Cidvânia Andrade de Oliveira
Patizal é uma das 54 comunidades que compõem o assentamento rural Rio Pirangi – Lagoa da Onça, no município de Morros (MA). A segurança alimentar e nutricional das famílias vem sendo ameaçada por diversos fatores, entre eles a redução do tempo de pousio e o aumento populacional. Além disso, extensas áreas vêm sendo colonizadas por gramíneas localmente conhecidas pelo nome genérico de gengibre, uma vegetação espontânea que se alastra rapidamente pelo solo empobrecido em matéria orgânica e que dificulta e/ou impede a regeneração da vegetação originária, bem como pela implantação de cultivos anuais, tais como o roçado de São Miguel – plantio de mandioca realizado no período não-chuvoso – e os roçados de janeiro – policultivos implantados no período das chuvas.
Apesar desses problemas, o assentamento Rio Pirangi – Lagoa da Onça apresenta significativo potencial extrativista em função da diversidade de frutos nativos como o bacuri (Platonia insignis), a mangaba (Hancornia speciosa), o murici (Byrsonima verbacifolia), a juçara (Euterpe edulis Mart), a mirim (Humifera balsiforme) e o cajuí (Anacardium sp). Tais frutos são fontes importantes tanto de geração de renda como para o consumo alimentar das famílias assentadas. Outra forma de valorização dos recursos vegetais nativos tem sido a extração de fitoterápicos e de lenha para cozinhar.
Entretanto, é possível perceber que a pressão sobre a vegetação nativa impacta de forma diferenciada os meios de vida dos membros das comunidades, já que a atividade extrativista é tradicionalmente assumida pelas mulheres. Além de comprometer a alimentação das famílias, a redução da oferta de frutas nativas dificulta o acesso a essa importante fonte de renda para as mulheres. A busca de lenha também se torna uma atividade mais penosa. As práticas fitoterápicas ficam igualmente ameaçadas não só pela degradação material dos recursos naturais, mas também pela perda dos conhecimentos relacionados à identificação de espécies do mato para prevenção, tratamento e cura de doenças que, na região, são dominados principalmente pelas mulheres de mais idade.
O PAPEL DAS MULHERES NA CONSTRUÇÃO DE ALTERNATIVAS
Desde 2005, a Associação Agroecológica Tijupá atua na região prestando assessoria às comunidades. Após identificar o contexto socioambiental vivenciado no assentamento e em seu entorno, a entidade tomou a iniciativa de promover um amplo processo de discussão e de capacitação no sentido de avaliar os problemas e as possíveis alternativas para o desenvolvimento de sistemas de produção mais sustentáveis, que ao mesmo tempo assegurem a melhoria da oferta de alimentos, a produtividade dos roçados e a manutenção da vegetação em pé como mecanismo essencial para a regulação ambiental.
A ação de assessoria da Tijupá tem sido realizada com forte atenção à perspectiva das relações sociais de gênero. Essa definição institucional resulta da constatação de que as mulheres ainda são pouco valorizadas nos processos de construção coletiva da vida comunitária, embora sejam agentes indispensáveis no manejo dos agroecossistemas, importantes mantenedoras da biodiversidade e responsáveis por significativa parcela da alimentação das famílias. Nesse sentido, ao privilegiar o trabalho com as mulheres, promove-se um ambiente propício ao empoderamento das mesmas, que têm sido tradicionalmente alijadas dos processos decisórios relacionados aos rumos do desenvolvimento local.
O QUINTAL AGROFLORESTAL: UM ESPAÇO DE PRODUÇÃO E DE INTEGRAÇÃO
Em 2005, em função do processo de discussão sobre manejos de base agroecológica, deu-se início à recuperação de uma área de aproximadamente um hectare na comunidade de Patizal. Cedida por seu Pedro, um senhor de mais de 70 anos motivado com a proposta de cultivo de espécies frutíferas, a área serviu como referência local para o debate sobre sistemas agroflorestais (SAFs) na comunidade. Não tardou e a equipe da Tijupá foi convidada pela família de Leontina (Lió) e Lourival (Loro) que havia demonstrado interesse no aprimoramento de seu quintal. Nessa área, de aproximadamente 1,5 hectare, já estavam estabelecidas algumas frutíferas – laranja, urucum, limão, carambola, goiaba e caju –, além de um canteiro suspenso destinado ao cultivo de coentro, cebolinha, pimenta, manjericão e hortelã. Outra parte do terreno estava sem nenhum tipo de cobertura vegetal.
O primeiro passo para a intensificação produtiva do quintal foi a introdução de frutíferas nativas e de plantas adubadoras para enriquecer o solo. A primeira espécie implantada foi o feijão guandu (Cajanus cajan), que proporciona rápida cobertura verde sobre a terra desprotegida. A tarefa de coletar as sementes e produzir as mudas foi assumida por Lió, que contou com o apoio do filho e da filha. As primeiras dificuldades se apresentaram logo após o período das chuvas, quando a família teve que manter a rega das plantas com água de poço extraída manualmente. Essa atividade era realizada ao amanhecer e ao entardecer, num enorme esforço para que as mudas não morressem. O empenho da família salvou algumas espécies, mas boa parte não suportou.
