A rede que movimenta sementes no Paraná

60 representantes de 24 municípios do estado partilham o que mais preservam – sementes e suas histórias de luta, construção coletiva e vida

Litoral paranaense, maior área de Mata Atlântica preservada do país. Rodeadas por altas palmeiras de Juçara e Pupunha, nos reunimos para pensar estratégias na conservação da agrobiodiversidade, políticas públicas e calendário de ações para 2019. De 21 a 23 de fevereiro a Associação dos Moradores do Rio Segrado (Amorisa) acolheu a primeira reunião do ano da Rede Sementes da Agroecologia (ReSA).

Composta por diversas organizações do Paraná ligadas a movimentos sociais do campo e da cidade, a ReSA tece sua trajetória a partir do trabalho com sementes crioulas, soberania e segurança alimentar. Para Janete Rosane Fabro, da equipe técnica da Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural (ASSESSOAR), o objetivo da rede é “articular ações de quem faz na prática”. Para ela, as festas e feiras de sementes são o momento político mais forte da rede, pois possibilitam o diálogo com a sociedade, a troca de saberes e experiências.

A ReSA germina em 2015, com o solo adubado por campanhas como “O Milho é Nosso” e as Jornadas de Agroecologia do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). E vem crescendo desde então. A agrônoma lembra que “em 2017 tivemos em torno de 15 espaços de comercialização e trocas de sementes, as conhecidas festas e feiras, com uma circulação de 25 mil pessoas”. No ano seguinte foram 23 festas e feiras, com mais de 40 mil visitantes e a presença de 700 famílias guardiãs.

As políticas públicas são um caminho para orientar as ações do estado e devem ter a participação ativa da sociedade civil no processo. O fortalecimento das festas e feiras, a criação de bancos de sementes comunitários e a merenda escolar 100% orgânica foram algumas das estratégias pensadas pelo grupo. As políticas estaduais de agroecologia e redução de agrotóxicos, tomando como referência outros estados que já aprovaram legislação específica, são vitórias a serem celebradas e replicadas nos territórios.

“Pedimos que haja um incentivo, através da implementação de políticas públicas, para que estes saberes populares sejam valorizados e não sejam biopirateados, para que não haja uma apropriação das grandes empresas sobre esse conhecimento tradicional ou sobre o patrimônio genético, que é também uma forma de proteção deste trabalho”, afirma Naiara Bittencourt, advogada popular da Terra de Direitos, organização de direitos humanos que presta assessoria jurídica aos movimentos sociais do campo e da cidade.

As diferentes formas de cultivar a terra

Nossa visita foi na Estação Experimental do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), em Morretes. O caiçara e técnico na estação, Erilson Teodoro, nos guiou pelos experimentos de manejo florestal da palmeira Juçara e Pupunha, extrativismo legalizado da seringa e o sistema de criação de búfalos. Dentro dos 210 hectares da estação pudemos conhecer o banco de germoplasma vivo de frutas nativas, com a produção de mais de 15 espécies em sistemas consorciados.

A inserção de árvores frutíferas nos sistemas agroflorestais se apresenta como uma característica do território, abundante em biodiversidade e água. “A proposta de trazer a ReSA para o litoral é a possibilidade de conhecer um local onde se pratica uma agricultura diferente e com uma biodiversidade diferente da que os coletivos que fazem parte da rede estão acostumados”, conta Neltume Espinoza, agricultora e assessora técnica da Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (AOPA).

Os intercâmbios são importantes para celebrar e preservar a nossa cultura alimentar, olhando para o próprio território, as suas semelhanças e diferenças com outras regiões. “Acredito que principalmente é o conhecimento do como cultivar a terra se adaptando ao território e sem desmatar para fazer agricultura. Uma característica do litoral é a produção de frutíferas e floresta, por isso, aprendemos com o ambiente de que forma deveríamos cultivar o alimento”, diz a agricultora, que celebra também as famílias agricultoras que nos alimentaram com comida de verdade, sem veneno e sem transgênicos, durante os três dias de encontro.

As Guardiãs

O cuidado com as sementes – na sua seleção, melhoramento, conservação e plantio – sempre foi um prazeroso ofício partilhado por mulheres, mas muitas vezes seu trabalho é invisibilizado. E sua presença nos espaços de fala, escuta e compartilhamento de histórias de vida e luta também. A partir da necessidade de criar um espaço em que pudéssemos estreitar nossos laços e afetos, conhecer as agricultoras que protegem nosso patrimônio genético tradicional era um compromisso da reunião da ReSA. 16 mulheres do campo e da cidade, vindas de diferentes realidades, falaram. Emocionadas, escutamos.

Ao final do dia 22 nos sentamos em círculo e, ao falar, percebemos que não estamos sozinhas, reafirmando quem sem feminismo não há agroecologia. Coletivamente chegamos a conclusão de que guardiã não é necessariamente a pessoa que coloca a semente na terra, mas são todas aquelas que de alguma forma trabalham para sua livre circulação, garantindo a soberania alimentar dos povos.

“O meu primeiro bom dia é para minhas plantas. A semente veio para minha mão e já vai para a terra, eu não sou de guardar, sou de plantar na hora. Não sou apenas guardiã de sementes, mas sou também guardiã da minha comunidade”, Luzinete Marques de Souza, Acampamento José Lutzenberger – MST, Antonina

“Nós, que parimos a vida de muitas maneiras, não temos receio de nos expressar, chorar e dizer que sem feminismo não há agroecologia”, Karina David, AOPA

“Meu trabalho é na diversificação, faço parte do Coletivo Triunfo, para estarmos sempre melhorando as propriedades e fortalecendo o grupo de mulheres”, Dona Terezinha, Associação dos Produtores Rurais da Invernada

“Eu sinto muita alegria por cada alimento que vejo frutificando na minha agrofloresta, fazem cinco anos que cultivo neste sistema”, Vera Lúcia Alegre de Souza, Acampamento José Lutzenberger – MST, Antonina

Como um ato de resistência, encerramos nosso encontro com a partilha de sementes trazidas do centro-sul, sudoeste e litoral do Paraná, levando para nossos territórios a vida e a esperança. O grupo foi presenteado pelo poeta Dantas, da Casa da Semente de Mandirituba, com os versos abaixo.

“Estás grande!
Andas por muitos lugares,
Estás em muitas bocas

Levas contigo
A sabedoria de agricultores,
O conhecimento das mulheres
Das crianças levas o desejo,
Dos antigos os saberes
Você só nos dá prazer!

Nosso desejo é:
Que você continue a crescer,
Continue unindo pessoas,
E seja espelho para muitos
Fostes registrada
E hoje te chamamos:
ReSA”

Fotos e Texto: Luiza Damigo

 

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