Banco de sementes – AS-PTA https://aspta.org.br Tue, 28 Jun 2022 23:42:30 +0000 pt-BR hourly 1 É hora de reabastecer os bancos de sementes comunitários e reforçar a estratégia das Comunidades Livres de Transgenia https://aspta.org.br/2021/12/15/e-hora-de-reabastecer-os-bancos-de-sementes-comunitarios-e-reforcar-a-estrategia-das-comunidades-livres-de-transgenia/ https://aspta.org.br/2021/12/15/e-hora-de-reabastecer-os-bancos-de-sementes-comunitarios-e-reforcar-a-estrategia-das-comunidades-livres-de-transgenia/#respond Wed, 15 Dec 2021 23:50:44 +0000 http://aspta.org.br/?p=19184 Leia mais]]> “A gente já vinha sofrendo com os 10 anos de seca. Antes da pandemia, com a análise do milho, a gente descobriu que as nossas sementes bem antigas, que vieram do meu avô para meu pai e do meu pai para mim, estavam contaminadas [pela transgenia]. Ficamos horrorizados. Era a semente que a gente tinha. Fizemos contato com o sindicato”. O relato é de Gerlane Isidoro dos Santos, agricultora, guardiã das sementes da Paixão e uma das coordenadoras do Banco de Sementes do assentamento Cícero Romano, antigo sítio Arara, na zona rural de Areial.

O município de Areial é um dos 13 cujo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais que faz parte do Polo da Borborema, um fórum que, além dos sindicatos, reúne mais de 150 associações comunitárias, uma associação regional, a EcoBorborema, e uma cooperativa da agricultura familiar, a CoopBorborema. O Polo tem assessoria técnica e política da AS-PTA.

No território de atuação do Polo, dezenas de comunidades de famílias agricultoras passam pela mesma situação do assentamento de Gerlane. Segundo Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA que acompanha o tema das sementes crioulas, o monitoramento feito pela Comissão de Sementes do Polo identificou que os estoques comunitários, guardados nos Bancos de Sementes Comunitários (BSC), estão comprometidos, seja pela perda da semente por conta da seca, seja pela contaminação do milho pela transgenia.

E aí uma ação emergencial foi planejada pela Rede de Sementes do território e está sendo executada como parte da estratégia da campanha “Não planto transgênico para não apagar minha história”. A ação consiste em ir ao encontro das comunidades, exibir vídeos curtos feitos para a campanha que abordam os riscos e consequência da contaminação do milho da Paixão pela transgenia e como ela acontece, refletir sobre as informações apresentadas e, por fim, pactuar coletivamente o que a comunidade está a fim de fazer para ampliar a proteção as suas sementes de milho. A ideia é motivar mais famílias e mais comunidades a plantarem seus milhos em condições de segurança com relação à contaminação. (Conheça as animações da campanha aqui e aqui)

Na comunidade de Gerlane, ela afirma que a reunião que tiveram foi a primeira para discutir este assunto com a presença de todos os sócios. “Emanoel veio explicar o que era a semente transgênica. Além deste conhecimento novo, soubemos também que aquele milho que o governo doava [o distribuído para alimentação animal pelo Programa Venda de Balcão] é uma fonte de contaminação. Quando a gente ganhava, ficávamos satisfeitos. Agora, a comunidade jamais vai fazer uma coisa dessa [plantar estas sementes]. Eu conversei com algumas pessoas para saber o que tinham achado e elas saíram da reunião com esta consciência”, conta Gerlane.

Reuniões como essa realizada no assentamento Cícero Romano, em Areial, aconteceram em outras oito comunidades de Lagoa Seca e Solânea. E também foram feitas para as lideranças dos 13 Bancos de Sementes Comunitários de Queimadas em dois momentos. Todas as comunidades passam por situação de emergência em relação ao estoque de sementes nos BCS, principalmente, as de milho crioulo.

Só em Solânea, outro município acompanhado pelo Polo, houve reuniões em seis comunidades. “A perda de sementes de 2020 para 2021 foi total, principalmente dos milhos pontinha e jabatão. Mas os agricultores e agricultoras estão na luta, não baixaram a cabeça”, assegura Josileide Marques da Cruz, conhecida como Leide, que faz parte da diretoria do sindicato de Solânea e, no Polo, acompanha as Comissões de Sementes e de Infância e Juventude.

“As reuniões têm sido boas, participativas, apesar das perdas das sementes não só para alimentação humana, como para alimentação animal. As famílias perderam também o milho que serviria para a ração animal”, acrescenta Leide, contando que as despesas com a compra de água tanto para consumo humano quanto animal está pesando no bolso das famílias. Cada carro-pipa, com 10 mil litros, custa entre R$ 150 a R$ 220, de acordo com a região de Solânea. No território da Borborema, o valor do pipa pode chegar até R$ 250 a depender da distância com a barragem de abastecimento do carro.

“A seca, mais a pandemia, mais o declínio das políticas públicas estão fazendo as famílias passarem muitas necessidades”, reforça Emanoel. “Mas, apesar disto, ao final da reunião, muitas pessoas saem com ânimo diferente daquele que chegaram.”

Além das informações e dos esclarecimentos para os sócios e sócias dos BSC, na reunião é calculada a necessidade de sementes para cada comunidade visitada. As sementes doadas são todas certificadas como crioulas por meio dos testes de transgenia realizados com fitas que detectam a presença de proteínas presentes nas sementes transgênicas. Até o momento, foram doadas para os BSC cerca de 1700 quilos de sementes. O material genético sai do Banco Mãe de Sementes Crioulas, cuja função principal é, justamente, abastecer os BCS em situações como essa.

Os encontros presenciais, além de animar as famílias que andam enfrentando tempos de escassez, estão sendo muito eficazes na sensibilização dos guardiões e guardiãs das sementes e, como resultado, têm conseguido fortalecer o compromisso deles só plantarem sementes que saibam a sua origem e que foram testadas antes, como Gerlane comprovou em sua comunidade. O sucesso é tamanho que a previsão é que elas sigam acontecendo durante todo o inverno de 2022. “É uma grande oportunidade de dinamizar os bancos de sementes que se encontravam sem reuniões, sem encontros”, atesta Emanoel.

Por conta dos cuidados sanitários necessários devido à pandemia da Covid-19, os encontros são realizados com até 15 pessoas, que usam máscaras e têm à disposição álcool para manter as mãos higienizadas.

 

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Rede de Bancos Comunitários de Sementes do Polo da Borborema elenca estratégias para superar baixa de 50% a 60% nos estoques https://aspta.org.br/2021/09/09/rede-de-bancos-comunitarios-de-sementes-do-polo-da-borborema-elenca-estrategias-para-superar-baixa-de-50-a-60-nos-estoques/ https://aspta.org.br/2021/09/09/rede-de-bancos-comunitarios-de-sementes-do-polo-da-borborema-elenca-estrategias-para-superar-baixa-de-50-a-60-nos-estoques/#comments Thu, 09 Sep 2021 12:11:38 +0000 http://aspta.org.br/?p=18880 Leia mais]]> “Em 2021, poucas comunidades tiveram lucro. Mesmo assim, foi pouco, só para consumo da família ou para guardar para o plantio do próximo ano. E essas comunidades estão na divisa com outros municípios. Até as comunidades que estão mais próximo a Campina Grande, mais para a região agreste, não lucraram”. O lucro que Silvinha se refere não é financeiro, mas de sementes colhidas nos roçados das comunidades de Queimadas, uma das áreas mais áridas do território da Borborema. Silvinha é uma guardiã de sementes bastante comprometida com a articulação não só de sua comunidade Maracajá, mas de todas as outras 12 comunidades que têm Bancos de Sementes Comunitários (BCS) em Queimadas.

Por causa da frustração nos roçados, as famílias envolvidas nos 13 BCS de Queimadas juntaram dinheiro num fundo comunitário e providenciaram a compra de sacas de sementes. “Por estar na rede de bancos de sementes, a gente sabe onde tem sementes, principalmente, em área de assentamento, onde o pessoal planta muito milho. Em Queimadas, alguns representantes de bancos de sementes fizeram bingo, outros usaram recursos dos Fundos Rotativos Solidários para comprar as sementes”, conta Silvinha, cujo nome de batismo é Severina da Silva Pereira.

Apesar da colheita crítica em 2021, não é o primeiro ano que os gestores e gestoras dos BSCs de Queimadas providenciam recursos próprios para reabastecer os seus estoques, principalmente, de feijão e milho. Esta estratégia, aliás, também foi adotada pela Rede de Banco de Sementes do Polo da Borborema para beneficiar o conjunto de bancos de sementes de todos os 13 municípios do território.

Emanoel Dias, da equipe de assessoria técnica da AS-PTA para o tema de sementes, estima que haverá diminuição média de 50% a 60% nos estoques dos 62 bancos de sementes comunitários do território. Segundo ele, 2021 é o 11º ano com chuvas abaixo da média no território. E a precipitação deste ano foi a pior de todos estes anos. “Não tenho informações se antes de 2010 tivemos um problema de desabastecimento tão grande quanto o que estamos passando neste ano”, confessa.

Além da reposição dos estoques a partir da compra de sementes dentro do território – estratégia superimportante porque as sementes já estão adaptadas às condições ambientais da região – a Rede dos BCS elencou outras quatro estratégias:

A primeira é a orientação dada a todos e todas que fazem parte da Rede de armazenar todas as sementes que puderem. A segunda destina-se aos gestores e gestoras dos bancos comunitários: receber qualquer semente como pagamento do empréstimo feito. A regra usual é de receber a mesma semente emprestada. Mas, nesse momento crítico, houve uma grande flexibilização. “Se o agricultor tiver pegado a semente de feijão carioca e tiver colhido o macassar, devolve ao banco o macassar. Se tiver pegado o milho e colhido só a fava, aceita-se a fava como devolução”, explica Emanoel.

A terceira estratégia foi a já citada mobilização emergencial de recursos para comprar sementes de feijão e milho para doação às comunidades mais afetadas pela seca. No caso dos recursos para atender esta demanda em todo o território, a AS-PTA e o Polo da Borborema remanejaram, com o aval das organizações parceiras Pórticus e Misereor, recursos não utilizados nos projetos para investir na aquisição das sementes.

“Começamos o trabalho com o feijão que é colhido primeiro. Já distribuímos cerca de 800 quilogramas de feijão que estavam no Banco Mãe, além das 2,5 toneladas de sementes que compramos dos agricultores/as. Todas estas sementes doadas retornarão ao estoque do banco regional quando tiver colheita. E estamos mapeando quem produziu o milho no território”, comenta Emanoel.

