Boletim 544 – 02 de julho de 2011

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,

LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS

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Número 544 – 01 de julho de 2011

Car@s Amig@s,

No Boletim 543 relatamos parte das conclusões do Painel presidencial sobre Câncer nos EUA (espécie de Conselho para assessorar o Presidente da República), que entre setembro de 2008 e janeiro de 2009 convocou quatro encontros para avaliar o estado atual da pesquisa, política e programas sobre o câncer provocado por fatores ambientais. O relatório sintetizando as conclusões do Painel foi publicado em abril de 2010.

Para concluir o relato, reproduzimos neste Boletim as principais conclusões do documento com relação aos contaminantes químicos provenientes da agricultura e uma síntese das recomendações apresentadas ao presidente da república dos EUA:

Contaminantes provenientes da agricultura

O relatório menciona que “a população dos EUA inteira é diariamente exposta a numerosos químicos agrícolas, muitos dos quais são suspeitos ou conhecidos por provocar câncer ou desregulação endócrina. Muitos dos solventes, aditivos e outros químicos classificados como ingredientes inertes nos rótulos de agrotóxicos são também tóxicos, mas não se exige que sejam testados por seu potencial de provocar doenças crônicas como o câncer”.

O documento menciona ainda que fertilizantes (adubos) químicos e medicamentos veterinários (como os antibióticos e promotores de crescimento) são grandes responsáveis pela poluição da água — os processos químicos da sua transformação resultam na formação de derivados tóxicos, muitos dos quais cancerígenos, que contaminam as águas de abastecimento.

Segundo o relatório, os agricultores e suas famílias, incluindo os trabalhadores temporários na agricultura, são os que estão expostos aos maiores riscos causados por substâncias cancerígenas. O texto observa ainda que o fato dos agrotóxicos serem comumente aplicados em misturas torna difícil a observação clara dos riscos de câncer associados a substâncias específicas.

Dados de estudos citados no relatório mostram que as taxas de leucemia são consideravelmente mais elevadas entre crianças que crescem em propriedades rurais, entre crianças cujos pais usam agrotóxicos em suas casas ou jardins, e entre filhos de aplicadores de agrotóxicos.

Entre outras descobertas apresentadas, o relatório observa que, embora a incidência de câncer entre agricultores e aplicadores de agrotóxicos não seja maior do que em outros grupos de pessoas estudadas, há um aumento de risco para cânceres específicos. Agricultores e aplicadores de agrotóxicos têm significativamente mais risco de desenvolver câncer de próstata, enquanto suas esposas têm uma incidência significativamente maior de melanoma (um câncer de pele altamente letal). As mulheres aplicadoras de agrotóxicos têm incidência significativamente mais alta de câncer de ovário. Ainda segundo os estudos apresentados, agricultores expostos a agrotóxicos, aplicadores de venenos e pilotos de aviões de pulverização, bem como trabalhadores em fábricas de agrotóxicos, apresentam taxas mais elevadas de câncer de próstata, melanoma, outros cânceres de pele e câncer de lábio.

O documento cita ainda que a exposição aos 1.400 agrotóxicos aprovados nos EUA está relacionada a cânceres no cérebro/sistema nervoso central, mama, colo, pulmão, ovário (em esposas de trabalhadores rurais), pâncreas, rim, testículos e estômago, assim como linfoma hodgkin e não hodgkin, mieloma múltiplo e sarcoma de partes moles (câncer que pode afetar ossos, cartilagem, gordura, músculos, vasos sanguíneos e tecido conjuntivo ou de suporte).

Mais especificamente, aproximadamente 40 químicos classificados pela Agência Internacional para a Pesquisa sobre Câncer (IARC, na sigla em inglês) como conhecidos, prováveis ou possíveis carcinogênicos humanos são usados em agrotóxicos registrados nos EUA. Alguns destes químicos são utilizados em vários agrotóxicos diferentes.

