“O reúso mudou a minha vida.” É assim que a agricultora Maria Elizoneide, de Esperança (PB), resume o impacto da tecnologia social de reúso de águas cinzas no Semiárido.
A experiência foi compartilhada durante o 1º Seminário SIRIEMA – Tecnologia Social de Reúso de Água e Manejo Agroecológico, realizado no dia 31 de março, no Instituto Nacional do Semiárido (INSA), em Campina Grande. O encontro reuniu organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e famílias agricultoras em torno do desenvolvimento de soluções seguras para o reúso de águas cinzas no Semiárido brasileiro.
Mais do que um espaço de troca de experiências, o seminário marcou a assinatura de um acordo entre oito organizações parceiras responsáveis pela concepção e desenvolvimento da tecnologia SIRIEMA. Inédito no âmbito das instituições envolvidas, como INSA, Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE, WTT e organizações da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA PB), o acordo formaliza o compromisso de disseminar a tecnologia com base nos princípios das tecnologias sociais, fortalecendo sua difusão e ampliando parcerias para captação de recursos.
Na abertura do evento, o diretor do INSA, Ethan Barbosa, destacou o caráter coletivo e transformador da iniciativa. “Estamos afirmando que o Semiárido brasileiro não é problema, é potência. O SIRIEMA é resultado de um processo coletivo. Estamos falando de uma tecnologia adaptada, apropriada e vivida. A tecnologia é, antes de tudo, um modo de fazer ciência com as pessoas e para as pessoas”, afirmou.
O nome SIRIEMA também carrega um sentido simbólico. Segundo Waldir, do PATAC, a escolha faz referência a uma ave da Caatinga conhecida por sua resistência à estiagem. “É uma ave resiliente, que consegue sobreviver longos períodos de seca. O nome surgiu de forma muito natural, durante um encontro, quando estávamos pensando nisso e ela apareceu por perto”, contou.
A agricultora Justina Maria Celestino, do município de Boa Vista, também participou do painel e destacou que toda água é bem-vinda no Semiárido, ressaltando a importância de valorizar as tecnologias que contribuem para melhorar a vida das comunidades.
Ao longo da programação da manhã, foram apresentados os aprendizados acumulados em quatro anos de pesquisa colaborativa no primeiro painel. Um dos destaques foi o potencial do reúso de águas cinzas como estratégia permanente de acesso à água.
Pesquisadores apontam que uma família de quatro a cinco pessoas pode gerar cerca de 1.250 litros de água cinza por semana, volume que pode ser reaproveitado na produção agrícola. “Nosso grande objetivo é tornar a água cinza irrigável para todas as culturas. Hoje, o uso ainda é mais comum em forrageiras e frutíferas”, explicou Genival Barros, da UFRPE.
Para além dos dados técnicos, são as experiências das agricultoras que evidenciam as transformações no cotidiano. Maria Elizoneide contou que, antes de acessar a tecnologia, utilizava a água de forma improvisada e com muito esforço físico. “Eu usava a água da pia e da roupa de forma bruta, carregava num carro de mão e aguei assim por 10 anos. Depois que fui contemplada com o reúso, tenho mais tempo, não preciso mais carregar água e hoje tenho frutas pra minha família, pra doar e até pra vender. Quem foi lá em casa há dois anos não reconhece mais o meu pomar, que tá lindo”, relatou.
Ela também destacou os impactos ambientais da prática. “No meu sítio não existiam aves. Muitas espécies estão voltando por causa do pomar. Eu me sinto orgulhosa porque, além de consumir uma alimentação saudável, estou cuidando do meio ambiente”.
Ainda durante a manhã, foi realizada a assinatura do acordo de cooperação entre as instituições parceiras, reforçando o compromisso com a disseminação da tecnologia nos territórios.
No período da tarde, o debate seguiu com o painel “Iniciativas em andamento”, reunindo representantes de organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e cooperação internacional. Entre as participantes estavam Madalena Medeiros, do CENTRAC e da ASA Paraíba; Nívea Felisberto e Lucas Salla, da Embrapa – Programa Inova Social; e Juliana Peixoto, Centro Sabiá, com mediação de José Camelo, da AS-PTA.
Durante o painel, Madalena destacou os avanços na institucionalização da tecnologia. “É a primeira vez que temos uma ação enquanto política pública autorizada e reconhecida pelo MDS. Isso é fruto de um processo de formação com as famílias envolvidas”, afirmou.
Ela também reforçou o papel central das mulheres rurais na construção do conhecimento agroecológico e no manejo do reúso da água. Segundo ela, são as mulheres que, historicamente, vêm desenvolvendo práticas de reaproveitamento e hoje fortalecem os quintais produtivos, a diversificação da produção e sua autonomia. A iniciativa articula diferentes dimensões de direitos, como o acesso à água, ao saneamento e à alimentação, além de contribuir para a conservação das sementes crioulas e o enfrentamento das crises climáticas.
Na sequência, o terceiro painel do seminário abordou as perspectivas futuras do SIRIEMA, reunindo representantes de instituições públicas, organizações da sociedade civil e cooperação internacional, entre elas FUNASA, SUDENE, FIDA, ASA e SEAPAC.
“O reúso de água é um rio perene, todo dia tem água. Porque no Semiárido, cada gota importa”, destacou Fabrício, do SEAPAC, organização que integra a ASA Brasil no Rio Grande do Norte.
A importância de integrar o reúso à agroecologia foi destacada por Adriana Galvão, da AS-PTA. “Nós não podemos pensar em sistema de reúso de água desvinculado da agroecologia, porque a agroecologia representa a soberania alimentar e a autonomia das mulheres em todos os âmbitos”, afirmou. Ela também reforçou o valor dos saberes construídos nos territórios: “O conhecimento é um dos recursos mais importantes para a convivência com o Semiárido”.
As discussões evidenciaram o interesse crescente na ampliação de políticas públicas voltadas ao saneamento rural e à convivência com o Semiárido, além do desafio de expandir a tecnologia mantendo seus princípios e o protagonismo das famílias agricultoras.