Foram distribuídos, por bancos de sementes, cerca de 100 a 120 quilos de sementes de diversas variedades de feijão. Tem feijão preto, carioca, faveta, rosinha, macassar, ovo de rolinha ou gurgutuba. Cada banco recebe as variedades mais adaptadas à região onde ficam. Os BCS da região de Curimataú, por exemplo, receberam mais o macassar e o carioca.

A quarta estratégia, aliás, está ligada ao cuidado com os estoques de milho, numa situação bem mais crítica que a do feijão. “Ficou definido que vamos comprar o milho no território, fazer os testes de transgenia e armazená-lo no Banco Mãe. Depois, vamos escolher quais bancos de sementes receberão estas sementes com a intenção de bloquear a comunidade do plantio das sementes transgênicas, como fizemos em Casserengue”, continua o agrônomo, acrescentando que esse estoque de milho vai ser importante para o reforço da campanha “Não planto transgênico para não apagar a minha história”, realizada no território desde 2015.

A quinta estratégia é a jornada de testes de transgenia nos milhos colhidos no território, tanto os que serão comprados para doação aos bancos comunitários, quanto os que vão ficar na família que o produziu.

Municípios mais atingidos – Dos 13 municípios incluídos na área de atuação do Polo da Borborema, os que ficam nas faixas mais áridas foram os mais afetados. Nas regiões de Curimataú, estão Casserengue, com 07 BCS e 227 famílias envolvidas, e uma parte do território de Solânea, com 8 bancos e 166 famílias. Em Queimadas, o município de Silvinha, que tem 13 bancos e 245 famílias.

O Polo da Borborema é um coletivo que reúne 13 sindicatos rurais, mais de 150 associações comunitárias, uma associação de atuação regional, a EcoBorborema, e uma cooperativa com capacidade de ação estadual, a CoopBorborema.

Além da estratégia emergencial, o que fazer para ampliar a resiliência das famílias? “O que podemos fazer é fortalecer a dinâmica da rede de bancos de sementes. A rede faz diferença na vida de uma família que produziu pouco. Se estivesse isolada, já tinha pensado em outras estratégias. Como ela está numa rede, sabe que consegue novamente mais material crioulo”, responde Emanoel. Sobre as ‘outras estratégias’ citadas por ele podemos imaginar desde compra de sementes transgênicas no mercado ou uso das sementes não adaptadas à região que são distribuídas pelos governos, ou a migração para outras regiões em busca de alternativas para se ganhar dinheiro.

Para além destas estratégias pensadas, outras estão sendo experimentadas no território como a diversificação dos plantios com culturas mais resistentes à seca como o algodão agroecológico.  “Do algodão, além de vender a pluma, se aproveita a semente e a forragem para a alimentação animal”, comenta ele. Outra cultura “extremamente resistente à seca” é a mandioca que serve tanto para alimentar as famílias, quanto os animais.

Para Emanoel, a intenção por trás de todas as estratégias é de animar a rede de bancos de sementes. “Com a pandemia, estamos chegando a dois anos sem reuniões comunitárias com a intensidade de antes. E, agora, com a baixa nos estoques, pode acontecer uma esfriada na mobilização das famílias. E quando chegar o tempo da chuva, todos querem plantar e então as pessoas saem no mercado para adquirir sementes. E a possibilidade de aumentar a quantidade de milho contaminado com a transgenia é muito grande”, arremata ele citando as consequências a médio prazo trazidos pelo problema do desabastecimento.

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“Nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos” https://aspta.org.br/2021/05/19/nenhum-de-nos-e-tao-bom-quanto-todos-nos-juntos/ https://aspta.org.br/2021/05/19/nenhum-de-nos-e-tao-bom-quanto-todos-nos-juntos/#respond Wed, 19 May 2021 13:07:43 +0000 http://aspta.org.br/?p=18668 Leia mais]]> Conversamos com Mateus Manassés Bezerra Nascimento, jovem agricultor experimentador de Queimadas e integrante do Polo da Borborema. Mateus falou sobre a mobilização no município e no território em torno da defesa das sementes crioulas e sobre as formas de mobilização e engajamento da juventude. “A gente vê que do nada a gente pode transformar muita coisa, são os jovens que devem assumir a responsabilidade de guardar as sementes para as gerações que ainda vão chegar”. Confira abaixo como foi essa conversa.

 

Boletim – Como acontece o trabalho de resgate, conservação e proteção das sementes crioulas na sua comunidade?

Mateus – Na minha comunidade, no sítio Soares, temos um banco de sementes criado em 2016. Na época, eu tinha 18 anos e fui eleito presidente do banco. Tivemos apoio da AS-PTA para equipar o banco com lona, estantes, peneiras e bombonas para guardar as sementes. Para além disso, tinha ainda o desafio de ter um lugar para guardar as sementes. Ofereci a casa de barro onde moraram meus avós. A reforma e construção foi feita toda com apoio da comunidade, uns dando os materiais, outros ajudando com a obra. No começo, como toda novidade, tinha aquele receio de não saber se ia dar certo. Começamos com 15 sócios. Todos pegaram sementes, multiplicaram e devolveram. Com isso, conseguimos duplicar o quadro de sócios do banco no segundo ano. Para celebrar, fizemos a festa da colheita. Juntamos toda a comunidade. Cada pessoa doou um pouco de alimento e fizemos um jantar extraordinário. Teve banda de forró, as pessoas comeram, dançaram e curtiram mesmo. Com isso, o banco ficou conhecido. Nesse mesmo jantar, fizemos uma discussão sobre sementes crioulas. As pessoas sabiam o que era, mas não com esse nome. Todos tinham em casa essas sementes que vieram dos pais e dos avós.

Boletim – Como vem se dando a mobilização com relação à ameaça dos transgênicos?

Mateus – O principal desafio quando a gente fala de uma campanha sobre sementes, como é a campanha Não Planto Transgênicos para não Apagar Minha História , é explicar para os agricultores o que é a transgenia. Uma coisa é explicar a questão para uma pessoa que teve acesso aos estudos. Outra é explicar para muitos agricultores que não tiveram esse grau de instrução, e daí gerar uma conscientização da importância de se plantar o milho livre de transgênico. O desafio é grande, mas estamos conseguindo, vamos explicando da forma mais didática possível.

Boletim – Por que é importante que a defesa das sementes crioulas não aconteça somente dentro do roçado de cada família, mas que seja uma luta coletiva, sobretudo, da comunidade? Como foi possível criar uma comunidade livre de transgênicos?

Mateus – Um desafio grande que enfrentamos aqui é que as áreas dos agricultores são muito pequenas. Então, se um plantar livre de transgênico e o vizinho plantar contaminado, aí vai tudo por água abaixo. Aproveitamos um ano que boa parte das pessoas não tinha semente de milho por conta da seca. Essa foi a oportunidade para entrar com milho livre de transgênico. O Banco Comunitário tinha semente e fez o empréstimo para um grupo de pessoas. Elas plantaram e lucraram muito, deu boa produção. Além da semente, lucraram com a palha para os animais. A planta do milho crioulo é mais robusta e rende mais para ração animal. Isso conquistou as pessoas. O segundo passo foi dizer que esse era o milho livre de transgênico. Foi aí que as pessoas se apaixonaram por esse milho, que é o jabatão vermelho. É um milho muito pesado. Com menos de quatro latas já dá um saco de 60 kg. Ainda não podemos dizer que 100% da comunidade é livre de transgênicos, porque tem uns grandes proprietários de terra na região e com esses é mais difícil o diálogo.

Boletim – Como as famílias agricultoras fazem para aumentar a diversidade cultivada?

Mateus – Tem muitas sementes que as famílias não vêem mais e acham que estão perdidas, mas nas Festas Estaduais das Sementes da Paixão [organizadas pela ASA Paraíba] é possível recuperar. Na última festa, por exemplo, o pessoal voltou com sementes do jerimum pururu. Fazia muito tempo que as pessoas não viam essa semente, mas tinham a lembrança de que era uma variedade muito boa. Foi resgatada na feira. Outra semente que foi resgatada, e que muita gente não chegou a conhecer por ser jovem demais, é a fava moita. Essa tem a característica de não enramar. Ela é como o feijão preto. Com as trocas de sementes conseguimos recuperar também o milho jabatão amarelo.

Boletim – Como você avalia as políticas públicas de sementes?

Mateus – Estamos numa gravação em massa de vídeos pra fazer o recado chegar no governo. Se a gente ficar calado, é como dizer que a gente gostas políticas atuais. Os agricultores estão rejeitando a semente do governo, que vem de outra região e é tratada com agrotóxicos. As pessoas não estão indo buscar essa semente. Não se trata de ser contra a política pública. A política de distribuir sementes é fantástica, mas desde que ela compre as sementes dos agricultores. Nós agricultores também não produzimos? Então compre de nós pra distribuir para outros agricultores pequenos como nós e dar também pra esse povo a oportunidade de plantar uma semente de qualidade. Tem pessoas capazes de vender semente de qualidade para outros agricultores. Por que então comprar outra semente?

Nesse governo atual eu não tenho a menor esperança. Ali não tem nenhuma boa vontade, nenhuma esperança de melhoria, especialmente que seja voltada para o Semiárido. Nos governos do PT e, em especial os do Lula, a gente teve um impulso muito forte para a agricultura. Quando você tem um governo que nega até a construção de cisternas para captação de água de chuva, aí você vê a desvalorização do governo para com nós agricultores.

Boletim – E como vem sendo possível construir políticas para a Agroecologia nos municípios?

Mateus – O município de Queimadas hoje tem até uma visão diferenciada. Hoje já temos o apoio da prefeitura para preparar terra para os pequenos agricultores. Temos também um projeto de palma forrageira e outro de melhoramento dos rebanhos. Então, eu vejo uma transformação no poder público municipal. Por mais que seja lenta e às vezes burocrática e não chegue a todos os agricultores, eu vejo uma transformação. Em Queimadas, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável se reúne todos os meses. Tem um representante da Câmara Municipal no Conselho. Três anos atrás. conseguimos que parte do dinheiro que vem para o município fosse usado para comprar sementes dos agricultores do município ou do território para reforçar os Bancos de Sementes ou para ajudar a criar outros. Mas não vimos essas sementes, nem sabemos onde elas foram parar. Mas o desafio é a nossa energia. Estamos na luta sempre para estar defendendo o que é nosso. Mesmo assim, considero que temos uma vitória no município.

Boletim – As crianças estão também se envolvendo no tema das sementes?

Mateus – Tem muitas comunidades aqui no território que trabalham as Cirandas da Borborema. São crianças que estão tendo a oportunidade de participar das discussões desde a infância. Está se tornando normal para elas, é uma coisa bem pertinho delas. Já temos hoje pessoas com 18, 19 anos que participaram das Cirandas e já têm um olhar diferenciado para a agricultura, para o meio ambiente e para o próprio planeta.

Boletim – E qual o papel dos fundos rotativos solidários (FRS) no engajamento da juventude?