Um dos exemplos citados neste caso foi o do inseticida Atrazina. Este ingrediente ativo já mostrou afetar o desenvolvimento de glândulas mamárias de animais de laboratório, sendo que algumas descobertas sugerem a existência de efeitos multigeracionais. E os poucos estudos já realizados sobre a carcinogenicidade humana da atrazina foram inconclusivos.

No Brasil esta substância é amplamente usada na agricultura: há, atualmente, 40 agrotóxicos a base de atrazina registrados pelo Ministério da Agricultura.

Recomendações

O relatório afirma que as exposições ambientais que aumentam a incidência de câncer nos EUA não representam um novo front na guerra contra o câncer, entretanto, os graves danos provenientes deste grupo de carcinogênicos não foram até agora avaliados adequadamente pelo Programa Nacional de Câncer. Neste sentido, o Painel clama para que o Presidente use o poder de seu gabinete para remover da comida, da água e do ar os carcinogênicos e outras toxinas que, desnecessariamente, aumentam os custos com tratamentos de saúde, mutilam a capacidade produtiva do país e devastam vidas.

Leia na íntegra, em inglês, o relatório:

Reducing Environmental Cancer Risk – What We Can do Now 2008-2009 Annual Report / The President’s Cancer Panel, April 2010 – U.S. National Cancer Institute / National Institutes of Health / Department of Heath and Human Services

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Neste número:

1. Transgênico ameaça produção orgânica

2. Para a CTNBio, não dá para ter pureza total

3. Programa da Embrapa e Abrange investe em sementes não transgênicas

4. Evo Morales sanciona lei agrícola que proíbe transgênicos

5. Agrotóxicos severamente perigosos serão proibidos no País

6. Ibama flagra desmatamento com agrotóxico na Amazônia

7. Basf decide ampliar leque de defensivos biológicos no Brasil

A alternativa agroecológica

Sementes que frutificam

Dica de fonte de informação:

O Brasil é o campeão dos agrotóxicos, matéria publicada na revista Cláudia.

Durante 15 anos, a agricultora Rosiele Cristiane Ludtke, 33 anos, cultivou com a família 33 mil pés de fumo na terra que mantêm em Paraíso do Sul, a 220 quilômetros de Porto Alegre. Em 2008, quando colheram o fumo úmido e venderam para uma grande empresa, Rosiele foi internada com muita dor de cabeça, náusea e vômito. ‘No hospital, disseram que eu estava intoxicada’, conta. A irmã dela, Lívia, permaneceu três dias hospitalizada. Hoje, Rosiele planta milho, feijão, batata, cebola e alho sem agrotóxicos. ‘Ganho menos, porque a produção é menor, mas vivo com mais saúde’, afirma.

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em 2009 foram 3.813 casos de intoxicação e 115 mortes por contaminação com agrotóxicos. De cada 100 casos, três são letais. ‘É a maior letalidade entre os agentes tóxicos”, diz Rosany Bochner, que coordena o sistema de informações tóxico-farmacológicas da Fiocruz.”

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1. Transgênico ameaça produção orgânica

No Paraná, pequenos produtores têm prejuízos com colheitas contaminadas por Grãos geneticamente modificados

Maior problema é a falta de controle na produção de sementes orgânicas; prejuízo leva produtor a migrar para transgênico

O cultivo de variedades transgênicas de soja e de milho está ameaçando a frágil cadeia de produção orgânica no sudoeste do Paraná – área cujo perfil fundiário é o da pequena propriedade rural.

A dificuldade na obtenção de grãos convencionais e a deficiência da logística são apontadas como as responsáveis pela contaminação da produção.

“Está cada vez mais difícil obter sementes não transgênicas para os produtores orgânicos. Além disso, há o problema da contaminação na colheita ou no transporte da safra”, afirma Marcio Alberto Challiol, diretor da Gebana, empresa com sede em Zurique, Suíça.

A Gebana, especializada na comercialização de soja, milho e trigo orgânicos, negocia por ano 10 mil toneladas de cereais do Brasil. É uma gota, diante dos volumes da safra brasileira.

