Primeiro módulo da formação aproximou estudantes de Remígio de práticas agroecológicas, experiências de agricultores e agricultoras e da história das lutas camponesas
Entre histórias de luta camponesa, práticas agroecológicas e debates sobre desafios das juventudes, 26 jovens do município de Remígio, na Paraíba, participaram do primeiro módulo da Escola Camponesa de Formação, entre 27 e 30 de agosto. A iniciativa é protagonizada por estudantes vinculados à Comissão de Jovens do Polo da Borborema, em parceria com a AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia, com apoio de Terre des hommes e do ECOFORTE, em parceria com a Fundação Banco do Brasil (FBB) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Ao longo de três dias de atividades em Campina Grande (PB), o encontro relacionou conhecimentos científicos, saberes camponeses e experiências concretas de seus próprios territórios. O percurso incluiu conceitos de agroecologia e agricultura resiliente, construção de mapas dos agroecossistemas, além de uma visita de campo, atividades sobre lutas camponesas e práticas de manejo ecológico.
A formação também propõe discutir mercados territoriais, acesso a políticas públicas, cooperativismo, segurança alimentar e os impactos do sistema agroalimentar global. A ideia é compreender a agricultura familiar não apenas como atividade produtiva, mas como parte de um modo de vida e de relações econômicas, sociais, culturais e ambientais.
A proposta parte da educação do campo em uma perspectiva agroecológica e busca fortalecer as juventudes, a agricultura familiar e os territórios diante dos desafios sociais, econômicos e ambientais contemporâneos.
Aprender com a terra
Para as juventudes participantes, a formação ganha sentido especialmente quando o conhecimento extrapola as salas de aula e se encontra experiências concretas. “Eu gosto muito de trabalhar no campo, gosto muito da agricultura”, conta Vitor, jovem participante da Escola Camponesa. Para ele, a experiência combinou aprendizado e convivência com os colegas. Um dos momentos que mais chamou sua atenção foi justamente a atividade prática realizada durante a visita de campo. “Tinha muitas coisas que eu ainda não sabia. Gostei muito daquela parte, aprendi bastante e, futuramente, posso fazer isso lá no sítio”, afirma.
A possibilidade de conhecer outras experiências também aparece como elemento central da formação. Vitor cita a visita de intercâmbio na propriedade da agricultora experimentadora Rosilda Lima, de Montadas (PB), como uma referência para os jovens. “Dá muita motivação. Dá para ver que Rosilda é uma mulher muito inspiradora”, afirma. Para ele, a trajetória da agricultora mostra que é possível transformar o território a partir do conhecimento, da experimentação e da agricultura familiar.
Uma nova geração no campo
A relação entre juventudes, memória e continuidade da agricultura aparece ainda mais forte na história de José Alexandre, de 17 anos. Estudante da Escola Dr. Cunha Lima, ele se apresenta como filho e neto de agricultores agroecológicos. “Estou aqui para continuar o legado deles”, resume.
Participantes trocaram conhecimentos de práticas agroecológicas | Foto: Raíra Albuquerque
José Alexandre conta que o primeiro dia de campo ampliou seus conhecimentos e despertou o interesse por novas formas de trabalhar na agricultura. Para os próximos encontros, espera encontrar mais ferramentas para enfrentar as dificuldades cotidianas de quem produz de forma agroecológica. “Todo mundo sabe que temos dificuldades. Para a gente que planta de forma agroecológica, não é fácil trabalhar”, afirma.
A história familiar, nesse processo, é a memória que acende o futuro. José Alexandre cita o avô, que considera um dos pioneiros do algodão agroecológico em Remígio, como uma de suas principais inspirações. “A cada ano as coisas vão inovando mais, e a gente precisa se adaptar”, diz.
Ele também identifica um desafio que atravessa a formação: reunir novamente a juventude em torno da agricultura. “A gente pensa em ter uma comunidade maior, pensando no futuro da agricultura, principalmente da agricultura familiar”, afirma.
Para ele, a Escola Camponesa pode amplificar o imaginário de que o futuro das juventudes está necessariamente distante do campo. “A Escola Camponesa vem nos mostrando as oportunidades de cada vez mais a ficar no campo, a ser juventude forte e continuar seguindo esse legado que nossos antepassados deixaram”, analisa.
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O solo também conta histórias
A visita à propriedade de Rosilda colocou diante das juventudes uma experiência concreta de transformação do território. Quando chegou à propriedade, em 2004, ela encontrou uma área bastante degradada. Havia apenas uma pequena casa e cinco cajueiros. Com o passar dos anos, a partir de conhecimentos adquiridos principalmente em intercâmbios, começou a plantar árvores e diversificar a produção. Hoje, o espaço reúne frutíferas, café, macaxeira, abacaxi, árvores e uma pequena mata, formando uma microagrofloresta.
