Com protagonismo das famílias agricultoras e camponesas, experiência coletiva transforma o cultivo após décadas de declínio
Rosilda Moura guarda na memória o tempo em que seu avô plantava batatinha, décadas atrás, no município de Montadas, no Agreste paraibano. Na época, ele enfrentava a falta de assessoria técnica, as dificuldades para armazenar as sementes e a dependência de fertilizantes industriais e agrotóxicos.
“Era muito difícil, porque o governo não ajudava, e o que chegava eram pacotes de veneno e adubos químicos. E assim a produção foi ficando cada vez mais decadente, até que acabou o plantio da batatinha”, recorda Rosilda, agricultora experimentadora do sítio Furnas.
Rosilda cuida de sua agrofloresta mantendo a memória do avô e inovando em práticas e saberes | Foto: Daniel Lamir
Esse não foi um caso isolado na região. Diante dos desafios, a atividade se tornou inviável para a agricultura familiar e camponesa, até praticamente desaparecer do território da Borborema.
Mas, o tempo passou e a história mudou. Rosilda nos conta uma reviravolta positiva hoje em dia. Ela não apenas retomou a antiga cultura como “tem orgulho de plantar a batatinha agroecológica” em sua propriedade.
E o encantamento dela faz parte de um sentimento coletivo. A agricultora integra uma experiência territorial que a cada ano ecoa uma transformação radical no sentido da autonomia camponesa, sustentabilidade ambiental e economia solidária.
Com organização comunitária, agora as sementes são multiplicadas e conservadas coletivamente, os adubos e biofertilizantes podem ser preparados nas próprias propriedades e os conhecimentos dos agricultores e agricultoras dialogam com as pesquisas desenvolvidas pela universidade.
São passos que extrapolam um olhar exclusivo para o domínio de técnicas agrícolas. Neste ano, 70 famílias produziram a batatinha agroecológica, rompendo com as antigas relações de dependência, e contando uma nova história de autonomia.
Da dependência à autonomia
Nas décadas de 1980 e 1990, a produção de batata na Borborema estava vinculada a um modelo agrícola baseado na oferta de crédito, sementes, fertilizantes e insumos químicos. A atividade também dependia de estruturas de armazenamento refrigerado, que nem sempre estavam ao alcance dos pequenos produtores.
O modelo entrou em declínio entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000. Com os elevados custos de produção e a concorrência com batatas comercializadas de outras regiões do país, a cultura perdeu espaço na agricultura familiar da Borborema.
A retomada começou a ganhar forma em 2016, quando experiências construídas a partir do diálogo com agricultores e agricultoras demonstraram a possibilidade de recuperar o cultivo sob os princípios da agroecologia. A iniciativa, articulada pelo Polo da Borborema e pela AS-PTA, passou a integrar a batata às estratégias de conservação de sementes e diversificação produtiva desenvolvidas pelas famílias.
Um dos principais obstáculos, entretanto, continuava sendo o armazenamento da batata-semente. Sem condições adequadas de conservação, as famílias tinham dificuldades para garantir a continuidade do plantio de um ano para outro.
A partir de 2021, a aquisição de um contêiner refrigerado, alimentado por energia solar, e de uma estufa para produção de batata-semente pelo método do broto deu novo impulso à experiência. A estrutura foi viabilizada por meio de um projeto apoiado pela Fundação Laudes.
A cada ano é feita a abertura e fechamento da câmara | Foto: Mayara Goes
Segundo Emanoel Dias Silva, da AS-PTA, que acompanha o trabalho, a experiência começou naquele momento com apenas três famílias. Em 2026, chegou a 70 famílias produtoras, demonstrando a ampliação de uma iniciativa sustentada pela organização coletiva.
Mas essa transformação não se resume ao número de agricultores e agricultoras envolvidas. O próprio funcionamento do sistema de sementes expressa uma lógica diferente daquela que predominava no passado.
As famílias recebem batatas-semente de um banco-mãe coletivo, realizam o plantio e, após a colheita, devolvem a quantidade recebida acrescida de 20%. Também podem reservar parte da produção para o próximo ciclo. Dessa forma, as sementes são multiplicadas e passam a constituir um patrimônio genético compartilhado entre as próprias famílias agricultoras.
Com essa organização, as famílias deixam a dependência da compra de sementes e insumos a cada safra apenas na memória. Ao contrário de antes, agora participam diretamente da reprodução, conservação e gestão desse material.
A organização também envolve decisões coletivas sobre o calendário agrícola, os períodos de armazenamento e a distribuição das sementes. Nessa metodologia, são realizados seminários antes e depois do plantio, que funcionam como espaços de formação, avaliação das experiências e planejamento dos ciclos seguintes.
Em um desses encontros, realizado antes do plantio de 2026, mais de 50 agricultores e agricultoras participaram de atividades sobre manejo agroecológico e preparação de insumos naturais. “Foi um dia muito produtivo, para reafirmar e consolidar cada vez mais o nosso trabalho com a batatinha agroecológica”, destacou Nelson Ferreira, agricultor e liderança sindical, durante a preparação para o plantio.