Mateus – Os fundos rotativos chegaram na nossa comunidade em 2017. A região de Queimadas é mais seca, então aqui o trabalho é mais forte com as criações do que com os roçados. A comunidade tinha a necessidade de criação de ovelhas. Os jovens sempre gostaram de criar ovelhas. E foi aí que veio o Fundo Rotativo. Foram cinco ovelhas e um reprodutor da raça morada nova, que é adaptada. Os jovens fizeram sorteio no grupo. Foram cinco contemplados no primeiro ano. No segundo ano, todos os cinco fizeram repasse. No terceiro ano fizeram repasse de novo. Hoje, mais de 18 jovens já foram beneficiados e a perspectiva é passar de 24. É um sucesso na comunidade. Uma das beneficiárias tinha 10 anos quando recebeu sua ovelha. Isso motivou bastante outros jovens. Agora esses jovens podem vender uma ovelha para comprar um celular, comprar uma roupa no final do ano e mesmo ajudar em casa. Estamos gerando renda na nossa comunidade. Hoje tem jovem já com rebanhos de 5, 8 cabeças e outros mais estão chegando. Eram jovens que não tinham nada. A gente vê que do nada a gente pode transformar muita coisa. Os pais se surpreenderam com os próprios filhos. A partir daí foi lançado o FRS das mulheres. Muitas mulheres são dependentes da renda do marido. A Associação reuniu 20 pessoas, sendo eu e 19 mulheres. Isso foi em fevereiro de 2018. O combinado foi que cada um colocaria 10 reais por mês e esse dinheiro seria usado para comprar uma ovelha ou uma cabra e sorteá-la entre as mulheres. Alguns animais já vinham prenhes. No mês seguinte, de novo. Em agosto de 2019, todas as participantes já tinham cabras e ovelhas nas suas casas. Quando alguma dessas mulheres tem uma necessidade em casa, elas já têm de onde tirar o recurso. Aí, a gente volta no milho. A semente do milho é importante para produzir forragem para esses animais para a época de estiagem. É uma coisa ligada na outra, por isso que o trabalho dá certo. Se não for, não dá certo.

Boletim – Como você entende a relação entre guardiãs e guardiões de sementes e o trabalho da juventude na conservação das sementes?

Mateus – Os mais velhos se vão e os jovens ficam. Assim, são os jovens que devem assumir a responsabilidade de guardar as sementes para as gerações que ainda vão chegar. Antes, os jovens não se ligavam muito nisso porque não tinham espaço, era só o trabalho. O dinheiro ficava com os pais. A partir da nossa proposta de autonomia da juventude com os Fundos Rotativos, agora são os próprios jovens que estão encabeçando esse trabalho. São esses mesmos jovens que hoje me ligam e perguntam: “Mateus, tem semente? Pai quer comprar, mas eu já disse a ele que no Banco de Sementes tem”. Ou seja, os próprios jovens estão preocupados com o tipo de semente que os pais vão plantar. Isso é uma recompensa muito forte. Vemos que o trabalho está fluindo. É uma ação transformadora. Esses jovens estão tendo a oportunidade de fazer alguma coisa diferente, seja para sua comunidade, seja para sua própria vida.

Boletim – Como as atividades em Queimadas se integram nas redes de Agroecologia?

Mateus – Eu defino o movimento aqui da região em uma palavra só: Ubuntu. Ubuntu significa que nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos. Ou seja, quando a gente tem um movimento de base sólido dificilmente as coisas dão errado. É uma força motivadora. Quando uma das comissões temáticas do Polo* está enfraquecendo, vem outra comissão e levanta ela pra cima de novo. Esse trabalho só está dando certo até hoje porque é um trabalho em conjunto. O jovem pode fazer de tudo e passar por todas as comissões, assim como as mulheres, os idosos e os homens. Se fosse isolado, a gente já tinha enfraquecido. No momento em que tem um Banco, no momento em que tem uma Associação, no momento em que tem um Sindicato atuante, no momento em que tem um conjunto de Sindicatos, que é o Polo da Borborema, dificilmente vai dar errado. Tem muita gente pra nos ajudar. E a gente também pode ajudar muita gente. É dessa forma que podemos prosperar.

*Comissões temáticas do Polo da Borborema: Sementes, Água, Mercados, Saúde e alimentação, Criação animal, Juventude, Infância e educação.

Boletim – Qual o principal aprendizado que você destaca desse trabalho com as sementes?

Mateus – Eu aprendi que todos nós somos capazes de mudar. Também somos um agente transformador, assim como também nós somos transformados. Pessoas que eu vi e pensei que nunca adeririam ao trabalho, que nunca entrariam na Associação, que nunca iam valorizar um Sindicato, hoje são pessoas que defendem de unha e garra todos esses projetos, como os FRS. O aprendizado que eu tiro é que a gente é capaz de mudar e sempre é capaz de ser mudado por outro alguém. Ninguém tem o conhecimento consolidado e não tem ninguém que não possa contribuir com um pouco. Sempre vai ser essa dinâmica na vida da gente. Nada está concluído, sempre a gente está em busca de transformação. Isso é muito gratificante. Quando você lida com pessoas, você lida com surpresas todos os dias. Um reage de uma forma, outro reage de outra forma. Uns te botam pra baixo, outros te jogam pra cima e tu decola como um balão. É nesse equilíbrio da vida que a gente tá conseguindo transformar um pouco da realidade que a gente vive.

É com essa força motivadora que a gente acorda todos os dias e nos mantém na luta. Se a gente for só olhar pro negativo do mundo, pro negativo do governo, pra negatividade da pandemia, a gente cruza os braços e desiste. A gente sempre tem que ter esperança. Como dizia o saudoso Paulo Freire, não a esperança de se sentar e esperar que esteja tudo transformado, ou por outras pessoas ou por Deus, como o povo costuma dizer. Todo mundo só bota a culpa em Deus, se Deus quiser, Deus vai fazer. Mas Deus usa as pessoas e essas pessoas somos nós. Se a gente está insatisfeito com a nossa realidade, a gente tenta transformar ela. Nem que seja só tirar uma pedrinha do caminho pra quando outra pessoa for passar ela não tropeçar, mas que faça. E que faça todos os dias. Se todos os dias da sua vida você puder fazer alguma coisa que lhe ajude e ajude os outros, faça. Por mais simples que seja, mas faça. Porque no somatório disso tudo a gente vai desmanchando um paradigma que foi criado e a gente vai criando outros conceitos e outras forças motivadoras.

 

Essa matéria compõe o Boletim Sementes Crioulas. Se tiver interesse em recebê-lo, escreva para revista@aspta.org.br.

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Resultados nos testes do milho de Casserengue apontam que blindar comunidades inteiras dos transgênicos pode ser uma estratégia acertada https://aspta.org.br/2020/09/04/resultados-nos-testes-do-milho-de-casserengue-apontam-que-blindar-comunidades-inteiras-dos-transgenicos-pode-ser-uma-estrategia-acertada/ https://aspta.org.br/2020/09/04/resultados-nos-testes-do-milho-de-casserengue-apontam-que-blindar-comunidades-inteiras-dos-transgenicos-pode-ser-uma-estrategia-acertada/#comments Fri, 04 Sep 2020 13:01:52 +0000 http://aspta.org.br/?p=18219 Leia mais]]> Ano de 2016. Todas as variedades de milho crioulo guardadas no banco de sementes do assentamento Ernesto Che Guevara, no município de Casserengue, estavam contaminadas pela transgenia. A fonte de contaminação foram os roçados vizinhos de famílias, que não faziam parte do banco de sementes e que compraram as sementes em lojas de produtos agropecuários, sem informação que se tratava de variedades transgênicas.

Imediatamente, se iniciou um processo de multiplicação de sementes crioulas que o assentamento recebeu da AS-PTA e do Polo da Borborema, um coletivo de sindicados rurais que atuam em 13 municípios do território que lhe dá nome. Mas, a variedade recebida, a jabatão – a única disponível no banco de sementes mãe no momento – é de ciclo longo e não se deu bem com o regime de chuvas da região de Curimataú, no semiárido paraibano. “A gente precisava de um milho mais ligeiro, porque as chuvas aqui são poucas”, afirma Adriana Araújo, uma das lideranças do assentamento Che.

Por conta do desencontro entre o ciclo do milho jabatão e o período das chuvas no assentamento, o que se colhia dos campos de multiplicação em 2017 e 2018 não respondia às expectativas e necessidades das famílias do assentamento. Por conta disto, ano a ano, o plantio nos roçados era feito com as sementes doadas pelo Governo Federal ou compradas nas lojas de produtos agrícolas e veterinários.

Em 2019, um novo teste de transgenia apontou novamente uma alta taxa de contaminação do milho guardado no banco comunitário do assentamento Che e nos demais bancos comunitários de Casserengue.

“Em Casserengue, nos testes de transgenia que fazemos todo ano, dá muito milho contaminado, são áreas grandes plantadas com milho para alimentação das famílias e dos animais. Durante quatro anos seguidos foi assim”, anuncia Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA que acompanha as ações relacionadas às sementes da Paixão.

Mas, houve milho colhido na safra de 2019 no assentamento Che que passou no teste. Ou seja: estava livre de transgenia, como a safra de Adriana e seu esposo Augusto. Mas estaria livre até quando se os vizinhos seguissem plantando milhos transgênicos? Foi quando, em reunião, o assentamento Che decidiu fazer uma cota coletiva para comprar mais sementes crioulas e distribuir para outras famílias. O planejamento foi feito em 2019 e o plantio destas sementes adquiridas aconteceu este ano.

Com o recurso levantado, foram compradas 10 sacas (60kg) de milho crioulo da variedade pontinha, que em 75 dias estava no ponto de colheita, mais ligeiro que o jabatão, de ciclo de 90 dias. As sacas, compradas de um guardião de sementes da Paixão do município de Arara, foram acrescidas de mais 10 sacas doadas novamente pelo Banco Mãe para o Banco de Sementes Comunitário do assentamento.

Mas, este ano, esta história dá sinais de mudança. Diferente dos anos anteriores, os primeiros testes de transgenia realizados nas amostras de milho de oito famílias do assentamento deram todos os resultados isentos de contaminação. Na semana que vem, mais oito serão testadas.

O resultado parcial encheu de ânimo não só as famílias guardiãs e as lideranças do assentamento, que há anos perseguem a ideia de plantar só milhos crioulos, como também renovou as esperanças da Comissão de Sementes do Polo da Borborema, formada pelos/as guardiões e guardiãs da biodiversidade e assessorada pela AS-PTA e Polo da Borborema nesta luta desigual para proteger o material genético da contaminação que altera o código genético da semente já adaptada à região.

E a que se deve esse excelente resultado preliminar e promissor?

