialização pelas próprias comunidades.

Apresentamos a seguir um resumo dos temas abordados na publicação sobre (i) sementes crioulas nas políticas públicas; (ii) contaminação por transgênicos; (iii) o passo a passo da implantação dos campos de sementes e (iv) o consentimento prévio e informado das comunidades.

Semente crioulas nas políticas públicas

Os programas de compras públicas da agricultura familiar são uma forma de comercializar e ampliar a circulação de sementes crioulas. Desde seu início, em 2003, o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA adquiriu sementes dos agricultores e agricultoras. Além de representar mais uma opção de renda, a comercialização de sementes evidencia também o reconhecimento do papel das famílias na conservação e multiplicação de variedades localmente adaptadas. Em 2012, a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica ampliou as possibilidades de comercialização, eliminando as restrições até então impostas pelo decreto que regulamentou a lei de sementes, que restringia a distribuição das sementes crioulas aos agricultores associados de uma mesma organização. Atualmente, é permitida a distribuição, troca e comercialização das sementes, inclusive entre agricultores e agricultoras de diferentes estados. Importante lembrar que a mesma lei de sementes assegura que as variedades crioulas não podem ser excluídas dos programas públicos para a agricultura familiar.

Na continuidade desse processo, foi regulamentada, em 2014, a modalidade “aquisição de sementes” no PAA, estabelecendo que até 5% do orçamento do Programa deveriam ser destinados à compra de sementes, aí incluídas as variedades crioulas e excluídas as transgênicas.

Com a crescente redução do orçamento do PAA, sobretudo a partir de 2016, muitos governos estaduais, sempre impulsionados pelas organizações locais, passaram a chamar para si a iniciativa de promover a produção e uso das sementes crioulas. É o caso, por exemplo, dos estados de Alagoas, Rio Grande do Norte, Bahia, Sergipe e Piauí. No Espírito Santo e Pernambuco, estão em debate leis estaduais, enquanto que na Paraíba já vigora uma lei anterior de apoio aos Bancos de Sementes Comunitários, que, no entanto, não tem sido apoiada pelos últimos governos.

A publicação da Embrapa lembra acertadamente que nem todas as ações públicas no campo das sementes favorecem as variedades crioulas. Há casos em que o dinheiro público é usado para comprar grandes quantidades de poucas variedades de sementes, não necessariamente adaptadas aos locais onde serão distribuídas. Há também o caso de estados da região sul, em que programas chamados de “troca-troca” estimulam os agricultores e agricultoras a trocarem suas sementes próprias pelas transgênicas. No caso do milho, a publicação destaca que a ocorrência de secas, somada ao avanço de variedades híbridas e transgênicas, pode ocasionar erosão genética da espécie.

A contaminação pelos transgênicos

A preocupação com os transgênicos se justifica pela crescente ocorrência de casos de contaminação de variedades locais. Na safra 2018/19, no âmbito do Programa Sementes do Semiárido, coordenado pela ASA, foram realizados 588 testes de transgenia junto a Casas e Bancos Comunitários de Sementes nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Foi então identificada contaminação transgênica em 29% das amostras de milho crioulo testadas. Esse percentual pode ser considerado elevado, ainda mais considerando-se que as amostras foram coletadas junto a guardiãs e guardiões de sementes crioulas, que há tempos dispensam cuidado especial à preservação de suas variedades.

As sementes dos lotes contaminados não poderão ser mais plantadas. Nesses casos, os agricultores e agricultoras devem recorrer às Casas e Bancos de Sementes ou a outros agricultores/as para repor suas variedades. Esse é mais um custo social embutido no modelo transgênico, que deve ser assumido por aqueles que não querem plantar essas sementes.

O passo a passo dos campos de sementes

O projeto Agrobiodiversidade no Semiárido apoia-se na experiência de mais de 20 anos da ASA na mobilização de comunidades rurais para a construção de cisternas de captação e armazenamento de água da chuva para o consumo doméstico e a   produção agrícola. A presença dessas estruturas nas propriedades permite irrigar os campos de multiplicação de sementes fora da época do plantio. Dessa forma, é diminuída a chance de contaminação cruzada do milho.

