Nota à imprensa

África do Sul autoriza importação de soja transgênica “agente laranja”; Produto está na pauta de liberações da CTNBio

Entidades interpelam Comissário de Direitos Humanos e Secretário Geral da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU

20 de março de 2013

Joanesburgo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Oakland EUA | Organizações da sociedade civil da África do Sul, América Latina e Estados Unidos estão profundamente preocupadas com a recente autorização dada pelo governo da África do Sul à importação da soja transgênica da empresa Dow (DAS-44406-6). Essa semente foi geneticamente modificada para resistir à aplicação dos herbicidas 2,4-D, glufosinato de amônio e glifosato mas ainda não é cultivada comercialmente em nenhum país. A medida coaduna com os pedidos da empresa para plantio comercial dessa variedade no Brasil, Argentina e Estados Unidos. Aqui no Brasil, três pedidos da empresa para liberação de soja e milho tolerantes ao agrotóxico estão prontos para ser votados pela CTNBio1, que se reúne em Brasília amanhã e depois.

“Condenamos a decisão das autoridades sul-africanas. Mais uma vez os interesses econômicos estão atropelando o dever do nosso governo de proteger a saúde de seus cidadãos e o meio ambiente. Esse transgênico foi batizado de “agente laranja” dado que o 2,4-D foi ingrediente do veneno usado na Guerra do Vietnã, com efeitos devastadores”, disse Mariam Mayet do African Centre for Biosafety. Seu despejo para desfolhar florestas na Guerra foi responsável pelo nascimento de bebês com sérias malformações, bem como pelo desenvolvimento de câncer e outras doenças em milhares de civis vietnamitas e veteranos de guerra americanos.

De acordo com as entidades, a aprovação abre um precedente muito preocupante e evidencia a falácia do argumento das empresas de biotecnologia que prometeram que a adoção de transgênicos reduziria o uso de agrotóxicos. Hoje, a soja transgênica resistente a herbicidas ocupa cerca de 50% da área global cultivada com o grão. “A entrada da soja resistente a herbicida nos Estados Unidos, Argentina e Brasil levou a um aumento vertiginoso no uso de agrotóxicos, principalmente o glifosato”, disse o argentino Carlos Vicente, do GRAIN. Nos Estados Unidos, o cultivo da soja RR resultou no uso adicional de 167 milhões de kg de glifosato entre 1996 e 2011.i Entre 1996 e 2011, a quantidade de glifosato usado na Argentina cresceu 11 vezes, chegando a 237 milhões de litros. O volume de agrotóxicos comercializados no Brasil aumentou em 360% entre 2000 e 2009.ii

Estima-se que nos EUA, por exmplo, a aprovação dessa semente resultará num aumento no uso desse veneno da ordem de 25 vezes, saltando de 2 milhões de kg para 45 milhões anuais em 2019iii, afetando de forma mais incisiva a saúde das comunidades rurais.

“Qualquer aumento no uso de 2,4-D casado com a semente da Dow afetará enormemente as comunidades rurais. Muitos estudos médicos associam esse produto e herbicidas afins ao aumento das taxas de câncer e mal de Parkinson, assim como redução da contagem de espermatozóides em agricultores e malformação fetal,” alerta Marcia Ishii-Eiteman, cientista senior do Pesticide Action Network North America. “Os moradores das áreas rurais também estão em risco. O 2,4-D é classificado pela Organização Mundial da Saúde como possível carcinogênico e revelou afetar fígado e provocar danos no sistema nervoso, bem como disfunções hormonais” complementa.

Os herbicidas à base de 2,4-D são banidos na Noruega, Suécia e Dinamarca. No Canadá, diversas províncias já impuseram restrições a seu uso. Já o glufosinato mostrou afetar negativamente os sistemas cardiovascular, nervoso e reprodutivo de roedores e outros mamíferos.

Vicente lembrou ainda que “os riscos severos à saúde humana e animal e ao meio ambiente causados pelo glifosato já são bem documentados. A soja transgênica está criando uma verdadeira tragédia na Argentina. Agricultores familiares são forçados a migrar de suas terras para as periferias dos centros urbanos, e os que ficam têm manifestado um dramático aumento nos casos de câncer, abortos espontâneos e anomalias congênitas”.

“A indústria prometeu um menor uso de agrotóxicos com as sementes transgênicas, mas agora essa mesma indústria promove herbicidas velhos de maior toxicidade para controlar as “super ervas daninhas” criadas pelo uso massivo do sistema Roundup Ready”, disse Gabriel Fernandes, da AS-PTA. “O fato é que as sementes resistentes a herbicidas são o motor das vendas dessas empresas. Essas sementes são parte de um pacote tecnológico desenhado para facilitar um maior uso e uma maior dependência dos herbicidas dessas empresas”.

O 2,4-D tem a característica de ser volátil e com tendência a atingir áreas além daquelas onde é aplicado, afetando plantações vizinhas e a vegetação nativa, com grande potencial de prejudicar a biodiversidade. A Agência Norte-americana de Proteção Ambiental (EPA) e o Serviço Nacional de Pesca Marinha identificaram que o 2,4-D pode já estar afetando adversamente uma série de espécies ameaçadas no país pelo impacto que causa em seus habitats e presas.iv

A gravidade da situação é tamanha que organizações da sociedade civil das três regiões sentiram-se compelidas a buscar uma intervenção imediata do Comissário da ONU para os Diretos Humanos e do Secretário Executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, o brasileiro Bráulio Dias.

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Press Release from: AFRICAN CENTRE FOR BIOSAFETY, GRAIN, PESTICIDE ACTION NETWORK, ASPTA, TERRA DE DIREITOS; GM FREE LATIN AMERICA

Documentos enviados:

Carta ao comissário da ONU para Direitos Humanos (pdf 320 kb)

Carta ao secretário executivo da CDB, Braulio Dias (pdf 340 kb)

 

Contatos:

Mariam Mayet + 27 83 269 4309 – mariammayet@mweb.co.za

Carlos Vicente, GRAIN, Argentina carlos@grain.org

Gabriel Fernandes, AS-PTA, Brazil, gabriel@aspta.org.br

Elizabeth Bravo, RALLT, Ecuador, ebravo@rallt.org

Marcia Ishii-Eiteman, PANNA, United States, mie@panna.org

1Itens 3, 4 e 5 da pauta de março da CTNBio, disponível em http://www.ctnbio.gov.br/upd_blob/0001/1743.pdf

i Benbrook (2012). Impacts of genetically engineered crops on pesticide use in the U.S. – the first 16 years. Environmental Sciences Europe 2012, 24:24 http://www.enveurope.com/content/24/1/24

ii Notes to editors Vargas, G.C., Galeano, P., Agapito, S.Z., Aranda, D., Palau, T., Nodari, R.O (2012). Soybean Production in the Southern Cone of the Americas: Update on Land and Pesticide Use. GENOK
http://www.genok.com/news_cms/2012/july/report-soybean-production-in-the-southern-cone-of-the-americas-update-on-land-and-pesticide-use/158

iii Benbrook, 2012.

iv EPA (2009). “Risks of 2,4-D Use to the Federally Threatened California Red-legged Frog (Rana aurora draytonii) and Alameda Whipsnake (Masticophis lateralis euryxanthus),” Environmental Protection Agency, Feb. 2009; NMFS (2011). “Biological Opinion: Endangered Species Act Section 7 Consultation with EPA on Registration of 2,4-D, Triclopyr BEE, Diuron, Linuron, Captan and Chlorothalonil,” National Marine Fisheries Services, June 30, 2011.

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