A primeira Feira Regional Agroecológica e Cultural das Juventudes Camponesas reuniu representantes de territórios paraibanos no diálogo campo-cidade
As juventudes de diferentes territórios paraibanos ocuparam a Praça da Bandeira, no centro de Campina Grande (PB), na sexta-feira do dia 18 de setembro, para afirmar a agroecologia, sem abrir mão dos diálogos entre culturas e democracia. Realizando a primeira Feira Regional Agroecológica e Cultural das Juventudes Camponesas, elas também demarcaram um novo passo na organização da Articulação Semiárido Paraibano (ASA Paraíba).
A jovem Adailma Ezequiel defende a ampliação da agenda das juventudes na Paraíba | Foto: Raíra Albuquerque
Mais que alimentos saudáveis, o encontro campo-cidade compartilhou saberes, sonhos e lutas das juventudes, organizadas em 15 barracas representando os territórios políticos do Agreste, Alto Sertão, Borborema, Coletivo Regional do Cariri e Seridó e Curimataú. Embora a experiência de realização de feiras já faça parte da trajetória da ASA Paraíba, esta foi a primeira iniciativa a reunir a rede de juventudes.
“É a nossa primeira Feira, e isso significa que, futuramente, queremos mais. Não queremos ficar apenas na primeira edição”, afirma Adailma Ezequiel, jovem agricultora experimentadora de Queimadas. Ela defende uma ampliação dos laços no estado no sentido da consolidação da Rede de Juventudes da ASA Paraíba.
A Feira foi organizada por cerca de 40 jovens, representando o protagonismo de uma rede mais ampla que, enquanto agricultores e agricultoras, defende direitos e iniciativas que garantam a permanência no campo. No diálogo com o público em geral, foram pautadas questões como políticas adequadas, soluções efetivas para o clima e o meio ambiente, alimentação saudável e combate ao negacionismo e desinformação.
Agroecologia e Democracia no centro do debate
Sob o lema “Agroecologia e Democracia”, a Feira também expressa as muitas relações em jogo para se garantir o protagonismo das juventudes. A defesa da agroecologia enquanto modo de vida, por exemplo, também é cobrada como uma discussão necessária nos rumos da nossa sociedade.
“A agroecologia é um modo de vida. Por isso, é importante fazer esse debate com a democracia”, afirma Adailma, ao relacionar a produção agroecológica à conservação da natureza e à alimentação saudável. “Hoje vivemos uma realidade de mudanças climáticas muito grave, e a prática da agroecologia contribui para a mitigação. Precisamos levar a voz, a organização e a prática das juventudes agroecológicas para dentro do debate político’, defende.
Além de um contexto global, a democracia aparece para as juventudes como condição para participar das decisões que afetam seus territórios. Para Edson Johnny, liderança sindical do território da Borborema, discutir democracia significa também discutir as condições concretas para que as juventudes possam permanecer no campo, estudar, produzir e construir seus próprios caminhos. “Queremos crescer, nos fortalecer e ter condições de viver no campo, produzir e estudar com qualidade, mas tudo isso dentro da nossa realidade”, explica.
Feira também como diálogos entre campo e cidade
A Feira também faz parte de campanhas que defendem o voto consciente para agricultura familiar, agroecologia e Convivência com o Semiárido | Foto: Raíra Albuquerque
Ao levar a produção dos territórios rurais para o centro de Campina Grande, a Feira também ajuda a refletir as constantes relações entre quem produz e quem consome. A experiência de Maria do Socorro, de Campina Grande, reflete essa questão na prática. Ela chegou à feira depois de dialogar com uma colega que estava no mesmo ônibus e aproveitou para tomar café da manhã.
“É diferente, né? O alimento é mais saboroso e as coisas são mais naturais que em outros lugares. Não têm aquela química, agrotóxicos e essas coisas que fazem mal. Ainda por cima é muito delicioso, muito bom”, conta a moradora de Campina Grande.
