Manifestação reuniu mais de 6 mil mulheres pedindo proteção aos territórios ameaçados por empreendimentos energéticos na Borborema (PB)
O Dia Internacional das Mulheres de 2026 foi celebrado dia 12 de março em Remígio (PB) por mais de 6 mil mulheres, na 17ª edição da Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia. Participaram agricultoras de todo o território da Borborema, além de mulheres da ASA PB, da ASA Brasil, da Rede Feminismo e Agroecologia, da Rede ATER NE, do GT Mulheres da ANA, do Movimento Atingidos pelas Renováveis (MAR), do MST, da Fetag, da Contag, quilombolas, indígenas, pescadoras e marisqueiras.
Além da defesa da vida das mulheres, o ponto em comum na luta é a defesa dos territórios contra a ocupação destrutiva de modos e meios de vida por megaprojetos, principalmente, de energia eólica. A Carta Política da 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia denuncia o sofrimento das famílias que vivem ao lado do Parque Eólico Serra da Borborema, com explosões, rachaduras em suas casas e nas cisternas, aumento do tráfego de pessoas e veículos e a degradação das estradas, cercamento das áreas comuns, arrendamento dos reservatórios de água e a invasão dos animais silvestres desalojados de seu habitat natural. A Carta afirma que elas já não conseguem mais dormir com o barulho desnorteador das hélices dos aerogeradores.
A denúncia mais recente com relação à violência da ocupação é que, agora, as empresas de energia estão atuando para transformar as áreas de reserva legal dos assentamentos de reforma agrária da Borborema em parques eólicos. “Sob o disfarce do enfrentamento às mudanças climáticas, as empresas propagam que os parques eólicos promovem “baixo impacto” ambiental e, estando na área de reserva, estariam distantes o suficiente das residências, não afetando os sistemas produtivos”, diz a carta.
Além disso, para convencer os assentados dessa falácia, as empresas negociam individualmente com os homens, tentam disseminar informações para desacreditar a resistência das lideranças mulheres e procuram dividir as comunidades.
Durante a marcha, Adivânia Aguiar Almeida, presidente da Associação dos Produtores do Assentamento Queimadas, fez um um alerta sobre o avanço de grandes empreendimentos de energia renovável na região e contou sua experiência. “As empresas abordam as pessoas individualmente. No meu caso, procuraram meu marido. O representante da empresa chegou e foi logo falando com ele, eu estava presente. Quando ele terminou, eu disse que eu era a presidente da Associação, e meu esposo disse a ele para falar comigo”, contou. O assentamento Queimadas produz principalmente algodão em consórcio com outras espécies, e tem uma produtividade que não só garante a alimentação das famílias como abastece confecções no Sudeste. “Eu, como liderança, disse não. Nossa área de assentamento serve para produzir e preservar, não para entregar a projetos que só fortalecem as empresas”, afirmou Adivânia.
Solarização descentralizada aponta aponta novos caminhos
Um dos marcos desta edição foi o lançamento do Programa 1 Milhão de Tetos Solares (P1MTS), iniciativa inédita de produção democrática de energia, realizada pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), em parceria com a Fundação Banco do Brasil, a Cáritas Francesa e a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).
O programa será executado na Paraíba, em Pernambuco, no Piauí e no Norte de Minas Gerais. É fruto, sobretudo, da luta das mulheres do Semiárido por um modelo descentralizado de energia, que garanta participação popular nas decisões sobre territórios. As comunidades exigem ser consultadas antes de qualquer tipo de licenciamento para a implementação de instalações eólicas.
“Precisamos debater como é que a gente produz a nossa própria energia criando autonomia, incluindo as pessoas e sem ter que tirá-las dos territórios. Sem impactar a saúde, o meio ambiente e a caatinga. As experiências exitosas com energia saem dos territórios e dos processos de experimentação das famílias agricultoras. É esse o nosso legado, uma questão muito importante para nós nesse momento”, explica Roselita Vitor Albuquerque, agricultora do Polo da Borborema e da coordenação executiva da ASA.
A Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia se posiciona, historicamente, com o mote “Energia renovável sim, mas não assim!”. “Da forma como esses empreendimentos eólicos chegam aos territórios, a gente não consegue lidar efetivamente com as mudanças do clima. Eles mantêm o padrão de desenvolvimento econômico vigente e acabam por privatizar nossos bens comuns, seja o vento, o sol ou a terra. Impedindo que milhares de famílias do território possam produzir seus alimentos com qualidade e vender nos mercados locais. Possam continuar mantendo o seu projeto de vida”, afirmou Adriana Galvão Freire, da coordenação colegiada da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia na Paraíba, organização que atua há 33 anos na Borborema.
Incidência política
“As empresas estão chegando cada vez mais perto das famílias, e essa forma de energia só não entrou ainda no Polo da Borborema por conta desse nosso movimento de denúncia”, denunciou Gizelda Beserra, agricultora e liderança sindical de Remígio.
A Carta da Marcha pretende chamar atenção sobre legislações que estão sendo revisadas nesse momento, como a resolução 462 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e a Instrução Normativa 112 do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), que impactam diretamente na implementação de energias renováveis nos territórios. A intenção é evitar que projetos sejam licenciados em áreas de agricultura familiar agroecológica ou de povos e comunidades tradicionais, que deveriam ser zoneadas como áreas de proteção.
“A gente quer que essa revisão contemple e proteja os povos e as comunidades tradicionais que vivem nos seus territórios, que esses projetos não possam chegar sem antes fazer uma consulta livre, prévia e informada a essas comunidades, que elas possam conhecer e realmente fazer a opção do melhor caminho para os seus territórios”, ressalta Adriana.
A mobilização defendeu que a transição energética seja feita de maneira descentralizada, com projetos individuais ou a partir da microgeração de energia solar ou eólica, com tecnologias de baixo impacto. A Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia aconteceu pela terceira vez em Remígio, em 17 anos de história.