Mas a história desse modelo de produção (livre de agrotóxicos e de transgênicos) tem relevo não pelos volumes, mas como prova de que a prerrogativa da Lei de Biossegurança no Brasil não está sendo cumprida.

Abandono

A liberação de mais de 20 variedades de soja, milho e algodão transgênico no Brasil se deu sob a condição de que todo agricultor que queira uma produção convencional ou orgânica terá esse direito assegurado.

A falta de controle, tanto na produção de sementes como na logística para segregar OGM (organismos geneticamente modificados) e não OGMs, está burlando essa condição no Brasil.

O impacto econômico está levando pequenos produtores a abandonar esse cultivo. Paulo Sobrinho Mackiewicz, produtor do município de Capanema – 650 quilômetros a oeste de Curitiba -, é um dos que desistiram do orgânico.

Na última safra, Mackiewicz havia negociado a produção com prêmio de 35% além do valor da saca de soja convencional. Após meses de trabalho duro para evitar o uso de uma gota de veneno, a má notícia.

A produção de 54 toneladas de soja estava contaminada com sementes transgênicas. O prêmio de 35% foi perdido, um corte na receita no valor total de R$ 9.000, uma cifra importante para a propriedade.

“Fiz o possível. Trabalhei duro para conseguir um preço melhor para a soja. A contaminação, que não tenho ideia de onde veio, acabou com tudo. Depois disso, desisti do orgânico. Não vou fazer tudo novamente sem ter garantia”, disse.

Prejuízo grande

A Gebana, empresa que lhe forneceu a semente, afirma que não havia contaminação no material genético. A suspeita, então, recaiu sobre a colheitadeira alugada por Mackiewicz, que poderia ter restos de soja transgênica.

Delézio Caciamani, 40, também produtor da região, enfrentou o mesmo problema. Plantou 32 hectares de soja orgânica e também perdeu o prêmio de 35%. Perdeu R$ 12,6 mil com a contaminação dos grãos.

“O cultivo orgânico é muito mais trabalhoso. O prêmio que é pago por saca torna essa produção mais competitiva. Mas, se você perder esse benefício, o prejuízo fica grande”, afirma.

Mais pela convicção da importância em produzir com menos agroquímicos, Caciamani vai manter-se no método orgânico por mais uma safra. Fará isso não sem um fio de preocupação.

Fonte: Folha de S. Paulo, 25/06/2011.

Assista também a reportagem em vídeo produzida pela Folha sobre o mesmo tema.

2. Para a CTNBio, não dá para ter pureza total

O vice-presidente da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), Aluízio Borém, afirma que as medidas criadas pela instituição são eficientes para evitar contaminação de sementes transgênicas na produção convencional ou orgânica.

“É necessário que as medidas de coexistência sejam observadas. As evidências científicas mostram que não haverá contaminação se forem respeitadas a diferença temporal entre o plantio transgênico e o convencional, bem como o respeito à separação espacial entre esses cultivos”, afirma o vice da CTNBio.

O especialista em melhoramento de plantas disse ainda que não é possível assegurar pureza total nessas produções.

“Contaminação zero não existe, o que deve haver é o respeito a níveis que possam ser admitidos”, afirma.

Sobre eventual falha no controle das regras da CTNBio, o vice-presidente afirmou que a comissão não possui mandato para fiscalização, atribuição essa de órgãos ligados ao Ministério da Agricultura.

Borém afirma que, em 13 anos em que a Comissão de Biossegurança autorizou o plantio comercial de variedades transgênicas de milho, soja e algodão (as únicas liberadas até agora) não existe nenhuma evidência de problemas à saúde humana ou de efeitos danosos ao ambiente.

Fonte: Folha de S. Paulo, 25/06/2011.

3. Programa da Embrapa e Abrange investe em sementes não transgênicas

Um programa entre a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e a Abrange (Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados) tenta instituir estrutura alternativa para barrar o avanço das companhias multinacionais no domínio do agronegócio nacional.