Emanoel credita esta possível virada nos rumos ao “trabalho coletivo e a organização comunitária do assentamento. Além disso, tem a campanha permanente “Não planto transgênico para não apagar a minha história”, que realiza testes de transgenia e distribui sementes todos os anos. Como também há a garantia da aquisição do milho com um valor maior de mercado.”

Mudança de olhar – Para além disso, em 2020, o assentamento Che foi apontado pela Comissão de Sementes do Polo da Borborema como uma das duas experiências a serem desenvolvidas de Comunidades Livres de Transgênico no Polo da Borborema. Uma espécie de experiência piloto iniciada no território.

Como os esforços para a proteção do milho crioulo focados em cada guardião e guardiã não estavam sendo eficazes diante da facilidade da contaminação, a estratégia passou a ser proteger comunidades inteiras.

“A questão da transgenia não é só pensar em um agricultor familiar. Temos que pensar na comunidade”, revela Emanoel. E aí a estratégia no território para evitar a contaminação cada vez mais crescente deixou de ser de defesa e passou a ser de ataque. “Estimular a produção de milho livre de transgenia é uma forma de diminuir a plantação de milho transgênico no território”, anuncia o agrônomo que acompanha a Comissão de Sementes do Polo há mais de dez anos.

Na Borborema, as propriedades rurais são muito próximas. Muitas vezes, cerca com cerca. Esta é uma condição ideal para a plantação de milho crioulo ser polinizada pela plantação vizinha do milho transgênico. A polinização cruzada é feita pelo ar, com a ajuda do vento ou dos insetos.

E como aumentar as áreas de plantio das sementes de milho da Paixão, de forma que as famílias agricultoras que estejam numa mesma área não plante as sementes distribuídas pelo governo ou compradas nas lojas?

Uma das estratégias usada atende pelo nome de Unidade de Beneficiamento do Milho da Paixão, inaugurada no ano passado.  A Unidade virou uma excelente oportunidade de negócio para as famílias guardiãs de sementes da Paixão. “Se o milho passar no teste e o seu resultado mostrar que ele é livre da contaminação dos transgênicos, a safra é comprada pela unidade com um valor de até 30% acima do praticado no mercado convencional”, explica Emanoel.

Segundo ele, este valor tem sido um atrativo eficaz para que as famílias se interessem apenas pelos milhos crioulos. No ano passado, a quantidade de sementes compradas para estocar no Banco Mãe e depois ir para o beneficiamento foi o maior desde 2017, quando se começou a fazer a aquisição de sementes junto às famílias do território. Em 2019, foram adquiridas 10 toneladas. Em 2018, 7 toneladas. E 2017, 2 toneladas. Para garantir qualidade dos produtos beneficiados e as boas práticas de produção dos alimentos à base de milho livre de transgênicos, essa iniciativa contou com a contribuição e parceria do Laboratório de Tecnologia de Alimentos da Universidade Estadual da Paraíba.

De acordo com Adriana, do assentamento Che, o milho crioulo colhido na comunidade tem quatro destinos. Uma parte volta para o banco de sementes comunitário, a qual será destinada para o plantio no ano seguinte. Outra é separada para o consumo animal. Outra para comer. E a parte da venda é toda destinada à unidade de beneficiamento.

“Antes, vendíamos para atravessadores que dizem o preço. Uma saca de milho (60kg) chegou a R$ 20,00. Veja que preço baixo. Aqui na região tem um único comprador. Ele é quem aumentava e diminuía o valor”, conta. Em 2019, uma saca de milho livre de transgênicos (60kg) chegou a R$ 90,00.

“Não planto transgênico para não apagar a minha história” – Todas estas ações e estratégias para manter as sementes crioulas livres da transgenia fazem parte de uma campanha permanente no território da Borborema. Desde 2016, a campanha ‘Não planto transgênico para não apagar a minha história’ está na rua e atua em três vertentes: a comunicação dos malefícios da transgenia, as ações de campo como a produção de campos livres de transgênicos, e a realização dos testes de transgenia e a criação de uma central que transforma o milho em vários produtos beneficiados, como o xerém, mungunzá, fubá e a novidade será o flocão para fazer o cuscuz, comida típica do nordeste Brasileiro.

Estes produtos têm venda certa e a demanda por eles só tem aumentado. Atualmente são vendidos na rede de 12 feiras agroecológicas do território, nas quatro quitandas agroecológicas acompanhadas pelo Polo da Borborema e em 10 pontos fixos: três no próprio território – Campina Grande, Boqueirão e Soledade – e sete em João Pessoa. Os produtos também ultrapassam as fronteiras da Paraíba e alcançam o mercado do Recife de alimentos saudáveis sendo vendidos quatro pontos na capital pernambucana.

A campanha começou a visitar os bancos de sementes da Borborema em 2017. Foi criada quando os testes de transgenia anunciavam, a cada ano, o aumento das contaminações. “Tínhamos que fazer algo para que a situação não ganhasse repercussão negativa no território”, recorda Emanoel. A campanha foi pensada para os agricultores e agricultoras saber o que é a transgenia e como ela ameaçava a vida das famílias camponesas. “Transgenia é um termo difícil para as famílias agricultoras entenderem, pois se você colocar um milho contaminado próximo de um milho livre, morfologicamente não tem diferenças. A diferença é invisível, por isso, que a constituição de uma metodologia própria e contínua foi necessária ser desenvolvida”, acrescenta.

No ano passado, quando a campanha completava dois anos de vida, ela foi um dos temas refletidos na 8ª Festa Estadual das Sementes da Paixão. “E a Rede das Sementes da Paixão da Paraíba  assumiu a campanha como ação estadual, ampliando as suas ações – testes de transgenia, campos de multiplicação de milho livre de transgênicos e também a construção da chegada do milho dos outros sete territórios de atuação da ASA Paraíba para ser beneficiado na Unidade da Borborema”, conta.

Reconhecimento – Ainda este ano, o Polo da Borborema e a AS-PTA tiveram outra alegria com relação ao trabalho de conservação da agrobiodiversidade por meio da Rede de Bancos Comunitários. Ela foi uma das experiências vencedoras do 2º Prêmio de Práticas Agrícolas Tradicionais do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

A premiação vem coroar um sentimento de satisfação que vive em cada um/a dos/as envolvidos/as nesta ação coletiva. “É um trabalho formiguinha, gradativo. Mas a gente vai mexendo no mais importante, que é o processo de formação das pessoas e vai tendo esta mudança. A nossa luta é para que as sementes da Paixão continuem livres e a serviço das futuras gerações!”, sentencia Emanoel em tom de profecia.

Este trabalho de proteção do milho, base da alimentação de todos os brasileiros, é de suma importância em qualquer lugar do mundo. E, no território da Borborema, a ação ganha um significado ainda mais robusto uma vez que foi considerada uma zona de preservação das sementes de milho por um conjunto de universidades que estavam catalogando espécies endêmicas – que só existem em um único local. Quatro raças de milho cultivadas na região nunca haviam sido catalogadas antes.

Um tesouro salvaguardado pelas mãos e ações de famílias agricultoras, com o apoio imprescindível das organizações sociais, cuja atuação vai sedimentando, com muita luta, a construção de políticas públicas que preservem este patrimônio imaterial da humanidade.

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Redes de agroecologia: práticas e gestão comum nos territórios https://aspta.org.br/2020/05/28/redes-de-agroecologia-praticas-e-gestao-comum-nos-territorios/ https://aspta.org.br/2020/05/28/redes-de-agroecologia-praticas-e-gestao-comum-nos-territorios/#comments Thu, 28 May 2020 20:41:22 +0000 http://aspta.org.br/?p=18082 Leia mais]]> O biólogo estadunidense Garrett Hardin escreveu, em 1968, um artigo que o tornou famoso. De acordo com esse autor, os bens geridos coletivamente tendem a se exaurir mais rápido. Essa tese, denominada pelo autor de “tragédia dos comuns” parte do princípio de que cada ser humano, perseguindo seu próprio interesse, explora os recursos além de sua capacidade de suporte, pois considera que os benefícios são individuais ao passo que os prejuízos são divididos por todos/as. As histórias que contaremos aqui são completamente diferentes. Elas apontam para caminhos possíveis de manejo da natureza mobilizados por redes de agroecologia que, em distintos territórios, têm garantido vida digna a mulheres e homens.

O estudo “Redes de Agroecologia para o desenvolvimento dos territórios: aprendizado do Programa Ecoforte”, conduzido pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), no período de 2017-2020, sistematizou a experiência de 25 redes de agroecologia presentes em todas as regiões brasileiras. Todas foram apoiadas pelo Programa Ecoforte (financiado pela Fundação Banco do Brasil – FBB, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES e pelo Fundo Amazônia). A pergunta que guiou a sistematização pode ser sintetizada da seguinte maneira: por que é importante apoiar as redes territoriais de agroecologia? Dentre as respostas destacadas, está a capacidade dessas redes, compostas por um tecido organizativo diverso – representações de agricultores/as, indígenas, quilombolas, seringueiros e camponeses/as – entidades de assessoria, agentes econômicos locais, pesquisadores/as, educadores/as, estudantes, consumidores/as, gestores/as públicos de colocarem em prática ações voltadas à reestruturação dos sistemas de produção e de abastecimento alimentar segundo os princípios da agroecologia.

As Redes sistematizadas têm origens em momentos distintos, sendo algumas constituídas ainda na década de 1970, enquanto outras emergiram já na década de 2010.A sistematização dessas experiências em rede revelou-se uma oportunidade ímpar para o intercâmbio entre elas. As práticas de conservação e manejo das sementes crioulas figuram de forma recorrente nas redes, articulando os saberes dos/as agricultores/as e povos e comunidades tradicionais com a conservação da biodiversidade e a produção de alimentos saudáveis, livres de transgênicos e agrotóxicos.

No norte de Minas Gerais, a Rede Sociotécnica do Sertão do Norte Mineiro conta com a ciência do povo indígena Xacriabá para o trabalho realizado com as sementes. Na Terra Indígena Xacriabá (TIX) há três bancos de sementes geridos especialmente pelos/as mais velhos/as das aldeias, localmente reconhecidos como os/as “Guerreiros/as da tradição”. Esses/as mentores/as do território são também responsáveis pela organização dos plantios dos campos de sementes, uma atividade realizada comunitariamente, que também tem a função de transmitir as técnicas de seleção de sementes para o armazenamento e garantia de plantio na próxima safra para a geração mais nova.

