Movimentos Sociais do campo reafirmam bandeiras de luta durante IV Encontro Nacional de Agroecologia

Foram quatro dias de troca de experiências, sementes, sabores e saberes entre agricultoras agricultores, jovens, estudantes, povos indígenas, comunidades tradicionais, pesquisadores, comunicadores/as, artistas populares, movimentos, organizações e representantes de 14 países. Todos juntos pelo fortalecimento da agroecologia durante o IV Encontro Nacional de Agroecologia (IV ENA) realizado de 31 de maio a 03 de junho, no Parque Municipal Américo Renné Giannetti em Belo Horizonte, Minas Gerais.

O evento foi promovido pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) em parceria com redes estaduais, regionais e organizações da sociedade civil engajadas em experiências de promoção da agroecologia, da produção familiar e de construção de alternativas sustentáveis de desenvolvimento rural.

As atividades tiveram início com a plenária das mulheres organizada pelo Grupo de Trabalho (GT) de mulheres da ANA.  Durante a plenária, com o lema “Sem feminismo não há agroecologia”, foi realizado o “encontro das águas” quando os “rios da vida das mulheres” construídos em cada região do país, no sentido de resgatar a contribuição das mulheres para a construção da agroecologia ao longo das últimas décadas, se encontraram numa emocionante simbologia de fortalecimento. Temas como violência contra as mulheres, a campanha “Pela justa divisão do trabalho doméstico”, políticas públicas que fortalecem a vida das mulheres no campo e suas formas de organização também foram debatidos na plenária. “Ter uma cisterna em casa muda tudo. O tempo que a gente gastava indo pegar água no balde, várias vezes por dia, a gente aproveita fazendo um doce, um bolo. Hoje a gente pode trabalhar com dignidade, se fortalecer em grupo. Isso que é a agroecologia”, afirmou a agricultora Jaciara Francilau, do município Sento Sé na Bahia.

À noite, houve a abertura político-cultural com representantes de povos tradicionais e indígenas na grande tenda montada do parque municipal, onde foram realizadas uma benção e uma reflexão sobre os costumes e saberes desses povos.  No segundo dia, os territórios se dividiram por biomas e apresentaram suas experiências nas instalações pedagógicas. Na Tenda da Caatinga I, Paraíba e Bahia abordaram a luta dos povos do Semiárido na região da caatinga. Luciano Silveira, da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, falou sobre o ambiente e a história de lutas e resistências do Semiárido. A agricultora Maria do Céu Silva, do Polo da Borborema, apresentaram uma linha do tempo sobre a construção do fortalecimento da agricultura familiar no território, destacando a luta pela terra e a reforma agrária; a luta pela democratização da água; a autonomia e defesa das sementes da paixão e os 62 bancos de sementes comunitários no território; a autonomia para o armazenamento de forragem; a luta pela construção de mercados e a comunicação popular.

Roselita Vitor, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Remígio-PB, também falou sobre a luta das juventudes no campo, a Marcha pela vida das Mulheres e pela Agroecologia, que acontece no território, e as ameaças às políticas públicas de convivência com o semiárido. “Estamos vivendo um período de golpe, um retrocesso. As escolas do campo estão fechando e já são mais de 23 escolas fechadas no nosso território. Já podemos perceber o aumento da violência contra as mulheres, a perda de secretarias importantes que a gente vinha dialogando. Sem contar no aumento da violência no campo. As casas são invadidas, os agricultores e agricultoras agredidos, precisam dormir na cidade e ir voltar para terra e trabalhar durante o dia. Não é fácil, mas nós estamos resistindo porque nosso território é de luta e de resistência da juventude, das mulheres, dos trabalhadores e trabalhadoras”, contou Roselita.