O programa Soja Livre tenta criar canais de acesso a sementes não OGM por parte dos produtores de soja e milho. A estrutura, com presença em Mato Grosso, é uma reação à redução da oferta de material genético livre de transgênicos. Hoje, 35% da soja e 65% do milho brasileiros são convencionais, não transgênicos.

Após a liberação de eventos geneticamente modificados, as grandes companhias de biotecnologia do mundo estão concentrando esforços para o desenvolvimento de sementes transgênicas, deixando de lado o chamado melhoramento clássico.

“Essa é uma guerra comercial. As múltis, com os transgênicos, ganham em todo o pacote tecnológico que põem na propriedade do agricultor. Da semente aos defensivos, chegando até os royalties pelo uso da tecnologia. É isso que queremos romper”, disse Ivan Domingos Paghi, diretor técnico da Abrange.

Segundo César Borges de Souza, presidente da Abrange, todo o custo para evitar hoje a contaminação de sementes, do plantio, do transporte ou da armazenagem é de quem produz não OGM.

“Isso virou um buraco negro. O governo aprovou os transgênicos e pronto. O governo não toma conta da organização da cadeia. Assim, quem trabalha com não OGM é que ficou com o ônus da segregação”, disse.

Hoje, o Brasil ainda é o maior produtor e exportador de soja não transgênica. A exportação desse produto no ano passado atingiu 9 milhões de toneladas.

Fonte: Folha de S. Paulo, 25/06/2011.

4. Evo Morales sanciona lei agrícola que proíbe transgênicos

O presidente da Bolívia, Evo Morales, promulgou neste domingo uma lei para fomentar o desenvolvimento agrícola em seu país, mas não estimulará a produção dos transgênicos como inicialmente informaram setores de produtores e políticos. Morales promulgou a “Lei de Revolução Produtiva Comunitária e Agropecuária” em um ato perante organizações camponesas e indígenas e pediu para garantirem “a segurança alimentar com soberania” do país e para manterem o apoio político a seu governo.

O ministro da Presidência, Carlos Romero, declarou à imprensa que a lei é parte do plano governamental para fomentar a produção agrícola e que antes deu outros passos como a distribuição de terras a indígenas e a camponeses e a eliminação das relações de servidão em algumas regiões rurais.

Romero enfatizou que a lei não promove o uso de sementes e de alimentos transgênicos como assinalaram dirigentes de produtores, opositores e a imprensa, e atribuiu essa versão a uma confusão sobre a norma. “A lei em nenhum momento visou promover e fomentar os transgênicos. Pelo contrário, os proíbe”, afirmou o ministro da Presidência, ao assinalar que, por outro lado, protegerá o “patrimônio genético” e a riqueza da biodiversidade da Bolívia.

O objetivo é melhorar as sementes e os recursos genéticos, mas isso “não tem nada a ver com transgênicos”, apontou Romero. A lei obriga também que os produtos importados tenham rótulos especiais para anunciar se têm componentes transgênicos para que os consumidores estejam informados quando comprarem os alimentos.

Fonte: Terra (Agência EFE), 26/06/2011.

N.E.: O projeto de lei aprovado pelo parlamento de fato continha dois artigos que regulamentavam a utilização de transgênicos na Bolívia (ver El gobierno decide legalizar los transgénicos en Bolivia – Fobomade, 02/06/11). Segundo o jornal argentino El Patagónico, os artigos foram eliminados pelo governo após os protestos de organizações camponesas.

5. Agrotóxicos ”severamente perigosos” serão proibidos no País

Dos 3 produtos que terão regras de comércio mais rígida em 75 nações, 2 estão em processo de retirada do Brasil

Dos três agrotóxicos que sofrerão restrições na comercialização por estarem associados a prejuízos à saúde, dois (endossulfam e aldicarbe) estão em processo de retirada no Brasil. O terceiro (alacloro) está em fase da avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A decisão sobre a restrição aos três produtos químicos foi tomada na semana passada por representantes de 75 países, reunidos na Convenção de Roterdã. Com isso, esses agrotóxicos passam a ser considerados “severamente perigosos” e, a partir de outubro, terão de ser submetidos a regras rígidas para a venda.

