Agricultores e agricultoras da Borborema garantem renovação dos estoques de sementes crioulas

Mais de três mil agricultoras e agricultores da Região do Polo da Borborema estão renovando os seus estoques de sementes para a próxima safra por meio do fortalecimento dos Bancos de Sementes Comunitários (BSC’s). O apoio para a compra das sementes crioulas veio de um projeto celebrado entre o Polo Borborema, a AS-PTA Agroecologia e Agricultora Familiar e a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) que, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), passou a disponibilizar recursos para a compra de sementes produzidas pelas famílias agricultoras da região.

Atualmente o PAA apresenta-se como uma das poucas possibilidades de aquisição de sementes crioulas da agricultura familiar com recursos governamentais. Esse caráter inovador do programa abre possibilidades importantes para que os agricultores familiares e suas organizações possam cobrar mudanças na política de distribuição de sementes para o semiárido, construindo uma política que seja capaz de valorizar a agrobiodiversidade e as diferentes formas de resistência e costumes das famílias agricultoras.

De acordo com Emanoel Dias, técnico da AS-PTA, a iniciativa ajuda a dar força a rede formada por mais de 80 bancos de sementes e um banco-mãe existentes em 16 municípios do território da Borborema: “A lei de 2002 que reconheceu as sementes crioulas como apropriadas para o armazenamento e cultivo, somada à implementação do PAA em 2004, ajudou a impulsionar este trabalho com os BSC’s, pois permite que o pequeno agricultor possa acessar recursos para vender e comprar suas sementes”, afirmou. Segundo Emanuel, as vantagens em adquirir sementes crioulas para as famílias agricultoras são muitas: “são sementes adaptadas ao clima e ao tipo de solo de cada local e longe do perigo da contaminação por agrotóxicos ou transgênicos”, explica.

A criação dos bancos foi uma das alternativas encontradas pelas famílias para manter a autonomia sobre suas sementes, o que garante a produção do próximo plantio no momento certo, principalmente nos períodos de estiagem. Além disso, a estocagem das sementes nos bancos garante a preservação da diversidade. As sementes tradicionais são fundamentais para a reprodução da agricultura familiar camponesa. Elas representam o patrimônio genético e cultural de milhares de agricultores e agricultoras, razão pela qual, na Paraíba, recebem o nome de “Sementes da Paixão”. O trabalho de estruturação dos Bancos de Sementes Comunitários vem sendo desenvolvido de forma articulada com a Rede de Bancos de Sementes da ASA Paraíba, somando um total de 220 bancos comunitários em todo estado.

O agricultor José Luna de Oliveira, conhecido como Zé Pequeno, explica que a rede de bancos de sementes é formada por três tipos de bancos: “o familiar, que é aquele que cada agricultor mantém dentro da sua casa, o banco de sementes comunitário, e o banco-mãe, que é abastecido pelos demais, para que ele possa servir como um reforço a todos”.

Os Bancos de Sementes e o fortalecimento da organização das mulheres

A experiência positiva dos Bancos de Sementes estimulou uma iniciativa liderada pelas mulheres do Polo da Borborema de produção de multimistura, um complemento alimentar produzido à base de grãos. A partir de um diagnóstico feito pelas mulheres da Comissão de Saúde e Alimentação do Polo sobre os casos de desnutrição em crianças, gestantes e idosos no território, passou-se a produzir a multimistura para a distribuição nos sindicatos e associações da região.

“A produção da multimistura está inserida dentro de um conjunto de ações encabeçadas pelas mulheres da Comissão de Saúde e Alimentação, que passa pelo debate sobre a segurança alimentar, a diversificação dos roçados, a intensificação dos arredores de casa e a recuperação da saúde através da boa alimentação”, explica Gizelda Bezerra, do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Remígio e uma das animadoras desse trabalho.

Para a produção da multimistura são organizados mutirões, que se constituem como momentos de formação, onde as mulheres ensinam e aprendem a fazer o complemento além de trocarem experiências e conhecimentos sobre boas práticas para uma alimentação diversificada e saudável.

Atualmente a ação está sendo desenvolvida em sete municípios: Remígio, Alagoa Nova, Solânea, Matinhas, Areial, Massaranduba e Lagoa Seca envolvendo diretamente o trabalho de mais de 100 mulheres. Só em 2010 foram distribuídos mais de 400 kg de multimistura, beneficiando cerca de 500 pessoas. Nos municípios de Massaranduba e Remígio funcionam dois Bancos de Grãos, onde parte das sementes de amendoim, girassol, milho, gergelim e jerimum é guardada para a produção da farinha. Os bancos de grãos foram implementados por meio de projetos submetidos ao PAA e geridos pelas mulheres.

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2 comentários

  1. Silvia de Souza Araú
    Postado 28 de outubro de 2012 às 23:02 | Permalink

    Eu sou celíaca e adoraria comprar os grãos de sorgo ou a farinha de sorgo, mas é super difícil de encontrar. Aliás, é impossível, pois até agora eu não consegui encontrar estes produtos dentro do Estado de são Paulo.
    Por que será que nos Estados unidos é tão fácil de achar sorgo branco para consumo humano (grãos e farinha), enquanto que no Brasil (que é um grande produtor) isto é simplesmente impossível?
    Alguém, por favor, me responda.
    Abraço e obrigada.

    • Araci de Miranda
      Postado 16 de março de 2015 às 21:52 | Permalink

      Cara,Silvia .
      Só hoje pude ler sua mensagens sobre sorgo branco ,mais conhecido entre nós nordestinos como sorgo granífero,ele se desenvolve melhor em clima secos porém não é difícil encontrar entre Goias e o Nordeste.

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