Igor S.H. de Carvalho
A Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas Grande Sertão surgiu a partir do trabalho do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM) que, desde meados da década de 1980, vem atuando em prol da organização, politização e conquista dos direitos do campesinato norte-mineiro. Dada a necessidade de se encontrar alternativas produtivas que, enraizadas nos agroecossistemas tradicionais da região, promovessem inclusão social, geração de renda e conservação dos recursos naturais, iniciou-se, em 1995, a produção de polpas de frutas congeladas que culminou na criação da Grande Sertão.
De lá pra cá, mais de duas mil famílias já se beneficiaram diretamente com a comercialização de polpas de frutas, mel, derivados da cana e outros produtos da agricultura sertaneja. Essas famílias estão espalhadas por cerca de 350 comunidades rurais de 26 municípios. Os recursos financeiros gerados são bastante significativos, uma vez que as comunidades são de baixa renda. Contudo, o principal diferencial da geração de renda promovida pela Grande Sertão é que ela se origina nas próprias estratégias de segurança alimentar e reprodução social dos camponeses, refletidas na grande diversidade e autenticidade de seus produtos. Além disso, ela se baseia em métodos produtivos que não dependem do emprego de insumos químicos e que promovem a proteção e a recuperação dos ecossistemas. Alguns resultados concretos desse trabalho são analisados neste artigo.
AS FRUTAS E OS FRUTOS DA COOPERATIVA GRANDE SERTÃO
Sustentabilidade ambiental
Vivemos atualmente um período de crise ecológica, no qual os bens naturais estão cada vez mais escassos, degradados e poluídos. Nos anos recentes, têm sido dadas demonstrações irrefutáveis da insustentabilidade do modelo de exploração da natureza praticado pela nossa civilização. Uma delas, em especial, vem ganhando destaque: o aquecimento global. A fixação de carbono atmosférico é a principal forma de combater a causa desse aquecimento, mas para realizar isso é necessário plantar árvores e proteger as que já existem.
A partir do momento em que frutas, nativas ou dos quintais dos agricultores, adquirem um maior valor e passam a ser comercializadas em maior escala, suas árvores passam a ser mais protegidas e reproduzidas. É isso que vem sendo verificado em diversas comunidades ligadas ao trabalho da Grande Sertão (Carvalho, 2007). Em locais como o Assentamento Americana, município de Grão Mogol, a comunidade de Abóboras, em Montes Claros, ou ainda em Vereda Funda, em Rio Pardo de Minas, milhares de mudas e sementes de espécies nativas foram plantadas e já estão fixando toneladas de carbono, além de estarem contribuindo para a preservação dos recursos hídricos e da biodiversidade. Essa é uma tendência crescente em todas as comunidades que têm, na venda de frutas à Cooperativa, uma fonte de renda.
Uma outra contribuição à sustentabilidade ambiental é a preservação das áreas de vegetação nativa remanescente. Com a valorização dos frutos do Cerrado e da Caatinga, seus ecossistemas vêm sendo protegidos pelas comunidades ligadas à Grande Sertão de diferentes formas: pela atuação junto aos proprietários de áreas de coleta; pela denúncia de desmatamentos ilegais; pelo com- bate ao fogo; e, principalmente, por meio da luta pela reconquista dos territórios tradicionais expropriados nas últimas décadas (Mazzetto, 1999). Comunidades como Roça do Mato, em Montezuma, e o Assentamento Tapera, em Riacho dos Machados, vêm batalhando pela criação de Reservas Extrativistas em suas localidades, tendo como principal argumento a atividade extrativista que fazem nas áreas há séculos.
É importante ainda ressaltar a grande biodiversidade envolvida na produção da cooperativa. São 17 variedades de frutas utilizadas para a fabricação de polpas congeladas, sendo sete espécies nativas e dez exóticas. Há ainda o pequi, fruto símbolo do Cerrado, utilizado para a produção de óleo e polpa envasada. O Quadro 1 mostra todas as espécies comercializadas pela Grande Sertão.
CONQUISTA DE MERCADOS
Desde 2004, o principal destino dos produtos da Grande Sertão é o mercado institucional: escolas, creches, hospitais, restaurantes populares. Cerca de 80% da produção recente da cooperativa foi absorvida por esse mercado, seja via Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) ou pela negociação direta com prefeituras. Conforme Santos & Santa Rosa (2005):
“Às escolas e demais consumidores, a cooperativa oferece alimentos de qualidade em substituição àqueles com forte teor de insumos químicos e de origem duvidosa, revertendo gradativamente o consumo de açúcar cristal, refrigerantes, suco em pó e óleo de soja por rapa- dura, mel, suco natural de frutas, polpa e óleo de pequi”.