Ratificada pelo Brasil em 2004, a Convenção de Roterdã regula o comércio internacional de produtos químicos perigosos. Durante o encontro, nações também discutiram a proposta de uso controlado e do banimento do amianto de crisotila, mas não chegaram a um acordo.

Para haver uma decisão, é preciso consenso entre todos os participantes. A posição do Brasil foi criticada: a delegação preferiu a neutralidade, considerada uma aposta na falta de acordo. Para ativistas na luta contra banimento do produto, classificado com cancerígeno, o País perdeu uma oportunidade histórica. De quebra, recebeu o prêmio “Culpado por Provocar Câncer”, promovido pela uma organização não governamental. Em relação aos agrotóxicos, o Brasil defendeu a restrição do comércio.

Os países precisam saber e assumir os riscos a que estão expostos quando comercializam esses produtos”, avalia o gerente-geral de toxicologia da Anvisa, Luiz Cláudio Meirelles. Com a mudança, rótulos terão de apresentar informações claras sobre os perigos de seu uso à saúde.

O comércio do endossulfam será banido a partir de 2013. A retirada programada do produto foi determinada pela Anvisa em 2010. O aldicarbe (conhecido por seu uso irregular na formulação do “chumbinho”) teve seu uso restringido pela agência e, em dezembro, a fabricante decidiu suspender sua venda.

Esse agrotóxico, usado em poucas culturas e por um número bastante restrito de produtores, deverá permanecer no mercado até meados deste ano, quando o estoque deve se esgotar”, disse Meirelles. O alacloro está em fase de revisão pela Anvisa. A expectativa é de que a retirada do produto seja determinada.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 29/06/2011.

6. Ibama flagra desmatamento com agrotóxico na Amazônia

As 4 t de herbicidas seriam usadas para devastar 3.000 hectares de floresta na Amazônia

O Ibama apreendeu na sexta-feira quatro toneladas de agrotóxicos que seriam utilizados para desmatar 3.000 hectares de floresta nativa da União em Novo Aripuanã, sul do Amazonas.

O único registro de uso de agrotóxico em desmatamentos no Estado ocorreu em 1999. Durante um sobrevoo, fiscais do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) encontraram uma área de 250 hectares, no município de Boca do Acre, já destruída por ação do veneno Tordon 2,4-D.

Pulverizados sobre a floresta, os agrotóxicos têm o poder de desfolhar as árvores.

A floresta vira um grande paliteiro, facilitando o desmatamento. É o mesmo processo usado pelo exército norte-americano para encontrar os vietnamitas na guerra do Vietnã”, disse o superintendente do Ibama no Amazonas, Mário Lúcio Reis.

Operação

Os fiscais do Ibama monitoravam o envio da carga de Rondônia para Novo Aripuanã (227 km de Manaus) havia uma semana.

Na sexta-feira, os produtos foram apreendidos em uma região de floresta desabitada às margens do rio Acari (afluente do Madeira), que fica nos limites entre a RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) do Juma e uma propriedade de um fazendeiro de Rondônia.

Os produtos químicos estavam escondidos debaixo de uma lona. Na carga, foram identificados os agrotóxicos 2,4-D Amina 72, U46BR, Garlon 480 e óleo mineral. Eles são comercializados legalmente como herbicidas para matar ervas daninhas em plantações de arroz e milho.

O nome do fazendeiro, que já foi multado por desmatar floresta nativa em outra ocasião, está sob sigilo devido às investigações do novo crime ambiental. A multa pode chegar a R$ 2 milhões.

Reis afirma que os fiscais encontraram uma pista de pouso na fazenda, de onde partiria um avião pulverizador para jogar os agrotóxicos sobre a floresta.

Queimadas

Ainda de acordo com o superintendente, após a pulverização as árvores que têm valor comercial são derrubadas com motosserras. “Depois, eles fazem queimadas para limpar o terreno. No lugar da floresta, o fazendeiro iria criar um grande pasto.”