Presente em parte dos estados de Minas Gerais e de São Paulo, a Rede de Sementes Biodinâmicas tem apoiado as famílias agricultoras em duas frentes de trabalho: produção de sementes de hortaliças para autoabastecimento e comercialização. A Associação Brasileira Biodinâmica (ABD), uma das animadoras da Rede, possui uma coleção com aproximadamente 1.000 tipos de sementes que foram previamente selecionadas por agricultores/as. Essas sementes são analisadas em uma câmara de germinação da Associação, o que permite verificar a qualidade em conformidade com as exigências para a comercialização estabelecidas pelo Ministério da Agricultura e da Pecuária (MAPA). A atuação da Rede tem possibilitado a inscrição e a manutenção de variedades no Registro Nacional de Cultivares (RNC). Embora esses sejam processos complexos e burocráticos, são passos importantes para a conquista de autonomia sobre o material genético, condição necessária para a reprodução de sementes visando à comercialização em mercados formais.

A Rede de Intercâmbio de Sementes (RIS), no norte do Ceará, tem conectado Casas de Sementes com a comercialização de alimentos por meio do Programa Nacional de Aquisição Alimentar (PNAE). As mulheres são protagonistas nessa história, tanto por serem as principais responsáveis pela gestão das Casas de Sementes, mas também porque é da produção agrícola feita por elas que vem grande parte do alimento ofertado pelo PNAE. A explicação é dada por uma agricultora da Rede: “quando a gente pensa em geração de renda, por meio da comercialização no mercado institucional e autonomia das mulheres, é sobre Casas de Sementes que estamos falando”. No que diz respeito à gestão comum, combinando recursos do território e do Estado, a RIS traz um interessante aprendizado. A aposentadoria rural requer a apresentação de documentos para a comprovação do tempo de contribuição junto ao Instituto Nacional de Segurança Social (INSS). Esses documentos, chamados pelos/as agricultores de “provas” são em regra oferecidos por órgãos especializados de assistência técnica e extensão rural, por exemplo, às/aos agricultores que acessam programas de distribuição de sementes. Mas, como explica um agricultor da RIS, “aqui no Ceará as sementes distribuídas são envenenadas, elas vêm até rosas”. Contudo, muitos/as agricultores/as pegavam as “sementes do governo” como forma de acessar os documentos requeridos no momento da aposentadoria, até que a RIS encampou essa luta e conseguiu que os comprovantes de empréstimo e devolução de sementes gerados pelas Casas fossem aceitos pelo INSS, comprovando a atividade agrícola familiar.

Na Paraíba, a Rede de Agroecologia da Borborema mantém 60 Bancos Comunitários de Sementes, que mobilizam mais de 1200 famílias de agricultores/as. Além de estocar 13 espécies e 130 variedades de sementes crioulas, a Rede é ativa em vários outros campos como, por exemplo, a coleta e armazenamento de água da chuva a partir  da construção de cisternas de primeira água, pelo Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), e de segunda água, pelo Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2). As sementes guardadas nos Bancos de Sementes e a água para agricultura e para o trato de pequenos animais garantem a produção da agricultura familiar.

Em nossa travessia pelos trabalhos com sementes crioulas das redes apoiadas pelo Programa Ecoforte, a última parada é na Rede de Intercâmbio em Agroecologia (GIAS), no Mato Grosso. A GIAS desenvolveu o Banco de Informações sobre Sementes (BIS), uma tecnologia social em agroecologia que visa ao registro e à sistematização das variedades de sementes mantidas pelos agricultores/as familiares. O fluxo das sementes organizado pelo BIS é verificado anualmente durante a Festa da Troca de Sementes Crioulas. Nessas oportunidades, mais de 300 pessoas cadastram variedades, ofertando-as numa economia de troca, quanto levam para casa variedades já cadastradas. A importância disso é destacada por Josefa Aparecida: – “a troca se torna mais gratificante quando a gente sabe para onde foi a semente, quem a recebeu, para onde andou a nossa história, sem o risco de perder as informações. É como uma nova vida, que poderá ser encontrada”.

Em tempos de pandemia e de crise de abastecimento alimentar, é fundamental destacar que as 25 redes sistematizadas pela ANA produzem juntas mais de 700 itens alimentares, entre produtos in natura, panificados, doces e geleias e derivados do leite. Esses alimentos produzidos e consumidos, especialmente nos territórios, indicam processos de relocalização dos sistemas agroalimentares, primando pelo acesso e consumo de seus produtos a partir de circuitos curtos, livres de proteínas transgênicas, agrotóxicos e de ultraprocessamento. Além do manejo agroecológico, esses alimentos são produzidos e comercializados, assegurando remuneração justa para a agricultura familiar e acesso a alimentos saudáveis a preços acessíveis para os/as consumidores/as.

Em momento de crise, as redes de agroecologia seguem produzindo e alinhando respostas para garantir o consumo de alimentos saudáveis. As redes de agroecologia dão mais uma mostra de que Hardin estava muito enganado. O que essas experiências em rede nos ensinam é que a verdadeira tragédia é a do “não comum”, pela qual territórios e seus bens sociais e ecológicos são convertidos em objetos de exploração por meio das transações em mercados controlados por grandes conglomerados empresariais.

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Armazenamento coletivo de sementes crioulas no Semiárido: histórias necessárias em tempos de pandemia e crise de abastecimento alimentar https://aspta.org.br/2020/04/21/armazenamento-coletivo-de-sementes-crioulas-no-semiarido-historias-necessarias-em-tempos-de-pandemia-e-crise-de-abastecimento-alimentar/ https://aspta.org.br/2020/04/21/armazenamento-coletivo-de-sementes-crioulas-no-semiarido-historias-necessarias-em-tempos-de-pandemia-e-crise-de-abastecimento-alimentar/#respond Tue, 21 Apr 2020 12:35:54 +0000 http://aspta.org.br/?p=18033 Leia mais]]> A formação de estoques é parte da história de vida dos/as agricultores/as familiares do Semiárido. Armazenar sementes, água e alimentos tem permitido que as famílias atravessem períodos críticos de seca. Os Bancos e Casas de Sementes, assim como as cisternas, são equipamentos bastante disseminados na região para o armazenamento de recursos. Além de armazenar sementes com qualidade, os bancos e casas comunitárias garantem o fortalecimento de práticas coletivas associadas a estratégias de valorização e de cuidados com a agrobiodiversidade. O aprendizado que vem do Semiárido é sobre estocagem solidária que permite que as famílias intercambiem fazeres e conhecimentos e fortaleçam o entendimento coletivo de que as sementes crioulas são um bem comum a ser protegido.

“As Casas de Sementes trouxeram autonomia”, afirma a agricultora e representante do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTRs) Cleide Pereira, do município de Forquilha, no Ceará. A visão de Cleide é compartilhada em diferentes lugares do Semiárido brasileiro, onde o armazenamento coletivo de sementes é entendido como uma prática associada à busca pela liberdade, pela conservação da agrobiodiversidade e pela garantia de alimentos com o cair das chuvas.

O armazenamento doméstico de sementes é reconhecido pelos/as agricultores/as do Semiárido como uma prática realizada “desde sempre” e remete a saberes que através das gerações vêm permitido a seleção e o armazenamento de variedades adaptadas às condições locais. O surgimento de formas coletivas de guardar as sementes levam-nos à década de 1970 e ao interior do Ceará como discutem Almeida e Cordeiro (2002) [1]. Os primeiros movimentos de armazenamento coletivo se iniciaram na região de Tauá-CE e foram dirigidos por Organizações Não Governamentais (ONGs), religiosos, STTRs e agricultores/as. Em relatos da época [2] a maior motivação dessas ações conjuntas, além de garantia de sementes para o plantio, era problematizar a situação que enfrentavam os/ agricultores/as frente à tríade – patrões, território e seca:

Naquele tempo não tinha semente nenhuma para plantar. O agricultor tinha que correr pra qualquer lado para conseguir na hora da chuva plantar na sua roça. E daí vinha a exploração. Quem não tinha semente era obrigado a pagar [para o patrão] ou não plantava (ESPLAR, 1992, p. 16).

Esse relato de um agricultor cearense dá a exata dimensão de como era difícil assegurar sementes para o plantio nos anos 1970. O que se impunha sobre os agricultores/as era uma “dependência em relação aos patrões”. Eles controlavam a terra e o território obrigando os/as agricultores/as a se submeterem a regimes específicos de trabalho. Devido às secas seguidas, os estoques de sementes de grande parte dos/as agricultores/as se esgotavam. Com isso, ficavam dependentes dos “patrões” também para plantar seus roçados. Quando as chuvas chegavam no Semiárido “[…] ao invés do trabalhador ir para sua própria roça, ia trabalhar primeiro na roça do patrão. Fazer primeiro a planta dele para depois fazer a sua. E, nessa agonia, os trabalhadores vinham quase perdendo a safra” (ESPLAR, 1992, p. 17).

Os bancos de sementes comunitários passam então a ser organizados como estratégias de assegurar disponibilidade de sementes aos/às agricultores/as “na hora certa”, quando o céu anuncia que “está bonito para chover”. Naquele tempo, as sementes foram compradas pela parceria entre os STTRs as Dioceses e armazenadas nos próprios Sindicatos. Nos relatos de Padre Bernardo Holmes, um dos religiosos envolvidos à época, destaca-se que a constituição dos Bancos nunca foi apenas sobre sementes, mas sobre organização política para enfrentar as situações de domínio da terra e o “cabresto que os patrões colocavam nos agricultores”. A luta era contra as relações trabalhistas impostas pelos patrões, o domínio da terra e dos bens naturais pela elite e, também, pela garantia de auto-organização, constantemente sufocada durante a década de 1970 e 1980 pelo regime autoritário implantado com o golpe de 1964: “nós tivemos uma época em que a coisa era complicada. Onde a gente estava era vigiado. Se ia fazer uma reunião era preciso ser escondido mesmo” (ESPLAR, 1992, p. 17).

A luta pelas sementes e pela garantia de direitos dos/as agricultores/as no Semiárido se fortaleceu ao longo dos anos. Atualmente, é possível encontrar Bancos e Casas de Sementes em cada estado do Nordeste, geridos pelos/as agricultores/as em sistemas de empréstimo e devolução que têm garantindo acesso perene a sementes de qualidade e no tempo certo do plantio [3]. Dentre as ações encampadas por agricultores/as, STTRs e ONGs é preciso destacar o trabalho de resgate de variedades crioulas como forma de identificar sementes que estavam há gerações sendo selecionadas por agricultores/as e que pela atual ameaça de contaminação por variedades híbridas e transgênicas, estavam desaparecendo.

Na Paraíba, na região da Borborema, agricultores e agricultoras se organizam por meio do Polo da Borborema, que envolve 13 STTRs e aproximadamente 150 associações comunitárias, além de uma organização regional de agricultura ecológica, a Ecoborborema. Há hoje, no território, 60 bancos de sementes crioulas que envolvem 1.280 famílias sócias e que abasteceram mais de 4 mil famílias em 2019. São armazenadas nesses bancos 13 espécies e mais de 130 variedades. Em 2019 esses bancos armazenaram cerca de 24 toneladas de sementes. Assim como grande parte do Semiárido, o território da Borborema enfrentou recentemente cinco anos de seca. Em períodos semelhantes nas décadas de 1980 e 1990 os estoques domésticos de sementes dos/as agricultores/as chegaram a esvaziar completamente. O cuidado com a agrobiodiversidade, pela diversificação dos plantios e pela conservação das variedades locais, tem permitido que mesmo diante do período prolongado de estiagem os/as agricultores/as estejam semeando seus roçados e quintais.

