Agricultoras do Polo da Borborema participam de II Seminário Regional sobre beneficiamento de produtos da Agricultura Familiar

beneficiamentoCerca de 60 agricultoras da região de atuação do Polo da Borborema, na Paraíba, participaram nos dias 24 e 25 de novembro, no Convento Ipuarana, em Lagoa Seca-PB, do II Seminário Regional sobre Beneficiamento de Produtos da Agricultura Familiar. O evento foi promovido pela Comissão de Saúde e Alimentação do Polo da Borborema em parceria com a AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e contou com a participação de agricultoras-experimentadoras, que beneficiam seus produtos individual ou coletivamente para a venda a vizinhos, em feiras agroecológicas ou para os programas de compra direta (Programa de Aquisição de Alimentos – PAA e Programa Nacional da Alimentação Escolar – PNEA), do governo federal.

O Seminário teve como objetivos dar continuidade ao diagnóstico sobre beneficiamento de produtos da agricultura familiar do Polo da Borborema, estimular as práticas de beneficiamento e debater sobre boas práticas na produção de alimento. A atividade de dois dias teve momentos de discussão e de prática de produção e beneficiamento, bem como trocas de receitas e experiências.

beneficiamentoO encontro teve início com a realização de uma mística de abertura, quando as agricultoras foram convidadas a colocar numa árvore, as receitas que foram aprendidas com suas mães ou avós. Cada participante teve a oportunidade de lembrar o sabor de sua infância, contando como e quando saboreavam aquela iguaria e como aprenderam. Bolo de macaxeira, pé-de-moleque assado na palha de bananeira, bredo de palma, colorau, beiju assado debaixo da farinha, farofa de festa, bolo de jerimum e café de guandu são só algumas das muitas receitas apresentadas, que carregam lembranças e um grande conhecimento associado aos seus processos de produção.

Nesse momento, as mulheres também debateram a necessidade do resgate de uma alimentação natural, livre de transgênicos e agrotóxicos e do cuidado em abolir ingredientes que os contenham para alimentação da família e para a comercialização nas feiras agroecológicas.

beneficiamentoNo período da tarde, aconteceu um “carrossel de sabores”, onde as agricultoras aprenderam e ensinaram receitas umas às outras. Cícera Faustino da Silva, conhecida como “dona Moça”, do Sítio Imbira em Massaranduba-PB, ensinou os segredos da sua tradicional cocada. Já Vanderli Florentino da Cruz, do assentamento Corredor, em Remígio-PB, compartilhou com as companheiras as receitas de um pão integral e uma doce de abóbora forrageira ou “melancia de cavalo”, como também é conhecida a fruta, muito utilizada na região para a alimentação dos animais. Elizabeth Ananias Barbosa, do Sítio Xique-xique, também em Remígio, ensinou e deu dicas para fazer um bolo pé-de-moleque assado na palha de bananeira.

O primeiro dia foi encerrado com uma noite cultural quando as mulheres do Sítio Lutador, de Queimadas, ensinaram uma receita familiar de angu com galinha. Todos os ingredientes vieram do próprio sítio, inclusive o fubá preparado com o milho da paixão, garantia de procedência e qualidade. Enquanto a galinha cozinhava, as mulheres puderam ainda trocar e vender seus produtos numa feirinha.

beneficiamentoNa manhã do segundo dia, foi dado continuidade às trocas de receitas na prática. Joanceli Maria Gonçalves, do Sítio Carrasco, em Esperança-PB, ensinou às participantes do seminário como fazer batatinhas em conserva, que são consumidas como aperitivo ou junto com outras receitas. Celi, como é conhecida, conta que antes a batatinha menorzinha, sempre sobrava, ninguém queria comprar, mas depois que ela passou a fazer a receita da batatinha e a levar pronta ou ensinar às clientes a preparar, o produto passou a ser bem valorizado: “Chego a vender um potinho de conservas a 4,00 reais”, completa. O casal Maria Darlene Silva e Alberto Pereira Barros, do Sítio Gameleira, município de Alagoa Nova dividiu com às presentes a sua famosa receita de doce de banana, laranja e rapadura aprendida por Darlene há mais de 30 anos. Os dois produzem, beneficiam e comercializam juntos: “O amor ele tem que ser permanente, é na roça, é na cozinha. Na nossa cozinha tem que estar os dois, o marido e a esposa, e se não tiver amor, não sai bem”, afirma Darlene.

beneficiamentoEm seguida as mulheres fizeram uma rodada de avaliação sobre os conhecimentos trocados no seminário e as lições tiradas. Angineide Macêdo, do Sítio Bodopitá, em Queimadas, reafirmou a importância de promover momentos como o do Seminário: “Essa divisão dos saberes é uma coisa muito boa, pois essas receitas vão ficando esquecidas e resgatar elas é muito bom. Também aprender a aproveitar os alimentos por completo, por exemplo, a banana que você usa a fruta, a casca e a palha. As verduras que sobrarem da feira, colocar pra secar. Essa troca é primordial e a gente não pode deixar de fazer isso”, avaliou.

Adriana Galvão Freire, assessora técnica da AS-PTA compartilhou as suas impressões sobre o que viu no Seminário: “Acho que uma grande lição aprendida aqui é como a gente olha para o que a gente tem na nossa propriedade enxergando um potencial. Aqui a gente viu que a batata que ninguém queria, virou uma iguaria, a abóbora forrageira que só era consumida pelos animais foi transformada num doce fino, a banana que sobrou na feira, viraram doces e agregaram valor aqueles produtos. O que precisamos é de criatividade para aproveitar nossos potenciais”, disse.

beneficiamentoOutro ponto levantado foi a autoestima e o empoderamento das mulheres: “Quando a gente recebe um convite para ensinar o que sabe, a gente se sente importante. Eu acho que momentos como esse são também uma estratégia de ser vista na sociedade”, afirmou Celi. “Precisamos usar a nossa criatividade para agregar valor ao nosso produto, e fazer também uma troca não só de conhecimentos, mas de mercadorias também. Levar um produto de onde tem para a feira daquele lugar onde não tem. Criar um circuito de comercialização para fortalecer a Ecoborborema”, propôs.

A última demonstração foi feita por Adilma Fernandes, agricultora de Remígio, que apresentou as orientações para o uso, higienização, montagem e desmontagem da máquina despolpadeira (usada para produção de polpas de frutas em maior escala). Atualmente o Polo da Borborema possui quatro despolpadeiras, sendo uma fixa na Unidade de Beneficiamento da Comunidade do Araçá em Arara e as outras três itinerantes. Foi feito um planejamento regional para o uso das máquinas por municípios, bem como iniciou-se um debate sobre a revisão do calendário de frutas da região. Por fim, foram apresentadas as orientações de um manual de boas práticas de beneficiamento, que teve sua construção iniciada durante o I Seminário Regional de Beneficiamento de Produtos da Agricultura Familiar, realizado nos dias 19 e 20 de maio deste ano.

O trabalho da Comissão de Saúde e Alimentação do Polo da Borborema conta com o apoio do Projeto “Agroindustrialização caseira por mulheres camponesas no semiárido brasileiro”, com recursos financeiros da entidade de cooperação internacional espanhola Manos Unidas.

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