Estima-se que mais de 100 mil pessoas, majoritariamente crianças, são consumidoras dos alimentos produzidos pela Grande Sertão – alimentos esses de inestimável valor nutricional (Almeida, 1998). Grande parte delas, inclusive, é oriunda das comunidades que fornecem frutas e outros produtos para a cooperativa, o que reforça os laços culturais da região.
A Grande Sertão vem ainda se articulando com outras organizações que atuam em propostas de economia solidária, comércio justo, Agroecologia e agroextrativismo. Um dos resultados dessa articulação é a Central do Cerrado: “Uma iniciativa sem fins lucrativos estabelecida com 21 organizações comunitárias que desenvolvem atividades produtivas a partir do uso sustentável da biodiversidade do Cerrado”.
A participação em feiras também é uma importante estratégia levada a cabo, pois dá visibilidade aos grupos e promove interessantes debates e contatos. Recentemente, a Grande Sertão participou de feiras como a da Agricultura Familiar, organizada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), a Terra Madre 2006, em Turim, Itália, e a ExpoSustentat 2007, só para citar algumas.
Outras estratégias têm sido executadas, ainda que um pouco mais timidamente: a inserção dos produtos nos comércios locais; a criação do Empório do Sertão, espaço cultural das festas de Montes Claros; e mesmo a possibilidade de exportação, cuja importância é menos comercial e mais no sentido de divulgar as riquezas do Cerrado, da Caatinga e de seus povos.
GERAÇÃO DE RENDA
Na agricultura camponesa, a melhor estratégia de produção e comercialização é a diversidade. Quanto mais opções para a geração de renda, maior segurança financeira o produtor terá, assim como também quanto mais diversa for sua produção, maior segurança alimentar e nutricional para sua família. Nessa perspectiva, a diversidade de produtos – frutas, rapadura, cachaça, mel – gera um leque de possibilidades de renda. E mais uma alternativa está agora sendo disponibilizada às comunidades: as sementes oleaginosas para produção de biodiesel e outros óleos. Além disso, as comunidades rurais ligadas à Grande Sertão têm a possibilidade de comercializarem seus produtos diretamente –nas feiras livres e mercados locais – ou por meio da própria cooperativa, que viabiliza vendas em maior escala, assumindo os custos de transporte, beneficiamento e comercialização em mercados mais exigentes.
A entrega de 1,1 mil toneladas de frutas para a Grande Sertão gerou, entre 1998 e 2008, R$ 415 mil reais para aproximadamente dois mil agricultores. Em média, a cooperativa paga R$ 0,46 pelo quilo de fruta entregue. A renda obtida varia bastante de acordo com a dedicação do agricultor na coleta e entrega das frutas. Os mais empenhados vêm obtendo uma renda média anual de até R$ 1.000,00, enquanto um só agricultor chegou a receber R$ 2.857,40 apenas entregando pequi na safra 2003/04.
Das cerca de 360 comunidades que já forneceram frutas para a Grande Sertão, 26% vêm mantendo uma regularidade de entrega (em pelo menos três safras). Entretanto, de todos os agricultores que já entregaram, quase 74% o fizeram em somente uma safra. Isso suscita questões sobre a melhor estratégia para a cooperativa: comprar frutas de cada vez mais agricultores e comunidades diferentes, com vistas a divulgar seu trabalho e se consolidar como um empreendimento de ampla inserção regional; ou reforçar a relação com algumas comunidades, de modo que haja mais confiança mútua e segurança econômica.
De todo modo, a Grande Sertão vem se estabelecendo no Norte de Minas como uma alternativa concreta e viável de geração de renda para milhares de famílias. No caso do extrativismo, as comunidades precisam somente de organização e investir em seu trabalho na coleta. Esse ganho econômico, mesmo quando pequeno, acarreta uma série de outras mudanças e questões que ampliam o leque de benefícios proporcionados.
PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E ORGANIZAÇÃO SOCIAL
A conquista da cidadania no meio rural vai muito além das melhorias na renda per capita. Passa também pela efetivação dos direitos de participação nos espaços políticos, que se dá principalmente pela organização social. Nesse sentido, a Grande Sertão pode ser considerada, também, uma porta para essa conquista.
A organização da Grande Sertão, em íntima associação com o trabalho do CAA-NM e com as organizações de base do Norte de Minas, vem dando origem ao que tem sido chamado de Rede Sócio-Técnica. Essa rede tem como princípio fundamental o casamento dos saberes tradicionais com os saberes técnico-científicos, bem como a valorização dos agricultores enquanto multiplicadores de práticas e conhecimentos agroecológicos. A Rede Sócio-Técnica desdobra-se ainda na produção, constituindo unidades produtivas descentralizadas e compondo uma rede de empreendimentos da agricultura familiar no Norte de Minas.
A participação social das famílias em um empreendimento econômico é, por si só, um sinal de enfrentamento da exclusão social. A valorização da cultura sertaneja e dos produtos da biodiversidade também é a manifestação de um movimento contrário à imposição cultural e à depredação ambiental, elementos típicos do capitalismo. Assim, o empoderamento proporcionado pela Grande Sertão não pode ser medido em termos puramente econômicos e deve ser considerado na amplitude de sua estratégia para a superação da pobreza de camponeses historicamente alijados pelo modelo de desenvolvi- mento predominante.
SUPERAR A POBREZA OU VALORIZAR AS RIQUEZAS?
A riqueza do Norte de Minas, formada pelo encontro de diversos ecossistemas e culturas, tem sido historicamente ignorada pelos poderes público e econômico. Os biomas Caatinga e Cerrado, com sua incrível biodiversidade e importância ecológica; as culturas tradicionais da região, como a geraizeira, catingueira, vazanteira, quilombola e xacriabá, dotadas de ricos saberes; a agro- biodiversidade cultivada e adaptada por gerações. Tudo isso está sendo cada vez mais massacrado pela lógica político-econômica global, que enxerga à sua frente somente lucros a curto prazo. O argumento da superação da pobreza é utilizado, inclusive, como justificativa para grandes projetos econômicos – barragens, mineração, mono – culturas de eucalipto, soja, etc – que, na verdade, só aprofundam o quadro de desigualdades sociais e degradação ambiental.
Assim, não seria melhor falarmos em valorização das riquezas como estratégia de desenvolvimento regional? Afinal, foram essas riquezas que permitiram às populações do Norte de Minas viverem até hoje, com segurança alimentar e qualidade ambiental, e são exatamente elas que vêm sendo exauridas pelo modelo econômico agroindustrial exportador. Mesmo sob tanta pressão, milhares de famílias ainda têm, nas riquezas que as cercam, importante fonte de renda e qualidade de vida. A Cooperativa Grande Sertão vem, portanto, valorizando tais riquezas, aproveitando seu potencial para além do beneficiamento artesanal e da comercialização local em peque- na escala. E demonstra, dessa forma, que outro desenvolvimento para o meio rural não só é possível, como já acontece no Norte de Minas.
Referências Bibliográficas:
ALMEIDA, Semíramis P. Frutas nativas do Cerrado: caracterização físico-química e fonte potencial de nutrientes. In: SANO, Sueli. M.;
ALMEIDA, Semíramis P. Cerrado: ambiente e flora. Planaltina: Embrapa-CPAC, 1998. p. 247-285.
CARVALHO, Igor S.H. Potenciais e limitações do uso sustentável da biodiversidade do Cerrado: um estudo de caso da Cooperativa Grande Sertão no Norte de Minas. 2007. 164 f. Dissertação (Mestrado) – CDS/UnB, Brasília.
MAZZETO, Carlos E.S. Cerrados e camponeses no Norte de Minas: um estudo sobre a sustentabilidade dos ecossistemas e das populações sertanejas. 1999. 250 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.
PNUD. Combater as alterações climáticas: solidariedade humana num mundo dividido. Relatório de desenvolvimento humano 2007/2008. Nova York: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2008.
SANTOS, Breno G.; SANTA ROSA, Helen. Cooperativa Grande Sertão: articulando populações e diversidades do Norte de Minas Gerais. Revista Agriculturas: experiências em agroecologia, v. 2, n. 2, junho de 2005.
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Revista V5N4 – Superando a pobreza rural a partir das riquezas nativas: a experiência da Cooperativa Grande Sertão