“A gente vai descobrindo, vai acendendo o desejo de multiplicar e fazer com que a agricultura permaneça, cada vez melhor e sem veneno”, relata.
A agricultora Rosilda Lima compartilhou saberes com as juventudes | Foto: Daniel Lamir
No intercâmbio, uma das atividades comparou o solo protegido pela vegetação com o solo de uma área descoberta. Para Rosilda, a diferença mostrou, de forma concreta, a importância de proteger a terra. “O solo precisa ser protegido”, resume.
A própria trajetória da agricultora também se tornou parte do aprendizado. Os intercâmbios, segundo Rosilda, foram fundamentais para ampliar sua autonomia e transformar sua maneira de produzir. Depois de começar a participar de reuniões do sindicato, atividades da AS-PTA e visitas de intercâmbio, passou a experimentar novas práticas e a diversificar o espaço. “Foi quando comecei a ser eu, a ser filha de agricultor e a dar continuidade àquilo que meus pais e meus avós já trabalhavam”, afirma.
Sua mensagem às juventudes sintetiza uma das ideias centrais da Escola Camponesa: conhecimento e permanência na terra caminham juntos. “Estudem muito para serem futuros agricultores sábios e inteligentes. Estudem, acima de tudo, mas nunca deixem de pisar na terra e de manter a agricultura”, aconselha.
A memória como território de luta
A formação também levou os jovens a olhar para o passado. No módulo dedicado às lutas camponesas, a história de Margarida Maria Alves apareceu como referência para pensar direitos, resistência e a participação das mulheres na luta pela terra e por melhores condições de vida.
Para Naiara, jovem participante da Escola, conhecer mais profundamente a trajetória de Margarida foi um dos momentos mais marcantes do encontro. “A semente de Margarida é muito importante, porque ela deixou um legado muito forte de luta”, afirma.
A jovem relaciona essa memória às lutas atuais das mulheres agricultoras. Ela chama atenção para os preconceitos que ainda existem contra mulheres que trabalham na agricultura e defende que a trajetória de Margarida continue inspirando novas gerações. “Todos nós podemos lutar pelos nossos direitos, pela agroecologia e contra a violência contra as mulheres”, afirma.
Para Naiara, Margarida representa, sobretudo, resistência. “Para nós, mulheres agricultoras, Margarida representa resistência e mostra que podemos lutar pelos nossos direitos.”
Conhecer o passado para imaginar o futuro
A discussão sobre as lutas camponesas também foi atravessada por outras memórias do território. Relatos sobre a antiga Usina Santa Maria, em Areia, e sobre as condições vividas por trabalhadores rurais ajudaram a provocar uma reflexão sobre as relações de poder no campo.
Roselita Vitor juntou memórias e presente com as juventudes | Foto: Mayara Goes
A partir de uma mediação com as juventudes, a agricultora Roselita Vitor recuperou a experiência de seu pai, que, segundo seu relato, viajava semanalmente para trabalhar na usina. A narrativa chamou atenção para uma dimensão da história regional que, segundo a agricultora, pode desaparecer quando o desenvolvimento econômico é contado sem considerar as condições de vida e trabalho de quem produzia a riqueza. “Poucas pessoas falam da escravidão da mão de obra dessas pessoas”, afirma Roselita.
A lembrança das relações de exploração, da concentração de poder e da ausência de direitos ajuda a conectar passado e presente. Essa perspectiva dialoga com a própria concepção da Escola Camponesa. A iniciativa parte da educação do campo no enfrentamento das desigualdades historicamente associadas aos contextos dos territórios, afirmar a diversidade das juventudes e ampliar as possibilidades de permanência no campo.
“Juventude e agroecologia, a luta é todo dia”
Durante o encontro, duas palavras de ordem foram repetidas pelos participantes: “Juventude que ousa lutar, constrói o poder popular” e “Juventude e agroecologia, a luta é todo dia”. São palavras que atravessam gerações. E, no contexto da Escola Camponesa, ganham novos significados: falam de produção de alimentos saudáveis, cuidado com a terra, autonomia, organização coletiva, memória, direitos e futuro.
Esse sentido político-metodológico das juventudes do Polo acende a agenda de continuidade da Escola Camponesa de formação nos próximos meses. Outros dois módulos ainda serão realizados, alternando o tempo de formação e de experimentação em campo durante o processo.