A implantação dos campos tem início com o chamado “pré-campo”, que é uma etapa de sensibilização da comunidade para a atividade e para discutir temas ligados à conservação das sementes, tais como autonomia produtiva, direitos dos agricultores e agricultoras, políticas públicas, riscos dos transgênicos e importância de parcerias para a gestão compartilhada das sementes. Nos encontros de sensibilização também são definidas orientações sobre o local de instalação e tamanho do campo, as variedades a serem multiplicadas, o espaçamento e tratos culturais a serem adotados. A publicação mostra que essa etapa é também orientada para mapear e caracterizar as variedades existentes nas comunidades. Para tanto, os agricultores e agricultoras são convidados a apresentarem nos encontros amostras das sementes que cultivam e conservam. São também definidos as formas de organização e os indicadores para o acompanhamento e avaliação dos campos. Finalmente, é discutido como será feita a repartição das sementes colhidas, por exemplo, reforçando os estoques de Bancos e Casas de Sementes.

Na fase de pré-campo são também realizados os testes de germinação e, no caso do milho, os testes de transgenia. Um critério importante para a escolha das variedades a serem multiplicadas é priorizar variedades mais raras, aquelas com menor estoque nos Banco e Casas de Sementes ou as que os agricultores e agricultoras entendem como mais ameaçadas.

Uma vez definidos os acordos iniciais, a etapa seguinte é a da implantação do campo. Tanto esse momento, como as etapas de capina da área e marcação das melhores plantas devem ser executados com o envolvimento de todo o grupo.

Duas avaliações principais são feitas ao longo do ciclo da cultura: no caso do milho, a primeira ocorre quando a planta está no ponto de pamonha e a segunda já no ponto de colheita. É importante a participação coletiva nos dois momentos, pois são avaliações complementares. Com as plantas ainda verdes, é possível avaliar a incidência de doenças e pragas e, com a planta já seca, o foco da avaliação recai sobre a qualidade da espiga. A seleção massal considera a avaliação da planta e da espiga (vagens, frutos etc.). Nas etapas seguintes, também de participação coletiva, é feita a avaliação geral dos resultados e também executadas a secagem, a classificação e o armazenamento das sementes já selecionadas e beneficiadas.

Consentimento das comunidades

Visando à proteção dos direitos dos agricultores e agricultoras às suas sementes (em especial o conhecimento acumulado e em desenvolvimento sobre elas), os autores da publicação assinalam que é importante que os guardiões e as guardiãs das sementes que serão utilizadas nos campos estejam cientes e autorizem previamente a realização das ações de pesquisa. Essa medida visa a assegurar que o projeto será realizado em conformidade com os usos, costumes e tradições ou protocolos comunitários.

Nas palavras dos autores, “Deve-se ressaltar, no entanto, que não se trata apenas do cumprimento de uma formalidade, pois o componente mais importante de todo o processo é a dimensão ética, o esclarecimento sobre todas as ações que serão efetivadas em determinada pesquisa, a forma como o conhecimento tradicional será utilizado e, principalmente, o reconhecimento de quem é o provedor deste conhecimento, sempre de acordo com seus usos, costumes e tradições do local/território”.

Os campos comunitários de multiplicação de sementes são um espaço de integração de conhecimentos acadêmicos e conhecimentos dos agricultores e agricultoras, de compreensão de suas práticas e de aprimoramento dos processos de multiplicação das variedades crioulas, visando ao manejo e à conservação da agrobiodiversidade e à produção continuada de sementes livres e adaptadas às realidades locais.

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Mesmo diante da ausência de políticas de fomento dirigidas, agricultoras se destacam na produção de alimentos saudáveis  https://aspta.org.br/2021/03/03/mesmo-diante-da-ausencia-de-politicas-de-fomento-dirigidas-agricultoras-se-destacam-na-producao-de-alimentos-saudaveis/ https://aspta.org.br/2021/03/03/mesmo-diante-da-ausencia-de-politicas-de-fomento-dirigidas-agricultoras-se-destacam-na-producao-de-alimentos-saudaveis/#respond Wed, 03 Mar 2021 23:44:57 +0000 http://aspta.org.br/?p=18540 Leia mais]]> Mulheres representam 80% na agricultura familiar, mas ainda enfrentam muitas dificuldades para garantir condições justas de trabalho.
Festival evidenciará o protagonismo das guardiãs na preservação da agrobiodiversidade no Paraná.