No período tarde aconteceu os seminários temáticos. O seminário de comunicação e cultura teve início com uma discussão sobre a democratização da comunicação. “A gente está em luta há mais de 25 anos por uma mídia democrática. E entendemos que se queremos uma sociedade mais justa e mais democrática, precisamos discutir os meios de comunicação. A regulamentação da comunicação precisa ser feita e se o governo não faz a gente precisa continuar fortalecendo as redes, os grupos, novos comunicadores. Percebendo como a cultura pode fortalecer nossa comunicação popular, pode possibilitar a discussão de temas importantes nas comunidades, fortalecendo os jovens, as mulheres”, disse Flor Posnansk do Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação.

O Teatro do Polo da Borborema também apresentou a peça “Pela Justa Divisão do Trabalho Doméstico”. “Esse grupo nasce da necessidade de fazer comunicação com as nossas bases. Essa peça traz uma reflexão e denúncias sobre a justa divisão do trabalho doméstico com as agricultoras. Todo esse trabalho é apresentado para diversos públicos, em diversas cidades e a gente percebe como o teatro é uma importante ferramenta pedagógica na vida dessas pessoas, porque elas interagem, se veem nas peças, se identificam com os personagens”, disse o assessor técnico Edson Possidônio, da AS-PTA.

No sábado, terceiro dia de evento, foi inaugurada a Feira de Saberes e Sabores do IV ENA. Mais de 100 tendas com produtos da agricultura familiar agroecológica de todas as regiões do Brasil. Na tenda da Paraíba, encontrava-se artesanato, farinha, doces, cocadas, licores, grãos, sementes, mudas. Segundo o agricultor Audecyr Nunes, da comunidade Lagoa de São João em Princesa Isabel, “Uma viagem de 8 dias são 8 anos de vida para um agricultor”. Audecyr fala aos companheiros da feira a importância de estar participando de um evento como o ENA. “Às vezes os agricultores pensam que vão perder porque vão estar longe de casa por muito dias, mas aqui a gente pode aprender muito, compartilhar nossas experiências. É um aprendizado que ninguém pode pagar”, falou o agricultor.

De forma simultânea, também acontecia o espaço da saúde, o espaço da ciranda, as oficinas e atividades autogestionadas, seminários nacionais, apresentações de teatro, música e as plenárias de juventudes, quilombola e indígena. Na plenária das juventudes, que hoje são 30% do público do encontro, experiências do campo e da cidade foram compartilhadas com anúncios e denúncias sobre a realidade de cada território, com o objetivo de construir estratégias agroecológicas coletivas. À noite, os agricultores e agricultoras tiveram um momento de trocas de sementes. A agricultora Rosemary Possi, de Santa Luzia, município de Soledade, trocou sementes de milho, feijão e jerimum por sementes de coentro, mandioca e uma muda de açaí. “Foi lindo ver a diversidade de sementes da Paraíba, do Ceará, da Bahia e de outras regiões do nosso país. E é nesse espaço que a gente percebe que a nossa luta é a mesma. Os cuidados com as sementes, com a água e a luta pelo fortalecimento da agricultura familiar são bandeiras em todas as regiões do país”, disse a agricultora.

O sábado encerrou com a leitura das cartas políticas. As mulheres reafirmaram suas bandeiras contra o machismo e o racismo. As juventudes trouxeram a importância

No dia 3 de junho, domingo, o IV ENA foi encerrado com um ato público unificado pelas ruas do centro de Belo Horizonte, reunindo o 11º Congresso do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), o IV Encontro Nacional de Agroecologia e o movimento Quem Luta Educa. Saindo em passeata da Praça da Liberdade ao Parque Municipal, cerca de 5 mil pessoas ocuparam as ruas da cidade em defesa da democracia e da agroecologia e contra os retrocessos e perdas de direitos após o golpe no país. No parque, foi oferecido um banquete agroecológico aos participantes e visitantes do evento.

Confira a síntese da Carta Política do IV ENA

Fonte: www.asaparaiba.org
Fotos: Thaynara Policarpo

 

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