Lançamento estadual da 8ª Marcha das Margaridas reúne cerca de 800 pessoas na terra natal da liderança sindical e afirma memória em mobilização política
Dona Teresinha guarda uma memória afetiva com Margarida Alves enquanto liderança e vizinha | Foto: Daniel Lamir-AS-PTA
Da varanda da casa de número 471, na mesma rua onde viveu Margarida Maria Alves, Teresinha Maria da Conceição acompanhou, emocionada, a passagem de centenas de mulheres pelas ruas de Alagoa Grande, na Paraíba, na manhã de 3 de setembro. Aos poucos, o local foi ocupado com faixas, cartazes, palavras de ordem e expressões culturais para afirmar a memória da antiga vizinha.
Do local, Teresinha viu passar diante dos seus olhos uma história que conhece de perto. Ela não conseguiu se juntar à caminhada por estar se recuperando de uma virose, mas estava na mesma sintonia da mobilização popular. “Eu fico ansiosa, com vontade de chorar. Porque eu me lembro como se fosse hoje”, conta.
A lembrança remete a 12 de agosto de 1983, quando Margarida Maria Alves foi assassinada na porta de casa, na Rua Olinda, no número 624. Quarenta e três anos depois, o local voltou a ser ocupado, mas cada vez mais com um ar diferente. A memória de Teresinha vai da tensão na data do crime ao sentido de semente que floresce um legado histórico.
Na atuação direta, Margarida Maria Alves apoiou a família de Teresinha em direitos trabalhistas. “Não só a mim, nem só ao meu pai, ela ajudou todo mundo que precisava. Era uma pessoa ótima, não maltratava ninguém e trabalhou pelos pobres”, recorda Teresinha, enquanto cerca de 800 pessoas passam em frente à sua casa, lembrando seu legado. “Todo mundo gosta dela. Se o povo não gostasse dela, ninguém fazia isso”, destaca.
A caminhada em questão faz parte da programação do lançamento estadual da 8ª Marcha das Margaridas na Paraíba. De Alagoa Grande, o estado paraibano se organiza para a mobilização nacional, prevista para agosto de 2027, em Brasília, reunindo mulheres de todo o país. Realizada a cada quatro anos, a Marcha junta mulheres do campo, da floresta e das águas, para reivindicar direitos, políticas públicas, igualdade e melhores condições de vida e trabalho.
“Margarida não morreu. Margarida é semente e está florindo em todo o nosso país”, afirmou Marleide Fernandes, secretária de Políticas Sociais da Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado da Paraíba (FETAG-PB), durante o ato de lançamento na Paraíba.
Uma semente que continua a florescer
A programação em Alagoa Grande começou às 8h, com uma vigília em frente à casa onde Margarida viveu. De lá, as participantes seguiram em caminhada até o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde ocorreu oficialmente o lançamento estadual da Marcha.
A atividade reuniu mulheres de diferentes municípios e territórios da Paraíba, além de organizações sindicais e movimentos sociais. A construção envolve a Fetag-PB, o Polo da Borborema, a AS-PTA, o GT de Mulheres, sindicatos de trabalhadores rurais e organizações parceiras.
Entre falas públicas e símbolos em Alagoa Grande, a imagem de semente repercutiu diversas vezes durante o lançamento da Marcha. O gesto representa um sentido de história viva, com referência para as lutas atuais das mulheres do campo e da cidade.
“Quem luta não vai embora. São quarenta e três anos em que Margarida vive entre nós. Seus ideais, sua luta, seus sonhos permeiam ainda em meio às mulheres e à classe trabalhadora”, afirma Dilei Schiochet, da coordenação estadual do MST na Paraíba.
Para Marleide Fernandes, a mobilização que começa em Alagoa Grande não se resume à preparação de uma viagem para Brasília. É parte de um processo permanente de organização das mulheres. “Não estamos aqui simplesmente para caminhar. Estamos aqui para defender um direito, uma luta que começou e pela qual Margarida perdeu a sua vida”, destacou.
Participantes caminharam da Casa museu Margarida Alves ao Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande | Foto: Arnaldo Sette-Marco Zero
Até a Marcha em Brasília, prevista para agosto de 2027, a proposta é fortalecer as organizações de base, construir pautas e ampliar a participação de mulheres de diferentes territórios e segmentos sociais.
