Boletim 557 – 01 de outubro de 2011

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,

LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS

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Número 557 – 30 de setembro de 2011

Car@s Amig@s,

Esta edição do boletim é dedicada ao Encontro Nacional de Diálogos e Convergências: agroecologia, saúde, justiça ambiental, soberania alimentar e economia solidária, realizado em Salvador entre os dias 26 e 29 de setembro.

O evento foi promovido pela Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSAN), Grupo de Trabalho de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Rede Alerta contra o Deserto Verde (RADV) e Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA).

300 pessoas de todas as regiões do país participaram de oficinas territoriais, oficinas temáticas e sessões em plenária onde se debateu os impactos do avanço do agronegócio e das grandes obras de infraestrutura associadas. As redes e fóruns participantes traçaram estratégias de convergência para a promoção de alternativas que vêm mostrando que há caminhos alternativos ao modelo atual de desenvolvimento.

Em um outro momento do encontro foi o lançado o livro Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida, cujo relato segue abaixo.


Campanha Contra os Agrotóxicos ganha mais um importante instrumento na luta pela informação

“O livro faz caminhar da indignação para a digna-ação. Não queremos ouvir de novo em 2012 que o Brasil é o campeão dos agrotóxicos. O livro tem o papel de contaminar as pessoas com o desejo de que isso não se repita.”

Foi lançado na última quarta-feira (28) o livro “Agrotóxicos no Brasil – um guia para ação em defesa da vida”, de Flavia Londres. O livro é uma iniciativa da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA).

Segundo a autora, percebeu-se uma demanda por um material que sistematizasse de maneira mais completa e profunda a questão dos agrotóxicos no Brasil. A ideia é também subsidiar a luta na ponta por quem está vivendo e lutando no dia a dia contra os agrotóxicos. “No momento em que vemos chuva de agrotóxicos, contaminação da água, dos próprios trabalhadores, precisamos de um instrumento para subsidiar a carência de informações: o que é permitido? Como faço uma denúncia? O que devo esperar das autoridades?”, diz Flavia.

Antes do lançamento foi promovido um ato com uma mística baseada na música composta pela Unidos da Lona Preta para o carnaval deste ano: “Comida ruim ninguém aguenta, é a Syngenta / É veneno em todo canto, é a Monsanto / Mata gente e mata rio, é a Cargill / Agronegócio a mentira do Brasil”. Na ocasião também foi lido o cordel contra os agrotóxicos.

A mesa de debate foi composta por figuras importantes na luta que está sendo travada contra os agrotóxicos. Segundo Fernando Carneiro, professor da UnB que mediou a mesa, o livro chega em um momento histórico: “Vivemos por muito tempo uma total ausência de materiais informando os riscos dos agrotóxicos. A informação sempre foi colocada pelo agronegócio. O livro chega como uma resposta da sociedade civil à falta de compromisso dos órgãos públicos em informar e fiscalizar os agrotóxicos.”

Fernando ainda disse que o livro deve servir como guia para líderes comunitários, professores, extensionistas rurais e todos que de alguma maneira lidam com a questão. “É um exemplo prático de diálogos e convergências, convergindo para a mudança do modelo de desenvolvimento.” E finalizou: “A saúde de uma população é um termômetro do modelo de desenvolvimento; se ela vai mal, modelo não está se sustentando. E isso o livro traduz muito bem”.

“Nós somos responsáveis pela autorização de agrotóxicos. Temos clareza de que queremos acabar com esse trabalho um dia.”, afirmou Luiz Cláudio Meirelles, coordenador de toxicologia da ANVISA. Ele agradeceu a homenagem dizendo que se está sentando nesta mesa, é porque o trabalho está indo na direção certa. Mas alertou que o seu papel não tem nada de especial, porque está na lei. “Atuamos evitando o lobby das empresas, ao contrário de muitas agências reguladoras que atendem aos interesses dos regulados, o que é um equívoco grave”. Ele e sua colega, Letícia Silva, que estava presente, vêm sofrendo diversos ataques da indústria dos agrotóxicos, por lutarem pela reavaliação e banimento de substâncias. Ele finalizou dizendo que pretende usar o livro como instrumento para as vigilâncias sanitárias regionais e municipais.