A produção de alimentos é apontada pelo senso comum como algo naturalmente masculino. Mas, nesse Dia Internacional da Mulher, celebrado no 8 de março, reforça-se a importância e urgência de refletir sobre as verdadeiras protagonistas desse trabalho, as mulheres. O trabalho das agricultoras, que produzem comida durante o ano todo, tem se tornado cada dia mais reconhecido, principalmente no contexto da pandemia, onde a fome assola a população brasileira.

De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 19% das áreas rurais são administradas por mulheres, ou seja, dos 5,07 milhões de estabelecimentos rurais, 947 mil são coordenados e mantidos por elas. Entretanto, esse número poderia ser muito maior, já que, por reflexo do machismo, muitas mulheres que lideram a produção em suas propriedades não estão registradas como proprietárias das terras que administram. 

Apesar do aumento dos números em 2017 em relação ao censo de 2006, onde as agricultoras representavam 12,7% no cuidado com a terra e a produção de alimentos, ainda há muitos desafios a serem superados para garantir a qualidade de vida, a elevação da autoestima, a igualdade de gênero, a autonomia e a produção diversificada de alimentos, principalmente das mulheres da agricultura familiar, assentadas e acampadas, faxinalenses, indígenas e quilombolas.

Um levantamento realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em 2020, mostra que a atividade das mulheres na agricultura familiar chega a 80% em comparação à masculina em 2019. Segundo a pesquisa, a maior presença feminina foi registrada na agricultura familiar, seguida dos assentamentos da reforma agrária, quilombos, agroextrativismo, pesca artesanal e comunidades indígenas.

Esses dados demonstram que são as mulheres que cuidam da terra, das águas e das sementes, garantindo a soberania e a segurança alimentar e nutricional de suas famílias e da sociedade em geral, já que de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), 70% dos alimentos consumidos no Brasil são produzidos pela agricultura familiar. Assim, fica claro que o papel da mulher camponesa vai muito além dos trabalhos domésticos e de cuidados com as crianças, pessoas  idosas ou doentes.

Para a agricultora e integrante do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) no Paraná, Ana Claudia Rauber, as mulheres têm papel histórico na preservação das sementes e na produção de alimentos saudáveis.

“As mulheres apresentam papel fundamental para a conservação das sementes e, consequentemente, para a produção de alimentos saudáveis. Aliás, foram as mulheres que resistiram historicamente aos impactos trazidos a partir da Revolução Verde, principalmente quanto à substituição das sementes por outras “melhoradas” e até transgênicas, quando guardaram quase de forma clandestina, escondida, ali enrolada num pedacinho de pano a preciosidade chamada semente crioula. Desde a Revolução Verde mantiveram suas hortas, pomares, roças de forma diversificada e livre de químicos, e hoje continuam lutando por agroecologia e soberania alimentar, reconhecendo a importância da produção dos alimentos saudáveis a partir das sementes crioulas”, comenta.

Ao tratar  da produção de alimentos saudáveis, não são poucas as lutas para superar as dificuldades que as camponesas enfrentam no dia a dia. Além de ter que lidar com as mudanças climáticas, o risco de contaminação por agrotóxicos e transgênicos nas sementes e plantações, e a falta de reconhecimento do protagonismo na manutenção e geração de renda, as agricultoras ainda precisam lidar com a escassez de investimentos em políticas públicas específicas para elas na agricultura familiar.

Ausência de medidas governamentais voltados para as agriculturas

Dentre as políticas públicas destinadas para a agricultura familiar, como a de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), Programa Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), a única ação do Estado  que é exclusiva para as agricultoras é o Pronaf Mulher, um subprograma que integra o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

O Pronaf Mulher, criado em 2003, possibilitou que as agricultoras tivessem acesso a recursos para melhorar e investir em novas atividades produtivas, além de garantir a expansão da diversidade de alimentos. Essa linha de crédito reconheceu as mulheres como protagonistas na produção de alimentos, potencializou a inclusão delas no processo produtivo, gerou renda, ampliando a autonomia feminina no campo.

Contudo, para atender todas as linhas de crédito do Pronaf, foram anunciados no Plano Safra 2020/2021, pela atual gestão, R$33 bilhões para os pequenos produtores. Porém, pela primeira vez após 20 anos desde a criação do Programa, não foi divulgado nenhum pacote exclusivo de políticas públicas para o fortalecimento da agricultura familiar. A justificativa para isso foi a existência de uma “única agricultura” no Brasil, o que demonstra um retrocesso, colocando em xeque a conquista e a continuidade do Pronaf, inclusive a linha de crédito específica para as mulheres agricultoras.