Em 2016, os/as agricultores/as da Borborema começaram a enfrentar processos acelerados de erosão genética de suas sementes devido à contaminação por variedades transgênicas de milho. Como estratégia para enfrentar a situação, o Polo e a AS-PTA lançaram a campanha “Não Planto Transgênico para não Apagar Minha História”. Uma das iniciativas da Campanha foi a construção, em 2018, de uma unidade de beneficiamento de milho. A ideia foi a de agregar valor às sementes de milho crioulo. De acordo com Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA, a primeira parte dessa ação envolveu um mapeamento das famílias guardiãs das “sementes da paixão” que produzem milho. Os grãos são testados para certificar que se estão livres de transgênicos. Certificada a qualidade, são transportados até a unidade regional de produção de derivados de milho no município de Lagoa Seca-PB. Foram moídos, em 2019, sete toneladas de grãos de milho, beneficiadas em 3.135 kg de fubá, 906 kg xerém, 1.231 mungunzá e 1.524 kg de farelo para consumo animal.

Dentre os produtos, o de maior sucesso é o Fubá da Paixão, componente base do cuscuz, receita típica e cotidiana da alimentação nordestina. Os produtos beneficiados são comercializados em 14 feiras agroecológicas e em 15 pontos fixos, entre quitandas e armazéns especializados na comercialização de produtos agroecológicos.

Os Bancos e Casas de Sementes e as estratégias de agregação de valor às variedades crioulas têm trazido autonomia aos/às agricultores/as ao garantirem a disponibilidade de sementes a cada safra. Além de gerar renda adicional para os/as agricultores/as, as ações de beneficiamento e comercialização do milho crioulo têm assegurado o consumo de alimentos livre de transgênicos e agrotóxicos para um público cada vez mais consciente do valor da agricultura familiar para a sua saúde e para o conjunto da sociedade. As práticas coletivas historicamente constituídas no Semiárido nos ensinam que enfrentamentos a crises alimentares e de abastecimento requerem olhares políticos, solidariedade compartilhada e agricultura familiar.

 

 

[1] ALMEIDA, P.; CORDEIRO, A. Sementes da Paixão: estratégia comunitária de conservação de variedades locais no semi-árido. Paraíba: AS-PTA, 2002.

[2] Os relatos foram retirados do Relatório I Encontro da Rede de Intercâmbio de Sementes do Ceará, 1991, produzido pela Organização Não Governamental cearense ESPLAR em 1992 e gentilmente cedido à autora.

[3] Por meio do Programa Sementes do Semiárido, coordenado pela Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), foram construídos 708 Bancos de Sementes distribuídos por todos os estados do semiárido brasileiro. A quantidade de Bancos, contudo, é ainda maior, pois são implantados e fomentados por múltiplos projetos conduzidos por ONGs e, ainda, construídos de forma autônoma pelos/as agricultores/as.

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Embrapa e ASA lançam projeto de conservação e valorização das sementes crioulas do Semiárido https://aspta.org.br/2019/08/17/embrapa-e-asa-lancam-projeto-de-conservacao-e-valorizacao-das-sementes-crioulas-do-semiarido/ https://aspta.org.br/2019/08/17/embrapa-e-asa-lancam-projeto-de-conservacao-e-valorizacao-das-sementes-crioulas-do-semiarido/#respond Sat, 17 Aug 2019 13:39:03 +0000 http://aspta.org.br/?p=16465 Leia mais]]>
Projeto Agrobiodiversidade no Semiárido vai ser realizado na parte do Brasil mais afetada pelas mudanças climáticas | Foto: Neto Santos/Fórum Piauiense de Convivência com o Semiárido

No próximo dia 19, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) lançam o primeiro projeto em parceria, o Agrobiodiversidade no Semiárido, que visa ampliar a proteção às sementes crioulas da região e inseri-las nas políticas públicas de sementes. O lançamento será no Hotel Petrolina Palace, às 10h.

O projeto integra uma iniciativa mais ampla da Embrapa, o programa Inova Social, que tem financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e a parceria de várias organizações da sociedade civil.

Como o nome anuncia, o projeto Agrobiodiversidade no Semiárido vai ser realizado na parte do Brasil mais afetada pelas mudanças climáticas que tornam os eventos naturais mais extremos, como secas mais longas e severas e chuvas mais intensas e concentradas, causando inundações e alagamentos.

E as mudanças climáticas são um dos maiores desafios da produção de alimentos no mundo. Nesse contexto, as espécies de sementes já adaptadas às regiões semiáridas e áridas do mundo têm sido altamente valorizadas pela ciência que quer estudar suas dinâmicas e características. “De grão, como são consideradas no Brasil, elas passam a ser consideradas sementes de excelência”, afirma Antônio Barbosa, coordenador dos programas de sementes crioulas e de promoção ao acesso à água para a produção de alimentos da ASA. E isso confere a elas o título não só de patrimônio genético dos agricultores e agricultoras familiares e do Semiárido, mas também do Brasil e do mundo.

O projeto Agrobiodiversidade no Semiárido trata-se de uma ação em rede, que acontecerá simultaneamente em sete territórios espalhados em cinco estados do Nordeste – Bahia, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Piauí. (Consulte abaixo, os territórios e municípios onde as atividades do projeto serão desenvolvidas)

A iniciativa é realizada após o Programa de Manejo da Agrobiodiversidade – Sementes do Semiárido da ASA, com parceria do BNDES e do Governo Federal, através do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), que virou Ministério da Cidadania. Segundo Barbosa, o Inova pode ser considerado um passo além do Sementes do Semiárido.

“Já passamos pelo momento de olhar para os materiais [genéticos], de sistematizar a importância das sementes dos agricultores e agricultoras, de formar grupos comunitários e formar as casas e bancos comunitários de sementes. Agora, nós estamos dando um passo à frente. Queremos agora avançar para uma perspectiva de testar o valor das sementes. Não temos nenhuma dúvida de que estas sementes têm um poder de transformação das vidas das pessoas muito grande. Mas a gente precisa, como diz no campo da ciência, validar esta perspectiva”, explica Barbosa.

Junto às ações de valorização do material genético, também está prevista a execução de estratégias de conservação e multiplicação destas sementes, também com intenção de influenciar políticas públicas. E são diversos tipos de estratégias, muitas delas inovadoras.

Inovar – Aliás, o nome “inovação” caracteriza muito bem este projeto. Não é à toa que o nome do programa ao qual faz parte é “Inova Social”. “Ele inova na possibilidade de multiplicar estas sementes, na possibilidade de testar e fazer os ensaios de comparação e inova também nesta parceria ASA-Embrapa”, acrescenta Barbosa.

Entre as estratégias inovadoras, estão a integração de dois sistemas de conservação das sementes crioulas, usadas em geral de forma separada. A conservação na roça, também conhecida como on-farm ou in-situ, e a conservação fora do lugar de ocorrência da espécie, com a feita pela Embrapa, universidades e institutos de pesquisa nos seus bancos de germoplasma.

“A integração entre dois sistemas de conservação, apesar de ser uma recomendação, todo mundo reconhece como necessária, poucas experiências efetivas foram levadas a cabo”, assegura Paola Cortez Bianchini, pesquisadora da Embrapa Semiárido.

Neste projeto entre a ASA e quatro unidades da Embrapa – Semiárido, Tabuleiros Costeiros, Meio Norte e Cenargen -, está prevista a devolução de sementes crioulas guardadas no banco de germoplasma de várias unidades da Embrapa, assim como o uso das estruturas da empresa brasileira para guardar materiais com algum tipo de risco de desaparecimento ou contaminação, como é o caso dos milhos crioulos pelas variedades transgênicas.

Pesquisa – Outra estratégia do projeto é a validação científica das qualidades biológicas, culturais, sociais das sementes crioulas por meio da realização de pesquisas – chamadas ensaios de comparação – entre o material manejado há gerações pelas famílias agricultoras e as espécies comerciais, inclusive, as distribuídas pelos programas governamentais.

Esse tipo de ensaio foi realizado anteriormente pela Embrapa em menor escala, com comprovação das qualidades das sementes crioulas. Resultado que justifica a realização destas pesquisas em maior escala. As pesquisas são feitas com a participação ativa de seus e suas guardiãs em todas as etapas do processo, unindo o conhecimento sistematizado na academia com o conhecimento popular, regida pelos princípios agroecológicos.

Como o projeto envolve sete territórios, estas pesquisas serão feitas em uma escala nunca realizada pela Embrapa até então. “A grande inovação é você fazer um grande projeto de pesquisa descentralizado”, destaca Bianchini.

E qual a importância da validação das qualidades das sementes?

As sementes crioulas do Semiárido ganharão outro nível de proteção | Foto: Hugo de Lima/Asacom

“Quando um agricultor, uma comunidade de uma região, uma política pública, ou seja, um gestor público de município, de estado ou de nível federal compreende a importância do uso e da conservação das sementes crioulas ou da agrobiodiversidade do Semiárido, isso é um salto muito grande. Porque você trabalha nas bases da sustentabilidade para a convivência com o Semiárido, que é o uso de espécies que são adaptadas às condições típicas do Semiárido”, explica Paola. “A partir do uso dos materiais que são adaptados a essa região, você tem uma das bases mais sólidas para trabalhar a sustentabilidade e resiliência nos agrossistemas familiares do Semiárido brasileiro”, completa a pesquisadora da Embrapa.

Segundo Maitê Maronhas, que compõe a equipe técnica da ASA que acompanhará o projeto Agrobiodiversidade no Semiárido, a resiliência de um agroecossistema é a capacidade que tem de retornar ao seu estado de equilíbrio após um evento extremo, as secas no semiárido brasileiro. “Mantendo-se produtivos, esses agroecossistemas possibilitam que que as famílias agricultoras dessa região sejam capazes de satisfazer suas necessidades alimentares, garantindo sua segurança e soberania alimentar e nutricional. E ainda, em muitos casos, comercializando em feiras, contribuindo para as pessoas na cidade com alimentos saudáveis, produzidos sem agrotóxicos e oriundos de sementes saudáveis”, destaca.

Além desta dimensão, a comprovação científica da validade das espécies crioulas possibilita a disputa de espaços nos programas públicos de distribuição de sementes. Segundo Barbosa, uma das intenções do programa é influenciar a lógica que rege o fornecimento das sementes pelos governos e discutir os programas de políticas públicas. “Sobretudo, o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos] Sementes, na modalidade de compra direta com distribuição simultânea, quando se compra dos agricultores localmente e se distribui localmente esse material”, assegura ele.