Pedro Serafim, do Ministério Público do Trabalho, exaltou o trabalho vindo da sociedade para cumprir uma lacuna do setor público na promoção do direito à informação. Ele ressaltou que muitas vezes falta aos próprios especialistas em direito o conhecimento sobre a questão dos agrotóxicos e afirmou que vai distribuir o livro para os coordenadores do Ministério Público.

A fala mais contundente da noite foi da professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Raquel Rigotto. Ela afirmou que a falta de informação viabiliza os abusos que ocorrem com os agrotóxicos: “O câncer, o agrotóxico no leite materno, na água da chuva, a malformação congênita, a contaminação dos rios, o aborto, Flavia mostra todos esses problemas. O livro levanta informações e caminhos na luta contra os agrotóxicos”.

A professora ressaltou o direito de saber. Segundo ela, nessa dimensão, o livro é promotor de justiça ambiental, trazendo informação útil, caminhos técnicos legais e de luta para superarmos o modelo baseado nos agrotóxicos. Para finalizar, Raquel Rigotto deu uma sugestão que já está ganhando coro: “Diante de um quadro nacional em que se discute como financiar o Sistema Único de Saúde, temos os agrotóxicos com isenção total de impostos: ICMS, IPI, PIS/PASEP e Cofins. Vamos suspender essa isenção e financiar a saúde pública, gratuita e de qualidade. Vamos disseminar o livro pra que ano que vem não tenhamos que ouvir que somos de novo os campeões dos agrotóxicos”, finalizou.

Não foi coincidência o livro sair num momento de auge da Campanha Contra os Agrotóxicos e pela Vida, afirmou Gabriel Sollero, militante do MAB e representante da coordenação nacional da Campanha Contra os Agrotóxicos. “Há um tempo temos construído o substrato para se formar a campanha, e hoje ganhamos mais um instrumento fundamental nessa luta, ao lado do documentário do Sílvio Tendler”. De acordo com Sollero, o livro toca em pautas fundamentais da campanha: propaganda, proibição de substâncias já proibidas em outros países, fiscalização pelo Ministério do Trabalho, isenção fiscal, e, sobretudo, a luta contra os agrotóxicos como uma luta unificadora no caminho para um outro modelo de desenvolvimento.

O militante afirmou ainda que em novembro a campanha deixa de ser nacional e fica ampliada para a América Latina. Ele forneceu um panorama da campanha, afirmando que estamos passando da fase de criação dos comitês locais para o momento de sua consolidação, ganhando maior organicidade em cima de quatro eixos: pautar a questão dos agrotóxicos junto à sociedade; promover uma agricultura sem agrotóxicos; trabalhar com profissionais de saúde e educação; e propor projetos de lei que combatam o uso dos venenos.

Animados pelo grito “Na luta em defesa da vida, por um Brasil sem Agrotóxicos”, os participantes saíram do lançamento com a certeza de que precisamos seguir firmes na luta pelo fim dos agrotóxicos, em favor de um modelo de desenvolvimento rural que não seja dominado pelas grandes empresas, e que seja voltado para a saúde do trabalhador e do consumidor na produção de alimentos saudáveis para todas e todos.

O livro está disponível gratuitamente na internet pelo site da AS-PTA: Agrotóxicos no Brasil

por Alan Tygel e Eduardo Sá – site do MST Rio.

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Neste número:

1. Populações denunciam que agrotóxicos e transgênicos adoecem pessoas e prejudicam cultivos tradicionais

2. Soberania, segurança alimentar e economia solidária

3. Resistência ao impacto de grandes empresas é comum a territórios do país

4. Invisibilidade midiática

5. CARTA DE SALVADOR

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1. Populações denunciam que agrotóxicos e transgênicos adoecem pessoas e prejudicam cultivos tradicionais

Relatos revelam conivência do poder público com a contaminação do meio ambiente e dos seres humanos pela utilização de venenos na agricultura.  Pesquisas em Mato Grosso mostram animais com diversas anomalias em locais com altos índices de utilização de agrotóxicos.