Segundo o agrônomo e pesquisador do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) Hiroshi Noda, ao serem lançados sobre a floresta, os agrotóxicos contaminam solo, lençóis freáticos, animais e seres humanos.

Eles causam uma reação química no metabolismo das árvores, provocando seu colapso imediato”, disse.

Noda afirmou que, meses após a pulverização dos agrotóxicos, a terra pode ser utilizada para pastagens.

Fonte: Folha de S. Paulo, 28/06/2011.

7. Basf decide ampliar leque de defensivos biológicos no Brasil

A multinacional alemã Basf está introduzindo no mercado brasileiro dois novos tipos de defensivos biológicos – um biofungicida e um feromônio. Os dois produtos, chamados de biológicos por não terem matérias-primas químicas em sua composição, terão como foco principal o segmento de frutas e hortaliças.

O biofungicida, que tem como ingrediente ativo a bactéria Bacillus subtilis, entrou no portfólio da Basf em abril do ano passado, quando a empresa fechou um acordo de cooperação com a americana AgraQuest, detentora da tecnologia. O acordo de distribuição é mundial, mas as vendas ainda não haviam começado no Brasil por falta de registro. A empresa informou que recebeu no fim de maio aval do governo para a comercialização do produto. (…)

O biofungicida terá aplicações para cinco tipos de pragas que assolam três culturas brasileiras: a mancha-púrpura (Alternaria porri), que ataca as plantações de cebolas, a podridão-olho-de-boi (Cryptosporiopsis perennans) e o mofo-cinzento (Botrytis cinerea), com ocorrência na maçã, e o oídio (Sphaeroteca macularis) e o mofo-cinzento (Botrytis cinerea) das lavouras de morangos.

Em outra frente, a empresa já disponibiliza seu primeiro feromônio no Brasil, que tem como função causar “confusão sexual”. Sua aplicação, neste caso, tem como alvo a mariposa oriental (Grapholita molesta), que ataca as culturas de pêssegos e maçãs.

A múlti importará o produto ativo e fará a formulação dos produtos no Brasil. Segundo Del Sistia, a Basf está “em fase de investigação” para trazer outros produtos biológicos ao Brasil, tendo em vista a expansão desse mercado no país, ainda dominado por empresas menores. Além da Basf, a Bayer CropScience também estuda investidas no segmento.

O mercado dos defensivos biológicos é ainda bastante pequeno dentro do universo total da indústria de agrotóxicos. Nos últimos tempos, no entanto, têm se multiplicado as iniciativas das indústrias nesse segmento. Em um universo de 1,4 mil agrotóxicos registrados, só 21 são biológicos. Há dois anos, eram 11.

O segmento tem o incentivo do Ministério da Agricultura, que passou a oferecer facilidades aos fabricantes do país. Uma delas é o tempo de aprovação de registro. O órgão afirma que enquanto o processo de registro convencional leva até 24 meses, o de um agente biológico pode ser finalizado em 8 meses.

Fonte: Valor Econômico, 17/06/2011 (via IHU).

A alternativa agroecológica

Sementes que frutificam

Conduzidas pelo Pólo Sindical e das Organizações da Agricultura Familiar da Borborema e assessoradas pela AS-PTA, organizações da agricultura familiar da Paraíba vêm realizando desde 1993 um intenso trabalho de revalorização das variedades locais tradicionalmente plantadas nos roçados, conhecidas localmente como “Sementes da Paixão”.

Para as milhares de famílias atualmente envolvidas, resguardar essas sementes significa assegurar a autonomia técnica e o modo de vida da agricultura familiar desenvolvido por gerações para a convivência com o semiárido.

Todo este trabalho de resgate e ressignificação das sementes se deu através de uma metodologia peculiar, através da valorização dos ensinamentos assimilados a partir do saber e das práticas tradicionais dos próprios agricultores e agricultoras para que, juntamente com os conhecimentos científicos adquiridos em processos de formação, fossem desenvolvidas estratégias próprias para a garantia de ampla diversidade de sementes de boa qualidade e em quantidades suficientes para os plantios.