Os recursos públicos destinados para criar condições e incentivar a agricultura familiar a produzir alimentos para a população brasileira, vem sofrendo um grave desmonte e sucateamento por parte do Estado desde a mudança no cenário político em 2016. Podemos citar como exemplos, a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrária (MDA), a redução drástica no orçamento do PAA Alimentos que teve em 2012 um montante de R$587 milhões atendendo 128,804 famílias, já em 2019, foram 41,3 milhões para 5.885 famílias, e recentemente o veto ao auxílio emergencial para os agricultores familiares nesse momento de pandemia, que atenderia inclusive as mulheres. 

Essas ações demonstram que governo vem retirando sua responsabilidade perante a promoção da soberania e segurança alimentar e nutricional da população, o que levou o Brasil a voltar a passos largos para o Mapa da Fome em 2018, do qual havia saído em 2014.

Além de garantir alimentos à mesa, as políticas públicas também viabilizam a independência financeira das mulheres, o que assegura até mesmo o enfrentamento à violência sofrida por elas. Ter autonomia financeira também proporciona às agricultoras a elevação da autoestima e maior possibilidade de rompimento de vínculo com relacionamentos agressivos. Segundo Ana Claudia, a autoestima das camponesas tem melhorado bastante, entretanto precisa ser trabalhada diariamente, e que para isso é preciso superar alguns estereótipos e preconceitos construídos ao longo da história.

“A autoestima das agricultoras é algo que está em construção, já que considera vários fatores, talvez o mais importante seria o reconhecimento enquanto camponesas, que é algo a princípio negativo, desde as histórias do Jeca Tatu. Esta representação colocava os sujeitos do campo como inferiores. Então, é preciso quebrar tudo isso. É preciso olhar para si, se valorizar enquanto mulher camponesa, de reconhecer a importância do trabalho para a produção de alimentos e manutenção da vida, o reconhecimento da identidade camponesa. Por aí começa a elevar a autoestima da mulher camponesa”, ressalta.

Trabalho para além da vida privada

Foto: Giorgia Prates/AS-PTA

O protagonismo das mulheres na produção de alimentos evidencia o papel delas na manutenção da vida. Entretanto, historicamente elas foram invisibilizadas, cabendo obrigatoriamente às mulheres apenas os trabalhos de cuidados com a casa e outras pessoas, onde o único espaço a ser ocupado era de uma atividade que não era nem reconhecida como trabalho. Nesse contexto, o direito de participação em diferentes espaços sociais organizativos ainda é muitas vezes negado para o público feminino. Um exemplo nítido disso é a atuação nas associações e cooperativas das suas comunidades. Dados do IBGE, apresentados no Censo Agropecuário de 2017, evidenciam a disparidade da participação das mulheres e homens associados às cooperativas. Enquanto eles somam 91,3% do total de associados destes espaços, elas ainda são apenas 8,7%.

Para Antonia Capitani, agricultora e moradora do Assentamento Contestado, no município da Lapa, sul do Paraná, as mulheres camponesas têm conquistado espaços importantes em diferentes áreas, mas ainda há muito o que se avançar no direito de participação. 

“Até uma época as mulheres não tinham nenhum direito, não podiam votar, não tinham acesso à terra, não podiam estudar, na agricultura nem sequer podiam ter a nota de produtora, sempre era dos homens esse direito. Isso tem mudado. Hoje temos mulheres dirigentes e coordenadoras nas comunidades, atuando na educação, saúde, em toda parte, até os projetos de produção, como, por exemplo, o PNAE, atualmente muitos estão no nome da mulher. Temos conquistado alguns espaços, não é igual aos homens, mas estamos devagarzinho ocupando espaços que são nossos por direito”, afirma.

A privação do acesso à terra é um fator que tradicionalmente limita a atuação das mulheres. Na grande maioria das vezes o título da terra fica no nome do patriarca da família (pai, marido ou irmão), o que acaba restringindo o direito da mulher de opinar sobre a produção e a possibilidade de implantar novas práticas agrícolas. Além do mais, quem tem o título formal da posse é quem determina quais são as atividades que serão desenvolvidas, tornando o trabalho da mulher apenas como coadjuvante, sem uma participação ativa nas tomadas de decisão. Quando elas conseguem um pequeno espaço de terra, normalmente essas são destinadas para a plantação das “miudezas”.