Casas de sementes – Outra estratégia preciosa do programa é a sistematização de informações sobre o fluxo das sementes que saem das casas de sementes comunitárias, implantadas e fortalecidas pelo programa Sementes do Semiárido, e vão para o roçado ou o quintal das famílias agricultoras associadas ao banco comunitário de sementes.

“Nós vamos verificar, em campo, de que forma as casas de sementes contribuem para fortalecer estes agroecossistemas. Por que esta informação é importante? Porque a gente sabe que aumentar a agrobiodiversidade manejada aumenta a resiliência, a capacidade desta família estar no Semiárido e conviver bem com o Semiárido. E, associado a isso, a gente também quer informações sobre a segurança alimentar e nutricional das famílias que, novamente, se relacionam diretamente com a agrobiodiversidade que, quanto mais diversa, a alimentação da família tende a ser mais diversa também”, explica Maronhas.

No fundo, todas estes levantamentos vão responder a uma questão chave que investiga o impacto da inserção dos bancos nas dinâmicas produtivas e alimentares das famílias rurais do Semiárido: Como é que as casas de sementes estão influenciando os agroecossistemas e a segurança alimentar e nutricional das famílias?

Nesta dimensão da rede de bancos ou casas comunitárias de sementes, o projeto prevê ainda outra forma de reforçar a condição local de conservar as sementes próximos de si. Seis dos sete territórios envolvidos com a ação terão um banco mãe de sementes para guardar uma maior diversidade de sementes da região de sua e com equipamentos adequados ao beneficiamento destas sementes para sua melhor conservação.

Inova Social – Trata-se de um programa que articula projetos realizados pela Embrapa em parceria com outras instituições, em geral, organizações da sociedade civil.

O programa é dividido em dois objetivos estratégicos, um é relacionado à cadeia da caprino-ovinocultura e outra é relacionada à cadeia das sementes agroecológicas. Dentro de cada objetivo deste, são três projetos.

Os de caprino são dois aqui no Semiárido com a Embrapa Caprinos e Ovinos e um com a Embrapa Pecuária Sul em Bagé (RS).

Já os projetos de conservação das sementes crioulas são :este em parceria com a ASA e as Embrapas Semiárido, Tabuleiros, Meio Norte e Cenargen. Outro em Goiás realizado pela Embrapa Cerrado e o Movimento Camponês Popular (MCP). E mais um projeto envolvendo a Bionatur, do Movimento dos Sem Terra (MST), e a Embrapa Clima Temperado.

Projeto Agrobiodiversidade no Semiárido em números
5 estados
7 territórios
53 municípios
144 comunidades rurais
cerca de 3 mil famílias
3 anos de duração
12 milhões de reais o investimento total, sendo R$ 5 mi do BNDES e R$ 7 mi contrapartida da ASA e da Embrapa

TERRITÓRIOS E MUNICÍPIOS DE ATUAÇÃO
Sergipe, no Sertão Ocidental: municípios de Simão Dias, Tobias Barreto e Frei Paulo;

Bahia, território Semiárido Nordeste II: municípios de Antas, Cícero Dantas, Novo Triunfo, Sítio do Quinto, Jeremoabo, Santa Brígida, Fátima, Paripiranga e Adustina. E também nos municípios de atuação da Refaisa (Rede de escolas Famílias Agrícolas Integradas): Sobradinho, Antonio Gonçalves, Itiúba, Monte Santo e Cícero Dantas.

Pernambuco, no Sertão do Pajeú: municípios de São José do Egito, Tabira, Solidão, Santa Cruz da Baixa Verde, Triunfo, Flores, Afogados da Ingazeira, Carnaíba, Ingazeira, Itapetim, Santa Terezinha e Quixaba; e nos Sertões do Araripe e do São Francisco: Cabrobó, Moreillândia, Granito, Serrita, Lagoa Grande, Orocó, Petrolina e Santa Maria da Boa Vista.

Paraíba, território da Borborema: Lagoa Seca, Arara, Remígio, Areial, Montadas e Mogeiro.

Piauí, territórios dos Carnaubais e Cocais: Pedro II, Lagoa de São Francisco, Milton Brandão, Piracuruca, Castelo do Piauí, Buriti dos Montes, Juazeiro do Piauí, São João da Serra, Domingos Mourão e São Miguel do Tapuio.

 

Fonte: www.asabrasil.org.br
Por Verônica Pragana – Asacom

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Comissão de Sementes da Borborema se mobiliza para conter o avanço dos transgênicos na região https://aspta.org.br/2019/01/29/comissao-de-sementes-da-borborema-se-mobiliza-para-conter-o-avanco-dos-transgenicos-na-regiao/ https://aspta.org.br/2019/01/29/comissao-de-sementes-da-borborema-se-mobiliza-para-conter-o-avanco-dos-transgenicos-na-regiao/#respond Tue, 29 Jan 2019 13:25:47 +0000 http://aspta.org.br/?p=16181 Leia mais]]> A Comissão de Sementes do Polo da Borborema terminou o ano de 2018 debatendo estratégias para o fortalecimento da conservação e do uso das sementes crioulas, ou “Sementes da Paixão” como são conhecidas no estado. Uma das preocupações do grupo é mantê-las livres da contaminação por sementes transgênicas. O Polo é uma articulação de 13 sindicatos de trabalhadores rurais e atua, há mais de 20 anos na região da Borborema, na Paraíba com a assessoria da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, pelo fortalecimento da agricultura camponesa agroecológica e tem como uma de suas principais linhas de ação a promoção da seguridade ao acesso às sementes crioulas por meio de uma rede de 62 bancos de sementes comunitários para conservação da biodiversidade.

A contaminação por transgênicos no território passou a fazer parte da luta das famílias agricultoras desde que os testes de transgenia (com fitas sensíveis a proteínas modificadas geneticamente), realizados a partir do ano de 2014, vem mostrando o aumento de amostras de sementes crioulas contaminadas.

Em novembro passado, durante um encontro da Comissão, os resultados do monitoramento realizado pela estudante de Agronomia Tatiana Schiavon de Albuquerque, da Universidade Federal de Pelotas – UFPEL, no Rio Grande do Sul, foram apresentados. A estudante fez um estágio para a conclusão de curso de três meses numa parceria entre a UFPEL ,a AS-PTA e o Polo da Borborema e cumpriu as etapas de visitas às comunidades e reuniões nos bancos de sementes comunitários, coleta das amostras, realização dos testes e entrega dos resultados aos guardiões de sementes junto com um certificado de ateste de livre de transgenia. Os resultados de seu trabalho foram alarmantes: do total de 171 amostras de milho colhidas de famílias agricultoras de 14 municípios da região, 30 foram descartadas após os testes, pois as famílias declaram que compraram os grãos em feiras e armazéns, sendo portando transgênicas. 67 amostras de milho crioulo deram contaminadas (47%) e 74 livres de transgênicos (53%).

De acordo com Emanoel Dias, assessor técnico do Núcleo de Sementes da AS-PTA, em 2018, com a ampliação da quantidade de testes, a metodologia utilizada na coleta de amostras para análise, considerou as famílias guardiãs que plantam sementes livres de transgênicos, cuja origem são os estoques familiares ou dos bancos comunitários e seus vizinhos, e também aquelas que por vezes compram sementes nos armazéns e feiras livres para plantar em seus roçados. “A ampliação dos testes para novas famílias que ainda não pertencem à dinâmica dos bancos de sementes comunitários, foi justamente para, a partir dos resultados, abrirmos um diálogo sobre os riscos de contaminação para dentro da rede e também para envolvermos novos agricultores no debate sobre a autonomia das sementes”, explica.

As 67 amostras de sementes crioulas contaminadas têm, contudo, origem no acervo da família ou no banco comunitário e provavelmente foram contaminadas pela proximidade de roçados. Junto com os próprios agricultores e agricultoras, analisou-se que o monitoramento evidenciou que aumento da contaminação são resultado também da estiagem prolongada, da redução dos estoques dos bancos de sementes, da ausência de vegetação que poderia evitar a contaminação pelo vento, e até os programas governamentais, a exemplo do “Programa Venda de Balcão”, por meio do qual são comercializados grãos transgênicos para a alimentação dos animais, sem nenhum tipo de identificação. “Apesar dos resultados mostrarem elevada contaminação, pudemos perceber que os bancos de sementes continuam sendo uma forte estratégia para manter as sementes livres de transgênicos, pois a maioria dos guardiões tem conseguido manter suas sementes à salvo”, comenta Emanoel.

“Os resultados mostram que nós conseguimos manter regiões que estão livres de transgênicos, mas não podemos nos acomodar com estas vitórias. Precisamos tomar cuidado para que os transgênicos não entrem ali e valorizar estas experiências para qualificar a semente que é guardada e não precisar comprar para plantar”, afirma Euzébio Cavalcanti, liderança da Comissão de Sementes e do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Remígio.

Diante dos dados, durante o encontro, as lideranças da Comissão reafirmaram sua disposição em continuar firmes na promoção da campanha “Não planto transgênicos para não apagar minha história”, mas afirmam sobretudo que precisam levar a campanha para quem ainda não participa da Rede de Sementes e que estão mais sujeitos a levarem as sementes transgênicas para as áreas de produção. “A luta pela preservação das sementes crioulas precisa envolver o conjunto dos agricultores. Na Borborema, as terras são muito pequenas e bastante desarborizadas devido a ação humana. Os números revelam que precisamos aprofundar a Campanha no território”, analisa Emanoel.

Assim, a Comissão construiu um conjunto de estratégias e alternativas para enfrentamento da contaminação dos transgênicos como: estimular com que os agricultores da região que perderam suas sementes comprem o milho das famílias guardiãs ou em bancos onde os resultados dos testes apontam ser livres da contaminação; promover reuniões comunitárias e conversas com os vizinhos sobre a origem do milho a ser plantado no roçado; implantar campos de multiplicação em área com irrigação de salvação ou sequeiro; dar continuidade da realização dos testes de transgenia; sistematizar e dar visibilidade as estratégias das famílias guardiãs livres de transgênicos na produção de suas sementes; realização de visitas de intercâmbio junto as famílias guardiãs livre transgênicos; promover feiras de trocas de sementes; guardar no Banco Mãe de Sementes uma cópia de segurança para que as variedades crioulas não sejam perdidas, entre outras.