A amiga que compartilha lembranças
Para quem conviveu diretamente com Margarida, a lembrança vem acompanhada de histórias sobre sua atuação e sobre as transformações provocadas pela organização das mulheres. Maria Soledade Leite, violeira, cordelista e amiga de Margarida, voltou às lembranças de 1975, quando retornou a Alagoa Grande e passou a atuar ao lado da sindicalista e de outras companheiras.
“Foi Margarida quem nos ensinou a caminhar. Foi Margarida quem ensinou as mulheres a aprenderem a dizer sim e não. Foi Margarida quem nos ensinou a levantar a cabeça”, afirma em fala pública, após a caminhada, em frente ao Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande.
Soledade lembra da criação do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais e da organização das mulheres contra o machismo, a violência e a opressão no campo. “Foi com luta que nós aprendemos”, resume.
A amiga de Margarida também relaciona as conquistas dos trabalhadores à luta construída naquele período. Para ela, direitos trabalhistas, aposentadoria e melhores condições de trabalho não podem ser separados da mobilização das trabalhadoras e trabalhadores rurais.
O filho que carrega a memória
Entre as pessoas que participaram do lançamento estava José de Arimateia, filho único de Margarida. Para ele, retornar à cidade natal da mãe é uma experiência marcada por sentimentos contraditórios. “É com muita alegria que eu retorno à minha terra. É muita emoção”, afirmou.
Antes de participar do ato, Arimateia esteve no Museu Margarida Maria Alves. Diante da fotografia da mãe, recordou momentos da infância e falou sobre o trauma provocado pelo assassinato. Ele deixou Alagoa Grande ainda jovem. Décadas depois, afirma que ainda carrega na memória a imagem da mãe assassinada. “Eu visualizo o rosto da minha mãe ensanguentado. E não tenho condições de ficar lá”, relatou.
O filho também falou sobre uma pergunta que carregou durante a infância: se a mãe teria se dedicado mais aos trabalhadores do que a ele. “Eu falava isso na minha ignorância, como criança, perturbado e traumatizado. Mas hoje eu vejo que ela veio para realizar uma missão”, afirmou.
Ao olhar para as transformações ocorridas no campo paraibano, Arimateia diz encontrar uma resposta para o sacrifício da mãe. “Quando eu olho para a Usina Tanques e vejo aquela usina hoje, com tantos assentados, eu me alegro. Porque vejo e tenho certeza de que valeu a pena ela morrer pelos trabalhadores rurais, do campo e da cidade.”
Ao final, resumiu a continuidade dessa história em uma imagem que atravessou o ato: “Do sangue de Margarida surgiram muitas outras Margaridas”.
Uma marcha que começa antes de Brasília
O ato articula redes e movimentos para a Marcha em Brasília | Foto: Arnaldo Sette-Marco Zero
A Marcha das Margaridas é construída como um processo que começa muito antes da caminhada em Brasília. Na Paraíba, a mobilização pretende reunir mulheres do campo e da cidade, organizações sindicais, movimentos de mulheres e diferentes segmentos sociais em torno de uma plataforma política comum.
Entre as pautas estão o enfrentamento à violência contra as mulheres, a política de cuidados, os direitos das trabalhadoras rurais, a agroecologia, a autonomia econômica e os quintais produtivos.
A 8ª Marcha das Margaridas também representa a continuidade de uma mobilização nacional que transforma reivindicações construídas nas comunidades, sindicatos e movimentos em propostas apresentadas ao poder público.
“É lá onde nós, mulheres do campo, da floresta e das águas, temos levado as nossas pautas, construídas nas nossas bases, nos nossos sindicatos e nos nossos estados”, explicou Maria Anunciada Flor, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Queimadas.
Segundo ela, a mobilização também está relacionada à luta pela vida das mulheres e por uma agricultura familiar saudável. “Queremos uma agricultura familiar saudável, onde as mulheres possam produzir nos seus espaços produtivos”, afirmou.
Da agroecologia às torres eólicas
A mobilização também incorpora conflitos atuais vivenciados pelas mulheres do campo paraibano. Durante o ato, Maria Anunciada Flôr fez um pedido ao governador Lucas Ribeiro, do PP-PB, pela sanção do Projeto de Lei (PL) 2061/2024, aprovado pela Assembleia Legislativa da Paraíba, que, segundo a dirigente, trata do distanciamento de torres eólicas das residências e dos quintais produtivos.
“Precisamos, governador, que você tenha um olhar especial para esse público, para as mulheres da agricultura familiar que produzem alimento saudável, que colocam esses alimentos nas feiras e que alimentam suas famílias”, afirmou.