Em Lucas do Rio Verde, um trabalhador rural foi até o Instituto de Defesa Agropecuária do Estado do Mato Grosso (Indea-MT) reclamar que um avião sempre passava em cima de sua propriedade e os agrotóxicos que lançava sobre os extensos plantios de monoculturas da região também atingiam seus cultivos. O Indea, que é o órgão que deveria ter o controle sobre a utilização dos agrotóxicos na região, não tinha sequer um cadastro dos aviões que realizam a pulverização aérea. “Fotografe o número do avião quando ele passar”, recomendou umas dos funcionários do Instituto ao trabalhador rural. “Mas a minha ferramenta é a enxada e não a máquina fotográfica”, respondeu o agricultor. O episódio foi relatado pela bióloga Lindonésia Andrade, membro da Organização Rioverdense de Meio Ambiente (Oluma), que, junto com pesquisadores da região, denuncia constantemente os graves problemas de saúde decorrentes do uso de agrotóxicos. O relato de Lindonésia foi feito no Diálogo Temático “Agrotóxicos, Transgênicos, Saúde Ambiental, Justiça Ambiental e Agroecologia”, no terceiro dia de atividades do Encontro Nacional de Diálogos e Convergências. A bióloga apresentou fotos de animais com diversas anomalias, como um leitão com oito patas, que nasceu em propriedades vizinhas a cultivos que utilizam agrotóxicos, além de deformações diversas em anfíbios coletados em lagoas e rios do município.

“Lucas do Rio Verde tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas moramos num município doente, é um IDH para poucos”, declarou Lindonésia. A engenheira agrônoma Franciléia de Castro, da Fase, que também apresentou a situação do Mato Grosso destacou que até o final de 2011, serão utilizados 132 milhões de litros de agrotóxicos no estado.

Recentemente a imprensa nacional noticiou uma pesquisa que comprovava a contaminação do leite materno por agrotóxicos em Lucas do Rio Verde. De acordo com Lindonésia, após a grande repercussão dos resultados da pesquisa, o acesso aos dados de contaminação no município ficou mais difícil.

Além da realidade do Mato Grosso, outras três experiências foram apresentadas durante o diálogo temático – a da Chapada do Apodi, no Ceará, a da região do Contestado, no Paraná e Santa Catarina, e a do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), que tem atuação em diversas regiões do país. Márcia Xavier falou sobre o assassinato de seu pai, o trabalhador rural José Maria, uma das mais importantes lideranças da região da Chapada do Apodi na crítica ao uso de agrotóxicos pelas empresas de fruticultura que se instalaram no local. José Maria do Tomé foi assassinado em 21 de abril de 2010 e o crime permanece impune. Márcia relatou como as investigações têm sido dificultadas por supostas debilidades técnicas, como a falta de equipamentos para realizar a perícia nas balas coletadas pela própria família na ocasião do assassinato, apesar de vários indícios de que o crime teve motivações políticas.

De acordo com Márcia e com outros militantes e pesquisadores que também participaram da oficina, o único objeto de José que sumiu no momento do crime foi uma pasta na qual ele carregava inúmeros documentos e processos relativos ao combate à pulverização aérea na região. Um mês após a morte do agricultor, uma lei que impedia essa prática no município de Limoeiro do Norte foi revogada e novamente a população voltou a receber os agrotóxicos também vindos dos aviões. “Há uns cinco anos o pai tinha percebido que havia uma epidemia de coceira, aí um médico disse a ele que poderia ser algo que as pessoas tivessem acesso diariamente, então, depois, descobriram que a água que as pessoas consumiam estava contaminada”, descreveu Márcia. (…)

Mobilizações

Os movimentos sociais da Chapada do Apodi criaram o Movimento 21 para cobrar do poder público e alertar a população sobre os prejuízos causados pelas indústrias. O nome do movimento é uma lembrança ao dia do assassinato de José Maria. (…)

Na região do Contestado, nos estados do Paraná e Santa Catarina, os agricultores têm se organizado para evitar que seus cultivos sejam contaminados por sementes transgênicas. O técnico André Jantara, da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, relatou as experiências da região no resgate, avaliação e multiplicação de sementes crioulas, com a realização de feiras de sementes e encontros regionais de biodiversidade. Um grave problema, segundo André, é a quantidade de agrotóxicos utilizada na cultura do fumo, bastante comum na região. Os movimentos da região criaram o Coletivo Triunfo para promover ações de conscientização e questionamento público dos impactos dos agrotóxicos e transgênicos sobre a biodiversidade regional.