Outra estratégia que tem contribuído nessa luta no território é o processamento e a comercialização de derivados de milho crioulo livres de transgênicos, que são beneficiados na unidade de produção montada na sede do Banco Mãe de Sementes do território da Borborema. O fortalecimento de um mercado de produtos livres de transgênicos, num contexto de ausência de oferta desses produtos nos mercados convencionais, tem se revelado como uma grande oportunidade e estímulo à conservação do milho. Em 2018, 7 toneladas foram produzidas a partir da compra de milho livre de transgênicos de 20 famílias guardiãs que abasteceram o comércio na rede de 12 feiras agroecológicas acompanhadas pelo Polo da Borborema, além de 7 pontos fixos de comercialização e dois locais de venda à domicílio em João Pessoa, dois pontos fixos em Recife, um ponto fixo nas cidades Campina Grande, Boqueirão e Soledade. Para 2019, de acordo com Emanoel, 9 toneladas de milho já estão estocadas para a produção.

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Polo da Borborema e AS-PTA inauguram Banco Mãe de Sementes com presença do governador Ricardo Coutinho https://aspta.org.br/2017/09/29/polo-da-borborema-e-as-pta-inauguram-banco-mae-de-sementes-com-presenca-do-governador-ricardo-coutinho/ https://aspta.org.br/2017/09/29/polo-da-borborema-e-as-pta-inauguram-banco-mae-de-sementes-com-presenca-do-governador-ricardo-coutinho/#respond Fri, 29 Sep 2017 00:11:19 +0000 http://aspta.org.br/?p=15228 Leia mais]]> cc16b368-78eb-433d-99e8-dac15f28200fAgricultores e agricultoras, guardiões das sementes da paixão, lideranças comunitárias, dirigentes sindicais, várias organizações do Território da Borborema estiveram presentes na inauguração do Banco Mãe de Sementes, localizado no sítio Quicé, entre os municípios de Lagoa Seca e São Sebastião de Lagoa de Roça.

A cerimônia teve início ainda pela manhã, quando cerca de 80 guardiões e guardiãs, representantes da Rede Regional do Polo da Borborema, foram montando um altar onde colocavam suas sementes da paixão, mas também a sua paixão pela construção da segurança alimentar, da agroecologia, da autonomia, e ainda foram plantadas as sementes da juventude, e sobretudo, a semente humana, força motriz na construção desse projeto. Diante de um altar repleto de sementes, símbolos e histórias, Padre Antoniel, Pároco de São Sebastião de Lagoa de Roça, conduziu a benção das sementes e do Banco Mãe.

DSC02206Uma mesa foi montada com a presença de guardiões. A primeira a falar foi dona Teresinha Silva, agricultora guardiã de Solânea. Dona Teresinha lembrou da sua semente da paixão, o feijão de cacho que herdou de seu pai: “Além do meu pai ter ensinado, nas minhas experiências, fui observando que o feijão de cacho é resistência. De tanto falar nele, fui parar até no Fantástico! Ele é um feijão que cura”. Euzébio Cavalcanti, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Remígio, falou da importância de se trabalhar em Rede e lembrou das conquistas alcançadas nos últimos 20 anos. Organizou o tempo em 3 fases: quando as sementes dos agricultores não eram reconhecidas como tal, o primeiro passo foi organizar o Polo e descobrir os tesouros, como o Banco de Sementes de São Tomé e tantos outros espaços de resistência. Nos anos 2000, depois de fazer pressão, junto com as organizações que fazem a ASA Paraíba, conseguiu-se alterar a legislação estadual que passou a reconhecer as sementes da paixão. Por fim, lembrou dos avanços alcançados nos governos Lula e Dilma e as políticas que vieram apoiar a agrobiodiversidade, como os casos da regulamentação do PAA Sementes e do Projeto Sementes do Semiárido.

DSC02232A guardiã Silvinha lembrou que para contrapor as ameaças às sementes da paixão, só a organização dos Bancos de Sementes Comunitários: “Temos muitas variedades de sementes, cada semente tem sua história, sua conquista, sua luta. Os Bancos de Sementes tornam-se uma vantagem muito grande pois não deixamos entrar sementes sem procedência”. Por fim, o jovem Eduardo Muniz apresentou os resultados de seu trabalho de conclusão do curso de Agroecologia, onde foi responsável por identificar as sementes contaminadas por transgênicos. Lembrou que em 2014, só havia contaminação das sementes de milho vindas da Conab. Nos anos seguintes, encontrou-se amostras de sementes da paixão contaminadas o que levou a construção e o debate junto às comunidades sobre a Campanha Não planto transgênicos para não apagar minha história.

DSC02216Após a mesa, Manoel Oliveira, Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Nova e da Coordenação do Polo da Borborema, resgatou toda a história de luta para a conquista do Banco Mãe de Sementes e ainda falou sobre a importância do espaço para os agricultores e agricultoras do Polo da Borborema, indicando a gestão coletiva para a manutenção do espaço. A manhã encerrou com o chamamento para a VII Festa da Sementes da Paixão, que acontecerá entre os dias 05 e 07 de outubro, em Boqueirão-PB.

No período da tarde, após a animação do Trio “Mistura de Gerações” e muitas poesias, foi realizada a cerimônia de assinatura dos Termos de Autorização de uso do local e dos equipamentos pelos agricultores com a presença do Governador Ricardo Coutinho e o Secretário do Desenvolvimento da Agropecuária e da Pesca e representantes do Polo da Borborema.

22046821_647532175444093_2167694984494221685_nDurante o ato, o Secretário Estadual Rômulo Montenegro ressaltou que o setor agropecuário é um dos setores mais importante social e economicamente e registrou o compromisso de transformar as sementes crioulas numa política de estado: “Fica Governador, com sua autorização, e sei que terei, como compromisso firmarmos e cumprirmos a compra das sementes de batatinha. Além disso, vamos construir uma política para a aquisição de sementes crioulas das famílias agricultoras já para próxima safra”, disse.

O governador Ricardo Coutinho encerrou a cerimônia deixando um recado de otimismo à organização dos agricultores: “É possível avançar. Vocês estão aqui demonstrando. Nós queremos que isso se fortaleça com os bancos comunitários. Nós estamos aqui apontando, através da palavra do nosso secretário, a compra das sementes. Mas é fundamental que isso ganhe vida própria. O Banco Mãe não foi construído para servir ao estado, foi criado para servir a agricultura e aos agricultores. Nunca devemos esquecer disso. A compra de sementes crioulas por parte do estado vem apenas fortalecer esse projeto de vocês”.

 

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Rede de Sementes da Paraíba recebe visita da Caravana da Agrobiodiversidade https://aspta.org.br/2016/08/08/rede-de-sementes-da-paraiba-recebe-visita-da-caravana-da-agrobiodiversidade/ https://aspta.org.br/2016/08/08/rede-de-sementes-da-paraiba-recebe-visita-da-caravana-da-agrobiodiversidade/#respond Mon, 08 Aug 2016 20:59:03 +0000 http://aspta.org.br/?p=13991 Leia mais]]> sementes crioulasNa quarta-feira (03/08), o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Queimadas recebeu uma visita especial. Agricultores e agricultoras, estudantes, agentes de ATER, professores e pesquisadores, vieram conhecer a experiência da Rede de Sementes da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba). A visita faz parte da programação da I Caravana da Agrobiodiversidade do Semiárido, formada pelos estados da Bahia, Pernambuco e Sergipe. Somadas a Caravana, também estiveram presentes 5 quilombolas do Maranhão.

A caravana, que já vinha de dois dias de intercâmbio no Sertão do Pajeú, chegou à Paraíba com o intuito de conhecer os acúmulos e conquistas da Rede de Sementes. O primeiro momento contou com a apresentação da organização do trabalho da rede e suas organizações no estado: a história das sementes da paixão, a visibilidade e valorização das experiências dos guardiões e guardiãs, as conquistas e as lutas pela estruturação de uma política de sementes para o semiárido paraibano, além da atuação das 07 dinâmicas territoriais presentes no estado ligadas à ASA Paraíba.

À tarde a programação seguiu com visitas a três bancos de sementes nas comunidades de Torrões, Guritiba e Maracajá, no município de Queimadas. “O que mais me chamou atenção foi a história da fundação do Banco, começou com as mulheres se organizando”, disse dona Maria José, agricultora assentada vinda de Sergipe. Ela participou da visita ao Banco de Sementes da comunidade de Torrões e conheceu, além da experiência do próprio banco, as dinâmicas organizacionais da comunidade. A cozinha comunitária, os fundos rotativos solidários, a organização da juventude e das mulheres. Dona Maria anotava em uma folha de papel suas impressões sobre tudo que via. Ela diz que estão tentando montar um Casa de Sementes da Liberdade – como são chamadas as sementes crioulas no seu estado – na sua comunidade e que a caravana já lhe trouxe muito conhecimento.

Para Paola Cortez Bianchini, Pesquisadora da Embrapa Semiárido e Coordenadora do Núcleo de Agroecologia do Semiárido, o trabalho com as Sementes da Paixão tende a trazer muitos benefícios para as comunidades e para a própria Embrapa no seu modo de fazer pesquisa, de entender ciência e na sua proposta de pesquisa em agroecologia: “Se a gente pensar numa perspectiva de trabalho em rede, a Embrapa tem a contribuir com a pesquisa para fortalecer e valorizar o conhecimento dos agricultores”, diz a pesquisadora. E ainda confirma o que os agricultores e agricultoras já sabem há tempos, que “a Semente da Paixão, é a semente mais apropriada para cada contexto ambiental e sociocultural”.

sementes crioulasNo segundo dia de visitas, os grupos se dividiram entre as experiências de Sementes no território do Coletivo, onde foram visitados os bancos de sementes das comunidades Caiana em Soledade e a comunidade Alto do Umbuzeiro em São Vicente do Seridó. A força dos homens e mulheres paraibanos, agricultores e agricultoras, é levada pela caravana, para cada um dos seus estados.

Após as visitas de intercâmbio nas comunidades, o grupo se reuniu na Capela Santa Clara em Soledade, onde foi apresentada a pesquisa participativa das sementes da paixão, com ênfase no processo metodológico, construído a partir da valorização do conhecimento das famílias agricultoras sobre as suas sementes. “Os principais resultados dessa integração mostraram que as sementes da paixão produzem mais ou igual às sementes comerciais. Isso nos possibilita levantar subsídios para construção de políticas públicas que possam valorizar a rica biodiversidade de sementes presente nos bancos comunitários de sementes”, afirma Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA. Ao final, foi apresentado o vídeo e os instrumentos (cartaz, banner e o cordel) que o Polo da Borborema vem utilizando na Campanha não planto transgênicos para não apagar minha história.

A I Caravana da Agrobiodiversidade do Semiárido faz parte do plano de ação de um dos projetos do Núcleo de Agroecologia da Embrapa Semiárido por meio da chamada CNPq/Embrapa Semiárido, e é uma parceria com diversas organizações não-governamentais e os diferentes núcleos de agroecologia consolidados por meio das chamadas do CNPq.

 

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