No dia 7 de maio, a Fundação Angélica Goulart, em Guaratiba, recebeu o Seminário de Tecnologias Sociais, promovido pela AS-PTA, como parte do projeto Agroecologia nas Favelas: Redes Locais Promovendo Saúde. O encontro reuniu agricultoras, agricultores, lideranças comunitárias, pesquisadores e organizações parceiras para refletir sobre como as tecnologias sociais fortalecem a agricultura urbana, ampliam a promoção da saúde e contribuem para a transformação dos territórios populares.
A mediação foi realizada por Saney Souza, que provocou o debate sobre o significado das tecnologias sociais para além de estruturas físicas e equipamentos. Em sua fala, destacou que elas também envolvem metodologias, formas de organização coletiva, processos de participação e construção de conhecimento capazes de gerar mudanças concretas na vida das pessoas e das comunidades.
Abrindo a mesa, a agricultora urbana Leildes compartilhou experiências desenvolvidas na Serra da Misericórdia junto ao CEM – Centro de Integração da Serra da Misericórdia. Ela apresentou iniciativas como sistemas agroflorestais, quintais produtivos e processos de mobilização comunitária construídos ao longo dos anos no território. Sua fala ressaltou como a agroecologia fortalece vínculos comunitários, promove o cuidado com a terra e cria oportunidades para a produção de alimentos saudáveis em áreas marcadas pela vulnerabilidade social.
Representando o GT Mulheres da AARJ – Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro e participante do projeto Quintais das Mulheres para o Bem Viver, Darcy refletiu sobre os diálogos entre a agricultura camponesa e a agricultura urbana. A partir de sua experiência, destacou a importância dos quintais produtivos como tecnologias sociais que articulam produção de alimentos, cultivo de plantas medicinais, conservação da biodiversidade e geração de renda. Segundo ela, tanto nos contextos rurais quanto urbanos, tecnologias como compostagem, manejo ecológico do solo, captação de água da chuva e produção de bioinsumos fortalecem a autonomia das famílias agricultoras e ampliam a capacidade dos territórios de produzir alimentos de forma sustentável.
Luciana Lago, pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (NIDES/UFRJ), instituição parceira do projeto na construção de metodologias participativas e processos de extensão universitária, trouxe reflexões sobre os desafios de fortalecer as tecnologias sociais como instrumentos de transformação. Em sua contribuição, destacou quatro elementos fundamentais para orientar essa construção: que as tecnologias estejam voltadas para a promoção da vida; que valorizem a troca horizontal de conhecimentos; que sejam capazes de ampliar sua escala de atuação sem perder o vínculo com os territórios; e que reconheçam a coletividade como elemento central. Nesse sentido, reforçou que as redes construídas entre organizações, grupos comunitários, universidades e equipamentos públicos são, em si, uma poderosa tecnologia social.
Tomé Lima, engenheiro ambiental e assessor técnico do projeto Agroecologia nas Favelas, apresentou diferentes possibilidades de implementação de tecnologias sociais voltadas à agricultura urbana e à promoção da saúde. Entre elas, sistemas de compostagem para o aproveitamento de resíduos orgânicos, hortas comunitárias e medicinais, viveiros de mudas, sistemas de captação de água da chuva, biodigestores, sistemas agroflorestais e estruturas para produção e secagem de ervas e alimentos. Destacou que essas iniciativas respondem a desafios concretos dos territórios, como segurança hídrica, manejo de resíduos, fertilidade do solo e acesso a alimentos saudáveis, ao mesmo tempo em que fortalecem a organização comunitária.
Ao longo do seminário, foi reforçado que as tecnologias sociais da agricultura urbana vão muito além da produção de alimentos. Elas contribuem para a segurança alimentar e nutricional, para a geração de renda, para o fortalecimento da saúde mental, para a valorização dos saberes populares e para o enfrentamento das desigualdades socioambientais. Também promovem melhorias ambientais por meio da compostagem, da ampliação das áreas verdes e da recuperação dos solos, fortalecendo a capacidade das comunidades de enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
Richarlls Martins, coordenador do Plano Integrado de Saúde nas Favelas, agradeceu a participação de todas as pessoas presentes e destacou a importância da Rede Carioca de Agricultura Urbana como espaço de articulação e construção coletiva.
Encerrando o seminário, Márcio Mendonça, coordenador do Programa de Agricultura Urbana da AS-PTA, convidou os participantes a seguirem promovendo espaços de reflexão coletiva nos territórios. Ressaltou que a sistematização das experiências e o compartilhamento dos aprendizados fortalecem as lutas locais, ampliam a visibilidade das iniciativas e contribuem para a construção de políticas públicas capazes de reconhecer a agroecologia e as tecnologias sociais como instrumentos fundamentais para a promoção da saúde integral nas favelas e periferias.