Eliane Mendes, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Palmeira, também na região do Contestado, contou que plantou fumo durante 20 anos, mas decidiu fazer uma reconversão agroecológica em sua propriedade. “No início tínhamos mata nativa, sempre plantávamos feijão, milho, mas com o passar do tempo, fomos perdendo a diversidade e aumentando o cultivo do fumo. O solo era fértil, não precisava de adubo nem de nada, não tínhamos muita despesa, mas depois fomos ficando dependentes de adubo, o solo foi ficando mais fraco e o cultivo de fumo tinha mais custo. E o que acontece é que para plantar o fumo, os consultores das empresas trazem o pacote completo, levam tudo em casa. Aí era mais fácil e mais cômodo, então fomos aumentando sempre mais o número de pés plantados e com o passar dos anos o investimento necessário passou a ser maior”, detalhou. De acordo com Eliane, foi participando de um seminário que ela percebeu a necessidade de modificar a forma de produzir. “Eu estava produzindo morte, pois o fumo está acabando com a vida das pessoas através do cigarro e do uso dos agrotóxicos. Então, tomei uma atitude, pensei que ao invés de produzir morte, eu iria produzir vida”, fala.

Foi também pensando na vida que as mulheres do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) decidiram colocar em prática a Campanha por alimentos saudáveis. As agricultoras Maria Mendes dos Santos e Izaquiani Feitosa apresentaram a campanha durante o diálogo temático. De acordo com as agriculturas, o MMC está tentando mapear os costumes de alimentação em cada região. “Assim, poderemos estar cada vez mais unidos, para mostrarmos essa potencialidade e diversidade de alimentação que temos em todo o país”, destacou Izaquiani.

O MMC quer chamar a atenção, por meio da campanha, para a grande potencialidade que a agricultura camponesa possui na produção de alimentos. Entre as metas da campanha está a garantia de recursos públicos e subsidiados para a produção ecológica dos alimentos, a potencialização das redes solidárias de trabalho e consumo e a ressignificação da cultura, dos valores e hábitos alimentares. “Cada vez mais o movimento vem afirmando que a luta política não existe sem a luta cotidiana e a luta cotidiana não existe sem a política”, concluem as mulheres do MMC.

por Alan Tygel, 28 de Setembro de 2011 – blog do Encontro.

2. Soberania, segurança alimentar e economia solidária

São diversas as práticas e experiências que têm alternativas para a comercialização de sua produção, inovando no desenvolvimento de estratégias de aproximação entre agricultores e consumidores, promovendo o acesso amplo a alimentação saudável e adequada de base agroecológica e com organização coletiva e autogestionária.

No terceiro dia do Encontro Nacional de Diálogos e Convergências, aconteceram sessões simultâneas, nas quais os grupos puderam debater sobre os temas do evento. No diálogo temático sobre Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e Economia Solidária o grupo de participantes das redes assistiu apresentações de experiências da Rede Xique-Xique de Comercialização Solidária, do Rio Grande do Norte, Rede Sementes da Paz, de São Paulo, Associação Agroflor, de Pernambuco, e a Associação Ecoterra, do Rio Grande do Sul.

As experiências mostraram como é desenvolvido o trabalho de produção e comercialização de alimentos. Cada uma, com suas peculiaridades, trabalha para fortalecer circuitos de produção local. No entanto, tais experiências demostram que há muitos desafios a serem enfrentados nesse processo, como é o caso da vigilância sanitária, que fechou o ponto de comercialização da Ecoterra.

Após as exposições foi feito um debate que sobre os temas levantados na primeira parte da atividade e foi elaborada uma síntese onde apareceram temas comuns que precisam ser aprofundados para o diálogo e convergência entre redes, como auto-organização, visibilidade, emancipação econômica das mulheres, legislação e inspeção sanitária, compras institucionais, canais, redes e circuitos de produção e comercialização e consumo consciente.

por Ana Lúcia Oliveira, 29 de Setembro de 2011 – blog do Encontro.

