Programação em Campina Grande reuniu agricultoras, agricultores e juventudes para afirmar a soberania alimentar, a diversidade dos territórios e o direito à alimentação saudável
As raízes da Comida de Verdade vão além da terra onde os alimentos agroecológicos são cultivados. Estão nos saberes preservados entre gerações, nos princípios de quem planta e colhe, na diversidade dos territórios e na organização das comunidades. Quando chega às praças das cidades, essa comida também carrega histórias, culturas e a afirmação política de que a alimentação saudável é um direito de todas as pessoas.
Foi nesse tom que a Praça da Bandeira, no centro de Campina Grande, recebeu, no dia 8 de outubro, a Feira Regional de Produtos Agroecológicos da Articulação Semiárido Paraibano (ASA Paraíba). Organizada pelo Grupo de Trabalho (GT) de Comercialização, a atividade integrou as mobilizações em torno do Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, com representações de territórios paraibanos, projeto de extensão universitária e juventudes camponesas.
A Feira foi realizada no centro de Campina Grande (PB) | Foto: Darcy Lima
O ato reforçou a importância de se avançar na garantia da alimentação saudável no planeta, sem abrir mão das mudanças necessárias para o processo. “Estamos aqui para anunciar que a Agroecologia é o caminho para a produção da Comida de Verdade. É o caminho para a produção dos alimentos que fazem bem à população e que respeitam os direitos da natureza”, Madalena Medeiros, coordenadora do Centro de Ação Cultural (Centrac), em uma fala pública.
Com 18 barracas e a participação de mais de 40 agricultores e agricultoras, a Feira apresentou uma amostra da produção agroecológica paraibana, com hortaliças, frutas, sementes crioulas, raízes, doces, geleias, pães, mel, queijos, artesanato e alimentos beneficiados. Além dos sabores, os saberes foram compartilhados em encontros e diálogos sobre os desafios da agricultura familiar, e no passo da apresentação de um trio de forró.
“As feiras são sempre um espaço de articulação política entre o campo e a cidade. São espaços de afirmação e de comunicação, para mostrar à sociedade que é possível produzir alimento em harmonia com um meio ambiente mais saudável e equilibrado, e com a proteção dos bens comuns e dos territórios”, explica Roselita Vitor, que representa a Articulação Semiárido (ASA Brasil), no Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
A Feira Regional de Produtos Agroecológicos foi representada por experiências da Borborema, do Folia, do Cariri Seridó, das Mulheres de Territórios Livres e da Rede de Juventudes. A atividade afirmou que a segurança e soberania alimentar se constrói por muitas mãos, em diferentes territórios e gerações, envolvendo campo e cidade.
Alimentar é um direito, produzir é uma luta
A ocupação dos espaços públicos para feiras agroecológicas carrega também uma dimensão política das próprias famílias agricultoras. Além da comercialização, agricultores e agricultoras compartilham conhecimentos e dialogam diretamente com a população sobre a origem dos alimentos.
A agricultora Conceição Figueiredo, do assentamento José Antônio Eufrosino, no Agreste Paraibano, destacou, por exemplo, um papel educativo das feiras. “É muito bom a gente ocupar os espaços, não só as praças, mas também as universidades e as escolas”, afirmou. Para ela, esses ambientes permitem valorizar o trabalho no campo e compartilhar conhecimentos sobre a produção de alimentos verdadeiramente sustentáveis.
Conceição também defendeu a continuidade das políticas públicas adequadas, a exemplo de assistência técnica e acesso à água. “O agricultor e a agricultora precisam ter essas políticas públicas no seu território, no seu espaço, porque sem política pública a gente não vive. Não tem como viver”, destacou.
Para Marlene Pereira, coordenadora da Ecoborborema, a Feira também representou um momento de reivindicação de direitos. “É um dia de mobilização, de reivindicação dos nossos direitos à alimentação saudável, aos que têm poder aquisitivo e aos que não têm, com preços acessíveis a todos”, afirmou.
A agricultora também chamou atenção para desafios enfrentados pelas famílias, como a necessidade de proteger os territórios dos impactos de grandes empreendimentos, a exemplo da contaminação por agrotóxicos.
Na prática, a defesa da Comida de Verdade também passa pelo fortalecimento dos circuitos curtos de comercialização, que aproximam quem produz de quem consome e permitem que as famílias agricultoras tenham maior autonomia sobre a venda de seus alimentos.
Já a agricultora Cristina Moreira da Silva, do município de Alagoa Nova, levou à Feira alimentos cultivados pela família, como banana, laranja e macaxeira. Ela e o esposo participam de feiras agroecológicas em diferentes municípios e comercializam parte da produção por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
A garantia da Comida de Verdade está diretamente relacionada aos princípios agroecológicos | Foto: Darcy Lima
Cristina explica que a família respeita o tempo natural das safras e não compra produtos de terceiros para revender. “Se não tiver banana, a gente não compra de fora. A gente traz a nossa banana”, contou.
Para ela, essa relação direta com os consumidores fortalece a confiança na origem dos alimentos. “A gente sabe o que está vendendo ao nosso cliente e sabe de onde está vindo.”
A agricultora também destaca a importância das feiras e das compras públicas para ampliar as possibilidades de comercialização. “Antes a gente vendia para terceiros. Hoje não. A gente vende diretamente nas feiras e pelo PAA”, relatou.
Saberes da terra, universidade e organização coletiva
A construção de alternativas para a produção e a comercialização agroecológica também passa pelo encontro entre os conhecimentos populares e científicos. Na Feira, essa relação esteve presente na participação do projeto de extensão Mulheres de Territórios Livres, vinculado à Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).