Exemplo destes agricultores-experimentadores, Maria de Edísio é uma apaixonada pelas sementes desde recém casada. Olhos atentos, escolhia e guardava as sementes que “davam certo”, aquelas que melhor se adaptavam ao clima seco, o feijão mais saboroso, o milho que lhe rendia mais palha. Selecionadas as sementes, o plantio era todo consorciado: o algodão mocó junto com o milho, a fava e o feijão estendedor que subia pelo algodão. Após a colheita, as sementes eram secas ao sol e misturadas à cinza da fogueira de São João (para não dar gorgulhos) e armazenadas em recipientes fechados.

Deste 1972, Maria passou a guardar as sementes que vem pesquisando de forma mais sistemática. Com uma lista de critérios bastante apurada, separa as variedades mais produtivas, as mais aceitas – que alcançam melhores preços no mercado – e as mais saborosas.

Sobre a importância de conservar as sementes, afirma: “Se eu perder, meus vizinhos podem ainda ter. Não quero as sementes só para mim; quero para mim, para meus filhos e vizinhos”. Desta forma, Maria assegura melhores condições de “guarda” de suas sementes e de todo o conhecimento a elas associado.

José Luna, mais conhecido como Zé Pequeno, é outro agricultor guardião de sementes. Desde cedo aprendeu a importância das sementes e a seca de 1974 fez com que seu trabalho envolvesse mais pessoas. Nesta ocasião os moradores de São Tomé, em Alagoa Nova-PB, ficaram sem sementes para plantar. Zé Pequeno foi procurar a ajuda da Igreja e recebeu um saco de feijão, um de milho e o desafio de fazer multiplicar estas sementes.

Juntaram-se então representantes de dez famílias e formou-se o primeiro Banco de Sementes: cada uma levou para casa 10 quilos de feijão e 2 de milho. Essas sementes deveriam ser multiplicadas e cada família deveria então devolver 15 quilos de feijão e 3 de milho. Funcionou. Após alguns anos, 150 famílias estavam associadas ao Banco de Sementes. Os bancos comunitários se multiplicaram, formando uma rede estadual com mais de 200 unidades, em 60 municípios. Por intermédio dela, milhares famílias de agricultores tiveram acesso a sementes de oito espécies de cultivo e mais de 80 diferentes variedades.

Coordenada pela Articulação do Semiárido Paraibano – ASA-PB, a Rede Estadual de Bancos de Sementes foi determinante para a emergência de um ambiente político-organizativo que culminou na formulação e na negociação de propostas alternativas às políticas de sementes do Governo do Estado da Paraíba. Desde 1998, a ASA-PB vem estabelecendo convênios com a Secretaria Estadual de Agricultura para o fortalecimento dos Bancos com sementes de variedades locais. A partir de 2004, em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), as sementes de variedades locais começaram a ser compradas dos próprios agricultores e plantadas pelos sócios dos Bancos.

O estoque familiar de sementes é outra estratégia fundamental para a convivência com as irregularidades climáticas do semiárido, uma vez que garante a quantidade e a diversidade de espécies e variedades selecionadas para o momento exato de plantio. Em momentos de crise aguda provocados por longos períodos de seca, os estoques também podem atender às necessidades alimentares da família.

Associada aos roçados, que frequentemente possuem mais de sete espécies em consórcio, a variabilidade genética de espécies cultivadas na região também é significativa. Em um diagnóstico realizado em 1997, foram encontradas em apenas seis comunidades 67 variedades de três espécies – feijão-de-arranque (Phaseolus vulgaris), feijão-macassa (Vigna unguiculata) e fava (Phaseolus lunatus). A manutenção dessa ampla diversidade nos roçados do semiárido, juntamente com as estratégias de conservação das sementes, é sem dúvida uma estratégia antirrisco que proporciona flexibilidade de manejo, um fator determinante para a estabilidade econômica e ecológica dos sistemas agrícolas e para a segurança alimentar.

Fonte: Agroecologia em Rede.

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Campanha Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos

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