3. Resistência ao impacto de grandes empresas é comum a territórios do país

Nomes de empresas como Souza Cruz, Suzano Papel e Celulose, Aracruz-Fibria, Vale e Monsanto foram repetidos por povos que resistem ao atual modelo de desenvolvimento.

A programação do segundo dia do Encontro de Diálogos e Convergências foi dedicada ao debate sobre territórios de resistência. Paulo Petersen, da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), diz que estas experiências estão invisíveis para a maioria da sociedade. Para ele, reverter essa situação é um dos desafios de redes, organizações e movimentos sociais.

Petersen salientou que é nos territórios que se dá a luta. Nestes locais, a busca por agroecologia, soberania alimentar e saúde são uma só. Exemplo disso é o caso do norte de Minas Gerais. Por lá, 27 comunidades tradicionais, depois de anos de luta, recuperaram áreas arrendadas pelo estado a grandes empresas monocultoras de eucalipto.

Agora, a água e a vida do cerrado rebrotam a partir da agroecologia. As famílias têm recuperado as áreas degradadas e garantido a produção de alimentos saudáveis. Rita Conegundes, uma das agricultoras familiares, representou as comunidades do Norte de Minas Gerais no Encontro. Ritinha, como é mais conhecida, contou que o processo tem motivado a auto-demarcação de áreas por outros povos e comunidades. No momento, além do monocultivo do eucalipto, a mineração é outra ameaça na região.

O Planalto Serrano de Santa Catarina também apresentou sua experiência de resistência. Emília de Fátima Velho, uma das lideranças entre as agricultoras familiares, calcula que mais de 80% da área está tomada por eucaliptos. A devastação provocada pelo monocultivo afetou até o ciclo de alimentação de animais.

Já os representantes do Polo da Borborema, na Paraíba, explicaram que os princípios de resistência pela agroecologia são os mesmos que o agronegócio nega aos povos. Ou seja: valorizar os recursos naturais e resgatar o conhecimento das famílias agricultoras, postas como sujeitos de todos os processos de resistência.

Roselita Vito, diretora do Polo Sindical da Borborema, contou que entre os grandes desafios enfrentados hoje estão a questão da terra e o crescimento da produção de fumo. A fumicultura gera enorme dependência econômica dos agricultores em relação à empresa Souza Cruz, presente na região. Outro problema é o uso de agrotóxicos, que contamina a saúde e o meio ambiente dos trabalhadores.

Mais de 20 depoimentos apontaram os impactos causados por grandes empresas em diversos territórios brasileiros. Raquel Rigotto, da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, comentou sobre as injustiças cometidas e os processos de resistência. Escute os áudios gravados pela Pulsar Brasil.

Fonte: Cobertura Especial da Pulsar Brasil – blog do Encontro.

4. Invisibilidade midiática

Apontada por diversos participantes do Encontro Nacional de Diálogo e Convergências, ficou clara a necessidade de ampliar formas de divulgar as iniciativas locais e disseminar outros pensamentos por causa do bloqueio da mídia hegemônica. Para enfrentar esse desafio foi articulado um grupo de comunicadores populares para a cobertura do evento. Eles têm experiências locais de comunicação alternativa e vão multiplicar esse conteúdo em outros meios.

Quem explicou esse cenário foi Raquel Júnia, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio de Saúde (EPSJV-Fiocruz) e do jornal Fazendo Media, do Rio de Janeiro.  Segundo ela, a comunicação é entendida por duas perspectivas: do direito e da necessidade, que convergem em vários pontos. Para ela, a democratização dos meios dos meios de comunicação é fundamental nesse sentido.

“Mesmo estando na declaração universal dos Direitos Humanos e na constituição brasileira, a comunicação não é tratada como tal. A necessidade fica mais clara com essas falas e oficinas sobre a questão da visibilidade das lutas, dos conceitos de desenvolvimento, identidades culturais. Como nos mostramos para a sociedade se não temos os meios de comunicação?”, deixou a pergunta no ar.