Atualmente, o título e concessão de uso da terra, podem ser conferidos ao homem, à mulher, ou ao casal, porém tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 810/20, que obriga o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a adotar medidas para estimular e facilitar a titulação de terras em nome de mulheres trabalhadoras rurais familiares, o que pode alavancar o número de terras no nome das mulheres.

Outro fator limitante na autonomia das mulheres é o acesso à tecnologia adequada para se trabalhar em pequenos espaços e com maior diversificação, já que as tecnologias existentes são projetadas para a grande produção e para a monocultura. Assim, grande parte dos trabalhos realizados pelas agricultoras é braçal, o que limita a produção diversificada de alimentos.

Festival Guardiãs das Sementes

Com o objetivo de evidenciar o protagonismo das mulheres guardiãs de sementes do campo, da cidade e da floresta na preservação da agrobiodiversidade e na geração de alimentos saudáveis, na quinta-feira (11/03), às 19h, será realizado o Festival Guardiãs de Sementes do Paraná, com o tema: Terra, Alimento e Preservação da Vida pelas Mulheres. O evento acontecerá de forma online através das redes sociais da Rede Sementes da Agroecologia (ReSA) e das entidades que a integram.

Na semana do Dia das Mulheres, o Festival apresentará através de vídeos, depoimentos, momentos culturais e bate-papos, as guardiãs das sementes crioulas – agricultoras que tem um profundo respeito e uma relação muito próxima com a natureza, e se preocupam com todo o processo de resgate, multiplicação, colheita e armazenamento de sementes, seja para a sua própria produção, partilha ou para a comercialização das sementes. Na atividade ainda será lançada a publicação elaborada pelas guardiãs e integrantes da ReSA. 

O Festival é resultado de ações de distribuição de sementes crioulas produzidas pelas mulheres guardiãs, que ocorreram no Estado durante o ano de 2020. Foram atendidas 23 comunidades da agricultura familiar, quilombolas, indígenas, assentamentos da reforma agrária e áreas urbanas, totalizando cerca de 2 mil famílias paranaenses, que receberam 185 variedades de sementes, entre elas, grãos, mudas, plantas medicinais e ramas.

A distribuição que contou com o apoio da Rede Sementes da Agroecologia (ReSA) e organizações que integram a articulação, teve as mulheres como protagonistas da ação, justamente por compreender que são elas as responsáveis pelo armazenamento, plantio e colheita das sementes crioulas, e por consequência a produção de alimentos saudáveis.

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Apesar da pandemia e da seca que se estende na região há quase 10 anos, bancos de sementes comunitários da Borborema estão vivos https://aspta.org.br/2021/03/02/apesar-da-pandemia-e-da-seca-que-se-estende-na-regiao-ha-quase-10-anos-bancos-de-sementes-comunitarios-da-borborema-estao-vivos/ https://aspta.org.br/2021/03/02/apesar-da-pandemia-e-da-seca-que-se-estende-na-regiao-ha-quase-10-anos-bancos-de-sementes-comunitarios-da-borborema-estao-vivos/#respond Wed, 03 Mar 2021 01:00:44 +0000 http://aspta.org.br/?p=18534 Leia mais]]> Monitoramento dos estoques dos 60 bancos do território, realizado há 12 anos, passa por adaptações em 2021, mas não deixará de ser feito

Quem já experimentou o sabor, viu ou ouviu falar no feijão macassar preto, feijão gordo preto ou no milho preto? E no feijão ovo de rolinha? Na fava de moita roxa? Bem, antes que pensem que estes nomes estão sendo inventados pela mente criativa de quem escreve o texto, informo que são variedades de sementes existentes no território da Borborema, na Paraíba.

Algumas destas sementes foram encontradas sob os cuidados de apenas um guardião ou guardiã da biodiversidade que vivem no território. Como são materiais de interesse de muitas famílias, as sementes em pequena quantidade são logo multiplicadas para que não tenham o mesmo destino de 90% das sementes domesticadas pela humanidade ao longo de 12 mil anos de agricultura: extintas em apenas um século, o 20.