Apesar dessas dificuldades vividas por Lió e sua família, várias mulheres da comunidade motivaram-se para conhecer melhor a experiência. Elas foram convidadas em 2006 para participarem de atividades de capacitação viabilizadas pelo projeto Ater para Mulheres no Território Lençóis-Munim, aprova- do pela Tijupá junto ao Programa de Promoção de Igualdade de Gênero, Raça e Etnia do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA/Ppigre). Voltado exclusivamente para mulheres, o projeto procurava estimular a sua participação plena, já que até então pouco interagiam com as ações de formação e reuniões promovidas pela assessoria.
As atividades de formação foram concebidas para valorizar o conhecimento das mulheres sobre o uso dos recursos naturais no manejo dos agroecossistemas, assegurando assim um ambiente pedagógico propício à efetiva participação. O processo serviu também para explicitar as contradições inerentes à tradicional divisão sexual do trabalho, na qual as atividades das mulheres são reconhecidas apenas no espaço privado, embora sejam determinantes na condução de cultivos e criações nos quintais e também em subsistemas de representação masculina, como as roças. De fato, as mulheres estão envolvidas nas diversas etapas de manejo do roçado, principalmente no encoivaramento, no cercamento, no plantio e na colheita, além de participarem do roço (derrubada da vegetação usando foice e facão) e da capina. Trabalham também na decota da mandioca (separando a raiz do caule) e na preparação da farinha. As mulheres são responsáveis ainda pelo cultivo de hortaliças em determinados espaços das roças reservados para isso.
Na época em que o trabalho nos roçados se intensifica – sobretudo na etapa de roço –, faz-se necessário adotar o regime de mutirão ou contratar mão-de-obra. Ao assumirem a tarefa de preparar a alimentação dos trabalhadores nesses períodos, as mulheres estão diretamente inseridas na gestão dos sistemas produtivos. Esse serviço, porém, não é reconhecido, já que somente o trabalho direto na roça é encarado como atividade produtiva porque é dele que se origina a principal fonte de renda monetária da família, a farinha.
AS MULHERES RECONSTRUINDO AGROECOSSISTEMAS SUSTENTÁVEIS
Os quintais são espaços produtivos cuja gestão está tradicionalmente sob o controle das mulheres. Além de proverem parcela importante da alimentação das famílias, são essenciais para a conservação da agrobiodiversidade. Embora também demonstrem potencial para produção destinada à comercialização, essa função vinha sendo pouco desenvolvida nas comunidades do assentamento. Os quintais proporcionam ainda outros benefícios importantes para as famílias, tais como sombreamento (abrigo de pessoas e animais nos momentos mais quentes do dia) e ampliação das áreas de lazer das crianças. Foi exatamente para assegurar e expandir essas múltiplas funções que as atividades com os quintais agroflorestais na comunidade de Patizal foram concebidas e executadas.
Iniciada por Lió, a experiência dos quintais foi sendo conduzida também por dona Lindomar e Ana Maria, propagando-se posteriormente por toda a comunidade. Os trabalhos foram se consolidando com a produção local de mudas de frutíferas, madeiráveis e adubadoras. As mulheres que participaram das atividades de formação assumiram uma dupla função: orientar outras pessoas sobre como implantar os sistemas e ao mesmo tempo fornecer mudas. Segundo algumas mulheres de Patizal:
“O SAF é um desenvolvimento alimentar. Seu organismo não precisa de um só tipo de alimento. Precisa de alimentação variada, verdura, fruta. É muito importante (…) primeiro garantir a alimentação de casa, depois comercializar”.
Entretanto, por ser reconhecida pela sua função de prover segurança alimentar, a produção nos quintais não era valo- rizada do ponto de vista econômico, embora seja desse espaço que a família assegura os produtos de necessidades imediatas, tais como frutas, verduras e animais de pequeno porte, presumivelmente comprados com a renda da farinha. Por isso, afirma Lió: na hora da necessidade nós vamos comer é do quintal.
As mudanças materiais e simbólicas continuam tendo baixa visibilidade, dado que os SAFs ainda não ganharam maturidade. A primeira experiência implantada há quatro anos teve muitas perdas de mudas transplantadas ou do plantio por semente. Entretanto, os resultados positivos aos poucos vão se consolidando. Com o recurso do Crédito Apoio, algumas famílias da comunidade compraram bomba e caixa d’água para instalar sistemas alternativos de irrigação que permitem que novas experiências com SAFs sejam iniciadas e que a diversificação dos sistemas com espécies menos rústicas seja assegurada.
Dessa forma, os quintais agroflorestais na comunidade de Patizal vão sendo organizados pela iniciativa das mulheres como espaços que exercem funções sociais, ambientais, culturais e econômicas. Como bem expressa Lió:
Eu me sinto bem em explicar e as pessoas estão fazendo. Eu fico alegre em ensinar as experiências. Quem aprende vai passando. A gente tem que pensar na família e nas outras gerações, no futuro dos filhos, dos netos.
Cidvânia Andrade de Oliveira
agrônoma, coordenadora do Programa Mulher e Agroecologia da Associação Agroecológica Tijupá
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Referências Bibliográficas
ROCHA, Ariadne Enes. Levantamento florístico do Projeto de Assentamento Rio Pirangi – Lagoa da Onça: a composição de espécies e o estado de conservação. São Luís: Associação Agroecológica Tijupá (Plano de Desenvolvimento do Assentamento Rio Pirangi – Lagoa da Onça), 2006.
WOORTMANN, Ellen; WOORTMANN, Klass. O trabalho da terra: a lógica e a simbólica da lavoura camponesa. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1997.
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Revista V6N4 – Quintais agroflorestais mulheres redesenham espaços de produção e reprodução no Maranhão