Para ela, as redes e movimentos ainda caminham muito devagar nessa área, apesar de termos muitas histórias para contar. Ela observou ainda que as filas das intervenções eram de denúncias que precisam ser expostas para a sociedade. No último dia será realizada uma oficina para aprofundar esse debate e pensar formas de potencializar as alternativas nessa área. Ela concluiu com uma citação de Paulo Freire, educador brasileiro que via a educação como parte fundamental no processo pedagógico: “Dizer a palavra não é privilégio de poucos homens, mas direitos de todos os homens”. (…)

Por Eduardo Sá, do jornal Fazendo Media, 28 de Setembro de 2011 – Blog do Encontro.

5. CARTA DE SALVADOR

Somos 300 cidadãos e cidadãs brasileiras integrados à Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), à Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), à Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), ao Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), ao Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), à Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA), à Rede Alerta contra o Deserto Verde (RADV), à Marcha Mundial de Mulheres e à Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), em reunião na cidade de Salvador-BA, entre os dias 26 a 29 de setembro de 2011, durante o Encontro Nacional de Diálogos e Convergências entre Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental, Soberania Alimentar, Economia Solidária e Feminismo.

Nosso encontro resulta de um longo e fecundo processo de preparação motivado pela identificação e sistematização de casos emblemáticos que expressam as variadas formas de resistência das camadas populares em suas diferentes expressões socioculturais e sua capacidade de gerar propostas alternativas ao modelo de desenvolvimento hegemônico em nosso país. Vindos de todas as regiões do país, esses casos iluminaram nossos debates durante esses três dias e fundamentam a manifestação política que apresentamos nesta carta.

Ao alimentar esse padrão de desenvolvimento, o governo Dilma inviabiliza a justa prioridade que atribuiu ao combate à miséria em nosso país. Tendo como eixo estruturante o crescimento econômico pela via da exportação de commodities, esse padrão gera efeitos perversos que se alastram em cadeia sobre a nossa sociedade. No mundo rural, a expressão mais visível da implantação dessa lógica econômica é a expropriação das populações de seus meios e modos de vida, acentuando os níveis de degradação ambiental, da pobreza e da dependência desse importante segmento da sociedade a políticas sociais compensatórias. Esse modelo que se faz presente desde o início de nossa formação histórica ganhou forte impulso nas últimas décadas com o alinhamento dos seguidos governos aos projetos expansivos do capital internacional. Materialmente, ele se ancora na expansão do agronegócio e em grandes projetos de infraestrutura implantados para favorecer a extração e o escoamento de riquezas naturais para os mercados globais.

Os casos emblemáticos que subsidiaram nossos diálogos demonstram a essência violenta desse modelo que viola o “direito de ficar”, desterritorializando as populações, o que significa subtrair delas a terra de trabalho, o livre acesso aos recursos naturais, suas formas de organização econômica e suas identidades socioculturais. Os movimentos massivos de migração compulsória daí decorrentes estão na raiz de um padrão de distribuição demográfica insustentável e que cada vez mais converte as cidades em polos de concentração da pobreza, ao passo que o mundo rural vai se desenhando como um cenário de ocupação do capital e de seu projeto de uma agricultura sem agricultoras e agricultores.

A progressiva deterioração da saúde coletiva é o indicador mais significativo das contradições de um modelo que alça o Brasil a uma das principais economias mundiais ao mesmo tempo em que depende da manutenção e seguida expansão de políticas de combate à fome e à desnutrição. Constatamos também que esse modelo se estrutura e acentua as desigualdades de gênero, de geração, de raça e etnia. (…)

As experiências mobilizadas pelas redes aqui em diálogo denunciam as raízes perversas desse modelo ao mesmo tempo em que contestam radicalmente as falsas soluções à crise planetária que vêm sendo apregoadas pelos seus agentes promotores e principais beneficiários. Ao se constituírem como expressões locais de resistência, essas experiências apontam também caminhos para a construção de uma sociedade justa, democrática e sustentável. (…)

Nossos diálogos procuraram construir convergências em torno de temas que mobilizam as práticas de resistência e de afirmação de alternativas para a sociedade. (…)

Leia a íntegra da Carta no blog do Encontro.

Veja também a cobertura especial do Encontro Nacional de Diálogos e Convergências na Agência Pulsar Brasil.

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Campanha Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.

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Um comentário

  1. Postado 6 de outubro de 2011 às 14:48 | Permalink

    Parabenizo, esta iniciativa de comunicação e informação.

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