Ciclo de Encontros Municipais de Juventude do Polo da Borborema debate ameaças à Agricultura Familiar Agroecológica

SAMSUNG CAMERA PICTURESEntre os meses de julho e setembro de 2015, o Núcleo de Infância e Juventude da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, em parceria com a Comissão de Jovens do Polo da Borborema, uma articulação de 14 sindicatos de trabalhadores rurais da região da Borborema na Paraíba, realizou um ciclo de Encontros Municipais da Juventude Camponesa nos municípios de Remígio, Alagoa Nova, Lagoa Seca, Remígio, Massaranduba, Solânea e Queimadas. Cerca de 300 jovens participaram dos encontros nos sete municípios.

O conjunto de eventos tem como objetivos valorizar o trabalho da juventude no território; permitir a troca de experiências entre a juventude agricultora; debater as ameaças à agricultura familiar, à agroecologia e à juventude do campo; envolver os jovens no debate das sementes a partir das dinâmicas existentes e da Festa Estadual das Sementes da Paixão e planejar com os jovens as atividades para o resto do ano.

Encerrando o ciclo de encontros, aconteceu no último dia 09 de setembro, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Queimadas, um encontro que reuniu mais de 50 jovens de 11 comunidades rurais do município. A abertura da atividade aconteceu com a apresentação de uma peça encenada por jovens do Sítio Lutador. Na encenação, uma viúva e sua família, que trabalham de forma agroecológica, buscam a justiça, pois perderam o marido e pai, adoecido pela contaminação por agrotóxicos, usados por um vizinho, grande proprietário de terras. A agricultora é coagida a vender a sua terra ao fazendeiro para se afastar do problema. A peça foi encerrada lançando o questionamento à plateia: “O que a agricultora deve fazer? Vender suas terras é a melhor saída?”. Seguiu-se a isso uma rodada de falas sobre o risco dos agrotóxicos e a importância da agricultura familiar agroecológica, limpa, livre de venenos.

jovens queimadasEm seguida, a direção do sindicato deu as boas-vindas aos participantes e representantes da comissão municipal de jovens apresentaram os objetivos do evento. Após isso, houve a apresentação dos participantes por comunidade, que foram convidados a falar sobre os produtos que trouxeram para o encontro, frutos do seu trabalho na agricultura. Adailma Ezequiel Pereira, 25 anos, conhecida como “Preta”, liderança jovem do Sítio Lutador, falou sobre a sua satisfação em poder apresentar produtos que ela mesma produziu: “Eu trouxe pimentões, porque foram a primeira hortaliça que eu plantei na minha cisterna calçadão. É maravilhoso, ter os meus, porque eu sei que é uma das culturas em que mais se usa veneno, então para mim é uma felicidade não ter que comprar, ter o meu. Eu digo meu, mas é meu e da minha mãe, porque a gente trabalha juntas”, disse.

Os participantes do encontro foram questionados ainda sobre o significado da agricultura familiar em suas vidas. Morgana Maria Tavares, 18 anos, do Sítio Britas, falou sobre o seu sentimento com relação ao tema: “A agricultura se resume em uma pequena palavra que é a união, a gente tem tempo sim, para trabalhar e estudar. Muitas vezes a gente passa horas no celular e nossos pais lá, batalhando no roçado para dar o melhor pra gente, então tem mais é que ajudar, trabalhar junto com eles. Então eu acho que o jovem deveria valorizar mais a agricultura, eu não tenho vergonha de dizer que sou agricultora, que nasci na agricultura, mas infelizmente, tem jovens que tem”, avaliou.

jovens queimadasLeonardo Mateus Candido da Costa, 21 anos, do Sítio Boa Vista, concordou: “Temos que pensar no futuro, se hoje a gente não se interessar pela agricultura, quem é que vai plantar futuramente? Eu sou um matuto verdadeiro, criado no sítio desde nascido, daqui a pouco tiro meus chinelos, pois eu gosto é de andar descalço”, brincou.

