Famílias marcham em defesa de suas sementes da paixão

No primeiro dia, em Lagoa Seca, foi realizado o Encontro Estadual de Agricultores e Agricultoras Guardiões das Sementes Crioulas, com cerca de 150 participantes de todas as microrregiões paraibanas. Ora por meio de místicas, músicas e poesia, ora por meio de debates e exposições orais de organizações presentes, variados temas foram abordados, com destaque para o risco dos agrotóxicos, a ameaça dos transgênicos e a reivindicação do respeito ao modo de vida e produção camponesa.

Uma mesa, composta por representantes de instituições assessoras (AS-PTA e Patac) e órgãos governamentais (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Embrapa), iniciou os debates.

Emanuel Dias, engenheiro agrônomo AS-PTA, começou falando sobre o programa do governo de distribuição de sementes no semiárido e apontou como falha o fato de oferecer apenas uma variedade de milho. Já as famílias agricultoras, em compensação, conservam uma grande biodiversidade por meio de bancos de sementes familiares ou comunitários. O representante da Embrapa reforçou o argumento ao mostrar resultados de estudos que apontam a superioridade do rendimento de algumas sementes tradicionais em comparação com a variedade distribuída pelo governo. O representante do MDA chamou a atenção para a importância de também preservar variedades de criações, uma vez que houve diminuição de raças crioulas de galinhas na região.

Após a exposição da mesa, Luciano Silveira, da AS-PTA, colocou alguns pontos-chaves sobre a questão: Para que as variedades crioulas sejam conservadas, é preciso garantir maior participação e autonomia dos agricultores, que hoje se deparam com preços altos de sementes das empresas, acesso restrito e precário a mercados para venda de sua produção e pouca incidência sobre os órgãos do governo e políticas públicas. Felizmente, os agricultores começam a questionar esse quadro e propor estratégias para a reprodução da agricultura familiar camponesa e agroecológica.

À tarde, outra mesa foi organizada para a exposição sobre como a liberação das sementes transgênicas pode afetar a realidade de agricultores de todo o País. Gabriel Fernandes, assessor técnico da AS-PTA, falou do alto risco de contaminação das sementes crioulas, principalmente as de milho. Além disso, alertou para o fato de que o mercado de variedades transgênicas está na mão de apenas cinco multinacionais, o que submete os agricultores aos altos preços estipulados por essas companhias. Ele ainda advertiu para o risco à saúde dos consumidores: Segundo pesquisas realizadas em outros países, ficou comprovado que os efeitos, como doenças alérgicas e infertilidade, começam a aparecer na 3ª geração de vida. E o pior é que está em trâmite a retirada da rotulagem de alimentos que contêm substâncias transgênicas. Caso isso aconteça, a população não saberá quais alimentos industrializados derivados da soja e do milho apresentam tais substâncias.

Em seguida, outro assessor técnico da AS-PTA, André Jantara, relatou como os grupos de agricultores e agricultoras experimentadores da Região Centro Sul do Paraná e Planalto Norte Catarinense têm utilizado o conhecimento em Agroecologia para resistir às investidas do agronegócio. Segundo ele, as famílias agricultores têm realizado um trabalho de monitoramento para verificar a contaminação das sementes crioulas de milho por meio do Teste de Transgenia. Além disso, organizaram abaixo-assinados e recolheram assinaturas de agricultores guardiões de sementes crioulas declarando não querer plantar nem consumir variedades transgênicas.

Ao fim do dia, realizou-se um debate em que cada delegação de guardiões de sementes da paixão da Paraíba elencou as principais medidas que podem tomar em conjunto para fortalecer a agricultura familiar camponesa de base agroecológica, entre elas: disseminar, por meio de programas de rádio, informativos e nas reuniões, mais informações sobre os riscos das sementes transgênicas e dos agrotóxicos para a produção de base familiar e para os consumidores; multiplicar e conservar os bancos de sementes crioulas comunitários; divulgar para a população urbana quais alimentos contêm substâncias transgênicas; sistematizar as experiências bem-sucedidas com sementes crioulas; fazer o mapeamento das famílias guardiãs; influenciar as empresas governamentais e não-governamentais na conservação das sementes crioulas; e, finalmente, incentivar a multiplicação das sementes e de seus guardiões em todo o estado. 

Marcha “Por Uma Paraíba Livre de Transgênicos e Agrotóxicos”

No dia 19 de março, foi o momento da celebração da Festa da Semente da Paixão. Na abertura, mais de duas mil pessoas marcharam pelas principais avenidas da cidade de Campina Grande, despertando a curiosidade das pessoas que paravam para ver aquelas mulheres e homens que seguravam embalagens de alimentos transgênicos. A marcha foi organizada em blocos que, ao chegarem ao Parque do Povo, onde uma feira havia sido montada, animadamente começaram a trocar as sementes crioulas entre as famílias camponesas.

Houve também várias falas políticas de autoridades, agricultores e agricultoras, jovens e lideranças de Igrejas contra os transgênicos e o uso de agrotóxicos. Outro momento de muita alegria se deu quando os agricultores e agricultoras, após fazerem o teste de transgenia, recebiam o certificado de que sua semente era pura, livre da contaminação por sementes transgênicas. Foi a expressão do orgulho de pertencer a uma tradição guardiã desse patrimônio, que não é só dos agricultores e agricultoras, mas de toda a sociedade.

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