Para identificar a semente em risco de desaparecimento no território, é feito anualmente e logo nos primeiros meses, o monitoramento dos estoques do banco regional e dos 60 bancos de sementes comunitários (BSCs) distribuídos nos 14 municípios, cujos sindicatos rurais fazem parte do Polo da Borborema. O Polo é uma rede formada por sindicatos rurais, mais de 150 associações comunitárias, uma associação de produtores agroecológicos, a EcoBorborema, e uma cooperativa de agricultores e agricultoras familiares inaugurada em janeiro passado.

O monitoramento deste ano, por conta da pandemia, está sendo feito de forma remota com o repasse via telefone das informações anotadas no caderno específico para este acompanhamento. E, em alguns casos, a coleta de dados acontece de forma presencial, mas envolvendo de duas a três pessoas da comissão gestora do banco e mais uma pessoa da AS-PTA.

Até o ano passado, este monitoramento tinha a fase de coleta de informações e fase de socialização dos resultados, que incluía a Festa das Sementes da Paixão, com a participação de guardiões e guardiãs de sementes de todos os 60 BSCs do território. Este momento tem uma importância muito grande por possibilitar um intenso intercâmbio de sementes. Os resultados destas trocas são observados nos anos seguintes a partir do aumento de variedades dos estoques de cada unidade.

Ainda não se sabe será satisfatório o resultado do monitoramento realizado em 2021 com dados dos bancos de 2020, mas a notícia a ser comemorada, a princípio, é que os 60 BSCs seguem ativos e em funcionamento. Na comunidade Benefício, na zona rural de Esperança, o banco de sementes está cheio de feijão e fava. Há uma diversidade de variedades: três tipos de feijão carioca, macassar, rosinha, mulatinho, preto, gurgutuba, ovo de rolinha, fogo da serra, fava cara larga, além de sementes de coentro, girassol e outras. Milho, porém, só há dois quilos guardados.

“Não adianta colocar milho pra dentro (do banco) sendo transgênico. Só tem dois quilos porque é limpo”, conta Lúcia Andrade, uma das gestoras do banco. “Tem muita escassez por conta dos outros vizinhos que plantam transgênicos e muitos fazem a silagem (com o milho para alimentar a criação). Eu mesma mandei uma amostra do meu milho para fazer o teste e estou esperando o resultado para ver se planto mais este ano”, continua ela dizendo que a quantidade para plantio está separada e que o restante está dando para as galinhas que começou a criar no passado.

O banco da comunidade Benefício, em funcionamento desde 2017, tem 16 sócios ativos, que colocam suas sementes lá anualmente. Na comunidade, vivem quase 130 famílias. Muita gente de fora do banco, não é, Lúcia? “E não é! Nas reuniões da associação (da comunidade), a gente sempre fala da importância do banco de sementes comunitário”. Fazer parte do banco de sementes é uma atitude que leva ao maior entendimento dos perigos do milho transgênico, por exemplo.

Monitoramento – O levantamento quantitativo e qualitativo do material genético guardado em cada banco, realizado desde 2009, começou a ganhar mais qualidade a partir de 2017, quando a professora Christine Saldanha, do departamento de Engenharia de Produção, da Universidade Federal da Paraíba, e sua equipe agregaram instrumentos e métodos novos à iniciativa.

Segundo Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA que acompanha as ações relacionadas às sementes da Paixão há mais de 12 anos, esta parceria promoveu mudanças relativamente simples, como a adoção do caderno de monitoramento para preenchimento em cada banco e o uso de planilhas menos extensas e mais enxutas, que geram informações mais claras sobre os estoques. Tais informações são sistematizadas e organizadas em Anuários das Sementes entregues aos/às gestores/as dos bancos e aos sindicatos rurais.

“As informações dos monitoramentos são essenciais para mobilizar as famílias e as comunidades”, destaca Emanoel que também aponta vários pontos positivos na aproximação entre academia e as comunidades rurais como o fortalecimento do conhecimento agroecológico e ter a universidade como aliada na luta em defesa do patrimônio genético sob a gestão das famílias agricultoras.

“Nos últimos quatro anos, a gente vem percebendo que, em termos de quantidade, quando temos um ano com baixa pluviosidade, a quantidade das sementes dos bancos também diminui. Quando tem um ano com mais chuvas, os números são bem maiores”, comenta Emanoel, acrescentando que o monitoramento também é fundamental para levantar informações de variedades guardadas em pequena quantidade, mas que nem sempre estão visíveis como outras armazenadas numa proporção bem maior.