A iniciativa reúne mulheres agricultoras e produtoras que encontram na agroecologia, nos quintais produtivos e na comercialização direta caminhos para fortalecer sua autonomia econômica e organização coletiva.
Segundo Brisa Teçá, bolsista extensionista do projeto, a experiência surgiu a partir de um mapeamento realizado pela Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), que identificou mulheres com quintais produtivos e ouviu suas necessidades. Entre as principais demandas estava a criação de um espaço para comercializar alimentos, artesanato e outros produtos.
Atualmente, o grupo realiza uma feira mensal em Campina Grande e participa de atividades promovidas por organizações e movimentos sociais, como a ASA Paraíba. Além da comercialização, desenvolve ações educativas sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde e no meio ambiente, articulando conhecimentos populares e universitários.
“Eu vejo as feiras agroecológicas como pontos de revolução, né? Porque, no meio de tanta desinformação, a gente tá aqui propagando que é fácil se alimentar saudável, que ainda é acessível”, afirmou Brisa.
Para a extensionista, a aproximação entre quem planta e quem consome permite conhecer a origem dos alimentos e compartilhar conhecimentos sobre produção, saúde e práticas tradicionais de cuidado. A experiência também fortalece os vínculos de solidariedade entre as mulheres, que encontram no projeto oportunidades de formação, troca de experiências e apoio mútuo.
Outra experiência de organização coletiva apresentada na Feira foi a Bodega Agroecológica, do Cariri Seridó Paraibano. Representando um coletivo territorial, a agricultora Betânia Buriti, da comunidade Canoa de Dentro, em Pedra Lavrada, compartilhou a iniciativa, que conta com assessoria técnica do PATAC.
A Feita favoreceu o diálogo campo-cidade na defesa da Comida de Verdade | Foto: Darcy Lima
A Bodega reúne produtos cultivados pelas famílias agricultoras, que priorizam a alimentação da própria casa e comercializam os excedentes. Entre os alimentos estão hortaliças, feijão, milho livre de transgênicos, batata-doce, maracujá e fava.
A representação do coletivo contou com duas agricultoras e cinco jovens, que participaram não apenas da comercialização, mas também levaram produtos cultivados nos quintais e nas propriedades de suas famílias.
“Esses jovens não vieram apenas ficar à frente da Bodega, mas também trouxeram a produção que fazem no quintal de casa. São filhos de agricultores que, a partir do diálogo com seus pais, estão tendo um espaço de produção na propriedade da família”, explicou Betânia.
Para a agricultora, essa participação representa a continuidade da produção agroecológica entre gerações e demonstra a importância de garantir condições para que os jovens permaneçam produzindo em seus territórios.
Betânia também ressaltou que a defesa da alimentação saudável envolve o direito à terra, à água e às políticas públicas que possibilitam a produção familiar. “A gente não está aqui apenas para expor uma produção. Estamos aqui para expor e comercializar uma produção muito rica, fundamental para a soberania alimentar do nosso país”, afirmou.
Juventudes que cultivam o presente e semeiam o futuro
A presença das novas gerações também marcou a Feira Regional de Produtos Agroecológicos. A Rede de Juventudes da ASA Paraíba participou da atividade dando continuidade à mobilização da Feira Regional Agroecológica e Cultural das Juventudes Camponesas, realizada em 18 de setembro, em Campina Grande.
De acordo com Suedson Magno, jovem do município de Solânea, a experiência anterior contribuiu para ampliar a participação das juventudes nos espaços de comercialização da ASA Paraíba. “Depois desse sucesso, o GT de Comercialização da ASA abriu essas portas para a juventude, e isso é um movimento muito importante, muito interessante”, destacou.
Segundo Suedson, aproximadamente 15 a 20 jovens participaram da atividade, levando alimentos, artesanato, plantas ornamentais e outros produtos de suas comunidades. Ele próprio comercializou suculentas que cultiva e considera a experiência um estímulo para ampliar sua produção.
“Eu tô trazendo suculentas que eu produzo, mas isso é só o começo. Quando a gente tem a possibilidade de vender e produzir, a gente tem mais vontade de produzir mais”, contou.
O jovem também relacionou a abertura de espaços de comercialização ao fortalecimento da autonomia econômica e à criação de condições para a permanência das juventudes no campo.
Outra participante foi Jamile Santos, da comunidade Alto do Umbuzeiro, em Pedra Lavrada, recém-formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante da Rede de Juventudes da ASA.
Entre gerações, agricultores e agricultoras defenderam a Comida de Verdade | Foto: Darcy Lima
Para Jamile, a participação dos jovens nas feiras representa uma oportunidade de fortalecer a organização coletiva, defender a agroecologia e ampliar a presença das juventudes nos debates públicos. “É muito importante as juventudes estarem presentes nesses momentos, se mostrarem presentes, se mostrarem fortes, porque a gente é o presente e futuro”, afirmou.
A jovem também destacou a importância de aproximar os saberes científicos e populares e ancestrais das comunidades agricultoras. “A gente tem que valorizar, com toda a certeza, os saberes dos mais velhos, porque é a partir disso que a gente faz ciência, que a gente faz trabalho.”
Para ela, ocupar as praças e outros espaços públicos significa garantir que as próprias comunidades rurais tenham voz na defesa de seus direitos. “A gente deve ocupar esses espaços, principalmente porque a gente tem que ter voz, que se a gente não vier para cá, não vão ser os outros que vão vir”, ressaltou.