A produção do conhecimento com os territórios
Se a autonomia sobre as sementes representa uma das principais transformações da experiência, outra mudança acontece na maneira como os conhecimentos são produzidos e compartilhados.
Na Borborema, o manejo agroecológico da batata vem sendo construído a partir de uma relação entre as famílias agricultoras, organizações sociais, assessoria técnica e universidade. A parceria com a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), por meio do Núcleo de Extensão Rural Agroecológica (NERA), tem contribuído para o acompanhamento e adaptação das plantações e o desenvolvimento de propostas de manejo.
Para a professora Élida Barbosa Corrêa, as pesquisas desenvolvidas pela universidade partem de problemas concretos vivenciados pelas famílias agricultoras. A partir dessas demandas, estudantes de graduação e pós-graduação participam de atividades de pesquisa e extensão voltadas à melhoria das condições de produção.
Mas a relação não acontece em uma única direção. Os conhecimentos dos agricultores e agricultoras também fazem parte da avaliação e aperfeiçoamento das práticas desenvolvidas pela universidade.
“O conhecimento das agricultoras e agricultores orienta as nossas pesquisas quanto à aplicabilidade das práticas que desenvolvemos e também quanto ao refinamento das práticas”, explica a professora.
Os seminários ajudam nas trocas de conhecimentos e organização prática com agricultores e agricultoras | Foto: Mayara Gois
Esse diálogo permite que o conhecimento científico seja confrontado com as condições reais de cultivo, levando em consideração os recursos disponíveis nas propriedades, as experiências anteriores e as observações feitas pelas próprias famílias.
A perspectiva também é defendida por Hélder Sampaio, da Empresa Paraibana de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária (Empaer), que passou a contribuir com a ação coletiva. Ele questiona um modelo convencional de assistência técnica que chega “de cima para baixo” no serviço público.
“Se a gente partir do zero, isso significa que o agricultor não sabe de nada e quem sabe são os técnicos. Mas, na verdade, não é isso”, afirma.
Para Hélder, o trabalho técnico deve partir dos conhecimentos da tradição de cultivo das famílias. A partir disso, há uma contribuição para aperfeiçoar as práticas de manejo e superar métodos associados ao antigo modelo produtivo que limitava a cultura na região. Na prática, essa construção tem envolvido oficinas de preparação de caldas, extratos vegetais e biofertilizantes, além do acompanhamento das condições do solo e da identificação de problemas fitossanitários.
Em 2026, a UEPB e a AS-PTA realizaram oficinas sobre o uso dessas alternativas nos municípios produtores de batata do Território da Borborema. Entre as práticas trabalhadas estão a preparação de calda bordalesa, extratos vegetais e outros insumos utilizados no manejo agroecológico.
Rosilda destaca a possibilidade de produzir os próprios insumos. “Em vez de utilizar adubos químicos e venenos, a gente faz o próprio adubo para preparar a terra. São adubos naturais. Também fazemos o biofertilizante, que cada agricultor prepara na sua propriedade para aplicar nas batatas”.
Os resultados dessa parceria vêm sendo observados na redução dos danos provocados por organismos vivos e doenças, na melhoria da qualidade das batatas e no aperfeiçoamento das práticas de cultivo, segundo a professora Élida.
Outro campo de investigação envolve a conservação da qualidade das sementes ao longo das gerações de plantio. De acordo com Emanoel, algumas famílias já trabalham com a quinta geração de um mesmo material, sem observar a perda de qualidade que poderia ser esperada em sistemas convencionais.
Uma colheita que vai além da produção
No município de Montadas, a jovem agricultora Valéria dos Santos comemora o plantio de 2026. Com quatro caixas de batata-semente, ela conseguiu colher quase mil quilos de batata agroecológica. O resultado foi alcançado, apesar da questão climática.
“A gente teve uma boa produção de batata, mesmo enfrentando um pouco de estiagem durante a fase de crescimento”, conta Valéria, ao destacar quantidade e qualidade da produção. Segundo ela, houve baixa incidência de perdas em comparação com anos anteriores.
Entre as experiências de manejo estão o uso de biofertilizantes, a aplicação de calda bordalesa e a utilização de ácaros predadores para o manejo biológico do ácaro branco, prática acompanhada em parceria com a universidade.
Registro de abertura da câmara | Foto: Mayara Goes
A produção também vem encontrando diferentes caminhos de comercialização. As batatas chegam aos consumidores por meio da venda direta, das feiras agroecológicas, de quitandas e de pequenos mercados locais. Valéria destaca ainda a importância de políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que contribuem para ampliar as possibilidades de comercialização da agricultura familiar no território.
Esses resultados refletem que a retomada da batata agroecológica não se limita à recuperação de uma atividade produtiva. A experiência também envolve geração de renda, alimentação saudável, fortalecimento dos mercados locais e maior capacidade de decisão das famílias sobre o próprio trabalho.
No conjunto do território, aproximadamente seis toneladas de batata-semente foram distribuídas no início do ciclo de 2026. Ao final da safra, nove toneladas estavam armazenadas para garantir a continuidade do cultivo no ano seguinte.