“O feijão macassar preto e o feijão ovo de rolinha foram materiais encontrados e multiplicados. Tem a fava de moita preta que só um agricultor tinha em Areial. Ele conseguiu repassar [a fava] para outras famílias e as pessoas estão multiplicando em vários locais”, conta o agrônomo.

O monitoramento também identifica o guardião ou guardiã que está com estoque de sementes suficiente para venda. Assim como o Polo da Borborema e a AS-PTA estão cuidando da produção de alimentos, também estão ampliando espaços de comercialização para seus alimentos diferenciados.

Para as cestas agroecológicas compradas pela AS-PTA para doação às famílias do campo em situação de fome, que foi potencializada pela pandemia, as sementes estocadas nos bancos de sementes comunitários foram fundamentais. Saíram deles direto para as cestas: arroz, uma diversidade enorme de feijões e farinha de mandioca.

“A partir do monitoramento, a gente identifica materiais que nem sempre são encontrados no mercado convencional e que os consumidores ficam encantados porque têm a oportunidade de experimentar sabores e cheiros diferenciados”, comenta Emanoel, dizendo que as sementes viram alimento para os clientes da rede de feiras agroecológicas e das Quitandas da Borborema e também para quem vive em João Pessoa e no Recife.

Segundo Emanoel, participar da rede de bancos de sementes ainda traz uma boa vantagem financeira para as famílias agricultoras. Os BSCs têm uma relação direta com a Associação EcoBorborema e a CoopBorborema. A EcoBorborema coordena uma rede de 12 feiras agroecológicas e também cinco pontos de venda fixos e mais um móvel que são as Quitandas da Borborema. Além disso, a associação também é responsável pelo processo de certificação participativa do processo de produção das famílias que vendem nestes espaços. A CoopBorborema está em processo de organização para a sua estreia como entidade que vai abrir outros mercados para os produtos cultivados e beneficiados no território.

“A gente tem várias experiências de agricultores/as que conseguem deixar de vender no período da safra com preços abaixo do mercado, porque todo mundo tem. Eles guardam suas sementes nos bancos e, no período da entressafra, vão aos poucos empacotando e comercializando a preços bastante interessantes. Essa semana, houve venda para um ponto comercial fora da Paraíba de feijão preto a R$ 9, quando na safra, o valor chega a R$ 5. Feijão rosinha vendido por R$ 8, o dobro do valor alcançado na safra. As favas a R$ 10, na safra é R$ 7. São todos os agricultores que fazem isso? Não. Mas começamos com dez e já temos mais de 50 agricultores fazendo esta comercialização”, diz o assessor técnico da AS-PTA.

Sementes crioulas de região semiárida – Além de seu valor por ser uma semente crioula, as sementes da paixão, como todas as outras do Semiárido brasileiro, têm um valor agregado pela sua adaptação a condições de estresse climático numa época em que as mudanças no regime de chuvas, por exemplo, são uma realidade em todo o planeta e ameaça a produção de alimentos global.

O território da Borborema, mesmo depois da intensa seca de 2012 a 2017, segue registrando invernos abaixo da média pluviométrica. Isso só reforça a necessidade de monitorar o estoque de sementes da região, para ampliar os cuidados e o zelo que elas merecem.

“Este trabalho de monitoramento é fundamental para não perdermos essa diversidade, essa riqueza de variedades crioulas que é um patrimônio das comunidades e das famílias. E saber onde estão as sementes, qual a sua quantidade, é fundamental para fazer o resgate e ter este material no nosso território. Uma variedade só numa comunidade tem risco muito grande de ser perdida”, arremata Emanoel.

Todo este trabalho direcionado ao material genético na Borborema produz resultados muito significantes. A região foi considerada, em 2019, uma zona de preservação das sementes de milhos por um conjunto de universidades nacionais e internacionais . O mérito para este título? Ter sob a guarda das famílias agricultoras quatro espécies de milho endêmicas, ou seja, no mundo inteiro, estas sementes existem só no território da Borborema, no semiárido paraibano.

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https://aspta.org.br/2021/03/02/apesar-da-pandemia-e-da-seca-que-se-estende-na-regiao-ha-quase-10-anos-bancos-de-sementes-comunitarios-da-borborema-estao-vivos/feed/ 0