Maria do Socorro passou boa parte da vida em São Paulo e retornou à Paraíba há cerca de seis anos para cuidar da mãe. Foi também a partir do contato com as feiras que começou a conhecer mais de perto a agroecologia. Para ela, iniciativas como a realizada na Praça da Bandeira precisam acontecer com ainda mais frequência: “Aprendo cada vez mais, e deveria ter pelo menos duas vezes por semana”, sugere.
Na mesma linha, a colombiana Irmã Jéssica, defendeu a realização de feiras da agricultura familiar nos espaços urbanos. A religiosa faz parte da Congregação das Irmãs da Caridade Dominicanas da Apresentação da Santíssima Virgem, de Campina Grande. “As feiras são espaços de troca de experiências, para compartilhar formas de cuidar da criação e de acolher a ecologia. Se esquecemos as feiras, também esquecemos a nossa identidade”, afirma.
A potência da arte na luta agroecológica
Na programação da Feira, o grupo de teatro Sementes Solanenses também cumpriu o papel de defender os espaços das Feiras e ecoar as pautas das juventudes. O coletivo, formado por jovens de Solânea, se apresentou destacando a reflexão sobre a importância da agricultura familiar de base agroecológica diante de questões como segurança alimentar e mudanças climáticas.
Uma das integrantes do grupo, Tatiane Costa, jovem agricultora e técnica agropecuária, destaca a potência do teatro na acessibilidade de pautas urgentes e necessárias na nossa sociedade. “A gente trouxe esses temas para tentar prender um pouco mais a atenção e facilitar a compreensão. Entendemos que, às vezes, é delicado trabalhar essas questões, e na peça conseguimos fazer isso de uma forma bem lúdica”, explica.
Grupo de teatro fomentou a reflexão sobre os sistemas alimentares e suas consequências no planeta | Foto: Raíra Albuquerque
Suedson Magno, agricultor e engenheiro agrônomo e liderança jovem de Solânea, também participou da apresentação. Para ele, a cultura funciona como uma forma de comunicação construída pelas próprias juventudes. “Através do teatro, conseguimos transmitir conhecimentos sobre a importância de um plantio sem o uso de transgênicos, conservantes e agrotóxicos, além de falar sobre o fortalecimento da agroecologia, da agricultura familiar e da própria juventude”, afirma.
A arte teatral, segundo ele, também contribui para fortalecer os vínculos entre as juventudes e criar espaços de diálogo sobre temas que atravessam suas vidas. “É esse meio de agregar as pessoas e de se divertir, mas também de informar e tratar de temas tão importantes e delicados como democracia, agroecologia e mudanças climáticas”, explica.
Entre gerações, saberes e territórios
A Feira também colocou diferentes gerações em contato. Para Moisés Alves, professor, técnico agrícola, jornalista e pesquisador, encontrar as juventudes em um espaço como aquele significa renovar experiências e esperanças. “Nossos ancestrais e antepassados também plantaram sementes, deram suas vidas, sua juventude e parte do seu tempo para que pudéssemos estar aqui e dar oportunidade às pessoas que vêm depois”, afirma.
A transmissão de saberes também apareceu na fala da Irmã Jéssica, ao destacar a importância das feiras: “são espaços que as juventudes precisam acolher e não podem esquecer. Foi também dessa forma que nossas avós e nossas mães fizeram acontecer a sociedade: por meio das trocas, dessa mistura bonita de saberes”.
Ela destaca ainda a importância das juventudes assumirem esse legado e recriar espaços a partir de suas próprias experiências. “Fiquei muito contente quando vi o nome ‘juventudes’, porque acho que isso precisa passar de geração em geração”, ressalta a religiosa ao afirmar o plural nessa passagem entre gerações e seus territórios, identidades, trajetórias e formas de organização que se encontram em torno de pautas comuns.