A agricultora Severina da Silva Pereira, conhecida como “Silvinha”, do Sítio Maracajá II, falou um pouco sobre sua experiência com Bancos de Sementes e sua importância: “Eu comecei o trabalho ainda muito jovem, assim como vocês, o Banco de Sementes Comunitário surgiu porque a comunidade estava perdendo muitas sementes, então com o banco a gente conseguiu resgatar muitas variedades. Começamos com três variedades, hoje temos mais de 40. Procurem saber a história e valorizar o banco de sementes da sua comunidade. Lá na nossa comunidade estamos de portas abertas se vocês quiserem conhecer. Lá estamos também abertos para uma troca de sementes. Para armazenar as sementes, não usamos nada, só a vedação das garrafas, o armazenamento é todo agroecológico”, explicou a liderança.

A agricultora Marcelânia Machado da Silva, 20 anos, do Sítio Serra Alta, falou sobre como a apicultura a ensinou sobre a importância da diversidade de culturas na propriedade, que para ela se complementam: “Não tem como plantar só uma coisa só, não tem como eu ter só abelha, porque as abelhas precisam das plantas, eu não posso colocar uma colmeia de abelha no meio do nada, pois sem água e sem comida elas vão embora. Então eu já deixo ali a água, as plantas com as flores para que elas fiquem. Eu tenho que pensar que a diversidade ajuda no sustento, o que a gente planta já serve para gente e para os nossos animais. Onde eu vivo é um pouco frio, as pessoas vão lá e às vezes dizem, aqui não tem nada, mas tem, eles é que não sabem enxergar, porque o que eles veem é um bar, um restaurante, um shopping, para quê eu tenho que morar perto disso? Essas coisas quando eu quero eu encontro, prefiro estar lá, respirando o meu ar puro, criando e plantando as minhas coisas”.

Luã Félix Pereira, 24 anos, do Sítio Maracajá, lembrou ainda que a solidariedade é uma característica marcante da agricultura familiar: “É uma agricultura voltada para a alimentação da família. Acho muito bonita a agricultura familiar porque é uma coisa de vivência, eu hoje arranco o meu feijão, amanhã eu ajudo a arrancar o seu, a gente se ajuda, trabalhamos para o nosso sustento. Não vai plantar porquê? Ah, porque eu não tenho semente. Toma aqui, eu te dou, depois você me dá. A gente se ajuda”.

As falas surgiram após o trabalho em grupo, onde os jovens das várias comunidades se misturaram e se dividiram em quatro grupos para compartilhar e trocar experiências. “A gente tem um mito de que a agricultura familiar não é um espaço para a juventude e que ela produz apenas milho e feijão. A fala de vocês aqui hoje desmente essa afirmação. Vocês trazem na fala de vocês um outro significado, o que vocês trouxeram é resultado do trabalho de agricultores e agricultoras. É possível produzir uma diversidade de alimento que pode lhe uma alimentação de qualidade e ainda renda, com a venda do excedente”, afirmou Severino dos Santos Terto, assessor técnico do Núcleo de Infância e Juventude da AS-PTA.

jovens queimadasO período da tarde foi dedicado a tratar das ameaças ao projeto de convivência com o Semiárido que se opõe ao do agronegócio. Grupos de cochicho se formaram para debater a respeito da seguinte questão: “Quais são as ameaças para o fortalecimento da juventude camponesa e da agricultura familiar?”. Em pequenos grupos, os jovens presentes listaram como ameaças: o êxodo rural, os transgênicos e agrotóxicos, a figura do atravessador, o desmatamento, a monocultura, a escassez de água, falta de políticas públicas para a juventude rural e a violência no campo entre outras.

Após a socialização entre os grupos, foi feita uma explanação sobre o contexto atual das ameaças ao modelo agroecológico e aberto um espaço para debate e um momento para falar sobre a Festa Estadual das Sementes da Paixão, que será realizada entre os dias 14 e 16 de outubro pela Articulação do Semiárido da Paraíba (ASA PB), rede da qual Polo e AS-PTA fazem parte. Foram listados alguns nomes da juventude para representar o município no evento. Além disso, foram listadas propostas para o enfrentamento às questões levantadas. O encontro foi encerrado com uma grande troca de produtos, alimentos e sementes trazidos pelos jovens de suas propriedades.

O ciclo de encontros é uma ação do “Projeto Sementes do Saber”, desenvolvido pela AS-PTA em parceria com o Polo da Borborema, que pretende apoiar a inserção produtiva e econômica de jovens rurais. O Sementes do Saber, tem o apoio do Comitê Católico Contra a Fome e a favor do Desenvolvimento (CCFD) e da ActionAid e é cofinanciado pela União Europeia.

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